2 de dezembro de 2014

Contando o Tempo de Forma Diferente


Jake Belder



The Christian Calendar from Christ Church Anglican on Vimeo.

O vídeo acima fornece uma introdução realmente útil para o calendário da Igreja e o significado das diferentes estações ao longo do ano. Embora eu não tenha crescido num contexto em que foi observado o Ano Igreja (com exceção dos grandes dias de festa), trata-se de algo que eu vim a apreciar profundamente, e eu acho que seguir o calendário litúrgico é de grande benefício para o a modelagem da vida da Igreja, por algumas diversas razões.

Em primeiro lugar, como diz o vídeo, ele enraiza a Igreja na história do evangelho. Não se trata de apenas ouvir o evangelho a cada vez que nos reunimos, embora certamente esse deve ser o caso, mas de habitarmos a história ao longo de todo o ano de uma forma muito mais profunda. Passamos longos períodos de tempo refletindo e habitando sobre a história da redenção e da obra de Jesus para nos reconciliar com Deus e nos dar uma nova vida, situando-nos dentro do drama que se desenrola. Nós desaceleramos e reconhecemos o que o povo de Deus já sabe há muito tempo - que esta é uma história que se desenrola ao longo de milhares e milhares de anos, e que temos de esperar no Senhor, que traz a salvação na plenitude do tempo.

Neste tempo de Advento no qual acabamos de entrar, por exemplo, é tão importante para a Igreja porque temos em grande parte perdido aquela sensação de espera e expectativa. O Advento nos obriga a enfrentar a realidade de que continuamos a nos encontrar vivendo em um tempo de escuridão, em um mundo que ainda está quebrado e precisa de redenção. Desacelerar para refletir nisso nos ajuda a entrar na saudade e na espera com expectativa de que os profetas falaram enquanto esperavam o Messias prometido, para juntar-se ao grito de Isaías: Ah, se rompesses os céus e descesses! (Isaías 64:1) Não podemos ir direto para o Natal; a vinda do Messias só faz sentido no contexto desse anseio de libertação, enquanto aprendemos o que significa expectativa esperançosa no cumprimento das promessas de Deus. Além do mais, uma das características da Igreja Primitiva era o senso de que a volta de Jesus era iminente, e, portanto, a ideia de correr a corrida e pressionar em busca da santidade era uma tarefa urgente, como era o convite para fazer discípulos de todas as nações e testemunhar para o Reino. Enquanto esperamos o segundo Advento de Cristo, recapturar essa sensação de iminência de seu retorno ajuda a despertar uma Igreja que, em muitos aspectos, perdeu essa urgência.

Em segundo lugar, trata-se de formação. Como observou James KA Smith, somos moldados menos por aquilo que pensamos do que por aquilo que amamos, e esses amores são cultivados pelas histórias e liturgias que habitamos, intencionalmente ou não. Ele argumenta em seu livro, Desejando o Reino, que a nossa cultura está bem consciente da realidade de que somos seres litúrgicos e nos bombardeia incessantemente com narrações do mundo que buscam capturar os nossos corações e as imaginações e orientar-nos no sentido de uma visão particular de florescimento e do que significa ser humano. O único antídoto para essas tentativas invasivos para re-narrar o mundo é nos enraizar firmemente na história verdadeira do mundo, revelada a nós nas Escrituras. E o principal meio de fazer isso é através do culto da Igreja. Calendário da Igreja nos ajuda a ensaiar que a verdadeira história do mundo ao longo de todo o ano em nossa adoração, sempre nos mantendo enraizados nessa história e nos ajudando a resistir àquelas tentativas de reformular e reorientar-nos.

Finalmente, essa é uma maneira de os cristãos serem distintamente separados do mundo, de declarar que pertencemos a um reino diferente e que as nossas vidas são ordenadas de forma diferente. Cristo é o Senhor de toda a nossa vida, incluindo a forma como nós marcamos tempo. Nós marchamos pelo tique-taque de um relógio diferente, e permitimos que esse relógio defina o nosso foco e as nossas prioridades. Como povo que é batizado em Cristo e recebeu uma nova identidade, enraizamo-nos na história da redenção e gastamos o ano apontando para Jesus e para a salvação que vem através dele, constantemente ensaiando o modo em que Deus agiu na história e colocando-nos nessa história .
E isso só pode ser uma coisa boa.

(O gráfico abaixo marca de modo útil as estações do ano Igreja juntamente com as cores litúrgicas, conforme elas são observadas na Igreja da Inglaterra.)

Original: http://blog.jakebelder.com/post/telling-time-differently

Tradução: @danieldliver

8 de setembro de 2014

Igreja e Instituição – Revisitando uma Trilha Percorrida

Algumas falas no último Encontro Mosaico (30/09) me fizeram reviver muito das discussões que remontam ao ano de 2008, numa movimentação na blogosfera sobre o tópico igreja: igreja emergente, igreja orgânica, igreja caseira, etc ...

Esse assunto todo é muito pessoal para mim, pois como me escreveu um amigo em janeiro de 2013: “uma coisa comum nos nossos dois destinos foi o clima de mudança de transição, estamos em busca de um lugar, não só de uma comunidade eclesiástica, mas de um lugar na vida mesmo.”

Em agosto de 2010 eu já tinha escrito uma espécie de “suma” de tantas coisas que tinha lido e discutido até aquele momento acerca do assunto. Já naquela época eu destacava a posição de Sandro Baggio, que se envolvera a fundo nas discussões e conhecia a literatura produzida no período sobre o tema.

Enquanto eu ainda morava e trabalhava em Nerópolis-GO (para onde fui após 25 anos em Uberlândia dos quais 15 na Igreja Metodista), a leitura de um livro (que Baggio comenta em um de seus posts) de Kevin DeYoung e Ted Kluck em 2010 encerrou um ciclo de debates e uma tomada de posição pessoal. O livro Why We Love the Church: In Praise of Institutions and Organized Religion ressoou com muito do que eu então percebia após os debates que tiveram na leitura de “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola, um de seus momentos mais intensos.

Recordei muitas daquelas posições ventiladas à época nesse final de semana. Segundo uma dessas posições, a “instituição” é retratada como um problema para a vida das relações na igreja. (Essa discussão é semelhante aquela sobre religião x espiritualidade, que rendeu vivo debate reproduzido no blog Voltemos ao Evangelho).

Em uma série de postagens sobre o tema, Sandro Baggio tomou posição que representou um significativo contraponto à onda da juventude digitalmente incluída da época:

Nos comentários das postagens encontramos muitos interlocutores das discussões à época. Vale destacar o debate entre Baggio e Brabo nos comentários do primeiro post, porque representa bem os modos de pensar distintos que se firmaram ali. Digna de nota é a referência de Brabo a um texto de Elienai Cabral Júnior:

     “A instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos.”

Sandro Baggio, contudo, afirma em suas postagens listadas acima:

“Não considero a instituição como, por natureza, inimiga mortal da igreja. (...)

Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.

Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições. (...)

Minha sugestão sincera: não perca tempo lutando contra o fantasma da instituição. Ele é tão somente isto: um fantasma. Em vez disso, use seu tempo para amar e servir a Deus e ao próximo, em relacionamentos de compromisso e mutualidade numa comunidade de fé, amor e esperança centrada em Jesus.”

