1 de julho de 2014

Podemos esperar por um diálogo neocalvinista-neopuritano?

Revista Comment - December 1, 2008 - Ray Pennings

Forjando uma teologia pública relevante para os nossos tempos.


Parte de mim se sente boba propondo uma conversa entre "neocalvinistas" e "neopuritanos". Poucas pessoas se identificam usando um desses rótulos teológicos, e no contexto do evangelicalismo norte-americano mais amplo, as duas ênfases doutrinárias são reunidas em um únic sub-agrupamento calvinista. Para alguns em nosso tempo de falta de ênfase doutrinária, até mesmo o rótulo calvinista é visto como relevante principalmente para os seminaristas que precisam para passar nos exames, simultaneamente se perguntando: é certo gastar tanto dinheiro em um curso de estudo tão irrelevante para o meu o desejo de ministrar às pessoas na igreja?

No entanto, as questões relacionadas com essas ênfases doutrinárias não são apenas relevantes para o ministério, mas também para a vida cultural, e uma compreensão de cada uma e as maneiras que podem trabalhar em conjunto é importante. Embora possa haver características intramurais do debate neocalvinista-neopuritano que são de interesse para as pessoas de determinadas convicções teológicas, o cerne da questão trata de uma problema mais vasto que enfrentam todos aqueles que se esforçam para entender o que significa responder a seu chamado como cristãos em nossa cultura comum. Aqueles que procuram enraizar sua obediência em uma compreensão da Bíblia e do mundo que cava um pouco mais do que alguns brometos éticos ou convenientes textos-prova exigem uma teologia pública relevante para os nossos tempos.

No coração de uma proposta de conversa entre neocalvinistas e neopuritanos repousa questões de interseção. Como a fé pessoal coincide com a ação corporativa? Pode haver tensões entre o amor por Deus e meu amor ao próximo? Como praticamente se permanece "no mundo" sem ser "do mundo"?

Neopuritanismo e Neocalvinismo: Estabelecimento dos termos

Eu uso o termo "neopuritano" como um rótulo abrangente para capturar o recente ressurgimento de uma teologia e vida da igreja calvinista do tipo documentado no livro de Collin Hansen recente, Young, Restless and Reformed (Crossway: 2008). Hansen caracteriza esse fenômeno como uma redescoberta das doutrinas da soberania de Deus em particular, bem como uma redescoberta da literatura puritana em geral. Isto traz consigo "uma visão ampliada da autoridade de Deus mudando o modo como (os adeptos vêm) o evangelismo, a adoração e os relacionamentos."

O movimento neopuritano tem um impulso diferente do que aquele do neocalvinismo, que é um outro movimento testemunhando um ressurgimento em nosso tempo. Muitos neocalvinistas considerariam o movimento neopuritano como um pouco "igrejeiro" (churchy). Neocalvinistas enfatizam a vida para além da igreja. Seu Calvinismo tem uma abrangência "mudar o mundo". Ele concentra-se em todas as esferas da sociedade e coloca a restauração da criação claramente à vista. Ou, para citar o slogan líder cultural holandês do século 19 Abraham Kuyper (que tem sido usado como uma quase definição de credo resumido das neocalvinismo): "Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: 'Meu!"

Distinguir os dois movimentos ao caracterizar o neopuritanismo por seu foco sobre a soberania de Deus na salvação, e neocalvinismo pela soberania de Deus sobre a criação, contém um elemento de verdade, mas não faz justiça a nenhum dos dois movimentos. Esta divisão implica que neocalvinistas não se preocupam com a piedade pessoal, enquanto neopuritanos são indiferentes quanto à implicação do evangelho para a sociedade e suas estruturas. Farta evidência pode ser compilada para refutar convincentemente ambas as acusações. Ainda assim, enquanto ambos os movimentos afirmam verdades e apelam ás mesmas fontes em relação à aplicação de toda a gama de dados bíblicos no contexto contemporâneo, o neopuritanismo é inclinado mais para a piedade individual e avivamento da igreja, e o neocalvinismo é inclinado mais para o ativismo corporativo e a renovação cultural.

A típica conversa entre os dois campos é corre mais ou menos assim. Os neocalvinistas criticam os neopuritanos por um impulso em direção a retirada da cultura comum para o "gueto" de uma subcultura cristã ou o enclave da igreja, como um resultado do que neocalvinistas chamam de "pietismo". Os neopuritanos admitem possíveis deficiências em expressar plenamente a sua vocação bíblica de expressar a soberania de Deus no todo da vida, mas advertem que a experiência histórica mostra que essas atividades muitas vezes trazem conseqüências negativas indesejadas. Os exemplos históricos que os neopuritanos citam concentram-se na desvalorização da igreja institucional e de seus ministérios; um triunfalismo sem caridade às vezes sombreando a utopia; e a combinação de uma teologia voltada para a transformação cultural com uma ênfase menos do que a adequada sobre a santidade pessoal e o relacionamento pessoal com o Senhor.

Então, nós temos duas correntes que fluem de uma única fonte, mas em direções muito diferentes. Alguns minimizam essa diferença como uma questão de ênfase. Outros implicitamente elevam a sua corrente como uma forma mais "pura" de obediência. Meu ponto aqui é que ambos os movimentos têm algo a aprender ao considerar suas próprias correntes em relação à outra, pois dentro desta conversa estão as sementes de alguns aspectos essenciais do ensino bíblico que muitas vezes são esquecidos. Nosso tempo pede uma teologia pública bem-arredondada, a existência da qual parece em falta no mundo mais amplo da América do Norte protestante. Essa conversa expõe algumas questões importantes a serem consideradas.

Quatro Insights Neocalvinistas

O neocalvinism se organiza, para usar o argumento central de Albert Wolters em A Criação Restaurada, "em torno da visão central de que "a graça restaura a natureza" -isto é, a redenção em Jesus Cristo significa a restauração de uma boa criação original ".

Há quatro insights particulares que surgiram dentro do neocalvinismo que eu encontrei particularmente úteis e práticos na triagem das questões que me confrontaram em mais de duas décadas de ativismo na vida pública. Trata-se de ordem da criação, antítese, graça comum, e esfera de soberania.

