25 de abril de 2015

A teologia holandesa é arrojada, afirma N. T. (Tom) Wright


O teólogo inglês N.T. (Tom) Wright vem à Holanda, no final de outubro (2014). Ele é Anglicano, mas mostra ter uma afinidade surpreendente com a tradição reformada holandesa. Como prévia da conferência em Kampen, no dia 31 de outubro: uma conversa com Wright sobre suas irritações dogmáticas, sua visão a respeito da teologia bíblica e sua paixão por alcançar “o crente comum”.

Por quatro dias o estudioso do Novo Testamento Tom Wright (1948) estará na Holanda no final desse mês. Primeiro será o palestrante principal de um congresso na Universidade de Groningen, depois visitara a Universidade Teológica de Kampen. Wright está ansioso, diz, pois ele entende que a teologia holandesa o “formou”, e a considera “extraordinária”. Essa parece uma afirmação educada, patente dos nossos vizinhos britânicos, mas em Wright parece um sentimento honesto de dívida (n. t. Para com a teologia holandesa). E realmente há temas comuns, que facilmente conectam os reformados e os neocalvinistas à teologia de Wright, na qual a ênfase está no pacto e na história da redenção, no significado concreto da cruz e da ressurreição, e na chegada real (n. t. efetiva) do novo mundo de Deus.
Wright é professor na St. Mary”s College, a faculdade teológica da Universidade de St. Andrews. Ele aceitou esse posto depois de sua despedida como bispo de Durham. Essa decisão teve tudo a ver com o seu quarto grande livro acadêmico da série Christian Origins and the Question of God (Origens Cristãs e a Questão de Deus). O livro se chama Paul and the Faithfulness of God (Paulo e a Fidelidade de Deus), e contém nada menos que 1650 páginas, e parece coroar o fascínio que Wright teve por toda a vida por Paulo. 

"Tive muito prazer trabalhando com esse livro," conta, "mas me custou mais tempo do que eu esperava. Comecei-o em um ano sabático em 2009. Em janeiro de 2010 voltei a Durham, onde era bispo. Logo ficou claro que eu não poderia terminar o livro se continuasse em Durham. Foi uma decisão difícil, mas escolhi aceitar o convite de St. Andrews para lecionar. Quando estava aqui ainda tinha que terminar diversos outros livros, como a série A Bíblia para Todos (n. t. Uma serie de comentários bíblicos). Também escrevi, a pedido da minha editora o livro Simplesmente Jesus (Simply Jesus: A new vision of who he was, what he did and why he matters) e em minha mente cresceu o conceito para Como Deus se tornou Rei (How God became King: The Forgotten Story of the Gospels). Enquanto isso meu editor ainda me pediu se podia desenvolver um livro a respeito dos Salmos a partir de uma palestra que tinha dado. Ele disse, pegue a palestra como estrutura básica e cada vez que abordar um Salmo você amplia um pouco – e eis que há um livro. Então acabei por fazê-lo em The Case for the Psalms (O Caso dos Salmos ou Em favor dos Salmos). Assim, fiquei bastante aliviado quando ano passado o grande livro a respeito de Paulo foi publicado."

Público Amplo
Trabalhar em todos esses projetos diferentes parece jogar diversas partidas de xadrez ao mesmo tempo. O público alvo de Wright também varia bastante. Mas isso o relaxa, diz, com um senso de ironia: “Esses livros científicos muito amplos me custam muitas gotas de suor. Entre estes escrevo os livros curtos e populares, e gosto muito disso. Eu gosto muito de escrever e esses livros para um público mais amplo não me custam tempo demais, muitas vezes é uma série de palestras, e entre estas apenas adiciono ordem e estrutura”.

Obviamente relaxar não é a única motivação de Wright. Ele busca conscientemente o contato com o público amplo nos seus livros populares. Essa é uma característica marcante das ocupações de Wright, pois são poucos os seus colegas que conseguiriam fazer o mesmo. “É verdade, e na verdade isso é uma vergonha”, diz Wright. “Na minha carreira sempre andei nesses dois caminhos. Eu trabalhava na esfera acadêmica, mas também estava ativo como pastor, bispo e pregador. Isso se tornou incomum nas esferas científicas atuais. O estudo do Novo Testamento tornou-se altamente especializado, e assim atrai pessoas que gostam de se ater a detalhes. Mas você deve ousar dar o passo para o público amplo que não quer saber apenas dos detalhes, mas são mais interessados no quadro maior, mais amplo. E é evidente que se deve fazer isso sem termos complicados. Quanto a isso, minha família, enquanto eu crescia, me ensinou uma lição útil. As crianças me faziam perguntas, e quando eu trazia termos carregados, diziam: 'Papai, fale normal!' A partir dessa lição de humildade vieram os meus livros Simplesmente Jesus e Simplesmente Cristão. E devo dizer que escrever esse tipo de livro me dá muito prazer”.

