17 de abril de 2014

O Peso Total das Nossas Convicções: O Ponto do Pluralismo Kuyperiano

A visão de Kuyper pode ser uma inspiração para os cristãos que hoje enfrentam a dupla ameaça do capitalismo explorador e do estatismo arrogante -- ambas as forças profundamente secularizantes.

Jonathan Chaplin,, 1 de novembro de 2013, Comment Magazine

Paridade, não privilégio. Dificilmente um slogan acrobático de campanha eleitoral, mas, em poucas palavras, o objetivo estratégico da visão do "pluralismo" de Abraham Kuyper. Os cristãos não devem buscar uma posição de privilégio político ou legal nas praças públicas de suas nações religiosa e culturalmente diversas, mas uma posição de paridade. O objetivo é desfrutar de direitos iguais ao lado de outras "comunidades confessionais" dentro de uma democracia constitucional marcada pela ampla liberdade de expressão, justa representação, e uma diversidade de vozes. Assim, no auge da luta do século XIX holandês por igualdade de tratamento para as escolas cristãs, Kuyper afirmou que "o nosso objetivo incessante deve ser a exigência de justiça para todos, justiça para cada expressão de vida."

Não mais que isso, mas também não menos. Pois o objetivo não era apenas procedimental ou propor regras justas do jogo democrático. Era profético. James Bratt abre Abraham Kuyper: Modern Calvinist, Christian Democrat com esta sentença: "talvez o maior significado de Kuyper para o nosso próprio mundo religioso e culturalmente fraturado é a maneira que ele propôs que os crentes religiosos levassem todo o peso de suas convicções para a vida pública enquanto respeitam plenamente os direitos dos outros em uma sociedade pluralista, sob um governo constitucional". A vida de Kuyper, tão vividamente narrado naa marcante biografia de Bratt, exemplifica a tentativa de levar "todo o peso de suas convicções" à vida pública, promovendo, simultaneamente, as condições para os outros fazerem o mesmo.

Cristãos, e não apenas os da tradição reformada, têm uma grande dívida para com Kuyper por expor o que foi provavelmente a defesa mais convincente do pluralismo no século XIX, em qualquer lugar. Outros cristãos, então e depois, ofereceram defesas paralelas, é claro. O que Kuyper exclusivamente ofereceu, no entanto, foi uma lição rara sobre como realizar três objetivos simultaneamente: a nidificação de um compromisso com o pluralismo dentro de uma teoria social e política abrangente fundamentada no cristianismo bíblico, o lançamento de um movimento político de sucesso para implementar esse compromisso nos dentes de um poderoso estabelecimento liberal secularizante, e a utilização da plataforma assim criada para estabelecer um terreno comum com seus adversários e de contribuir para o bem comum da sua nação. Apesar de duramente avaliarmos falhas de Kuyper (Bratt mostra que elas foram muitas), aquilo foi um feito incrível.

Um dos principais instrumentos de Kuyper era um partido político de inspiração calvinista, organizado em 1879. Este era o "Partido Anti-Revolucionário", o nome transmitindo oposição ao espírito ateísta da Revolução Francesa, em vez de resistência à reforma política. Kuyper foi um dos primeiros defensores do sufrágio adulto universal (masculino). O partido foi formado em uma ruptura com o movimento conservador aristocrático com o qual os "anti-revolucionários" estiveram aliados. Não foi apenas o primeiro partido democrata-cristão a ser estabelecido na Europa, mas o primeiro partido político de massas, ponto. Assim como o calvinismo original inspirara movimentos democratizantes no século XVII, o neo-calvinismo holandês fez sob a liderança de Kuyper fez no século XIX.