Em comentário ao segundo post, Ariovaldo Carlos Júnior, em 27 de julho de 2011, escreveu:

“Ótima reflexão. Afinal, a instituição deve SERVIR à Igreja de Cristo. O problema tem sido o radicalismo de alguns em considerar que, devido às inversões de prioridade deste “serviço”, tudo que é organizado é ruim. Como se tudo que fosse desorganizado fosse necessariamente melhor e duradouro.”

Em 2009 foram publicados no Brasil os livros "A Cabana" e "Por que você não quer mais ir à igreja?" pela Editora Sextante. Essas obras representavam o pensamento e sentimento de desconforto que se difundia entre a juventude que percebia sinais de necessidade de renovação das instituições eclesiásticas, mas não fornecia uma proposta construtiva ou reformadora, mas um sentimento revolucionário, quase iconoclasta.  No entanto, os jovens que atualmente estão preocupados com missão cristã, transformação e justiça parecem não ecoar esse discurso.

Desde 2009, nas discussões sobre igreja emergente, a posição assumida pelo novo calvinismo americano (neopuritanismo) me pareceu oferecer interessantes contrapontos a algumas posições do diálogo emergente da época. Já em 2010, John Piper, que no ano seguinte diria adeus ao ensino de Rob Bell, já profetizara que movimento emergente se desvaneceria:

        Isso é o que acontece quando se prioriza relacionamentos em detrimento da verdade. Quando a verdade é priorizada, os relacionamentos se tornam parte dela. Quando os relacionamentos são priorizados e a verdade é deixada de lado, então ela se perde. Como consequência, os relacionamentos se arruínam, e é a isso que me refiro quando digo que sua liderança está em ruínas.

Demorou, porém, para eu superasse a resistência com o calvinismo e entender que há duas correntes distintas representadas atualmente por movimentos compreendidos sob os termos neopuritanismo (soberania de Deus na salvação) e neocalvinismo (soberania de Deus na criação).

Contudo, desde que conheci esse neocalvinismo (holandês), o qual descobri por meio do L’Abri (que visitei pela primeira vez em maio de 2011), venho me movendo até uma posição “católica reformada” que abraço hoje. É bom destacar que, segundo Guilherme de Carvalho,

       L'Abri é uma síntese de calvinismo evangelicizado (Schaeffer) com neocalvinismo (Rookmaaker). E o ponto de conexão é a visão Bavickiana de Natureza e Graça (que era fundamental para Rookmaaker e também para Schaeffer, via Van Til).”

Conhecer esses pensadores e a expressão dessa tradição em instituições de ensino como o Calvin College me abriram para um vasto campo do que eu me referi como uma fé católica reformada, abraçado pelo professor James K. A. Smith, o qual me fora apresentado pelo teólogo e pedagogo Igor Miguel. Na minha peregrinação passei pela conversa emergente que enfatizava a necessidade de a igreja contextualizar-se frente aos desafios da pós-modernidade. Num ponto da caminhada cheguei ao livro de Smith, Who’s Afraid of Postmodernism, 2006: Baker Academic, em que ele sintetiza:

"Uma igreja verdadeiramente pós-moderna será profundamente histórica (recuperando sua antiga herança) e litúrgica (ativando a imaginação através do símbolo e do sacramento".

É interessante notar como essas trajetórias se cruzam num post de Igor Miguel, de maio de 2011, em que ele escreve:

“Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras gotas de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido.

Mas, de verdade, o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja", me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade amarmos a Igreja Local novamente. Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.

Como eu disse, o tema "plantação de igreja" me “salvou” quando eu estava em “crise” sobre o assunto. O movimento anglicano norte-americano de plantação de igrejas me despertou para olhar para os temas “igreja e instituição”, teologia, arte e liturgia com outra perspectiva.

Em 2011, participando de um grupo jovem Dedo de Prosa com Deus eu percebia que precisávamos da transição de grupo para igreja, mas não reuníamos condições para fazer essa travessia à época. Em fevereiro de 2012 reencontrei parte do grupo do Love s.a.(em cujas reuniões de oração participei em 2010) comecei a participar em um pequeno grupo que nutria a visão de se tornar uma igreja em plantação.

Com esse histórico, revisitar a discussão sobre instituição me causa certa inquietação, pois sob uma perspectiva da cosmovisão reformada, adquire-se uma compreensão melhor daquilo que Sandro Baggio disse:

“Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.”

Albert Wolters, apresentado em seu importante livro “A Criação Restaurada” (Creation Regained), nos esclarece (p. 71, 77):

“O grande risco é sempre escolher algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identifica-lo, em vez da intrusão da apostasia humana, como o vilão no drama da vida humana. (...) O resultado é que algo na boa criação é declarado mau. (...) Parece haver um traço gnóstico, enraizado no pensamento humano, que faz com que as pessoas culpem alguns aspectos da obra da mão de Deus por todas as aflições e desgraças do mundo em que vivem. (...)

Em resumo, vimos que a queda afeta toda a extensão da criação terrena; que o pecado é um parasito sobre a criação, e não parte dela; e que, à medida que afeta toda a terra, o pecado profana todas as coisas, tornando-as “mundanas”, “seculares”, “terrenas”. Consequentemente, cada área do mundo criado clama por redenção e pela vinda do reino de Deus”.

Em uma resenha de um livro de D. A. Carson, James K. A. Smith chama a atenção para a importância, na grande narrativa bíblica (criação, queda, redenção, consumação), do "Mandato Cultural" (Gn 1:27-29): o chamado criacional da humanidade para cultivar as possibilidades latentes dentro da criação através do contínuo trabalho cultural. O autor clama por uma teologia da cultura que mostra como o trabalho de "fazer humano" está enraizado na própria criação: "essa tarefa de elaboração humana é precisamente a forma como portamos a imagem de Deus no mundo (como "sub-criadores", nas palavras de Tolkien)."

O autor destaca que se "as instituições, sistemas e estruturas" estiverem ausentes de uma abordagem da criação, eles também não aparecerão no radar da queda e no da redenção. Já por uma perspectiva da escatologia, a "eternidade" nos aparece em muitas abordagens evangelicais como carente de instituições culturais – uma eternidade sem comércio ou política, arte ou atletismo. Para Smith, "tal visão achatada do nosso futuro redimido é o correlato de uma compreensão atrofiada da criação".

Na sequência do texto, o autor pergunta:

"Mas o que é o evangelho senão o chamado e convite de Deus para sermos restaurados e renovados como portadores apropriados da imagem de Deus -- que carregam sua imagem ao desdobrar o potencial da criação em cultura corretamente ordenada? Ser portadores da imagem de Deus é um chamado, uma vocação e uma tarefa, e não uma propriedade estática do ser humano. E Cristo, como o segundo Adão, mostrou-nos como se parece fazer isso: em um mundo caído e quebrado, a forma de tal vocação é cruciforme; ser agentes culturais do Deus crucificado não é um projeto de transformação triunfal, mas de testemunho sofredor."