Herman Dooyeweerd
Wright enfatiza que frequentemente suas ideias teológicas são renovadoras, ou pelo menos surpreendentes. Mas ele também tem as suas fontes, por exemplo os grandes pensadores aos quais se sente em dívida. Em uma entrevista para a revista holandesa Wapenveld, Wright cita o nome do filósofo reformado Herman Dooyeweerd (1894-1977), que concebeu uma cosmovisão filosófica ampla – a Wijsbegeerte der Wetsidee (N. T. Filosofia da Ideia Cosmonômica) -- na qual ele aborda o todo da realidade, da escola e hospital à economia e ao sacramento. Wright ficou impressionado com a abordagem Dooyeweerdiana. “Herman Dooyeweerd foi importante para mim,” conta, “apesar de não ter feito um estudo rigoroso de sua obra. Suas ideias me alcançaram através de um bom amigo, Brian Walsh , que foi muito influenciado por Dooyeweerd. No começo da década de 90 demos uma série de palestras juntos em Oxford, na qual deveríamos abordar uma serie de tópicos, de Novo Testamento a Ética, de forma coerente e uniforme. Eu estava na fase preparatória dos volumosos livros acadêmicos a respeito do Novo Testamento, dos quais The New Testament and the People of God (1992) (n.t. O Novo Testamento e o Povo de Deus) seria o primeiro. Não há dúvida de que devo às conversas com Brian Walsh a percepção de que o Reino abrangente de Deus se conecta com a esperança messiânica do Antigo Testamento, e evidentemente com a maneira como tudo isso foi abordado em Jesus."

Kuyper
Brian Walsh desafiou Wright a pensar diferente do que este estava acostumado. “Não no sentido de “dai a Deus o que é de Deus e ao imperador o que pertence ao imperador” – que seriam compartimentos separados – mas deliberadamente abordar uma profunda conexão entre igreja e mundo. Dooyeweerd queria integrar todas os aspectos da vida sob o ponto de vista da vitória de Cristo. Ele estava convencido, assim como C.S. Lewis, que cada centímetro quadrado e cada segundo é reivindicado por Deus – e também por Satanás. Essa visão não me era totalmente estranha, estava presente de forma embrionária, mas eu nunca tinha pensado a respeito nessa profundidade.  Agora eu tinha que fazê-lo por causa do fascínio do meu amigo por Dooyeweerd. E devo dizer que comecei admirar a consciência intelectual dos pensadores cristãos holandeses – entre os quais evidentemente também devo citar Kuyper aqui! Era muito diferente do que estava acostumado da forma mimada e doce dos ingleses pensarem. Não que não conhecesse pensadores sérios e minuciosos na Inglaterra, mas a meticulosidade dos pensadores holandeses causou uma mudança em mim.”

Historiografia e Teologia
Parece que o senhor conscientemente escolhe ser historiador, por exemplo com o seu modelo de cosmovisão (worldview-model). O senhor não se profila como alguém que escreve Teologia Bíblica.
“A questão de Deus é uma questão teológica, não há escapatória, nem se  mantivermos uma perspectiva historiográfica. Para mim essa separação não existe de forma alguma. Alguns colegas me acusam de teologia bíblica, que entendem ser um empreendimento tolo e do século 19. O que eu proponho é: entremos no mundo do Judaísmo do Segundo Templo e então tentemos entender o que importava para a primeira geração de cristãos. Quando se faz isso, muitas coisas se encaixam. Nós mantemos tantos anacronismos no Cristianismo atual, desde como explicamos as parábolas a como entendemos Paulo. Mas tudo entra na perspectiva correta quando se começa a ver como o Judaísmo do Segundo Templo funciona. Você realmente tem aqueles momentos de: “Agora sim!” É a partir dessa perspectiva que tento pensar consequentemente Paulo no contexto da época. Assim sua pesquisa resulta em respostas históricas e teológicas. O que se ouve dos cristãos do primeiro século trata de “encarnação”, sobre a questão de quem Deus é, qual é o significado de Jesus no quadro geral das expectativas messiânicas. Enquanto pesquisador sempre tentei viver com essa tensão (n.t. No sentido positivo, emoção, empolgação, ansiedade, anseio), pesquisando a história e a teologia em conjunto. Minhas publicações podem assim serem classificadas como historiográficas, teológicas, ou até mesmo missiológicas”.