Entre as muitas conquistas deste movimento multifacetado, um dos seus mais distintos foi o estabelecimento na sociedade holandesa de arranjos genuinamente pluralistas em educação, saúde, trabalho, comunicação, e em outras áreas. Nesses sistemas, uma diversidade de prestadores de serviços, que representam as principais "comunidades confessionais" (religiosas e seculares) da nação, foram integrados em um sistema público supervisionado, e eventualmente financiado, pelo Estado. Movimentos democratas cristãos de inspiração católica promoveram sistemas paralelos em outros lugares na Europa. Tais arranjos proporcionaram não apenas as liberdades negativas para aderentes individuais a diversas visões de mundo (a versão liberal clássica da liberdade religiosa), mas também as liberdades positivas para associações baseadas em visões de mundo diversas. O objetivo era trabalhar pelo tipo de espaço público nas democracias constitucionais que facilitasse e não que frustrasse a representação do que Charles Taylor tem em nossos tempos chamado de "diversidade profunda".

James Skillen deu o nome de "pluralismo de princípio" para tal espaço. Sua abordagem mostrou-se útil em trazer à tona a pertinência contemporânea do legado pluralista de Kuyper. Skillen identifica dois sentidos, ambos os quais encontram suas origens em Kuyper mesmo que ele não os distinga claramente. O primeiro, "pluralismo estrutural", abraça as instituições plurais e associações do que hoje chamamos de "sociedade civil": escolas, universidades, igrejas, sindicatos, organizações não governamentais, empresas, associações de artes, grupos de caridade, e assim por diante. Skillen também inclui famílias e estados neste primeiro sentido. Pluralismo estrutural segue o exemplo de um dos mais conhecidos princípios sociais de Kuyper: a "esfera de soberania". Este princípio afirma que cada tipo distinto de instituição ou associação (não somente as conhecidas "ordens" tríplices da igreja, casa e governo que remonta à Idade Média), é uma "ordenança de Deus." Como tal, cada corpo social possui uma natureza e propósito distintos, e uma correspondente autoridade inerente a governar-se livre de intrusão ilícita por parte do Estado ou de qualquer outra entidade. Bratt observa que esta noção não fica sozinha no pensamento de Kuyper, mas funciona em conjunto com uma série de outras, como uma sociologia organicista, uma eclesiologia voluntarista e uma política localista.

Como todos os teóricos sociais fazem com todas as suas idéias inovadoras, Kuyper formulou o princípio dentro de um contexto específico que o fez avançar. Ele opôs esfera de soberania tanto contra a "soberania popular" do individualismo liberal, que reduziu a autoridade social e política a vontades individuais agregadas, e contra a "soberania do Estado" do autoritarismo conservador e do socialismo centralizador, que fez de toda a autoridade social uma concessão do Estado. Seus alvos não eram teorias abstratas: o primeiro era o credo das elites dominantes holandeses de sua época, perfeitamente correlacionado com o capitalismo individualista que elas representavam, e o último, a doutrina dos estados centralizadores e dominantes nas vizinhas França e Alemanha. Conforme Kuyper abordou este contexto, o princípio da esfera de soberania não saltou em sua mente diretamente a partir da Escritura ou do Calvinismo, mas refletiu o modelo "orgânico" de sociedade da Escola Histórica Alemã influente em sua época, uma teoria astuta que poderia ser posta para ambos os usos progressista e reacionário. A inovação de Kuyper era o de tornar esse modelo útil para uma teoria social cristã igualitária e pluralista, que poderia entregar poderosas críticas a ambas as doutrinas.

O segundo sentido de Skillen é o "pluralismo confessional", referindo-se à orientação espiritual condutora de uma instituição ou associação, a estrutura básica de convicções pelo qual é guiada. Exemplos óbvios hoje podem ser um sindicato cristão, um grupo ambiental budista, uma escola judaica, um banco islâmico, uma família católica. De modo menos óbvio, muitas instituições ou associações consideradas confessionalmente "neutras" também revelam um compromisso definitivo, se não declarado, com convicções liberais seculares: uma corporação corre como um "nexo de contratos" (como uma definição de livro didático a tem), um hospital público, onde a prática médica é regida pela fé na ciência e na tecnologia e a distribuição de recursos determinada por um cálculo puramente utilitário, um departamento da universidade de forma encoberta ou abertamente privilegiando paradigmas naturalistas ou racionalistas ou desconstrucionistas.