O termo comumente usado "mandato cultural" (referindo-se a ordem de Deus para a humanidade, mencionado em Gênesis 1:28 e 2:15, para governar e cuidar do restante da criação) não pode ser adequadamente compreendido sem referência à ordem criacional. Entre os sinais vitais relevantes para o testemunho público cristão, hoje, está o sentido de "potencial" que existe na criação. Quando Deus criou o mundo, sua criação era boa ou completa. Isso significa que toda a tecnologia, cultura e progresso que foi descoberto e desenvolvido pelo homem desde o Éden é para ser entendido como algo englobado na boa criação de Deus. Quando uma nova descoberta científica é feita pelo homem devemos entender isso como parte da criação de Deus, que ele permitiu que o homem, como portador de sua imagem, descobrir e desenvolver.

A noção de ordem está ligada ao conceito de que a criação é preenchida com potencial. Embora existam distinções importantes a serem feitas entre "ordem da criação" e o conceito católico romano de "lei natural", os dois partilham muitos aspectos que se sobrepõem, e esses conceitos funcionam de forma semelhante no desenvolvimento da estrutura para a compreensão cristã do mundo e da sociedade.

O conceito de antítese é a ideia de que o pecado atravessa o coração humano, e, portanto, não se limita a condenar determinadas atividades culturais. Isso não ignora o fato de que algumas atividades podem ser espiritualmente prejudiciais, mas ele reconhece que o conceito de pecado não deve tornar-se um conceito de legalismo, onde determinadas atividades são condenados de forma grosseira, enquanto a abstenção dessas atividades de alguma forma constituem retidão. O pecado tem duas dimensões, e ambos devem ser considerados: a dimensão humana do pecado, bem como os efeitos do pecado sobre o mundo não-humano. O "gemido da criação" em Romanos 8 destaca o alcance do pecado e suas conseqüências: mesmo o solo e sua vegetação são impactados pela desobediência do homem caído. Toda atividade em que os seres humanos se envolver é afetada pela queda; o pecado é pessoal, mas também se manifesta nas diversas organizações da sociedade, incluindo aquelas que se nomeiam cristãs. Assim como uma apreciação do mandato cultural amplia a nossa visão da criação e de como Deus é glorificado por meio dela, a antítese amplia nossa compreensão da queda como algo mais do que apenas afetando a culpa pessoal diante de Deus; é uma corrupção de todos os aspectos da sua boa criação.

A graça comum é uma terceira característica do neocalvinismo que fornece informações valiosas para a vocação cristã na cultura contemporânea. Embora este conceito também tem sido alvo de alguma controvérsia, ele fornece insights importantes para a atividade social cristã. Há duas consequências da compreensão neocalvinista da graça comum que são importantes. A primeira é que a bondade da criação, particularmente quando é administrada de uma forma que está de acordo geral com os mandamentos de Deus, proporciona benefícios para os crentes e não crentes. Assim como a chuva cai sobre os justos e os injustos (Mateus 5:45), desse modo os benefícios da criação de Deus fluem para todos os homens. Em segundo lugar, não são apenas as ações dos fiéis que contribuem para estes benefícios. Porque todos os homens são feitos à imagem de Deus, os incrédulos podem ter idéias verdadeiras e realizar obras benéficas. Ainda que não sejam de um benefício salvífico (os incrédulos não podem experimentar a verdadeira shalom fora de um relacionamento com Deus, veja o Catecismo de Heidelberg, Perguntas 62 e 91), eles não deixam de ser proveitosos e podem ser usado por Deus para beneficiar o mundo inteiro, inclusive os crentes . Às vezes, Deus, na sua providência, organiza as coisas de modo que os incrédulos têm um papel importante a desempenhar, como foi o caso com Ciro e os israelitas. Esses insights, combinados com as implicações "do tipo lei natural" da ordem da criação, criam uma estrutura para uma compreensão bíblica da atividade cultural que percorre um longo caminho para a triagem através de questões tais como a extensão em que os cristãos podem trabalhar em projetos conjuntos com os infiéis , o lugar da tecnologia e pesquisa, e nossa abordagem da história e do progresso. Também nos ajuda a começar a enfrentar os desafios do pluralismo social.

A quarta característica do neocalvinismo que tem relevância significativa é o conceito de esfera de soberania. Essa é essencialmente a percepção de que há uma diferenciação dentro da criação em "diferentes esferas que possuem sua própria natureza única", e que essas naturezas são normativas. Nicholas Wolterstorff o diz muito bem: "Da mesma forma que podemos considerar o que constitui o leão bem formado, assim, de forma semelhante, podemos considerar o que constitui o estado bem-formado, a escola bem formada, a família bem formada e assim por diante. Em suma, há normas permanentes para o Estado, para a escola, e para todas as outras estruturas sociais categoricamente distintas." (Until Justice and Peace Embrace, 1983, página 58)

Em contraste com as perspectivas sociais e políticas do individualismo moderno e do estatismo, ambas enraizadas numa concepção iluminista/Revolução Francesa de direitos individuais e de contrato social, uma visão bíblica da sociedade vai além do indivíduo e do Estado. Discurso político norte-americano contemporânea pode ser considerada como o giro de uma única moeda de duas faces. De um lado, temos os direitos individuais e os mercados livres, enquanto do outro lado, nós temos o poder do Estado como um engenheiro social. Seja qual for o lado que a moeda repousa, o discurso político procede de uma autonomamente humana visão de autoridade. Estruturas sociais intermediárias, como as famílias, igrejas, empresas e escolas têm apenas status secundário ou derivado. A maior parte do ativismo cristão, tanto á esquerda como à direita, se aproxima da vida pública ao aceitar essa estrutura.

A esfera de soberania, por outro lado, oferece uma estrutura alternativa para a compreensão da sociedade. Ela fornece uma base teórica que melhor reconhece a realidade da arquitetura social que os norte-americanos tomam por certo e melhor capacita os cristãos para o engajamento em questões importantes do dia.

Dois Insights Neopuritanos

É evidente a partir do exposto que o neocalvinismo fornece insights importantes que são relevantes para os nossos tempos e ajudam muito no desenvolvimento de uma teologia pública que é profundamente bíblica. Ao lamentar O Escândalo da Mentalidade Evangélica em 1994, Mark Noll salienta a contribuição dos neocalvinistas como um "tônica -- ousada ao confessar a fé cristã histórica, especialista no exercício da argumentação filosófica sofisticada, e de longo alcance na proposição de novas teorias" É também um movimento diverso que está sofrendo reavaliação auto-crítica. Então, se o neocalvinismo tem todas essas ideias e respostas, por que é ainda relativamente desconhecido na conversa norte-americana mais ampla?