Construto teológico
Geralmente se mantêm as disciplinas separadas. Qual o argumento mais importante para se relacionar mais a teologia bíblica com a historiografia?
“Os textos do Novo Testamento que na história de Jesus Cristo se trata da presença direta de Deus. Isso se dá na história real, essa é a convicção deles. E é exatamente essa afirmação que por muito tempo foi considerada anátema por estudiosos do Novo Testametno. Considerava-se que era mais aceitável presumir que os evangelistas não tinham a pretensão de descreverem a história de forma realista. Para eles tratar-se-ia de um belo construto teológico que tinha importância para eles. Mas quando lemos Josefo, ou outros escritores Greco-Romanos, percebemos que eles escrevem de forma consciente sobre as coisas que aconteciam na época. E é dessa forma que se leem os evangelhos de forma natural. Isso não é inocente, mas baseia-se na forma séria dos judeus da época lerem”.

Aconteceu de verdade
Em How God Became King (Como Deus se tornou Rei, 2012), Wright argumenta que o tipo de histórias que os evangelhos contam, tratam de Deus o Criador e seu mundo. Nesse livro, ele afirma que os evangelhos tratam da realidade concreta, na qual se realiza uma ação divina. Wright: “Historicamente não faz sentido dizer que os evangelistas queriam enfatizar uma espiritualidade platônica, um significado religioso que estaria fora da realidade concreta! É exatamente isso que eles não têm em vista. O que Marcos, Lucas e os outros afirmam poderia ser ficção, no sentido de não estar de acordo com os fatos – mas essa é uma discussão completamente diferente. Mas eles estão convencidos de que a grande história das escrituras alcançou o seu clímax histórico na vinda do Messias Jesus. O fator esquecido, que poderia ter levado a interpretação ao caminho correto, é a expectativa dos profetas do período do Segundo Templo de que o Deus de Israel realmente retornaria. Deus prometeu que voltaria – mas ninguém sabe quando! Também não está claro como será ou o que acontecerá. O retorno de Deus poderia ser assustador, ou talvez empolgante. Mas esse é o assunto, que na percepção dos evangelistas Jesus assumiu o reinado de Deus. Eles contam com a convicção de que foi assim que aconteceu, assim Deus tornou-se rei.”

Irritações
O senhor se mostra irritado quanto a alguns pontos de vista teológicos. Quais as suas principais irritações dogmáticas?
“A forma como as pessoas reivindicam uma cristologia ortodoxa muitas vezes me causa certa resistência. Você deve pensar X ou Y a respeito de Jesus, e se não o fizer você está fora do barco. Geralmente é a reinvindicação de que Jesus é Deus. As pessoas presumem que o Jesus humano poderia sem problemas lembrar-se de como era quando Ele ainda estava com o Pai, antes de encarnar. Eu acho essa abordagem problemática, porque forca padrões racionalistas à explicação das Escrituras. Parece que as pessoas querem subscrever uma fé trinitária ortodoxa a qualquer custo, sem sondarem a profundidade da mesma. Dá para ouvi-las dizerem: “com certeza, Jesus era Deus! Eu subscrevo a isso, portanto estou tranquilo”. Mas a verdade é que se trata do que esse Deus encarnado faz! E o que fará. Se você o limita a “Ele morreu pelos nossos pecados e vai me levar ao céu”, você está perdendo o ponto central dos 4 evangelhos. De acordo com os evangelhos, Jesus se torna o encarregado. O próprio Deus está à frente de tudo em Cristo, e isso significa que algo acontecerá."