A implicação política fundamental do pluralismo confessional é que o Estado deve tratar todos estes vários corpos "baseados na fé", e não apenas os "religiosos", como igrejas ou mesquitas, com justiça. Em termos concretos, isto significa a distribuição de recursos públicos, como financiamento ou certificação, a cada [corpo] de uma forma equitativa, não (des)favorecendo qualquer um apenas por conta de sua perspectiva confessional. O pluralismo confessional defende as reivindicações de liberdade religiosa de instituições estruturalmente plurais e o dever dos Estados de respeitar essas reivindicações. Kuyper foi um temível porta-voz e defensor dele.

Pluralismo de princípios neste segundo sentido se opõe ao, bem, pluralismo "sem princípios", quer um pluralismo puramente gerencial em que o termo "justiça" é usado (se for usado) para aplicar a tudo o que acontece para emitir a partir de um mero processo de interesse-corretagem, ou, pior ainda, um abandono relativista do direito de qualquer pessoa fazer reivindicações públicas de verdade. Pluralismo sem princípios (qualquer versão) efetivamente lança a toalha na luta pela justiça e deixa seus resultados nas mãos do mais barulhento e do mais forte, o que hoje muitas vezes significa o mais abundante.

Mas o pluralismo de princípios procura espaço para a diversidade precisamente para permitir que reivindicações universais em matéria de justiça, todo o peso de uma comunidade de convicções, sejam projetadas no debate público. É por causa de seu compromisso com a busca da verdade universal que ele resiste a reivindicações monopolistas por parte dos porteiros da esfera pública para determinar o que conta como verdade pública. Tais alegações preventivas deslegitimam e marginalizam o tipo de vozes dissidentes minoritárias dos quais (como seguidores de um rabino galileu fora da lei são obrigados a afirmar), a verdade, de fato, às vezes emerge.

No Ocidente moderno, o pluralismo de princípios permanece contra duas alternativas monistas rivais às quais Kuyper desde o início buscou diagnósticos críticos. A mais antiga é a "Cristandade", entendida como a garantia legal de primazia pública, e até mesmo exclusividade, para a fé cristã. Kuyper teve que enfrentar tradicionalistas em seu próprio eleitorado calvinista que queriam se apegar a tal primazia. Ele mesmo frequentemente falava da Holanda como uma "nação cristã", mas com isso ele quis dizer da marca histórica profunda do calvinismo em sua cultura e constituição. Ele dava graças por esse legado, mas não recorria a ele para montar uma reivindicação contemporânea de um estado confessional. Ele procurou lembrar a seus seguidores que o calvinismo ortodoxo, embora tenha sido decisivo para a formação histórica do núcleo da nação, agora representava apenas um décimo da população. Defender o caráter cristão da nação poderia agora só funcionar democraticamente de baixo para cima e já não depender de vantagem constitucional herdada. Como Bratt coloca, para Kuyper, "O Calvinismo não era um estabelecimento de outrora, mas uma filosofia de diversidade".

A mais recente alternativa monista é o "secularismo", entendido como a concessão legal de primazia pública, e mesmo a exclusividade, a visões de mundo secularistas. Este é o principal desafio que os cristãos ocidentais enfrentam hoje, e não apenas na França, onde ele é a política de Estado oficial, ou nos EUA e Canadá, onde muitos secularistas, incluindo muitos juízes, acham que é. Como Bratt relata, foi a tentativa de elitistas secularistas holandeses (alguns deles protestantes liberais) de forçar as escolas calvinistas ortodoxas a sair do negócio que mais energizou o contra-movimento no qual Kuyper levantou-se rapidamente na década de 1870 para ser o timoneiro formidável. O secularismo está novamente em movimento em muitas democracias ocidentais, não necessariamente de modo conspiratório ou malévolo, mas muitas vezes de maneira vexatória. Ele está se manifestando em duas grandes tendências políticas, ambas as quais encontram apoio de vozes à esquerda, direita e centro da política. O exemplo de Kuyper nos lembra que é necessário que os cristãos de hoje tomem medidas contra ambos.