O mandato cultural é, pois, uma tarefa humana que envolve a expressão da lei criacional na civilização humana. Como nos diz Albert Wolters (p. 55, 28):

"O governo da lei de Deus é imediato no domínio não-humano, mas tem um mediador na cultura e na sociedade. No domínio humano, homens e mulheres tornam-se co-trabalhadores com Deus; como criaturas feitas à imagem de Deus, eles também têm um tipo de senhorio sobre a terra, e são vice-regentes na criação" (...) "Somos chamados a participar na obra criacional de Deus que está em progresso, para sermos ajudadores de Deus na execução da sua obra-prima".

Assim, instituições culturais como escolas, empresas, igrejas, estados, assembleias legislativas, bibliotecas, fazem parte da criação, são totalmente afetadas pela queda e estão sob o alcance da redenção de Cristo que é Senhor sobre todos os centímetros da realidade criada. A tendência gnóstica se manifesta, na discussão que estamos enfocando, em suspeitar das instituições em si mesmas, especialmente quando estas são um aspecto da igreja. No editorial da edição fall 2013 da revista canadense Comment, entitulada "We Believe in Institutions", James K. A. Smith escreve:

Em uma era cínica que tende a glorificar 'start-ups' e celebrar a suspeita anti-institucional, a fé em instituições soará datada, indigesta, fora de moda, e mesmo (suspiro) "conservadora". Assim os cristãos que estão ansiosos por ser progressistas, hip, relevantes e criativos tendem a comprar tal anti-institucionalismo, assim espelhando e imitando tendências culturais mais amplas (o que, ironicamente, são frequentemente, parasitárias das instituições!).

        E, no entanto esses mesmos cristãos estão justamente preocupados com "o bem comum". Eles são recém convencidos de que o Evangelho tem implicações para toda a vida e que ser cristão deve significar algo para este mundo. Jesus chama-nos não só para garantir a nossa própria salvação em algum gueto religioso privatizado. Ele nos chama para buscar o bem-estar da cidade e de seus habitantes ao redor de nós. Nós amamos a Deus ao amar o próximo; glorificamos a Deus ao cuidar dos pobres; exibimos a bondade de Deus através da promoção do bem comum.

       Mas aqui está a coisa: se você está realmente apaixonado por promover o bem comum, então você deve resistir ao anti-institucionalismo. Por que as instituições são maneiras de amar nosso próximo. As instituições são estruturas concretas duráveis ​​que -- quando funcionando bem -- cultivam todo o potencial da criação em direção ao que Deus deseja: shalom, paz, bondade, justiça, florescimento, prazer. As instituições são a nossa forma de obter uma alça sobre realidades concretas e abordar diferentes aspectos da existência humana. As instituições, por vezes, são andaimes para apoiar os fracos; às vezes elas funcionam como cercas para proteger os mais vulneráveis​​; em outros casos, as instituições são o trampolim que nos permite buscar inovação. Mesmo que elas possam tornar-se corruptas e necessitarem de reforma, as próprias instituições não são o inimigo.

     Assim, acreditamos nas instituições porque nos opomos à injustiça. Mas fundamentalmente acreditamos nas instituições porque acreditamos nas Escrituras e na comissão cultural dada à humanidade no Jardim. Ser frutífero e multiplicar é começar -- e herdar -- a instituição da família. Cultivar a criação é encher a terra com a vida institucional que estava implorando para ser desfraldada em museus e escolas, nas legislaturas e bibliotecas, nas universidades e sindicatos. As instituições são maneiras comuns duráveis pelos quais podemos atuar em conjunto com nosso próximo para conseguir bens penúltimos. Então, ao invés de pensar as instituições como grandes, pesadonas, gigantes e estáticas, pense em instituições como encenações sociais dinâmicas. Tente imaginar "instituições" como esferas de ação. As instituições não são apenas algo que nós construímos; eles são algo que fazemos.”

Dallas Willard, falecido professor de filosofia que escrevia sobre formação e disciplinas espirituais, faz uma interessante aplicação da imagem de Paulo que: “temos esse tesouro em vasos de barro” (2 Co. 4.7). Aqui, o vaso de barro é o corruptível corpo do apóstolo e os eventos visíveis de sua vida terrestre. Para Willard, os mesmos princípios de "vaso" e "tesouro" se aplicam às congregações locais, às suas tradições e seus grupos de alto-nível chamados de "denominações". A identidade de grupos, congregações e denominações são definidas historicamente por contingências humanas que são muitas vezes confundidas com o tesouro da verdadeira presença de Cristo. Para evitar a “armadilha do vaso”, Willard recomenda o foco na Grande Comissão:

Certamente que não podemos evitar ter vasos. E devemos ser sensíveis a eles, pois isso faz parte do que é ser humano e finito. Até mesmo Jesus teve o seu vaso. Ele era um judeu e isso se tornou a primeira armadilha do vaso que as primeiras congregações de discípulos precisaram enfrentar. Atos e as cartas do Novo Testamento são um registro de como isso foi superado.

Podemos, portanto, evitar fazer do vaso o tesouro. E podemos identificar o tesouro sem fazer referência a qualquer vaso. No entanto, o tesouro sempre terá um vaso. O próprio Jesus nos mostrou o caminho, e a congregação local pode seguir esse caminho. [...]

Em poucas palavras, a congregação local que adotar os "princípios e as verdades absolutas" do Novo Testamento, com a natural consequência de se tornar e produzir filhos da luz, tem que apenas seguir as instruções finais de Jesus: "Ao saírem pelo mundo, façam aprendizes de para mim de todos os tipos de pessoas, imergindo-as na realidade Trinitária e ensinando-as a fazer todas as coisas que lhes ordenei" (Mt 28:19-20, paráfrase). As ordens foram acompanhadas de declarações categóricas sobre os muitos recursos para a tarefa: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "estarei com vocês a cada momento, até que o trabalho esteja concluído" (v. 18, 20, PAR).”

N. T. Wright, um dos maiores estudiosos contemporâneos do Novo Testamento, escreve em seu livro dedicado à ressurreição, escatologia e missão, Surpreendido pela Esperança, que a igreja deve remodelar a sua missão identificando-a com “viver o futuro”. Parte essencial desse futuro consiste na redimida criação: espaço, tempo e matéria. O autor explica sua tese (p. 273):

“A ordem criada, que Deus começou a redimir na ressurreição de Jesus, é um mundo no qual o céu e a terra foram planejados para estarem unidos, não separados. A partir dessa união, Deus irá aprimorar a declaração que fez no princípio, de que a criação é “muito boa”.

O eminente autor, bispo anglicano aposentado para se dedicar à docência, aborda o fenômeno do abandono das práticas tradicionais das igrejas pela juventude: templos, liturgias, orações formais e os sacramentos. Na visão de Wright, isso tem origem em um tipo de “protestantismo latente” na cultura cristã ocidental, na crença implícita de que “templos, liturgias e coisas assim são, por natureza, não-espirituais” (p. 272). Com base na “lógica da nova criação”, Tom Wright pergunta (p. 273): “O que acontece quando pensamos em espaço, tempo e matéria sendo renovados, em vez de abandonados, na vida da igreja?”

