18 de abril de 2011

Semana Santa



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Dois sermões de Páscoa

Se eu fosse um apostador, apostaria um bom dinheiro em duas mensagens que certamente serão ouvidas nesta Páscoa (e em todas as outras).*

O pregador da primeira mensagem é o pastor Frank Evangelista. Ele acredita piamente na ressurreição corpórea de Jesus, no sepulcro vazio, em anjos e em tudo o que é sobrenatural. Todos os anos, durante a Páscoa, ele denuncia os liberais perversos, principalmente o reverendo Linguassolta, por sua má vontade em reconhecer que a Bíblia é verdadeira, que Deus realmente faz milagres, e que — como demonstram esses dois pontos — Jesus realmente ressuscitou. O pastor Evangelista costuma usar alguns truques para provar que testemunhas oculares podem contar histórias estranhas e ainda estar falando a verdade: observe-o aniquilar um narciso no púlpito. Ele talvez cite um hino antigo que diz: “Tu me perguntas como eu sei que ele vive? Ele vive em meu coração!”. Sim, Jesus ressuscitou dentre os mortos e, portanto, está vivo, e nós podemos conhecê-lo.

Quando chegamos ao “e então?”, o pastor é igualmente enfático. Realmente há vida após a morte! Jesus foi preparar um lugar para nós no céu! A salvação nos aguarda em um glorioso mundo de delícias, distante deste mundo em que vivemos. Somos, afinal, “cidadãos do céu”, como diz Paulo, de modo que, quando nossa vida nesse mundo cruel chegar ao fim, nossas almas serão arrebatadas para estar ali para sempre. Estaremos junto de nossos queridos (não seria bom ouvir algo diferente, em vez desse velho clichê?) e viveremos na nova Jerusalém. “Só mais um pouco, e eu chegarei ao céu, ó Cordeiro de Deus.” “Então depositaremos nossas coroas diante de ti, e nos prostraremos em adoração e louvor.”
Infelizmente o pastor Evangelista confunde um pouco as coisas. Muito do que ele diz é verdade, mas boa parte não corresponde ao que as histórias da Páscoa desejam comunicar.
Longe dali, animado pelo champanhe na reitoria após a vigília da Páscoa (por que não quebrar o jejum da Quaresma com estilo, mesmo que seu jejum tenha sido esporádico?), o pastor Linguassolta está a pleno vapor. Evidentemente, sabemos que o aspecto rudimentar e exterior da história da Páscoa não é o que os autores tinham em mente. A ciência moderna tem demonstrado que milagres não acontecem, e mortos não ressuscitam. Seja como for, que tipo de Deus interromperia o curso da história apenas uma vez, para resgatar uma única pessoa, e não faria nada para impedir o Holocausto? Crer em algo tão óbvio, tão evidente, tão pouco espiritual, como o sepulcro vazio e a ressurreição corpórea, é ofensivo a qualquer pessoa com uma percepção mais apurada. Particularmente, isso pode indicar (como seu bom amigo, pastor Evangelista, sem dúvida imaginaria, graças ao seu fundamentalismo) a superioridade do cristianismo sobre todas as outras crenças, considerando que sabemos que Deus é radicalmente inclusivo e que todas as religiões, todas as crenças, todas as visões de mundo, podem ser caminhos que levam a Deus.

Assim... tudo indica que as histórias sobre o sepulcro vazio surgiram muito tempo depois. O erudito pastor quer deixar muito claro que essas histórias são a re-mitificação do drama escatológico primário, que pegou os discípulos em um momento de empatia sociomórfica, e possivelmente sociopática, culminando com o anúncio apocalíptico da visão beatífica. Bem, parece que a congregação não está conseguindo entender direito o que ele está dizendo... Mas, como eles também haviam encerrado o jejum da Quaresma com estilo...

Em se tratando do “por quê?”, o reverendo Linguassolta é enfático. Agora que nos livramos de todo esse absurdo sobrenatural, o caminho está livre para a “verdadeira ressurreição”. Essa acaba sendo uma maneira nova de explicar o projeto humano, de romper velhos tabus (ele tem em mente a ética sexual tradicional, mas esse é um assunto muito delicado para o momento), e de descobrir um novo estilo de vida: uma abordagem mais acolhedora, mais “inclusiva”. A “pedra” do legalismo foi retirada e o “corpo ressuscitado”, a verdadeira centelha da vida e de identidade escondida dentro de cada um de nós, pode finalmente sair. Essa nova vida deve agora atingir todos os nossos relacionamentos. Todas as nossas políticas sociais.
A ressurreição não mais deve ser vista como um evento único, imaginado por mentes pré-modernas e sustentado com insistência por conservadores retrógrados, mas como um evento contínuo, capaz de promover a libertação dos seres humanos e do mundo.
O pastor Linguassolta parece, por fim, ter encontrado algo, mas não sabe bem o que é, nem se serve para alguma coisa.