Uma tendência é a tentativa de resistir (ou desfazer) o pluralismo confessional em educação, saúde, relações de trabalho, e em outros lugares, seja pela simples exclusão legislativa ou burocrática da diversidade confessional, ou pela implantação de códigos anti-discriminação, de modo a restringir os direitos dos crentes individuais ou de associações baseadas na fé de agir de acordo com suas convicções mais profundas. Lamentavelmente, o ponto de inflamação mais visível desta campanha é o crescente conflito entre os direitos (próprios) das minorias sexuais não serem discriminadas e os direitos (próprios) de indivíduos religiosos ou associações não serem coagidos a agir contra a sua ética sexual em assuntos de trabalho ou de prestação de serviços. No Reino Unido, por exemplo, isso levou ao resultado claramente antiliberal de as agências de adoção católicas, com um belo histórico de alcançar as crianças nos lugares mais difíceis, serem forçados a abandonar um princípio de longa data da teologia moral católica ou a fechar as portas.

Esta disputa pouco construtiva foi imposta a cidadãos cristãos contra sua vontade; eles não deram início a esta luta particular. No entanto, é uma questão reveladora perguntar por que confrontos equivalentes não são evidentes em outros terrenos nos quais uma cosmovisão cristã se choca com as seculares dominantes. Por que, por exemplo, as escolas cristãs do Reino Unido não estão sob pressão legal para alinhar seus currículos de economia com um currículo nacional imposto pelo Estado refletindo o governante paradigma utilitário neo-clássico? A resposta deprimente é porque eles ainda não ter discernido que uma visão cristã da economia diverge daquele paradigma "em suas raízes", como Kuyper costumava dizer. Ou por que hospitais cristãos não entram em conflito com a lei secular seguindo a resistência à visão de mundo mecanicista que alimenta o excessivo recurso à grande medicação patrocinada pela indústria farmacêutica, e não faz campanha por espaço e financiamento de formas mais holísticas de cuidado? Onde os cristãos forem realmente sérios acerca do pluralismo confessional, eles vão levar "todo o peso de suas convicções" para influenciar as políticas públicas em geral.

A segunda tendência política secularista hoje é o surgimento do que Philip Bobbitt tem apelidado de "estado de mercado". Isso está provocando manifestações de individualismo e estatismo ainda mais prejudiciais do que aquelas que Kuyper teve de enfrentar. Por um lado, há uma mercantilização desenfreada da sociedade -- a subserviência progressiva das relações sociais e ecológicas complexas e delicadas aos fins do intercâmbio comercial e da gratificação consumista. Por outro, há um estado burocrático constantemente invasor, restringindo as instituições da sociedade civil e esvaziando as estruturas da democracia. Os dois operam lado-a-lado.

O detalhado relato de Bratt acerca da continuada campanha de Kuyper por reformas sociais e econômicas para o capitalismo industrial explorador dos seus dias, e ainda sem abraçar um estado arrogante, mostra como a sua visão pode ser uma inspiração para os cristãos de hoje enfrentarem essa dupla ameaça. Mas é essencial que os cristãos também reconheçam que essas forças são profundamente secularizantes exigindo tanto a busca de análise crítica e oposição comprometida quanto a primeira.