Não há uma resposta fácil ou simples. Muitas das explicações históricas estão embaraçadas por polêmicas interdenominacionais reformadas, e seria muito limitado nos concentrar nas raízes históricas idiosincraticamente holandeses deste debate. Em vez disso, deixe-me destacar duas características do neopuritanismo norte-americana que poderiam parcialmente explicar o que se encontra deficiente em grande parte dos escritos neocalvinistas, usando-o como um trampolim para propor uma agenda para uma possível conversa entre os dois movimentos.

O primeiro tema neopuritano é uma visão muito alta da igreja como instituição. Reconhecendo que algumas das "explosões de energia" para o ressurgimento do neopuritanismo vieram de movimentos paraeclesiásticos (por exemplo, conferências como o evento Passion anual, ou ministérios de recursos como Desiring God de John Piper ou Ligonier Ministries de R. C. Sproul), no entanto, a pulsação do neopuritanismo é uma visão elevada do culto e da igreja local. A linha de abertura do Catecismo de Westminster -- "O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", serve como o slogan unificador, e há uma ênfase na experiência pessoal e na adoração corporativa que anima a vida espiritual. Culto semanal em que a exposição e o ensino bíblico são centrais caracteriza este movimento diverso, assim como a forma de adoração que é muito variável. Um culto liderado por C. J. Mahaney na Covenant Life Church vai parecer quase Pentecostal em comparação com a pregação mais tradicional da Palavra e serviço de música, com coro e orquestra, na Grace Community Church liderada por John MacArthur, que contrasta novamente com o culto com cantos dos salmos conduzidos pelo ministro que se poderia encontrar na Heritage Reformed Service, no qual Joel Beeke pode estar no púlpito. No entanto, apesar de suas diferenças, essas igrejas consideram que a Igreja institucional, o serviço de adoração, e os ofícios da igreja têm funções específicas na ordem dada por Deus. A teologia não é apenas mais uma ciência; é a "rainha das ciências", e a Igreja, e não apenas em seu sentido orgânico, mas também em seu sentido institucional, é a "noiva de Cristo." Deus se deleita em encontrar-se com sua noiva e receber a sua adoração.

Esta ênfase neopuritana no culto regular da Igreja não se encontra na mesma medida entre neocalvinistas. Um século atrás, F.M. TenHoor, um crítico contemporâneo de Abraham Kuyper, acusou que essa visão "orgânica" de Kuyper da igreja -- que Ten Hoor sustentou que tinha raízes filosóficas Romantismo Alemão -- tinha profundas implicações para a pregação e a vida da Igreja em geral, e, inevitavelmente leva a um mal-estar espiritual. Kuyper argumentou que a essência da igreja era "a igreja invisível" e que a estrutura "visível" da igreja era de importância secundária. Ela flui a partir da posição de Kuyper de que o verdadeiro trabalho da igreja ocorre durante a semana, quando o povo de Deus está ocupado em gratidão obediente servindo a Deus em suas respectivas vocações, cumprindo seus mandatos culturais. O culto de domingo, para tomar emprestada a descrição de Nicholas Wolterstorff, torna-se "uma parada para reabastecimento." Os dois entendimentos bastante diferentes por parte de neopuritanos e neocalvinistas acerca de onde a igreja "visível" e a disciplina da teologia se encaixam dentro de um quadro mais amplo precisam de mais diálogo e exploração.

O segundo tema neopuritano envolve a forma como se lida com a teologia do fim dos tempos (escatologia). Como observado anteriormente, o tema central do neocalvinismo é "a graça restaurando a natureza." Em contraste com a maioria do evangelicalismo do século 20, onde a imagem predominante de glória eterna envolve almas desencarnadas que se juntam aos anjos em um coro perpétuo, neocalvinistas enfatizam um contrapeso necessário. Para citar Wolterstorff novamente: "O relato de Gênesis permite concluir que shalom é, em grande medida, a contrapartida escatológica da criação." A ênfase é sobre o físico -- os textos bíblicos que falam de banquetes com vinho fluindo e cidades majestosas sendo apreciados. O "drama da Escritura" (para tomar emprestado o título do livro de Craig Bartolomeu e Michael Goheen) envolve uma história que se move do "Jardim" para "A Cidade", e nossa leitura da Bíblia precisa ser feita com uma lente visão de mundo que nos permite aplicar um tema "criação-queda-redenção" para toda a vida.

Estes são antídotos muito necessários e valiosos para tanto da teologia do século 20, que não faz justiça aos dados bíblicos sobre os tempos finais, nem fornece orientações para a vida na sociedade de hoje. No entanto, temo que na resposta a um desequilíbrio, haja o perigo de virar para longe demais e potencialmente cair em uma vala oposta. Parte da razão pela qual o neocalvinismo não ressoa plenamente com os de um impulso neopuritano é a sua inadequação para lidar com os dados bíblicos sobre o julgamento. No neopuritanismo, os temas bíblicos do julgamento, das disciplinas espirituais, e da guerra espiritual parecem ter uma maior ênfase. Na tendência dominante, é improvável encontrar divergência significativa entre os pressupostos escatológicos defendidos pelos neopuritanos e neocalvinistas (reconhecendo o fato de que as posições divergentes, principalmente em relação ao que se entende por milênio mencionado em Apocalipse 20:1-6, serão encontradas em ambos os campos). Ainda assim, quando se investiga o papel que desempenha a escatologia no cotidiano da igreja e de seus membros, existem diferenças significativas para ser encontradas.

Uma agenda para a Conversa

Comecei com a sugestão de que precisávamos de uma teologia pública para o nosso tempo, sugerindo implicitamente que atualmente não temos uma adequada. Na minha própria jornada, ambas as fontes neopuritana e neocalvinista têm desempenhado um papel central na formação de meu pensamento, com a consequência desconfortável de que, dependendo de quem faz a pergunta, eu geralmente me identifico como ambos, ou como nenhum dos dois A tensão, no entanto, pode ser uma coisa boa, pois nos obriga a considerar questões antigas de novas maneiras. Ela nos obriga a voltar às fontes, não contentes com respostas prontas que são proferidas.