Quanto ao espaço, o autor afirma que é preciso urgentemente retomar uma “teologia do lugar” (presente na tradição celta), de “lugares finos” em que o véu que separa céu e terra se tornam quase transparente. A restauração futura do mundo inteiro por Deus é antecipada na restauração de lugares para adoração e oração; não um esconderijo do mundo, mas um posto avançado pelo qual se reivindica parte do espaço dado por Deus para a sua glória, antecipando o dia em que o mundo inteiro irá tremer diante dele. Para Wright, há um dualismo tolo na declaração de que templos antigos e coisas desse tipo são irrelevantes para a missão de Deus. O autor afirma um princípio norteador (p. 274): “Sim, reivindicações territoriais podem se tornar idólatras e abusivas [...] No entanto, a resposta ao abuso não está no dualismo, mas no uso apropriado".

No tocante à renovação e à reivindicação do tempo, o autor afirma que o tempo da igreja, a longa história da igreja cristã e a “tradição” acumulada durante esse período devem ser seriamente considerados em qualquer escatologia fundamentada na visão da igreja voltada para missão (p. 275):

“A história da igreja é a história de caminhos nos quais, a despeito da tolice, do fracasso e do pecado evidente, o futuro de Deus já começou naquele que, para nossos ancestrais, era o “tempo presente”, deixando-nos um legado que é parte do “passado”, e que está repleto não somente de erros e de estilos de vida culturalmente condicionados, mas também de padrões da nova criação que já estão, a partir do nosso ponto de vista, entrelaçados na história – pedaços do futuro de Deus, por assim, dizer que são agora pedaços do nosso passado. [...] Descartar a tradição apenas porque ela é “tradição” é render-se à pós-modernidade e a um tipo de ultraprotestantismo que arranca a raiz da árvore por acreditar que árvores devem sem completamente visíveis para que todos vejam seus frutos, e não enterradas em um solo sujo.”

Finalmente, quanto ao item matéria, adverte Wright (p. 276-277):

“Se não quisermos cair no platonismo, negando assim a excelência da criação, devemos retomar a ideia da encarnação e da ressurreição corpórea de Jesus, e a promessa de que a criação será renovada e ficará livre da morte e da corrupção. [...] É dentro dessa estrutura de pensamento que os sacramentos cristãos clássicos do batismo e da eucaristia ganham significado. [...] O abuso do sacramento não anula seu uso apropriado. [...] Se a igreja precisa ser renovada em sua missão no mundo e para o mundo de espaço, tempo e matéria, não podemos ignorá-lo o marginalizá-lo. Devemos, antes, reivindica-lo para o reino de Deus, para o senhorio de Jesus e no poder do Espírito, a fim de que possamos então ir e trabalhar pelo reino, anunciar o senhorio de Cristo e realizar mudanças por meio desse poder. Ninguém ensina alguém a cantar jogando fora seus instrumentos musicais. Portanto, a missão da igreja deve incluir, em nível estrutural, o reconhecimento de que nosso espaço, tempo e matéria presentes estão sujeitos à redenção, e não à rejeição. [...] A despeito da tendência observada na “igreja emergente”, de marginalizar espaço, tempo e matéria, eu continuo convencido de que o modo de seguir adiante à descobrindo a verdadeira escatologia, a verdadeira missão enraizada na antecipação dessa escatologia, e de formas de igreja que incorporam essa antecipação”.

Portanto, o cristianismo bíblico nos provê recursos para evitar a rejeição da estrutura de qualquer aspecto da criação de Deus ao discernimos os efeitos da Queda na direção distorcida que assumem para que cooperamos com o Deus Trino direcionando para Cristo todas as coisas. A redenção em Jesus é “o antídoto completo e decisivo para a distorção criacional”. Qualquer coisa na criação pode ser direcionada para a obediência a Cristo: “os seres humanos individuais, os fenômenos culturais como a tecnologia, a arte e o conhecimento, as instituições sociais como sindicatos, escolas e corporações e as funções humanas como a emoção, a sexualidade e a racionalidade” (Wolters, 69).

Na Carta XXIII de suas "Cartas a um Jovem Calvinista", James Smith recorre a Santo Agostinho para articular uma doutrina robusta da bondade da criação:

      "As 'coisas' não são pecaminosas, o que é pecaminosa é a forma como nos relacionamos com elas, o que fazemos com elas. E isso se resume a uma questão sobre o que nós amamos e como amamos. [...]

        Para Agostinho, o pecado é uma questão de "como" e não do "quê". O que precisa mudar, diz Agostinho, não são as coisas da criação, mas o nosso amor. Assim, Agostinho introduz uma distinção importante, especialmente no livro 1 da "Doutrina Cristã", o que Deus deseja e projeta para as suas criaturas é uma "ordem correta do amor", que significa simplesmente que fomos criados e chamados a ser criaturas cujo propósito é amar ao Deus Trino, e, assim, encontrarmos a nossa identidade e nos deliciarmos nessa ordem correta do amor. Para Agostinho, nós somos o que nós amamos. Na verdade, não podemos deixar de amar: mesmo caída, a humanidade pecadora ainda é impelida a amar; mas como pecadores, nós amamos as coisas erradas da forma errada. [...]

        As tentações do mundo, então, não são um reflexo do que há de errado com a criação, elas são um indicador de que há de errado conosco. O que está em questão aqui não é a criação em si, mas como nos relacionamos com a criação. [...]

     Mas pela graça de Deus a nossa inclinação para amar pode ser corretamente direcionada, corretamente dirigida ao próprio Deus. Pela graça de Deus o nosso amor pode encontrar o propósito para o qual foi criado: o próprio Deus. Quando o nosso amor é corretamente direcionado de forma que nos deleitemos em Deus, então vamos perceber que Deus nos dá a sua criação, para que possamos desfrutar Dele."

O aspecto institucional da igreja, portanto, não está fora da abrangência do senhorio de Cristo e deve ser submetidoa constante reforma para que obedeça a direção apontada pela graça. A instituição não é sagrada nem secular, mas é “santificada” pela palavra de Deus e pela oração (1 Tm 4.5).

1 de julho de 2014

Podemos esperar por um diálogo neocalvinista-neopuritano?

Revista Comment - December 1, 2008 - Ray Pennings

Forjando uma teologia pública relevante para os nossos tempos.


Parte de mim se sente boba propondo uma conversa entre "neocalvinistas" e "neopuritanos". Poucas pessoas se identificam usando um desses rótulos teológicos, e no contexto do evangelicalismo norte-americano mais amplo, as duas ênfases doutrinárias são reunidas em um únic sub-agrupamento calvinista. Para alguns em nosso tempo de falta de ênfase doutrinária, até mesmo o rótulo calvinista é visto como relevante principalmente para os seminaristas que precisam para passar nos exames, simultaneamente se perguntando: é certo gastar tanto dinheiro em um curso de estudo tão irrelevante para o meu o desejo de ministrar às pessoas na igreja?

No entanto, as questões relacionadas com essas ênfases doutrinárias não são apenas relevantes para o ministério, mas também para a vida cultural, e uma compreensão de cada uma e as maneiras que podem trabalhar em conjunto é importante. Embora possa haver características intramurais do debate neocalvinista-neopuritano que são de interesse para as pessoas de determinadas convicções teológicas, o cerne da questão trata de uma problema mais vasto que enfrentam todos aqueles que se esforçam para entender o que significa responder a seu chamado como cristãos em nossa cultura comum. Aqueles que procuram enraizar sua obediência em uma compreensão da Bíblia e do mundo que cava um pouco mais do que alguns brometos éticos ou convenientes textos-prova exigem uma teologia pública relevante para os nossos tempos.