Combinação    
"A maioria dos cristãos nem para para pensar nisso. Talvez na Holanda seja diferente, assim como com seus “parentes” calvinistas em Grand Rapids! Quando eu dei uma palestra no Calvin College sobre How God Became King, James K. A. Smith me disse: “Você diz que nós nos esquecemos disso mas nas nossas aulas o reino de Deus e o seu significado concreto são sempre um ponto central!” Na verdade, suspeito que a teologia holandesa seja uma exceção. Dei incontáveis palestras e preleções em outras partes da Europa e dos EUA. Especialmente nos EUA as pessoas dizem: “Nunca ouvimos isso antes!” E quando digo que presumo que muitos pastores se limitam à mensagem de que Jesus se tornou Deus somente para nos perdoar e levar ao céu – ouço pessoas dizendo: “é isso que sempre ouvimos!” Parece que há pouca percepção da atualidade do Reino de Deus, que, de acordo com Jesus, vem “na terra como no céu”. Quando você expande para isso as pessoas rapidamente passam a achar que você está trocando o evangelho da redenção e perdão por um evangelho de melhoras sociais. Mas é claro que essa é uma conclusão precoce.  Nos evangelhos encontramos a combinação incomum de Reino e Cruz.  Os dois, na verdade, andam juntos apesar de a teologia ocidental ter muita dificuldade em mantê-los juntos. As pessoas parecem entender que tudo era um sucesso na missão de Jesus, até que algo deu errado e Ele acabou na cruz. Com isso parece que um plano B entrou em ação quando sua missão original foi por água abaixo – e o que sobra é apenas uma morte isolada que nos salva dos nossos pecados."

Solto da cruz
“A questão central então é: “como os dois se combinam? Como conectar a sua atuação e sua pregação, suas curas, seu envolvimento critico nas relações sociais – e por outro lado sua terrível morte e gloriosa ressurreição?” Simplesmente não se levanta essa questão o bastante. E como consequência disso se deslizou para uma teologia da cruz, de tons pietistas, na qual tudo é a respeito da morte salvífica de Jesus, a salvação da minha alma. Do outro lado do espectro deslizaram para uma forma de horizontalismo social no qual o reino se soltou da cruz. Mas no grande capítulo da ressurreição – 1 Coríntios 15 – Paulo escreve que a morte de Jesus resulta em seu reinado concreto, “até que tenha colocado todos os inimigos debaixo de seus pés”. Nesse sentido o Reino de Deus é uma realidade presente e atual. O Reino evidentemente ainda não é o reino de paz na qual resultará quando Deus for “tudo em todos” e a morte for definitivamente derrotada. Mas a partir da ressurreição de Cristo o mundo mudou definitivamente e Deus ativamente dá forma ao Seu novo mundo.”

Quebra cabeça
As irritações dogmáticas de Wright se voltam principalmente ao abismo entre algumas construções dogmáticas e o testemunho dos escritores do Novo Testamento. Muitos evangélicos na Inglaterra e nos EUA se satisfazem com os lugares-comuns dogmáticos, observa Wright. “Enquanto você disser que Jesus é Deus – você está tranquilo. Se subscrever: Jesus morreu no meu lugar – daí está ótimo! É certo que tais afirmações contêm elementos verdadeiros. Mas é como montar um quebra-cabeça com as peças nos lugares errados. Você pode até usar todas as peças, mas como não se encaixam o quadro geral fica deformado. Se olhar bem, a imagem não convence. Esse também é o problema das grandes confissões (n.t. De fé): O reino (quase) não é citado. No Credo de Nicéia você só tem alguma coisa a respeito do Reino lá no final. Então as pessoas pensam: “Ah, então isso ainda virá!” Em How God Became King sou crítico quanto a essa omissão e sua estrutura teológica, mas não advogo a favor da abolição das grandes confissões. O que é importante é que as compreendamos de uma maneira nova: a partir do testemunho dos evangelistas e dos escritores do Novo Testamento.”