Ambas as tradições estão vendo um ressurgimento, e esta energia recém-descoberta pode levar a conversas produtivas. Eu proporia que o enquadramento de uma nova teologia pública para o nosso tempo pode emergir de uma convergência desses dois movimentos. Essa teologia precisaria estar enraizada na doutrina ortodoxa, ter uma visão de mundo robusta o suficiente para responder às perguntas que nossos vizinhos estão fazendo, ser aplicada com uma ética de integridade, e ser vivida a partir de um espírito de peregrinação, visto que não são chamados a construir uma cidade permanente, mas buscamos aquela que há de vir (Hebreus 13:14). O neopuritanismo e neocalvinismo, e as fontes de onde eles surgem, podem dar uma contribuição valiosa para o preenchimento desse quadro.

Os seis temas que identifiquei, ainda que dificilmente forneçam a resposta completa, pelo menos, fornece o que eu espero ser uma agenda saudável para a discussão. O resultado de um diálogo entre neopuritanos e neocalvinistas, espero, vai incentivar um testemunho renovado em que o povo de Deus vive de uma maneira que proclama o senhorio de Cristo sobre toda a vida, para direcionar as pessoas a, com coração, alma, mente e força viver para a honra e para a glória de Deus.


Copyright © 1974-2014 Cardus. Todos os direitos reservados.


9 de junho de 2014

O Que Está Certo no Evangelho da Prosperidade?

Uma economia de Abundância

Em contraste com a lógica da escassez com a qual todos estamos todos muito familiarizados, o estudioso do Antigo Testamento Walter Brueggemann colocou seu dedo no pulso da economia de Deus, descrevendo-a como uma "liturgia da abundância." A economia de Deus, ele apontou, assume a abundância da criação e assim recusa a avarenta acumulação e competição geradas pelo mito da escassez. É a lógica do Faraó, sugeriu ele, que gera uma economia de medo: "Não há o suficiente. Vamos pegar tudo."1 Em contraste, Jesus veio para demonstrar uma economia pródiga e que opera maravilhas fazendo o vinho a partir da água. Nesta economia de abundância, não só há peixe e pão suficiente para dar voltas, há cestos e cestos que sobraram (João 6:11-13). O criar e re-criar extravagante quase beira o desperdício.

Não é surpreendente, então, que alguns aproveitem João 10:10 como central para o Evangelho, onde Jesus anuncia: "Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância."

Da Abundância à Prosperidade

Infelizmente, esta promessa de vida abundante é muitas vezes tomada por aqueles que se identificam com o "evangelho da prosperidade": um evangelho de "saúde e riqueza" associada a pessoas como Joel Osteen, da Lakewood Church em Houston, ou Creflo Dollar, da World Church Changers nos arredores de Atlanta . Você pode estar familiarizado com os seus slogans, apanhados das Escrituras:

Nada tendes, porque não pedis. Tiago 4:2

"Pedi e recebereis" (João 16:24).

Jesus veio "para que tenham vida, e vida em abundância."

Isso parece ressoar com a economia de abundância da criação. Não poderia a economia de abundância ser o que gera a prosperidade?

E ainda assim, eu estou supondo que a maioria de nós se contorceria (ou gritaria) se tivéssemos que assistir ao Trinity Broadcasting Network por qualquer quantidade de tempo prolongado. Muitos de nós iriam encolher ao ver Creflo Dollar posicionando o Cadillac Escalade ao lado de seu púlpito como "evidência" da unção. E eu suspeito que a maioria de nós ficaria desconfortável com a imagem de Joel Osteen pedindo por donativos em uma remota transmissão a partir de seu iate. De fato, é fácil detestar dar-nome-e-afirmar-isso como simplesmente ganância santificada. Estamos corretamente desconfiados de que este é apenas o lobo do consumismo em pele de cordeiro

Mas quantos de nós ainda estão muito confortáveis ​​com mais versões de um evangelho da prosperidade de "baixa qualidade" (ou de "venda suave") ? Por exemplo, quantos de nós compram uma lógica que assume que se os cristãos estão ricos, eles têm sido "abençoados" por Deus (como se a prosperidade material fosse uma espécie de magia, e não o produto de sistemas muitas vezes injustos)? Enquanto muitos de nós podemos ser rápidos para denunciar em voz alta a "heresia" do evangelho da prosperidade, estamos bastante confortáveis ​​com afirmar o bem da abundância. Mas isso não é apenas um evangelho da prosperidade sem o glamour?

O que está Certo com a Prosperidade?

Então talvez seja justo para nós perguntarmos: O que há de certo no evangelho da prosperidade? Uma das razões pelas quais é importante fazer esta pergunta é por causa da explosão do cristianismo no mundo, que é basicamente o cristianismo carismático; eo evangelho da prosperidade muitas vezes atende as espiritualidades pentecostal e carismática.

Mas aqui está a minha pergunta: será que o evangelho da prosperidade significa algo diferente na Nigéria rural do que no subúrbio de Dallas? A promessa de abundância material e econômica é recebida de forma diferente por aqueles que vivem com menos de 2 dólares por dia? O evangelho da prosperidade (por todas as suas falhas) pode ser um testemunho involuntário dos aspectos holísticos da espiritualidade pentecostal que valorizam a bondade da criação e da encarnação, um holismo que ressoa com a tradição reformada. De uma forma curiosa, o evangelho da prosperidade é uma prova da exata "mundanidade" da teologia pentecostal. Enquanto a espiritualidade pentecostal pode muitas vezes estar associada a um pietismo de "castelos no céu" e a uma espécie de escapismo em assuntos espirituais, o evangelho da prosperidade da espiritualidade pentecostal se recusa a espiritualizar a promessa de que o evangelho é "uma boa notícia para os pobres" e dá evidência de uma afirmação central de que Deus se preocupa com as nossas barrigas e com os nossos corpos. Isto significa algo muito diferente no conforto de uma mega-igreja com ar-condicionado no subúrbio de Atlanta (onde "prosperidade" sinaliza de um idólatra acumulação consumista de luxo) do que em campos de refugiados esfomeados em Ruanda . Aquele merece nossa crítica; este, eu penso, exige cuidadosa atenção.