No coração de uma proposta de conversa entre neocalvinistas e neopuritanos repousa questões de interseção. Como a fé pessoal coincide com a ação corporativa? Pode haver tensões entre o amor por Deus e meu amor ao próximo? Como praticamente se permanece "no mundo" sem ser "do mundo"?

Neopuritanismo e Neocalvinismo: Estabelecimento dos termos

Eu uso o termo "neopuritano" como um rótulo abrangente para capturar o recente ressurgimento de uma teologia e vida da igreja calvinista do tipo documentado no livro de Collin Hansen recente, Young, Restless and Reformed (Crossway: 2008). Hansen caracteriza esse fenômeno como uma redescoberta das doutrinas da soberania de Deus em particular, bem como uma redescoberta da literatura puritana em geral. Isto traz consigo "uma visão ampliada da autoridade de Deus mudando o modo como (os adeptos vêm) o evangelismo, a adoração e os relacionamentos."

O movimento neopuritano tem um impulso diferente do que aquele do neocalvinismo, que é um outro movimento testemunhando um ressurgimento em nosso tempo. Muitos neocalvinistas considerariam o movimento neopuritano como um pouco "igrejeiro" (churchy). Neocalvinistas enfatizam a vida para além da igreja. Seu Calvinismo tem uma abrangência "mudar o mundo". Ele concentra-se em todas as esferas da sociedade e coloca a restauração da criação claramente à vista. Ou, para citar o slogan líder cultural holandês do século 19 Abraham Kuyper (que tem sido usado como uma quase definição de credo resumido das neocalvinismo): "Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: 'Meu!"

Distinguir os dois movimentos ao caracterizar o neopuritanismo por seu foco sobre a soberania de Deus na salvação, e neocalvinismo pela soberania de Deus sobre a criação, contém um elemento de verdade, mas não faz justiça a nenhum dos dois movimentos. Esta divisão implica que neocalvinistas não se preocupam com a piedade pessoal, enquanto neopuritanos são indiferentes quanto à implicação do evangelho para a sociedade e suas estruturas. Farta evidência pode ser compilada para refutar convincentemente ambas as acusações. Ainda assim, enquanto ambos os movimentos afirmam verdades e apelam ás mesmas fontes em relação à aplicação de toda a gama de dados bíblicos no contexto contemporâneo, o neopuritanismo é inclinado mais para a piedade individual e avivamento da igreja, e o neocalvinismo é inclinado mais para o ativismo corporativo e a renovação cultural.

A típica conversa entre os dois campos é corre mais ou menos assim. Os neocalvinistas criticam os neopuritanos por um impulso em direção a retirada da cultura comum para o "gueto" de uma subcultura cristã ou o enclave da igreja, como um resultado do que neocalvinistas chamam de "pietismo". Os neopuritanos admitem possíveis deficiências em expressar plenamente a sua vocação bíblica de expressar a soberania de Deus no todo da vida, mas advertem que a experiência histórica mostra que essas atividades muitas vezes trazem conseqüências negativas indesejadas. Os exemplos históricos que os neopuritanos citam concentram-se na desvalorização da igreja institucional e de seus ministérios; um triunfalismo sem caridade às vezes sombreando a utopia; e a combinação de uma teologia voltada para a transformação cultural com uma ênfase menos do que a adequada sobre a santidade pessoal e o relacionamento pessoal com o Senhor.

Então, nós temos duas correntes que fluem de uma única fonte, mas em direções muito diferentes. Alguns minimizam essa diferença como uma questão de ênfase. Outros implicitamente elevam a sua corrente como uma forma mais "pura" de obediência. Meu ponto aqui é que ambos os movimentos têm algo a aprender ao considerar suas próprias correntes em relação à outra, pois dentro desta conversa estão as sementes de alguns aspectos essenciais do ensino bíblico que muitas vezes são esquecidos. Nosso tempo pede uma teologia pública bem-arredondada, a existência da qual parece em falta no mundo mais amplo da América do Norte protestante. Essa conversa expõe algumas questões importantes a serem consideradas.

Quatro Insights Neocalvinistas

O neocalvinism se organiza, para usar o argumento central de Albert Wolters em A Criação Restaurada, "em torno da visão central de que "a graça restaura a natureza" -isto é, a redenção em Jesus Cristo significa a restauração de uma boa criação original ".

Há quatro insights particulares que surgiram dentro do neocalvinismo que eu encontrei particularmente úteis e práticos na triagem das questões que me confrontaram em mais de duas décadas de ativismo na vida pública. Trata-se de ordem da criação, antítese, graça comum, e esfera de soberania.

O termo comumente usado "mandato cultural" (referindo-se a ordem de Deus para a humanidade, mencionado em Gênesis 1:28 e 2:15, para governar e cuidar do restante da criação) não pode ser adequadamente compreendido sem referência à ordem criacional. Entre os sinais vitais relevantes para o testemunho público cristão, hoje, está o sentido de "potencial" que existe na criação. Quando Deus criou o mundo, sua criação era boa ou completa. Isso significa que toda a tecnologia, cultura e progresso que foi descoberto e desenvolvido pelo homem desde o Éden é para ser entendido como algo englobado na boa criação de Deus. Quando uma nova descoberta científica é feita pelo homem devemos entender isso como parte da criação de Deus, que ele permitiu que o homem, como portador de sua imagem, descobrir e desenvolver.

A noção de ordem está ligada ao conceito de que a criação é preenchida com potencial. Embora existam distinções importantes a serem feitas entre "ordem da criação" e o conceito católico romano de "lei natural", os dois partilham muitos aspectos que se sobrepõem, e esses conceitos funcionam de forma semelhante no desenvolvimento da estrutura para a compreensão cristã do mundo e da sociedade.

O conceito de antítese é a ideia de que o pecado atravessa o coração humano, e, portanto, não se limita a condenar determinadas atividades culturais. Isso não ignora o fato de que algumas atividades podem ser espiritualmente prejudiciais, mas ele reconhece que o conceito de pecado não deve tornar-se um conceito de legalismo, onde determinadas atividades são condenados de forma grosseira, enquanto a abstenção dessas atividades de alguma forma constituem retidão. O pecado tem duas dimensões, e ambos devem ser considerados: a dimensão humana do pecado, bem como os efeitos do pecado sobre o mundo não-humano. O "gemido da criação" em Romanos 8 destaca o alcance do pecado e suas conseqüências: mesmo o solo e sua vegetação são impactados pela desobediência do homem caído. Toda atividade em que os seres humanos se envolver é afetada pela queda; o pecado é pessoal, mas também se manifesta nas diversas organizações da sociedade, incluindo aquelas que se nomeiam cristãs. Assim como uma apreciação do mandato cultural amplia a nossa visão da criação e de como Deus é glorificado por meio dela, a antítese amplia nossa compreensão da queda como algo mais do que apenas afetando a culpa pessoal diante de Deus; é uma corrupção de todos os aspectos da sua boa criação.