O que o pastor Evangelista não percebe é que as histórias sobre a ressurreição registradas nos evangelhos não falam de ir para o céu depois de morrer. Na verdade, não há quase nada sobre “ir para o céu quando morrer” em todo o Novo Testamento. Ser “cidadão do céu” (Fp 3.20) não significa que nós vamos terminar lá. Muitos filipenses eram cidadãos romanos, mas Roma não os queria de volta quando se aposentavam. A função deles era levar a cultura romana à cidade de Filipos.

Esse é o argumento que os quatro evangelhos defendem, cada um a seu próprio modo. Jesus ressuscitou; portanto, o novo mundo de Deus já começou. Jesus ressuscitou; portanto, Israel e o mundo foram redimidos. Jesus ressuscitou; portanto, seus seguidores têm uma nova tarefa a cumprir.

E que tarefa é essa? Trazer o estilo de vida do céu para a realidade atual, física e terrena. É isso que o pastor Evangelista nunca pôde imaginar (embora sua pregação produza acidentalmente, e quase sempre, esse resultado). A ressurreição corpórea de Jesus é mais que uma prova de que Deus realiza milagres ou de que a Bíblia é verdadeira. É mais do que conhecer Jesus em nossa própria experiência (isso é verdade em relação ao Pentecostes, não à Páscoa). Ela é muito, mas muito mais que a certeza do céu após a morte (Paulo fala de “partir e estar com Cristo”, mas ele enfatiza principalmente a volta em um corpo ressuscitado, para vivermos na nova criação de Deus). A ressurreição de Jesus é o começo do novo projeto de Deus, não de arrebatar pessoas da terra para levá-las ao céu, mas de colonizar a terra com o estilo de vida do céu. É sobre isso que o Pai-Nosso está falando.

É por isso que a argumentação final do reverendo Linguassolta tem uma ponta de verdade, embora todas as suas recusas anteriores o impeçam de ver por que ela é verdadeira ou qual é a sua forma apropriada. A ressurreição é, sem dúvida, o fundamento para uma nova maneira de viver no mundo e para o mundo. No entanto, para obter um resultado social, político e cultural, precisamos da ressurreição corpórea, não de um evento meramente “espiritual” que poderia ter acontecido a Jesus ou talvez apenas aos discípulos. Sua insistência em se referir à “ciência moderna” (não que ele tenha lido alguma coisa sobre física recentemente) é pura retórica iluminista. Não precisamos nem de Galileu, nem de Einstein para nos dizer que os mortos não voltam à vida.

Quando Paulo escreveu seu magnífico capítulo sobre a ressurreição em 1 Coríntios 15, ele não terminou dizendo: “Bem, vamos então celebrar o grandioso futuro que nos aguarda”. Ele concluiu dizendo: “Sede firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (v. 58). Quando a ressurreição final acontecer, como o ponto principal da nova criação de Deus, descobriremos que tudo que foi feito no mundo presente por meio do poder da ressurreição de Jesus será celebrado, incluído, e adequadamente transformado.

Quando o pastor confuso tenta fazer com que a Páscoa signifique “libertação da coerção moral” e “descoberta da verdadeira centelha dentro de cada um de nós”, ele está forçando o verdadeiro cristianismo, obrigando-o a fazer truques como um leão de circo, transformando-o assim em outra forma de gnosticismo. A Páscoa fala da nova criação, de uma nova, imensa e impressionante dádiva de graça transformadora, e não da descoberta de que esse velho mundo tem sido mal compreendido e precisa apenas de permissão para ser ele mesmo.
Romanos 6, 1 Coríntios 6 e Colossenses 3 se mantêm firmes nesse ponto.

Bem, quantos de vocês já ouviram algum desses sermões?

Muito bem, podem recolher as apostas... Quanto eu ganhei?

E quantos ouviram um sermão que reflita sobre as palavras de Paulo em Romanos 8, ou sobre os capítulos finais dos evangelhos, ou sobre o que João escreveu em Apocalipse 21 e 22, a saber, que a Páscoa é o começo da nova criação de Deus em um mundo surpreendido, e aponta para a renovação, a redenção e o renascimento de toda a criação? E agora, quantos já ouviram a mensagem de que todo ato de amor, toda ação feita em Cristo e por meio do Espírito, toda obra de verdadeira criatividade — todas as vezes que a justiça é feita, a paz é conquistada, famílias são curadas, a tentação é vencida, e a verdadeira liberdade é requerida e conquistada? Que esse evento terreno toma lugar na longa história de atos que implementam a ressurreição de Jesus e antecipam a nova criação final, e atuam como sinalizadores de esperança, apontando da primeira para a segunda?
Foi o que eu pensei...