Dois Vivas para a Prosperidade

A economia da abundância de Deus não tem espaço para celebração romântica alguma da pobreza e da falta. Mesmo se estamos corretamente preocupados com o evangelho da prosperidade, isso não deve traduzir-se em demonização simplista qualquer da abundância ou mesmo da prosperidade. Na verdade, isso me lembra a letra de uma velha canção do Everclear, "Vou comprar uma Nova Vida":

Eu odeio essas pessoas que gostam de lhe dizer,

"O dinheiro é a raiz de tudo o que mata."

Eles nunca foram pobres,

Eles nunca tiveram a alegria de uma assistência de Natal.

Sugiro que, implícito no evangelho da prosperidade e enterrado sob todas as suas perversões e distorções, está um testemunho persistente de que Deus está preocupado com as condições materiais do pobre. E a economia de Deus não apenas vislumbra alguma sobrevivência "mínima", mas uma abundância próspera e florescente. A Nova Jerusalém não é algum espaço frugal espartano, mas sim uma cidade repleta de autêntico luxo, um luxo desfrutado por todos. De forma semelhante, a ceia das bodas do Cordeiro não tem que observar a frugalidade de uma política corporativa de almoço reduzido! A abundância da criação é espelhada e expandida na nova criação. A prosperidade tem um toque bíblico para ela.

No entanto, ainda estamos à espera da Nova Jerusalém. E eu penso que podemos, com razão, estar preocupados com que o "evangelho da prosperidade" seja muitas vezes desatento a isso. Em vez disso, o evangelho da prosperidade parece ser uma espécie de "escatologia realizada", uma ênfase excessiva no "já" que esquece o "ainda não". Ele não reconhece que tal prosperidade ainda está por vir. E nesse meio tempo, ele perde as injustiças estruturais que produzem abundância para poucos Em outras palavras, o evangelho da prosperidade não consegue discernir como a riqueza é muitas vezes gerada por sistemas de exploração e opressão.

Então, como podemos responder? Por um lado, a narrativa bíblica pinta um quadro de abundância e generosidade transbordante como parte da trama e urdidura da criação de Deus. Por outro lado, em nosso mundo caído e quebrado, os profetas regularmente denunciam esses sistemas econômicos que concentram riqueza e abundância nas mãos de poucos, e muitas vezes à custa de muitos. Então, somos chamados a ser ascetas atuais que estão apenas esperando por uma abundância vindoura? Não parece que estaríamos desprezando os dons da abundância criacional de Deus?

Jejuando e Festejando

A resposta, eu sugiro, gira em torno de como habitamos o tempo. Um ascetismo intencional ou abstinência que voluntariamente escolhe abrir mão da abundância atesta a persistente injustiça dos sistemas econômicos atuais, expressando solidariedade com os pobres e recusando-se à idolatria do materialismo. Mas essa abordagem pode correr o risco de rejeitar a abundância de Deus e pode involuntariamente ser vítima de uma lógica de escassez. Por outro lado, um gozo absoluto da abundância no presente quase inevitavelmente vive da exploração dos outros e é propenso à idolatria, como Paul observa quando ele escreve: "Assim, façam morrer tudo o que pertence à natureza terrena de vocês: imoralidade sexual, impureza, paixão, desejos maus e a ganância, que é idolatria" (Colossenses 3:5). Assim, parece que estamos diante de duas opções problemáticas.

Mas não temos alternativa de pensarmos ou não sobre isso de forma dinâmica em relação ao tempo, o que é exatamente a ideia por trás das práticas antigas e medievais de "jejum e festa." O ritmo de jejum e festa chama o povo de Deus a dar testemunho de que essas duas realidades em diferentes épocas e em diferentes estações do ano: nós justamente celebramos e desfrutamos a abundância de Deus, mas também lamentamos, com razão e resistimos à injustiça e à pobreza Durante os dias ou períodos de jejum -- o que, de certa forma, deveria ser o hábito "padrão" da jornada da igreja -- dizemos "não" à abundância como um testemunho do fato de que muitos não carecem apenas de abundância mas do que é necessário só para sobreviver. Mas durante os dias e as estações de festa, temos um vislumbre da abundância do reino vindouro.

O calendário litúrgico incentiva essas espécies de ritmos. As disciplinas ascéticas do Advento e da Quaresma incentivam temporadas de negação, frugalidade e simplicidade. Durante essas épocas fazemos bem para expressar a nossa solidariedade para com os pobres e famintos e para lembrar a injustiça econômica, resistindo os luxos de nosso padrão de vida americano. Mas, durante as épocas festivas de Natal, Páscoa e Pentecostes somos incentivados a beber profundamente da abundância de Deus -- a desfrutar os frutos transbordantes de uma criação abundante.

Nós podemos fazer o mesmo em nossos próprios ritmos de semana-a-semana. Podemos considerar o jejum regularmente um dia por semana e regularmente observar um descanso sabático dos sistemas econômicos globais e dos mercados locais. Mas podemos também restaurar a festa de Domingo, e abrir nossas mesas pródigas para amigos e desconhecidos, proporcionando uma sugestão tentadora da Ceia do Cordeiro vindoura.

O Deus que se fez pobre para que nos tornássemos ricos nos convida para um modo de vida marcado pelos ritmos de jejum e festa, como uma maneira de fazer-nos com fome pela vida abundante.

----------------------------------------------------------------------------------------------------------

1 Walter Brueggemann, "A liturgia da abundância, o mito da escassez," Christian Century, 24-31 Março de 1999, p. 342.

Por James K.A. Smith, Professor de Filosofia, Calvin College


Fonte: http://calvinseminary.edu/forum/whats-right-with-the-prosperity-gospel/

Tradução livre: @danieldliver


-

25 de maio de 2014

Céu e Terra - The Bible Project



>> Tim:: So, in the bible the ideas of Heaven and Earth are ways of talking about God’s space and our space.


>> Jon: So I understand our space really well. We live here. There are trees, rivers, mountains. But my understanding of God’s space gets a little fuzzy.


>> Tim:: And what we do get in the bible are images, trying to help us grasp God’s space, which is basically inconceivable to us.


>> Jon: So these are two very different types of spaces.


>> Tim: Yes, they’re different in their nature, but here’s what is really interesting. It’s that in the Bible these are not always separate spaces. So think of Heaven and Earth as different dimensions that can overlap in the same exact space.


>> Jon: So we talk a lot about going to heaven after we die, but this idea of Heaven and Earth overlapping, we don’t talk a lot about that.