A graça comum é uma terceira característica do neocalvinismo que fornece informações valiosas para a vocação cristã na cultura contemporânea. Embora este conceito também tem sido alvo de alguma controvérsia, ele fornece insights importantes para a atividade social cristã. Há duas consequências da compreensão neocalvinista da graça comum que são importantes. A primeira é que a bondade da criação, particularmente quando é administrada de uma forma que está de acordo geral com os mandamentos de Deus, proporciona benefícios para os crentes e não crentes. Assim como a chuva cai sobre os justos e os injustos (Mateus 5:45), desse modo os benefícios da criação de Deus fluem para todos os homens. Em segundo lugar, não são apenas as ações dos fiéis que contribuem para estes benefícios. Porque todos os homens são feitos à imagem de Deus, os incrédulos podem ter idéias verdadeiras e realizar obras benéficas. Ainda que não sejam de um benefício salvífico (os incrédulos não podem experimentar a verdadeira shalom fora de um relacionamento com Deus, veja o Catecismo de Heidelberg, Perguntas 62 e 91), eles não deixam de ser proveitosos e podem ser usado por Deus para beneficiar o mundo inteiro, inclusive os crentes . Às vezes, Deus, na sua providência, organiza as coisas de modo que os incrédulos têm um papel importante a desempenhar, como foi o caso com Ciro e os israelitas. Esses insights, combinados com as implicações "do tipo lei natural" da ordem da criação, criam uma estrutura para uma compreensão bíblica da atividade cultural que percorre um longo caminho para a triagem através de questões tais como a extensão em que os cristãos podem trabalhar em projetos conjuntos com os infiéis , o lugar da tecnologia e pesquisa, e nossa abordagem da história e do progresso. Também nos ajuda a começar a enfrentar os desafios do pluralismo social.

A quarta característica do neocalvinismo que tem relevância significativa é o conceito de esfera de soberania. Essa é essencialmente a percepção de que há uma diferenciação dentro da criação em "diferentes esferas que possuem sua própria natureza única", e que essas naturezas são normativas. Nicholas Wolterstorff o diz muito bem: "Da mesma forma que podemos considerar o que constitui o leão bem formado, assim, de forma semelhante, podemos considerar o que constitui o estado bem-formado, a escola bem formada, a família bem formada e assim por diante. Em suma, há normas permanentes para o Estado, para a escola, e para todas as outras estruturas sociais categoricamente distintas." (Until Justice and Peace Embrace, 1983, página 58)

Em contraste com as perspectivas sociais e políticas do individualismo moderno e do estatismo, ambas enraizadas numa concepção iluminista/Revolução Francesa de direitos individuais e de contrato social, uma visão bíblica da sociedade vai além do indivíduo e do Estado. Discurso político norte-americano contemporânea pode ser considerada como o giro de uma única moeda de duas faces. De um lado, temos os direitos individuais e os mercados livres, enquanto do outro lado, nós temos o poder do Estado como um engenheiro social. Seja qual for o lado que a moeda repousa, o discurso político procede de uma autonomamente humana visão de autoridade. Estruturas sociais intermediárias, como as famílias, igrejas, empresas e escolas têm apenas status secundário ou derivado. A maior parte do ativismo cristão, tanto á esquerda como à direita, se aproxima da vida pública ao aceitar essa estrutura.

A esfera de soberania, por outro lado, oferece uma estrutura alternativa para a compreensão da sociedade. Ela fornece uma base teórica que melhor reconhece a realidade da arquitetura social que os norte-americanos tomam por certo e melhor capacita os cristãos para o engajamento em questões importantes do dia.

Dois Insights Neopuritanos

É evidente a partir do exposto que o neocalvinismo fornece insights importantes que são relevantes para os nossos tempos e ajudam muito no desenvolvimento de uma teologia pública que é profundamente bíblica. Ao lamentar O Escândalo da Mentalidade Evangélica em 1994, Mark Noll salienta a contribuição dos neocalvinistas como um "tônica -- ousada ao confessar a fé cristã histórica, especialista no exercício da argumentação filosófica sofisticada, e de longo alcance na proposição de novas teorias" É também um movimento diverso que está sofrendo reavaliação auto-crítica. Então, se o neocalvinismo tem todas essas ideias e respostas, por que é ainda relativamente desconhecido na conversa norte-americana mais ampla?

Não há uma resposta fácil ou simples. Muitas das explicações históricas estão embaraçadas por polêmicas interdenominacionais reformadas, e seria muito limitado nos concentrar nas raízes históricas idiosincraticamente holandeses deste debate. Em vez disso, deixe-me destacar duas características do neopuritanismo norte-americana que poderiam parcialmente explicar o que se encontra deficiente em grande parte dos escritos neocalvinistas, usando-o como um trampolim para propor uma agenda para uma possível conversa entre os dois movimentos.

O primeiro tema neopuritano é uma visão muito alta da igreja como instituição. Reconhecendo que algumas das "explosões de energia" para o ressurgimento do neopuritanismo vieram de movimentos paraeclesiásticos (por exemplo, conferências como o evento Passion anual, ou ministérios de recursos como Desiring God de John Piper ou Ligonier Ministries de R. C. Sproul), no entanto, a pulsação do neopuritanismo é uma visão elevada do culto e da igreja local. A linha de abertura do Catecismo de Westminster -- "O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", serve como o slogan unificador, e há uma ênfase na experiência pessoal e na adoração corporativa que anima a vida espiritual. Culto semanal em que a exposição e o ensino bíblico são centrais caracteriza este movimento diverso, assim como a forma de adoração que é muito variável. Um culto liderado por C. J. Mahaney na Covenant Life Church vai parecer quase Pentecostal em comparação com a pregação mais tradicional da Palavra e serviço de música, com coro e orquestra, na Grace Community Church liderada por John MacArthur, que contrasta novamente com o culto com cantos dos salmos conduzidos pelo ministro que se poderia encontrar na Heritage Reformed Service, no qual Joel Beeke pode estar no púlpito. No entanto, apesar de suas diferenças, essas igrejas consideram que a Igreja institucional, o serviço de adoração, e os ofícios da igreja têm funções específicas na ordem dada por Deus. A teologia não é apenas mais uma ciência; é a "rainha das ciências", e a Igreja, e não apenas em seu sentido orgânico, mas também em seu sentido institucional, é a "noiva de Cristo." Deus se deleita em encontrar-se com sua noiva e receber a sua adoração.

Esta ênfase neopuritana no culto regular da Igreja não se encontra na mesma medida entre neocalvinistas. Um século atrás, F.M. TenHoor, um crítico contemporâneo de Abraham Kuyper, acusou que essa visão "orgânica" de Kuyper da igreja -- que Ten Hoor sustentou que tinha raízes filosóficas Romantismo Alemão -- tinha profundas implicações para a pregação e a vida da Igreja em geral, e, inevitavelmente leva a um mal-estar espiritual. Kuyper argumentou que a essência da igreja era "a igreja invisível" e que a estrutura "visível" da igreja era de importância secundária. Ela flui a partir da posição de Kuyper de que o verdadeiro trabalho da igreja ocorre durante a semana, quando o povo de Deus está ocupado em gratidão obediente servindo a Deus em suas respectivas vocações, cumprindo seus mandatos culturais. O culto de domingo, para tomar emprestada a descrição de Nicholas Wolterstorff, torna-se "uma parada para reabastecimento." Os dois entendimentos bastante diferentes por parte de neopuritanos e neocalvinistas acerca de onde a igreja "visível" e a disciplina da teologia se encaixam dentro de um quadro mais amplo precisam de mais diálogo e exploração.