A luta de Kuyper por um "pluralismo de princípio" era na prática mais confusa do que meu resumo tem sugerido. Mas a leitura do sincero retrato de Bratt nos lembra que as grandes idéias políticas como esta são sempre formuladas de forma inconsistente, apreendidas parcialmente, implementadas irregularmente e produzem imprevistas conseqüências; seu destino inevitavelmente está nas mãos de indivíduos e grupos profundamente falíveis. No entanto, essa luta nos deixou ideias poderosamente convincentes que merecem reapropriação crítica hoje enquanto enfrentamos os desafios de um mundo cada vez mais desconcertantemente plural, fraturado, e inseguro.
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Tradução Livre: Daniel Dliver @danieldliver

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7 de abril de 2014

The way we navigate the world

The orthodox Christian tradition was launched with the Incarnation of God in Christ, the apostolic witness, and the Scriptures. But we inherit that rule of faith in two ways: first, in the creeds and confessions of the church (the articulated, explicit aspects of the faith), and second, in the liturgical heritage that hands down the know-how of the faith—our practices, our disciplines, our liturgical forms. Ideally, there's a feedback loop between those two things. If you had just the creeds and confessions without the practices of Christian worship, you would never get the full inheritance of what the Spirit has passed on to us. That inheritance is not owned by Constantinople or Rome or Canterbury. Rather, it is a common universal heritage of the body of Christ that can be renewed for any who call themselves Christians.


James K. A. Smith, 

From Issue:
May 2013, Vol. 57, No. 4, Pg 54, "You Can't Think Your Way to God"

28 de janeiro de 2014

A Disciplina da Confissão - Dallas Willard

Confissão é uma disciplina que funciona dentro da comunhão. Nela, permitimos que pessoas confiáveis conheçam nossas fraquezas mais pro­fundas e nossas falhas. Isso nutre nossa fé na provisão de Deus para nossas necessidades por meio do seu povo, nosso senso de ser amado e nossa humildade diante de nossos irmãos. Assim permitimos que alguns amigos em Cristo saibam quem somos na verdade, não retendo nada importante, mas procurando manter a máxima transparência. Deixamos de carregar o peso de esconder e fingir, que normalmente absorve uma quantidade es­pantosa de energia, e engajamo-nos mutuamente nas profundezas da alma.

A igreja do Novo Testamento parece ter admitido que, se um irmão tivesse alguma enfermidade ou estivesse passando por qualquer aflição, a situação poderia ser motivada por um pecado, que separava a pessoa do pleno fluir da vida redentora. Assim, a Epístola de Tiago (5.16) diz: "Con­fessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz. "Temos de aceitar o fato de que um pecado inconfesso é um tipo especial de jugo ou obstrução na realidade psicológica e física do cristão. A disciplina da confissão e do perdão remove este jugo.

A confissão também ajuda a evitar o pecado. Provérbios 28.13 diz que "quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia". Obviamente, "confessar" ajuda a "aban­donar", pois persistir num pecado dentro de um círculo íntimo de rela­cionamentos (sem mencionar a comunhão no corpo transparente de Cris­to) é insuportável. Dizem que a confissão é boa para a alma mas ruim para a reputação; e que uma má reputação torna a vida mais difícil em relação às pessoas mais próximas, isso todos nós sabemos. No entanto, proximi­dade e confissão nos forçam a manter uma distância do mal. Nada oferece melhor suporte para o comportamento correto do que a verdade aberta.

Abrir a alma para um amigo cristão maduro ou um ministro qualifica­do capacita essa pessoa a orar por problemas específicos e fazer coisas que podem ser úteis à redenção daquele que está confessando. Somente a con­fissão torna possível a comunhão profunda, e a falta dela explica muito da superficialidade encontrada nas igrejas. O que torna a confissão suportável? A comunhão. Há uma reciprocidade essencial entre as duas disciplinas.

Onde há confissão dentro de uma comunidade, a restituição não pode ser omitida e também serve como uma poderosa disciplina. É difícil não retificar os erros, uma vez que são confessados e conhecidos. É evidente que nem todo pecado exige restituição. Contudo, é inconcebível que eu sinceramente confesse a meu irmão que roubei sua carteira ou manchei sua reputação e depois siga alegremente meu caminho sem tentar fazer alguma coisa em relação ao que foi perdido.