>> Tim: Which is kinda crazy because the union of Heaven and Earth is what the story of the Bible is all about, how they were once fully united, and then driven apart, and about how God is bringing them back together again.


>> Jon: So let’s go back to the beginning. Where Heaven and Earth there completely overlapping?


>> Tim: Yeah, this is what the Bible’s description of the Garden of Eden is all about. It’s a place where God and Humanity dwelt together perfectly, no separation, and humans then partner with God in building a flourishing beautiful world and so on.


>> Jon: But as humans we wanted to do things a different way. We wanted God out and we wanted to create a world apart from Him/


>> Tim: Yeah so we have these two spaces now and the Bible actually uses lots of different kinds of words and phrases to refer to these two spaces to make a clear distinction.
>> Jon: So you’ve said that these spaces can overlap though, so explain how that works.


>> Tim: This is where we have to start talking about temples, because in the biblical world you experience God’s presence by going to a temple. That’s where Heaven and Earth overlap.


>> Jon: Now there’s two types of temples described in the Bible. One is a tabernacle, basically a tent that was built by Moses. And the other was this massive building made by Solomon.


>> Tim: And these temples were decorated with fruit trees and flowers and images of angels and all kinds of gold and jewels and so on. And these are designed to make you feel like you’re going back to the garden. And at the center of the temple was a place called the holy of holies, which was like the hotspot of God’s presence.


>> Jon: Now we can go and be with God again.


>> Tim: But not so fast, because the temple also creates a problem. So God’s space is full of His presence and goodness and justice and beauty, but human’s space is full of sin and injustice and ugliness that results.


>> Jon: So how do these spaces overlap if they’re so different and they’re in conflict with each other?


>> Tim: This was resolved through animal sacrifice.


>> Jon: Yeah that’s kinda weird. What do animal sacrifices have to do with this?


>> Tim: Yeah the idea is this: animal sacrifices, somehow they absorb the sin when the animal dies in your place and it creates a clean space, so to speak, where you are now free to enter into the temple and be in God’s presence.


>> Jon: Ok so if I’m an Israelite and I live in Jerusalem, I might be able to be in God’s presence, but you said the story of the Bible is all of Heaven and Earth reuniting?


>> Tim: Right, so we have to keep going in the story where we come to Jesus in the New Testament. And in the Gospel of John, we hear this claim that God became human in Jesus and made his dwelling among us. The word “dwelling” is really curious. It literally means he set up a tabernacle among us. So what John is claiming right here is that Jesus is a temple. He is now the place where Heaven and Earth overlap.


>> Jon: What’s interesting about Jesus is that He isn’t staying this safe, clean space. He’s running around hanging out with sinners. He’s healing people of their sicknesses, and forgiving people of their sins.


>> Tim: He’s basically creating little pockets of Heaven where people can be in God’s presence, but He’s doing it out there in the middle of the world of sin and death.


>> Jon: And He keeps telling everyone that the Kingdom of Heaven is at hand.


>> Tim: And He even told his followers to pray regularly that God’s kingdom come and His will be done here on Earth just as it is in Heaven.


>> Jon: But a lot of people are threatened by Jesus and they kill Him, which seems to spoil this whole plan to reunite Heaven and Earth.


>> Tim: But, we have to go back to a scene earlier in Jesus’ story where John the Baptist saw Jesus and said, “Behold this is the Lamb of God who takes away the sin of the world!”


>> Jon: So Jesus isn’t just talked about as being a temple, He’s also talked about as being the temple sacrifice.


>> Tim: Yeah so the cross is now the place where Jesus absorbs sin to create a clean space that is not limited like animal sacrifices. Jesus’ sacrifice has the power to keep spreading and spreading and reuniting more and more of Heaven and Earth.


>> Jon: This is all really great but it leaves one big question in my mind, which is what happens when I die? Don’t I just fly over to God’s space and be with Jesus?


>> Tim: Yeah so a few times in the New Testament we learn that Christians will be with Jesus in Heaven after they die,  but that is not the focus of the Bible’s story. The focus is on how Heaven and Earth are being reunited through Jesus and will be completely brought together one day when He returns. In the book of Revelation we get this beautiful image of the garden of Eden, now in the form of a city, coming to end the age of sin and death by redeeming all of human history in a renewed creation and God’s space and Human’s space completely overlap once again.

13 de maio de 2014

Como (Não) Ser Mundano: Rastreando as Fronteiras da "Cidade Terrena"


O que a frase antiga pode ensinar aos cristãos de hoje sobre as nossas tentativas de transformação cultural.

James K. A. Smith*
8.23.12


Muitas vezes eu espero que meu escritório seja assombrado. Veja, eu ocupo um canto humilde de um espaço de um bloco de concreto, com uma pequena porção de janela, que já foi o lar de um dos meus modelos: Rich Mouw. Antigo presidente do Seminário Teológico Fuller, Rich deixou sua marca no pensamento social evangélico enquanto ensinava filosofia no Calvin College. Foi durante esse tempo que ele escreveu uma série de pequenos livros que não apenas mudaram a minha mente; eles redirecionaram a forma de engajamento cultural evangélico americano. Assim, você pode ver porque meio que espero que meu escritório seja -- bem, se não assombrado, talvez encantado. Eu continuo esperando que algo da paixão e da sabedoria de Rich possa infiltrar-se em mim enquanto eu habito o mesmo espaço, um herdeiro de seu pensamento e em dívida para com o seu exemplo.


Em livros como Political Evangelism (1973) e When the Kings Come Marching In (1983) Mouw desafiou o outro-mundanismo apolítico dos evangélicos por persistentemente apontar para dois temas nas Escrituras: (1) a afirmação do "mui-bondade" da criação de Deus (Gn 1:31), incluindo a colocação de seres humanos para realizar o trabalho cultural neste mundo, e (2) a visão bíblica da shalom como a nossa verdadeira esperança escatológica, uma criação renovada e restaurada e florescente de acordo com os desejos de Deus. Do início ao fim, Mouw enfatizou, a Bíblia nos exorta a participar da missão de renovar todas as coisas de Deus (Colossenses 1:15-19). Então, como ele provocativamente colocou em seu livro de 1980, ao invés de olhar para a fuga divina eclodindo para fora deste mundo, somos Chamados a um Mundanismo Santo.