O segundo tema neopuritano envolve a forma como se lida com a teologia do fim dos tempos (escatologia). Como observado anteriormente, o tema central do neocalvinismo é "a graça restaurando a natureza." Em contraste com a maioria do evangelicalismo do século 20, onde a imagem predominante de glória eterna envolve almas desencarnadas que se juntam aos anjos em um coro perpétuo, neocalvinistas enfatizam um contrapeso necessário. Para citar Wolterstorff novamente: "O relato de Gênesis permite concluir que shalom é, em grande medida, a contrapartida escatológica da criação." A ênfase é sobre o físico -- os textos bíblicos que falam de banquetes com vinho fluindo e cidades majestosas sendo apreciados. O "drama da Escritura" (para tomar emprestado o título do livro de Craig Bartolomeu e Michael Goheen) envolve uma história que se move do "Jardim" para "A Cidade", e nossa leitura da Bíblia precisa ser feita com uma lente visão de mundo que nos permite aplicar um tema "criação-queda-redenção" para toda a vida.

Estes são antídotos muito necessários e valiosos para tanto da teologia do século 20, que não faz justiça aos dados bíblicos sobre os tempos finais, nem fornece orientações para a vida na sociedade de hoje. No entanto, temo que na resposta a um desequilíbrio, haja o perigo de virar para longe demais e potencialmente cair em uma vala oposta. Parte da razão pela qual o neocalvinismo não ressoa plenamente com os de um impulso neopuritano é a sua inadequação para lidar com os dados bíblicos sobre o julgamento. No neopuritanismo, os temas bíblicos do julgamento, das disciplinas espirituais, e da guerra espiritual parecem ter uma maior ênfase. Na tendência dominante, é improvável encontrar divergência significativa entre os pressupostos escatológicos defendidos pelos neopuritanos e neocalvinistas (reconhecendo o fato de que as posições divergentes, principalmente em relação ao que se entende por milênio mencionado em Apocalipse 20:1-6, serão encontradas em ambos os campos). Ainda assim, quando se investiga o papel que desempenha a escatologia no cotidiano da igreja e de seus membros, existem diferenças significativas para ser encontradas.

Uma agenda para a Conversa

Comecei com a sugestão de que precisávamos de uma teologia pública para o nosso tempo, sugerindo implicitamente que atualmente não temos uma adequada. Na minha própria jornada, ambas as fontes neopuritana e neocalvinista têm desempenhado um papel central na formação de meu pensamento, com a consequência desconfortável de que, dependendo de quem faz a pergunta, eu geralmente me identifico como ambos, ou como nenhum dos dois A tensão, no entanto, pode ser uma coisa boa, pois nos obriga a considerar questões antigas de novas maneiras. Ela nos obriga a voltar às fontes, não contentes com respostas prontas que são proferidas.

Ambas as tradições estão vendo um ressurgimento, e esta energia recém-descoberta pode levar a conversas produtivas. Eu proporia que o enquadramento de uma nova teologia pública para o nosso tempo pode emergir de uma convergência desses dois movimentos. Essa teologia precisaria estar enraizada na doutrina ortodoxa, ter uma visão de mundo robusta o suficiente para responder às perguntas que nossos vizinhos estão fazendo, ser aplicada com uma ética de integridade, e ser vivida a partir de um espírito de peregrinação, visto que não são chamados a construir uma cidade permanente, mas buscamos aquela que há de vir (Hebreus 13:14). O neopuritanismo e neocalvinismo, e as fontes de onde eles surgem, podem dar uma contribuição valiosa para o preenchimento desse quadro.

Os seis temas que identifiquei, ainda que dificilmente forneçam a resposta completa, pelo menos, fornece o que eu espero ser uma agenda saudável para a discussão. O resultado de um diálogo entre neopuritanos e neocalvinistas, espero, vai incentivar um testemunho renovado em que o povo de Deus vive de uma maneira que proclama o senhorio de Cristo sobre toda a vida, para direcionar as pessoas a, com coração, alma, mente e força viver para a honra e para a glória de Deus.


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9 de junho de 2014

O Que Está Certo no Evangelho da Prosperidade?

Uma economia de Abundância

Em contraste com a lógica da escassez com a qual todos estamos todos muito familiarizados, o estudioso do Antigo Testamento Walter Brueggemann colocou seu dedo no pulso da economia de Deus, descrevendo-a como uma "liturgia da abundância." A economia de Deus, ele apontou, assume a abundância da criação e assim recusa a avarenta acumulação e competição geradas pelo mito da escassez. É a lógica do Faraó, sugeriu ele, que gera uma economia de medo: "Não há o suficiente. Vamos pegar tudo."1 Em contraste, Jesus veio para demonstrar uma economia pródiga e que opera maravilhas fazendo o vinho a partir da água. Nesta economia de abundância, não só há peixe e pão suficiente para dar voltas, há cestos e cestos que sobraram (João 6:11-13). O criar e re-criar extravagante quase beira o desperdício.

Não é surpreendente, então, que alguns aproveitem João 10:10 como central para o Evangelho, onde Jesus anuncia: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância."

Da Abundância à Prosperidade

Infelizmente, esta promessa de vida abundante é muitas vezes tomada por aqueles que se identificam com o "evangelho da prosperidade": um evangelho de "saúde e riqueza" associada a pessoas como Joel Osteen, da Lakewood Church em Houston, ou Creflo Dollar, da World Church Changers nos arredores de Atlanta . Você pode estar familiarizado com os seus slogans, apanhados das Escrituras:

Nada tendes, porque não pedis. Tiago 4:2

"Pedi e recebereis" (João 16:24).

Jesus veio "para que tenham vida, e vida em abundância."

Isso parece ressoar com a economia de abundância da criação. Não poderia a economia de abundância ser o que gera a prosperidade?

E ainda assim, eu estou supondo que a maioria de nós se contorceria (ou gritaria) se tivéssemos que assistir ao Trinity Broadcasting Network por qualquer quantidade de tempo prolongado. Muitos de nós iriam encolher ao ver Creflo Dollar posicionando o Cadillac Escalade ao lado de seu púlpito como "evidência" da unção. E eu suspeito que a maioria de nós ficaria desconfortável com a imagem de Joel Osteen pedindo por donativos em uma remota transmissão a partir de seu iate. De fato, é fácil detestar dar-nome-e-afirmar-isso como simplesmente ganância santificada. Estamos corretamente desconfiados de que este é apenas o lobo do consumismo em pele de cordeiro

Mas quantos de nós ainda estão muito confortáveis ​​com mais versões de um evangelho da prosperidade de "baixa qualidade" (ou de "venda suave") ? Por exemplo, quantos de nós compram uma lógica que assume que se os cristãos estão ricos, eles têm sido "abençoados" por Deus (como se a prosperidade material fosse uma espécie de magia, e não o produto de sistemas muitas vezes injustos)? Enquanto muitos de nós podemos ser rápidos para denunciar em voz alta a "heresia" do evangelho da prosperidade, estamos bastante confortáveis ​​com afirmar o bem da abundância. Mas isso não é apenas um evangelho da prosperidade sem o glamour?