*Arrojada: Audaz, atrevida, arrojada, minuciosa, meticulosa, resoluta, corajosa, firme todas estas seriam traduções possíveis da palavra “doortastend” que o autor usa em holandês. Depende de qual palavra inglesa Wright usou originalmente para saber qual seria a tradução mais correta. Usei a que me parece mais exata quanto a palavra holandesa, que é de difícil tradução. 
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Fonte: https://tukampen.afasonline.com/nieuwsbericht-tu-kampen-nl/nederlandse-theologie-doortastend-stelt-n-t-tom-wright
Original: Tjerk de Reus e Hans Burger
Tradução: Tijs vanden Brink
Revisão: Daniel de Lima Vieira


23 de janeiro de 2015

O Futuro da Religião em Uma Era Secular. - James K. A. Smith

Mas se cada crença está fragilizada e é contestada, então a descrença, em si mesma, é contestável. Se o crente é assaltado pela dúvida, o descrente pode ser assaltado pela fé. Mesmo os ateus podem ser surpreendidos ao descobrirem a si mesmos tentando acreditar. Apesar do barulho agitado das espadas dos fundamentalistas -- quer dos cristãos ou dos novos ateus -- o cenário de uma era secular é um meio-termo bagunçado, em que somos espirituais mas não religiosos. A nossa assim chamada era "secular" é um tempo caracterizado não tanto pela descrença, mas pela explosão de milhares de maneiras diferentes de se crer, onde até os ateus querem ser devotos.

Então o que faz da nossa era uma era "secular" não é que seja uma era de descrença, mas uma na qual nossas crenças são contestadas e frágeis - e, no entanto, não conseguimos deixar de crer. O escritor David Foster Wallace capturou esse sentido em seu famoso discurso inicial no Kenyon College:

Nas trincheiras do dia-a-dia da vida adulta, não existe essa coisa de ateísmo. Não existe essa coisa de não-adoração. Todos adoram algo. A única escolha que nós temos é o quê adorar. E a razão irresistível para talvez escolher algum tipo de deus ou alguma coisa do tipo espiritual para adorar - seja JC ou Alá, seja YHWH ou a Deusa-Mãe Wiccan, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum inviolável grupo de princípios éticos - é que praticamente tudo o mais que você adoraria seria capaz de te devorar vivo.

Então, que futuro existiria para a religião em uma era secular? Dada a abrangência do tema, vamos focar especificamente no futuro do Cristianismo na América.

Prever o futuro do Cristianismo primeiro requer certo trabalho genealógico: Como chegamos aqui? A este respeito, Taylor salienta uma tendência particular do Cristianismo moderno que tem tido um impacto significativo nas expressões contemporâneas, particularmente no Evangelicalismo. Taylor a descreve como uma dinâmica da "excarnação".

O termo é deliberadamente provocativo, contrariando um dogma central da fé cristã chamado "encarnação" - a ideia de que Deus tornou-se humano, feito em carne. Esta é a realidade que os cristãos celebram no Natal: que o Deus eterno e imaterial condescendeu a tornar-se corpo, carne, matéria. Esta noção de encarnação é a base do tradicional entendimento cristão dos sacramentos - a convicção de que a substância material e encarnada medeia o eterno e divino. Assim, em adição à convicção de que o Jesus humano incorpora Deus, os cristãos têm também enfatizado que a criação em si mesma é encantada pela presença do Espírito.

Mas uma das consequências involuntárias da Reforma Protestante, argumenta Taylor, foi o desencantamento do mundo. Críticos da maneira como o entendimento sacramental, encantado, do mundo tinha degenerado em mera superstição, os Reformadores enfatizaram a simples escuta da Palavra, a mensagem do Evangelho e a árida simplicidade do culto cristão. O resultado foi um processo de excarnação - desincorporando o culto e a religião, tornando-a um assunto "mental" que poderia ser resumido à mensagem e compreendido com a mente. Como eu descrevi em outro lugar, a religião ficou reduzida a algo para cérebros afiados.

A espiritualidade das pessoas espiritualizadas-mas-não-religiosas frequentemente imita este tipo de religião excarnada, muitas vezes sem o perceber. Nossa espiritualidade de autoajuda é notavelmente "protestante", poderia-se dizer. Dá-nos uns poucos aforismos inspiradores, uns poucos "pensamentos-do-dia" para nos levar através das dificuldades, um par de frases pungentes ao lado dos nossos copos da Starbucks e esta é a mensagem que nós precisamos para nos manter significativamente vivos. Esta é a espiritualidade feita à medida de seres pensantes que habitam um universo desencantado.