Em geral, nossa integridade inata (uma força dentro de nossa persona­lidade) exige restituição. Freqüentemente, não é uma experiência muito agradável, mas de fato fortalece nossa vontade de fazer a coisa certa.

A confissão é uma das disciplinas mais poderosas para a vida espiri­tual. No entanto, com facilidade, pode haver abusos; e o seu uso efetivo requer considerável experiência e maturidade, tanto por parte do indiví­duo envolvido como da liderança do grupo – o que nos leva à última disciplina (Submissão).

Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, Editorial Habacuc, 2003, pp. 212-214

A Disciplina da Castidade - Dallas Willard

Ao listar uma disciplina que lida especificamente com o impulso sexu­al, sentimos falta de uma terminologia apropriada. Usarei o termo "castidade", embora ele, como a "simplicidade", se refira ao resultado de uma disciplina sob a graça, e não às atividades disciplinares em si. Ao exercer a disciplina espiritual da castidade, nós nos afastamos deliberadamente do engajamento na dimensão sexual do relacionamento com outros – até mesmo nosso cônjuge.

A sexualidade é uma das forças mais poderosas e mais sutis da nature­za humana, e o sofrimento ligado diretamente a ela é muito alto. Os abu­sos do sexo, fora e dentro do casamento, tornam imperativo aprender "como possuir nosso vaso em santificação e honra" (I Ts 4.4).

Uma parte fundamental desse aprendizado consiste de abstenção de práticas sexuais e de não-rendição a sentimentos e pensamentos sexuais, aprendendo assim a não ser governado por eles.

A abstenção temporária dentro do casamento, mediante consentimen­to mútuo, também foi aconselhada por Paulo como um auxílio ao jejum e à oração (I Co 7.5). Em desacordo com o pensamento predominante no mundo atual, é absolutamente vital para a saúde de qualquer casamento que a gratificação sexual não seja colocada como centro. A abstenção vo­luntária nos ajuda a apreciar e amar nossos parceiros como pessoas com­pletas, nas quais a sexualidade é apenas um aspecto. Isso reforça em nós a prática de estar bem próximo das pessoas, sem embaraços sexuais.

A castidade tem uma parte importante a desempenhar dentro do casa­mento, mas o principal efeito que buscamos por meio dela é a postura apropriada em face dos atos, sentimentos, pensamentos e das atitudes se­xuais na nossa vida como um todo, dentro e fora do casamento. A sexua­lidade não terá permissão de dominar nossa vida, se vivermos como filhos e filhas de Deus, como irmãos e irmãs em Jesus Cristo.

Isso não significa que a nossa sexualidade é algo de que devemos nos afastar. Isso seria impossível. Somos seres sexuais: "Homem e mulher os criou" (Gn 1.27). Esta passagem crucial vincula a sexualidade ao fato de termos sido criados à imagem de Deus. Ela é parte do poder com o qual servimos ao Senhor. Na sexualidade, o envolvimento pessoal, o conhecer e ser conhecido, característica da natureza básica de Deus, é providenciado de forma especial para o ser humano integral. Na união sexual plena, a pessoa é conhecida em seu corpo todo e conhece a outra pessoa por meio de todo o seu corpo. A profundidade do envolvimento é tão grande que não pode haver "sexo casual". Isso é uma contradição muito bem compre­endida pelo apóstolo Paulo, que, por isso, ensinou que a fornicação é um pecado contra o próprio corpo (I Co 6.18).

A sexualidade está na essência do nosso ser. Portanto, castidade não significa não-sexualidade, e qualquer afirmação desse jaez certamente causa­rá grande malefício. Este é um ponto muito importante. O sofrimento, em grande parte, que procede da sexualidade, não vem pela indulgência de pensamentos impróprios, sentimentos, atitudes e práticas sexuais. Grande parte procede da abstenção inadequada.