Se essa frase lhe dá uma pausa, você não está sozinho. Não é o mundanismo uma coisa ruim? Não devemos resistir ao mundo (conforme Tiago 4:4-5)? Não está o "mundo inteiro" sob o domínio do maligno (1 João 5:19)? Aqui nós batemos em cima da multivalência da linguagem bíblica. As Escrituras tanto pode proclamar em voz alta que "Deus amou o mundo" e que devemos "Não amar o mundo" (1 João 2:15). Contexto é tudo aqui. Como Mouw qualificou, o que apraz a Deus é um mundanismo santo -- um investimento devidamente ordenado na criação de Deus, tendo em vista promover o seu florescimento. É um "mundanismo" no sentido em que não é "de outro mundo", e é santo na medida em que incentiva a vida mundana, doméstica e cultural vivida sob o senhorio de Cristo.


Na mesma linha - de fato, como um sinônimo para o ponto de Mouw - algumas vezes você ouve as pessoas sugerir que os cristãos deveriam estar investidos na "cidade terrena", ou que somos simultaneamente cidadãos de ambas as cidades, a celestial e a terrena. Como o chamado de Mouw à "santa mundanidade", estas afirmações da "cidade terrena" são corretamente destinadas a deslocar nossa persistente outra-mundanidade -- levando-nos a ver que Deus não está interessado apenas em salvar almas da cidade, mas deseja ver o florescimento da cidade.


A invocação e a afirmação da "cidade terrestre" destina-se a refletir a robusta teologia da Escritura da criação e afirmar a nossa vida encarnada, material, social e cultural. Isso é teologia bíblica sólida e um corretivo muito necessário para nossos caminhos de outro-mundo. No entanto, porque a história do termo significa algo diferente, falar sobre a "cidade terrena" desta forma pode ser confuso.


A expressão "cidade terrena" é antiga, mas você não vai encontrá-la nas Escrituras. (Isso não é um problema em si; nem a palavra Trindade está na Bíblia) A frase vem até nós a partir de magistral obra de crítica cultural de Agostinho, a Cidade de Deus (civitas Dei, concluída por volta de 427 d.C.). Neste trabalho, Agostinho distingue a "Cidade de Deus" do que ele variadamente descreve como "a cidade deste mundo", a "cidade terrena", e a Cidade do Homem. Estas duas cidades ou sociedades ou "povos" são marcados por padrões pelos quais eles vivem: a cidade terrena vive pelo padrão da carne, enquanto que a Cidade de Deus vive pelo Espírito (14,1-4). O que em última análise, distingue as duas são seus amores: "Vemos, então, que as duas cidades foram criados por dois tipos de amor: a cidade terrena foi criada pelo amor-próprio chegando ao ponto do desprezo de Deus; a Cidade Celestial pelo amor de Deus realizado, bem como o desprezo de si mesmo" (14.28).


Para Agostinho, então, a cidade terrena começa com a Queda, e não com a Criação. A cidade terrena não é coincidente com a criação; ela se origina com o pecado. É por isso que Santo Agostinho define a Cidade de Deus em oposição à cidade terrena: elas são definidas e animadas por fundamentalmente diferentes amores. Assim, a cidade terrena não deve ser confundida com a cidade meramente "temporal" ou o mundo material. Não é idêntica ao território da criação; ao contrário, para Agostinho, a cidade terrena é uma configuração sistêmica -- e desordenada -- da vida criatural. No entanto, isso não significa que Agostinho cede a vida material, cultural, criatural inteiramente ao maligno. A Cidade de Deus não se trata apenas do que é de outro mundo: a Cidade de Deus é aquela "sociedade" de pessoas -- aquela civitas -- que são chamadas a encarnar uma antecipação da vida social e cultural que Deus deseja para este mundo.


Agostinho não invoca a cidade terrena a fim de motivar os cristãos a se preocuparem com a vida cultural deste-mundo. Sua teologia da criação já faz isso. A análise da cidade terrena é, ao invés, uma advertência, premindo os cristãos a reconhecerem que os sistemas culturais são muitas vezes fundamentalmente des-ordenados, necessitando tanto de resistência quanto de reordenação pelo labor cristão em todas as correntes da cultura. E como podemos ver a partir de suas cartas, Agostinho se envolveu nesse trabalho. Lá você encontrará o bispo investido nas realidades concretas da vida política e cívica.


Agostinho não usa o termo "cidade terrena" para dividir a realidade em uma segunda história "celeste" e um primeiro andar "terreno". Não, tanto a cidade terrena quanto a cidade de Deus são visões rivais de céu e terra. Assim, a "cidade terrena" é mais como Babilônia do que como o Jardim. Mas mesmo essa antítese fundamental não nos dá permissão para recuar em estreitos círculos santos ou para simplesmente castigar a cidade terrena.


Não, como Jeremias aconselha, como cidadãos da Cidade de Deus que nos encontramos exilados na cidade terrena (no sentido técnico de Agostinho) somos chamados a "buscar o bem-estar da cidade", precisamente porque somos chamados a cultivar a criação. Vamos buscar o bem-estar da cidade terrena, procurando anexá-la à Cidade de Deus, assim reordenando a vida da criatura para o shalom.


_____________
James K. A. Smith é professor de filosofia em Calvin College, em Grand Rapids, Michigan.

Tradução Livre: @danieldliver

30 de abril de 2014

Tradição Para a Inovação




O evangelicalismo na América do Norte hoje é um assunto vibrante e animado, repleto de inovação e atividade. De um lado a outro dos Estados Unidos e do Canadá, os evangélicos estão avançando como nunca antes para ajudar a restaurar um mundo quebrado.

Ao mesmo tempo, de acordo com seu espírito empreendedor histórico, os evangélicos estão constantemente criando e cindindo maneiras novas e diferentes de fazer igreja.

Muitas vezes se sobrepondo, essas duas tendências, à primeira vista, podem parecer surgir a partir do mesmo espírito inovador, dois desenvolvimentos interligados e complementares, trabalhando juntos para o bem da igreja.

De fato, no entanto, não se trata de tendências complementares, mas de trajetórias concorrentes, em desacordo uma com a outra. Embora possa não ser intencionado, as últimas trabalham inevitavelmente para minar as primeiras. Em suma, não podemos esperar restaurar o mundo se estamos constantemente reinventando a igreja; o árduo trabalho de inovação requer fundamentação em uma tradição.