Por que isso importa para o futuro do Cristianismo? Porque agora que o mundo inteiro tem sido desencantado e nós temos sido encapsulados em uma "natureza" achatada, eu espero que existirão formas de re-encantar o Cristianismo que realmente terão futuro. A excarnação protestante basicamente cedeu sua função a outros: se você está procurando uma mensagem, uma ideia inspiradora, algum combustível de primeira categoria para o seu receptáculo intelectual - bem, existe uma indústria cultural inteira feliz para te proporcionar isso. Por que você precisaria da igreja? Você pode assistir Ellen ou Oprah ou uma palestra TED.

Mas o que poderá impedir as pessoas -- o que poderá verdadeiramente assombrá-las -- serão encontros com comunidades religiosas que têm clarabóias perfuradas no nosso céu de bronze. Será comunidades de desenho de cristãos "tradicionais" sobre os poços de histórico, "encarnar" o culto cristão, com seus cheiros e sinos em toda a sua Gothic-estranheza que encarnam uma espiritualidade que carrega whiffs de transcendência que será estranho e, portanto, todo o mais atraentes. Eu não faço nenhuma afirmação de que essas comunidades serão grandes movimentos de massa ou populares. Mas eles vão crescer justamente porque sua antiga prática de encarnação é uma resposta aos retornos decrescentes da espiritualidade "excarnada".

E quando o mingau ralo da espiritualidade "faça você mesmo" acaba por se tornar isolamento, somente, e incapaz de suportar crises, a multidão "espiritual mas não religiosa" pode encontrar-se surpreendentemente aberta para algo completamente diferente. De maneiras que nunca poderiam ter previsto, alguns vão começar a se perguntar se a "renúncia" não é o caminho para a totalidade, se a liberdade pode ser encontrada no dom de constrangimento, e se os estranhos rituais do culto cristão são a resposta para as suas maiores aspirações humanas. A assombração do secular será mútua, poderíamos dizer.

O que as comunidades cristãs precisam cultivar em nossa "era secular" é uma paciência fiel, e mesmo receber a era secular como um presente para renovar e cultivar um Cristianismo encarnado, encorpado, robustamente ortodoxo que sozinho parecerá uma alternativa genuína ao "espiritual".

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ORIGINAL TEXT
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# What Is The Future Of Religion? - The Future of Religion in a “Secular” Age
http://www.slate.com/bigideas/what-is-the-future-of-religion/essays-and-opinions/the-future-of-religion-in-a-secular-age

Tradução Livre: @DanielDliver

5 de janeiro de 2015

Lecionário, meu plano de leitura bíblica

"A fim de tomar a totalidade do texto a sério, a igreja "desconstrutiva" emprega a tradição reverenciada do Lecionário, que, ao longo de alguns anos, nos guia através da totalidade da narrativa do texto ..." James K. A. Smith -- Quem tem medo do pós-modernismo? p. 57

No começo de um novo ano em que muitos (re)iniciam planos de leitura bíblica para uso devocional, gostaria de indicar o plano que tenho usado: as Leituras Diárias do Lecionário. A grande vantagem do plano de leitura do Lecionário é a conexão da leitura devocional com os textos do culto da comunidade do Domingo. Como nossa igreja está usando o ano B (o segundo de um total de três) do Lecionário nos cultos, também estou usando o Lecionário Diário, ano B.

Como funciona o Lecionário Diário?

"O lecionário diário permite que se conte o tempo da semana de maneira distinta, colocando o Domingo como o centro da semana e da vida do cristão. Dessa forma a semana começa toda quinta-feira, com a preparação para o domingo, os textos do Velho e do Novo testamento mudam a cada dia, porém o Salmo é relido a cada dia até o Domingo. De segunda-feira em diante reflete-se sobre o que foi lido e falado quando a comunidade esteve junta no Domingo e assim se busca evitar perder o sentido daquilo que foi visto em comum, e se aprofunda a meditação e leitura até a quarta-feira seguinte."
(fonte: http://lecionario.blogspot.com.br/2008/05/o-lecionario-comum-revisado.html)

Um arquivo para as referências das Leituras Diárias (inclusive as de Domingo) pode ser encontrado aqui na página da Consultation on Common Texts (CCT):
http://www.commontexts.org/publications/DailyreadingsB.pdf

Uma versão online do Revised Common Lectionary é disponibilizado pela Vanderbilt Divinity Library, que possui muitas informações acerca do Lecionário Comum Revisado:
http://lectionary.library.vanderbilt.edu/

Para links com arquivos do Lecionário em português:
https://cultoreformado.wordpress.com/lecionario/

Lecionário, o que é isso?
http://igrejaanglicana.com.br/o-lecionario-o-que-e-isso

2 de dezembro de 2014

Contando o Tempo de Forma Diferente


Jake Belder



The Christian Calendar from Christ Church Anglican on Vimeo.