Em nenhum outro aspecto da vida humana, é mais verdadeiro o pro­vérbio "A esperança que se retarda deixa o coração doente" (Pv 13.12), e a mente também. Jesus viu claramente que a abstenção de relações sexuais ainda deixa brecha para grosseiras impropriedades e distúrbios sexuais ­alguns dos quais Ele chamou de "adultério no coração" (Mt 5.28). Jesus sabia que a abstenção correta era algo que exigia qualificações especiais (Mt 19.11:12). Paulo seguiu seu Mestre. Ele tinha o mesmo realismo quan­to ao sexo. Por isso ensinou sobre um tipo errado de abstenção quando escreveu que "é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo" (I Co 7.9).

Temos de entender que o "arder de desejo" não é uma questão "inte­rior" trivial, mas algo muito sério em suas implicações. Ele pode aflorar na vida humana de muitas formas: distorção severa no pensamento e nas emoções, incapacidade de engajamento em relações sexuais normais e apro­priadas, desgosto e ódio entre mulheres e homens frustrados, abuso infan­til, perversão sexual e crimes sexuais. A castidade corretamente praticada como parte de um rico caminhar com Deus pode prevenir enfermidades do coração e da mente envenenada na vida sexual, na sociedade moderna.

Dietrich Bonhoeffer faz a seguinte observação: "A essência da castida­de não é a supressão do desejo, mas a total orientação da vida do indivíduo em direção a um objetivo."

A abstenção saudável na castidade só pode ser suportada pelo envol­vimento amoroso e positivo com membros do sexo oposto. A alienação abre espaço para a concupiscência nociva. Esta disciplina deve ser funda­mentada na compaixão, em associação e na disposição de ajudar. Se ­situação familiar fosse como deveria ser, um relacionamento íntimo e com­passivo entre os sexos seria o caminho natural de relacionamentos entre mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã. Um estudo recente indica que pais que cuidam dos filhos, dando banho, alimentando e segurando-os no colo desde os primeiros dias de vida raramente cometem abuso sexual com eles. Eles desenvolvem um amor verdadeiro pelos filhos, e o amor efetiva­mente evita que causemos mal uns aos outros. Para praticar a castidade então, devemos, primeiro, praticar o amor na busca do bem das pessoas do sexo oposto, com as quais mantemos contato em casa, no trabalho, na escola, na igreja e na vizinhança. Então seremos livres para praticar a disci­plina da castidade e extrair apenas resultados positivos dela.


Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, Editorial Habacuc, 2003, pp. 193-196

18 de janeiro de 2014

O Perdão Como Libertação do Mal

Uma das melhores obras de teologia cristã escritas na década passada é Exclusion and Embrace (Exclusão e Aceitação), de Miroslav Volf, que conquistouo prestigiado prêmio Grawemeyer em 2002. Volf, que dá aulas na Escola de Divindade em Yale, defrontou-se, há alguns anos, com uma questão: como ele, um croata batista, poderia amar seu vizinho sérvio ortodoxo, depois das coisas terríveis que os sérvios haviam feito em seu país? Descobriu, com a ajuda de Jürgen Moltmann, que, caso não conseguisse responder a essa pergunta, a autenticidade de toda a sua teologia seria questionada. Quem nunca precisou enfrentar de perto esse tipo de dilema deve ficar surpreso com a perspicaz mente cristã de Volf lutando com um problema tão emotivo e pessoalmente envolvente, e encarando, no processo, algumas das maiores questões teológicas, culturais e filosóficas de nosso tempo.

O argumento básico de Volf é: seja nas relações internacionais ou pessoais, o mal deve ser identificado e confrontado. Não se pode esquivar-se ou fingir (seja para facilitar a vida ou para resolver a situação de forma mais rápida) que o que aconteceu não foi tão ruim assim. Só depois disso, quando o mal e o agente do mal são identificados pelo que são e pelo que fazem -- é isso que Volf chama de “exclusão” -- pode-se dar o segundo passo, rumo à “aceitação” daquele que me (ou nos) magoou e feriu profundamente. Claro que, mesmo assim, pode ser que a aceitação não aconteça, caso o agente do mal se recuse a ver seus atos sob essa ótica. Porém, se eu nomeei o mal e me esforcei ao máximo para oferecer perdão e reconciliação genuínos, estou livre para amar a pessoa mesmo que ela não queira corresponder.