Antes que eu explique, apenas considere os sinais dessas tendências que estão ao nosso redor.

Em todo o continente, um número crescente de evangélicos hoje estão capturando uma visão para o que Andy Crouch chama de "fazer cultural". Livres de um foco histórico em escatologias escapistas, eles estão avidamente envolvidos na produção cultural de maneira que visem shalom e contribuam para o bem comum.

Como Gabe Lyons documenta em "The Next Christians", esses evangélicos estão trazendo uma piedade ativista para áreas que vão desde política e tecnologia até moda e arte. Jovens evangélicos são enérgicos empreendedores sociais interessados ​​em criatividade, invenção e inovação muito além da esfera restrita da igreja.

Eles também são intensamente interessados ​​em abordar questões de justiça, opressão e desordem social. Eles querem "restaurar" um mundo quebrado; eles querem tanto renovar o mundo quanto colocar o mundo em ordem. (Espero que muitos cristãos mainline sejam incentivados a vê-las finalmente entrando no movimento.

Enquanto isso, o evangelicalismo continua a ser um foco de quase irrestrita inovação religiosa, notavelmente ágil e competitivo no dinâmico "mercado" da espiritualidade contemporânea (um mercado religioso que é tão antigo quanto as colônias americanas).

A independência empreendedora da espiritualidade evangélica dá espaço para todos os tipos de startups congregacionais que requerem pouco ou nenhum apoio institucional. Atendendo ao "nicho" de um público cada vez mais especializado, essas startups não estão subordinadas a formas litúrgicas ou a legados institucionais. De fato, muitos anunciam orgulhosamente o seu desejo de "reinventar a igreja."

Claramente, o labor cultural de restauração requer inovação criativa. "Fazer cultura" requer que imaginemos o mundo diferente de como ele é -- o que significa ver através das histórias status quo que nos foram ditadas e, em vez disso, visualizar o reino que vem. Sim, precisamos de nova energia, novas estratégias, novas iniciativas, novas organizações, e até mesmo novas instituições.

Mas, se esperamos colocar o mundo em ordem, precisamos pensar diferente e agir de forma diferente e construir instituições que promovam tal ação.

Se o nosso trabalho cultural vai ser restaurador -- se vai endireitar o mundo -- então precisamos de imaginações que tenham sido moldadas por uma visão de como as coisas deveriam ser. Nossa inovação e invenção e criatividade terão de ser banhadas em uma visão escatológica do para que o mundo é feito, o que ele é chamado a ser -- o que os profetas muitas vezes descreveram como shalom. A inovação para a justiça e shalom exige que sejamos regularmente imersos na história de Deus conciliando todas as coisas consigo mesmo.

Essa imersão acontece mais poderosamente no culto -- em formas intencionais, históricas e litúrgicas que "carregam" a história cristã de maneira que penetram em nossos ossos e tornam-se parte de nós. É por isso que a "reinvenção" irrestrita e indisciplinada da igreja na verdade enfraquece nossa capacidade de realizar a elaboração cultural inovadora e restauradora. A história não pode moldar-nos, não pode tornar-se parte de nós, em uma igreja que está constantemente se reinventando.

Em seu ensaio "The Science of Design", Herbert Simon, um dos ícones da teoria do design, escreveu: "Todo mundo projeta quem elabora cursos de ação que se propõem a mudar as situações existentes para as preferidas. Se Simon estiver correto, então o evangelho, eu diria, é um projeto de "design", e o culto cristão, um estúdio de design.

A missão da igreja, para tomar emprestado de Simon, é enviar inovadores e criadores cujas ações sejam "destinadas a transformar as situações existentes nas preferidas." Para fazer esse trabalho, os inovadores, os restauradores, os criadores e designers precisam que a igreja seja uma estação de imaginação, um espaço onde podemos voltar a habituar à nossa imaginação a "verdadeira história do mundo inteiro." Nossa imaginação precisa ser restaurada, recalibrada e realinhada por estar imersa na história de Deus em Cristo reconciliando consigo o mundo.

Isso é o que o culto cristão intencional e histórico faz. É na adoração que nós aprendemos o que Deus "prefere" para o mundo, dando direção ao nosso projeto. Precisamos de pastores e sacerdotes e líderes de louvor que entendem e apreciam que o culto cristão é uma estação de imaginação, um lugar onde as normas da história cristã são levadas e incorporadas em nossa adoração.

É por isso que a forma é importante. É por isso que a maneira pela qual adoramos faz toda a diferença. A tradição litúrgica cristã é um recurso para fomentar a inovação cultural.

Se a igreja vai enviar "restauradores" que se engajam com a cultura para o bem comum, precisamos recuperar e lembrar das ricas práticas criativas de culto cristão histórico, que carregam a singular história do evangelho.

Considere apenas algumas das muitas maneiras pelas quais a tradição litúrgica nutre e reabastece a imaginação:

  • Ajoelhando em confissão e pronunciando "as coisas que fizemos e as coisas que deixamos de fazer ... " imprime em nós tangível e visceralmente o quebrantamento do nosso mundo e humilha nossas próprias pretensões;
  • Prometendo fidelidade no Credo é um ato político -- um lembrete de que somos cidadãos de um reino vindouro, reduzindo a nossa tentação de nos identificar demais com qualquer configuração da cidade terrena;
  • O rito do batismo, onde a congregação promete ajudar a criar uma criança ao lado dos pais, é apenas a formação litúrgica que precisamos para ser um povo que pode apoiar aquelas crianças que estão sendo criadas com deficiência intelectual ou outras necessidades especiais;
  • Sentando à Mesa do Senhor, com o Rei ressuscitado, onde todos são convidados para comer, é uma lembrança tátil do mundo justo e abundante pelo qual Deus anseia

Nesses e em incontáveis outros meios, a tradição litúrgica orienta a nossa imaginação para o reino, instruindo-nos para o trabalho inovador e restaurador de fazer cultura. A fim de fomentar a imaginação cristã, nós não precisamos inventar; precisamos lembrar.

Não podemos esperar re-criar o mundo se estamos constantemente reinventando a "igreja". Em vez disso, vamos nos reinventar à direita da história. A tradição litúrgica é a plataforma para a inovação criativa.


14 de junho de 2012 |© 2014 LEADERSHIP EDUCATION AT DUKE DIVINITY
tradução livre: @danieldliver