O que está Certo com a Prosperidade?

Então talvez seja justo para nós perguntarmos: O que há de certo no evangelho da prosperidade? Uma das razões pelas quais é importante fazer esta pergunta é por causa da explosão do cristianismo no mundo, que é basicamente o cristianismo carismático; eo evangelho da prosperidade muitas vezes atende as espiritualidades pentecostal e carismática.

Mas aqui está a minha pergunta: será que o evangelho da prosperidade significa algo diferente na Nigéria rural do que no subúrbio de Dallas? A promessa de abundância material e econômica é recebida de forma diferente por aqueles que vivem com menos de 2 dólares por dia? O evangelho da prosperidade (por todas as suas falhas) pode ser um testemunho involuntário dos aspectos holísticos da espiritualidade pentecostal que valorizam a bondade da criação e da encarnação, um holismo que ressoa com a tradição reformada. De uma forma curiosa, o evangelho da prosperidade é uma prova da exata "mundanidade" da teologia pentecostal. Enquanto a espiritualidade pentecostal pode muitas vezes estar associada a um pietismo de "castelos no céu" e a uma espécie de escapismo em assuntos espirituais, o evangelho da prosperidade da espiritualidade pentecostal se recusa a espiritualizar a promessa de que o evangelho é "uma boa notícia para os pobres" e dá evidência de uma afirmação central de que Deus se preocupa com as nossas barrigas e com os nossos corpos. Isto significa algo muito diferente no conforto de uma mega-igreja com ar-condicionado no subúrbio de Atlanta (onde "prosperidade" sinaliza de um idólatra acumulação consumista de luxo) do que em campos de refugiados esfomeados em Ruanda . Aquele merece nossa crítica; este, eu penso, exige cuidadosa atenção.

Dois Vivas para a Prosperidade

A economia da abundância de Deus não tem espaço para celebração romântica alguma da pobreza e da falta. Mesmo se estamos corretamente preocupados com o evangelho da prosperidade, isso não deve traduzir-se em demonização simplista qualquer da abundância ou mesmo da prosperidade. Na verdade, isso me lembra a letra de uma velha canção do Everclear, "Vou comprar uma Nova Vida":

Eu odeio essas pessoas que gostam de lhe dizer,

"O dinheiro é a raiz de tudo o que mata."

Eles nunca foram pobres,

Eles nunca tiveram a alegria de uma assistência de Natal.

Sugiro que, implícito no evangelho da prosperidade e enterrado sob todas as suas perversões e distorções, está um testemunho persistente de que Deus está preocupado com as condições materiais do pobre. E a economia de Deus não apenas vislumbra alguma sobrevivência "mínima", mas uma abundância próspera e florescente. A Nova Jerusalém não é algum espaço frugal espartano, mas sim uma cidade repleta de autêntico luxo, um luxo desfrutado por todos. De forma semelhante, a ceia das bodas do Cordeiro não tem que observar a frugalidade de uma política corporativa de almoço reduzido! A abundância da criação é espelhada e expandida na nova criação. A prosperidade tem um toque bíblico para ela.

No entanto, ainda estamos à espera da Nova Jerusalém. E eu penso que podemos, com razão, estar preocupados com que o "evangelho da prosperidade" seja muitas vezes desatento a isso. Em vez disso, o evangelho da prosperidade parece ser uma espécie de "escatologia realizada", uma ênfase excessiva no "já" que esquece o "ainda não". Ele não reconhece que tal prosperidade ainda está por vir. E nesse meio tempo, ele perde as injustiças estruturais que produzem abundância para poucos Em outras palavras, o evangelho da prosperidade não consegue discernir como a riqueza é muitas vezes gerada por sistemas de exploração e opressão.

Então, como podemos responder? Por um lado, a narrativa bíblica pinta um quadro de abundância e generosidade transbordante como parte da trama e urdidura da criação de Deus. Por outro lado, em nosso mundo caído e quebrado, os profetas regularmente denunciam esses sistemas econômicos que concentram riqueza e abundância nas mãos de poucos, e muitas vezes à custa de muitos. Então, somos chamados a ser ascetas atuais que estão apenas esperando por uma abundância vindoura? Não parece que estaríamos desprezando os dons da abundância criacional de Deus?

Jejuando e Festejando

A resposta, eu sugiro, gira em torno de como habitamos o tempo. Um ascetismo intencional ou abstinência que voluntariamente escolhe abrir mão da abundância atesta a persistente injustiça dos sistemas econômicos atuais, expressando solidariedade com os pobres e recusando-se à idolatria do materialismo. Mas essa abordagem pode correr o risco de rejeitar a abundância de Deus e pode involuntariamente ser vítima de uma lógica de escassez. Por outro lado, um gozo absoluto da abundância no presente quase inevitavelmente vive da exploração dos outros e é propenso à idolatria, como Paul observa quando ele escreve: "Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria" (Colossenses 3:5). Assim, parece que estamos diante de duas opções problemáticas.

Mas não temos alternativa de pensarmos ou não sobre isso de forma dinâmica em relação ao tempo, o que é exatamente a ideia por trás das práticas antigas e medievais de "jejum e festa." O ritmo de jejum e festa chama o povo de Deus a dar testemunho de que essas duas realidades em diferentes épocas e em diferentes estações do ano: nós justamente celebramos e desfrutamos a abundância de Deus, mas também lamentamos, com razão e resistimos à injustiça e à pobreza Durante os dias ou períodos de jejum -- o que, de certa forma, deveria ser o hábito "padrão" da jornada da igreja -- dizemos "não" à abundância como um testemunho do fato de que muitos não carecem apenas de abundância mas do que é necessário só para sobreviver. Mas durante os dias e as estações de festa, temos um vislumbre da abundância do reino vindouro.

O calendário litúrgico incentiva essas espécies de ritmos. As disciplinas ascéticas do Advento e da Quaresma incentivam temporadas de negação, frugalidade e simplicidade. Durante essas épocas fazemos bem para expressar a nossa solidariedade para com os pobres e famintos e para lembrar a injustiça econômica, resistindo os luxos de nosso padrão de vida americano. Mas, durante as épocas festivas de Natal, Páscoa e Pentecostes somos incentivados a beber profundamente da abundância de Deus -- a desfrutar os frutos transbordantes de uma criação abundante.

Nós podemos fazer o mesmo em nossos próprios ritmos de semana-a-semana. Podemos considerar o jejum regularmente um dia por semana e regularmente observar um descanso sabático dos sistemas econômicos globais e dos mercados locais. Mas podemos também restaurar a festa de Domingo, e abrir nossas mesas pródigas para amigos e desconhecidos, proporcionando uma sugestão tentadora da Ceia do Cordeiro vindoura.

O Deus que se fez pobre para que nos tornássemos ricos nos convida para um modo de vida marcado pelos ritmos de jejum e festa, como uma maneira de fazer-nos com fome pela vida abundante.

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1 Walter Brueggemann, "A liturgia da abundância, o mito da escassez," Christian Century, 24-31 Março de 1999, p. 342.

Por James K.A. Smith, Professor de Filosofia, Calvin College


Fonte: http://calvinseminary.edu/forum/whats-right-with-the-prosperity-gospel/

Tradução livre: @danieldliver


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