(...)

Pense um pouco na dinâmica interna do perdão. Talvez por conhecerem um pouco de psicologia pastoral, muitos leitores devem estar familiarizados com isso; no entanto, poucos o relacionam ao problema generalizado do mal. O fato é que, quando perdoamos, liberamos não apenas a pessoa do fardo de nossa ira e suas possíveis consequências, mas também a nós mesmos do fardo do que quer que tenham feito contra nós e do estado emocional debilitado em que viveremos se nos apegarmos à ira e amargura e não perdoarmos. O perdão -- de Deus para conosco, entre duas pessoas e até de nós mesmos -- é parte central da libertação do mal.

(...)

Volf e outros [afirmam] que o reconhecimento do mal é o primeiro estágio rumo ao perdão, não uma alternativa a ele.

(...)

O que devemos entender, com a máxima urgência, é que perdão não é o mesmo que tolerância. Ouvimos hoje, o tempo todo, que precisamos ser “inclusivos”; que Jesus recebeu todo tipo de gente; que a igreja acredita no perdão, e que por isso devemos casar divorciados sem questionar, recontratar funcionários demitidos por fraude e permitir que pedófilos condenados voltem a trabalhar com crianças… Normalmente não fazemos essa última afirmação, o que mostra pelo menos alguns vestígios de bom senso. Perdão não é o mesmo que tolerância. Não é sinônimo de inclusão. Não é indiferença, seja ela pessoal ou moral. Perdão não significa que não levamos o mal a sério. Na verdade, significa que o levamos bastante a sério. Para começar, implica uma determinação em dar nome ao mal e envergonhá-lo. Sem isso, não haverá o quê perdoar. Além disso, perdão quer dizer que estamos determinadosa fazer tudo que está ao nosso alcance para retomar um relacionamento adequado com o ofensor depois que o mal for tratado. Por fim, significa que decidimos, em nossa mente, que não permitiremos que o mal determine o tipo de pessoa que seremos. É isso o que significa perdão. É algo difícil de praticar e receber -- e difícil também no sentido de que, um vez em prática, ele é poderoso; diferente da falsa tolerância, que se limita a seguir a lei da menor resistência.


Gostaria de desenvolver um pouco mais esse ponto. Perdoar não significa não se importar, ou achar que não foi importante. Eu me importei, foi importante; caso contrário, não teria nada para perdoar, precisaria apenas ajustar minha atitude ao que aconteceu. (Hoje, ouvimos falar de pessoas que precisam ajustar sua atitude diante das coisas que antes achavam erradas. Porém, isso não é perdão. Se minha atitude para com alguém está errada e precisa ser corrigida, não perdoei ninguém; estou apenas dizendo que a pessoa não precisa de perdão, e, se alguém precisa, sou eu, por causa da minha postura anterior). Perdão também não é fingir que algo não aconteceu. Este aspecto é um pouco mais sutil, porque parte do ato de perdoar é comprometer-me a trabalhar no sentido de conseguir agir como se não tivesse acontecido. Aconteceu, e perdoar não implica fingir o contrário; é examinar bem o fato de que aconteceu e tomar uma decisão consciente, de vontade moral, de deixar a ofensa de lado para que ela não se torne uma barreira entre os dois lados envolvidos. Em outras palavras, o perdão pressupõe que o que aconteceu foi maligno e não pode ser considerado irrelevante. Fazer isso gera uma raiva reprimida e uma distanciamento cada vez maior entre pessoas, que já não confiam umas nas outras. É muito melhor colocar tudo sobre a mesa, seguindo a orientação do Novo Testamento, e lidar com os problemas.


N. T. Wright, O Mal e a Justiça de Deus, Ed. Ultimato, cap. 5