* Retirado do livro Surpreendido pela Esperança de N. T. Wright - Editora Ultimato
copiado daqui: http://www.ultimato.com.br/conteudo/dois-sermoes-de-pascoa

26 de março de 2011

Joy


Joy
Lyrics by George Cooke (PD), Horatio Spafford (PD), and Page CXVI ©2009

Iʼve got the joy, joy, joy, joy down in my heart
down in my heart
And Iʼm so happy, so happy, so very happy

And I canʼt understand
And I canʼt pretend
That this will be alright in the end
So Iʼll try my best
And lift up my chest
To sing about this…joy, joy, joy


http://theautumnfilm.com/

22 de março de 2011

Bifrost Arts: Liturgia, Música e Espaço


How Calm & Beautiful the Morn from Matt Barr on Vimeo.


How Calm and Beautiful the Morn
How calm and beautiful the morn
That gilds the sacred tomb,
Where Christ the Crucified was borne,
And veiled in midnight gloom!
O weep no more the Savior slain;
The Lord is risen; He lives again.

Ye mourning saints, dry every tear
For your departed Lord;
Behold the place, He is not here,
The tomb is all unbarred;
The gates of death were closed in vain:
The Lord is risen; He lives again.

Now cheerful to the house of prayer
Your early footsteps bend;
The Savior will Himself be there,
Your Advocate and Friend:
Once by the law your hopes were slain,
But now in Christ ye live again.

How tranquil now the rising day!
’Tis Jesus still appears,
A risen Lord to chase away
Your unbelieving fears:
O weep no more your comforts slain;
The Lord is risen; He lives again.

And when the shades of evening fall,
When life’s last hour draws nigh,
If Jesus shine upon the soul,
How blissful then to die!
Since He has risen that once was slain,
Ye die in Christ to live again.

Mais:
Vídeo de Isaac Wardell explicando alguns dos visão convincente de Bifrost Arts :

Bifrost Arts from josh franer on Vimeo.

Atualização: O Gummy, do SuperPrimata postou o resultado de sua pesquisa: confira!

14 de março de 2011

Quaresma

O cristianismo não se resume a um grupo de idéias; trata-se de um modo de vida. Parte dessa vida é estruturada esplendidamente em um esquema de vida anual, no qual se escolhem vários aspectos da fé cristã para serem lembrados no decorrer do ano. As duas festas mais conhecidas fora do meio cristão são o Natal e a Páscoa. Elas celebram o nascimento e a ressurreição de Jesus.

É preciso observar a existência de enormes variações no mundo cristão com respeito às celebrações da fé cristã. Em geral, cristãos evangélicos e carismáticos são propensos a dar pouca importância a essas festas, ao passo que os católicos e cristãos ortodoxos tendem a dar muito mais ênfase a elas. Na verdade, a importância atribuída pelos cristãos a celebrações como o Advento e a Quaresma já serve de indicação do tipo de cristianismo adotado pelo grupo.

A Quaresma começa com a Quarta-feira de Cinzas, na sétima semana antes da Páscoa. A expressão "Quarta-feira de Cinzas" requer explicações. O Antigo Testamento às vezes se refere ao colocar cinzas na cabeça ou roupa da pessoa para representar arrependimento ou contrição (e.g., Ester 4.1; Jeremias 6.26). A Quaresma é entendida como tempo de arrependimento; a utilização de cinzas era, então, vista como sinal exterior apropriado de uma atitude interior de contrição ou arrependimento. Em tempos passados da história da Igreja, principalmente durante a Idade Média, o primeiro dia da Quaresma era, então, marcado colocando-se cinzas sobre a cabeça do clérigo e do povo. 

Em anos mais recentes, as cinzas passaram a ser produzidas queimando-se cruzes feitas de palmeira distribuídas no Domingo de Ramos da Quaresma anterior. O tema do arrependimento também é representado em algumas igrejas nesse período no uso da cor roxa nas vestes litúrgicas.
A Quaresma é geralmente considerada tempo de preparação para a Páscoa e no passado esta muito ligada ao período de jejum. A idéia da Quaresma está baseada nos 40 dias de Jesus no deserto antes do início de seu ministério público na Galiléia. Assim como Jesus jejuou 40 dias, seus seguidores eram incentivados a fazer o mesmo. Portanto, estimulou-se a observância de 40 dias de jejum antes da Páscoa. Isso parece ter iniciado no século IV. Antes disso, recomendava-se um período mais breve de jejum (dois ou três dias). O caráter exato do "jejum" variava de um lugar para outro e de uma época para outra. Em geral, a Igreja ocidental entendeu "jejum" principalmente em termos de redução na alimentação e de comer peixe, não carne. Geralmente, enfatiza-se a leitura devocional ou a participação em atividades da igreja, em vez do jejum.

Alister E. McGrath, Uma Introdução à Espiritualidade Cristã, Ed. Vida, p. 221-224

Celebração do Primeiro Domingo da Quaresma,
Holy Trinity Church / www.myholytrinitychurch.com

Bispo Todd Hunter - First Sunday of Lent