O vídeo acima fornece uma introdução realmente útil para o calendário da Igreja e o significado das diferentes estações ao longo do ano. Embora eu não tenha crescido num contexto em que foi observado o Ano Igreja (com exceção dos grandes dias de festa), trata-se de algo que eu vim a apreciar profundamente, e eu acho que seguir o calendário litúrgico é de grande benefício para o a modelagem da vida da Igreja, por algumas diversas razões.

Em primeiro lugar, como diz o vídeo, ele enraiza a Igreja na história do evangelho. Não se trata de apenas ouvir o evangelho a cada vez que nos reunimos, embora certamente esse deve ser o caso, mas de habitarmos a história ao longo de todo o ano de uma forma muito mais profunda. Passamos longos períodos de tempo refletindo e habitando sobre a história da redenção e da obra de Jesus para nos reconciliar com Deus e nos dar uma nova vida, situando-nos dentro do drama que se desenrola. Nós desaceleramos e reconhecemos o que o povo de Deus já sabe há muito tempo - que esta é uma história que se desenrola ao longo de milhares e milhares de anos, e que temos de esperar no Senhor, que traz a salvação na plenitude do tempo.

Neste tempo de Advento no qual acabamos de entrar, por exemplo, é tão importante para a Igreja porque temos em grande parte perdido aquela sensação de espera e expectativa. O Advento nos obriga a enfrentar a realidade de que continuamos a nos encontrar vivendo em um tempo de escuridão, em um mundo que ainda está quebrado e precisa de redenção. Desacelerar para refletir nisso nos ajuda a entrar na saudade e na espera com expectativa de que os profetas falaram enquanto esperavam o Messias prometido, para juntar-se ao grito de Isaías: Ah, se rompesses os céus e descesses! (Isaías 64:1) Não podemos ir direto para o Natal; a vinda do Messias só faz sentido no contexto desse anseio de libertação, enquanto aprendemos o que significa expectativa esperançosa no cumprimento das promessas de Deus. Além do mais, uma das características da Igreja Primitiva era o senso de que a volta de Jesus era iminente, e, portanto, a ideia de correr a corrida e pressionar em busca da santidade era uma tarefa urgente, como era o convite para fazer discípulos de todas as nações e testemunhar para o Reino. Enquanto esperamos o segundo Advento de Cristo, recapturar essa sensação de iminência de seu retorno ajuda a despertar uma Igreja que, em muitos aspectos, perdeu essa urgência.

Em segundo lugar, trata-se de formação. Como observou James KA Smith, somos moldados menos por aquilo que pensamos do que por aquilo que amamos, e esses amores são cultivados pelas histórias e liturgias que habitamos, intencionalmente ou não. Ele argumenta em seu livro, Desejando o Reino, que a nossa cultura está bem consciente da realidade de que somos seres litúrgicos e nos bombardeia incessantemente com narrações do mundo que buscam capturar os nossos corações e as imaginações e orientar-nos no sentido de uma visão particular de florescimento e do que significa ser humano. O único antídoto para essas tentativas invasivos para re-narrar o mundo é nos enraizar firmemente na história verdadeira do mundo, revelada a nós nas Escrituras. E o principal meio de fazer isso é através do culto da Igreja. Calendário da Igreja nos ajuda a ensaiar que a verdadeira história do mundo ao longo de todo o ano em nossa adoração, sempre nos mantendo enraizados nessa história e nos ajudando a resistir àquelas tentativas de reformular e reorientar-nos.

Finalmente, essa é uma maneira de os cristãos serem distintamente separados do mundo, de declarar que pertencemos a um reino diferente e que as nossas vidas são ordenadas de forma diferente. Cristo é o Senhor de toda a nossa vida, incluindo a forma como nós marcamos tempo. Nós marchamos pelo tique-taque de um relógio diferente, e permitimos que esse relógio defina o nosso foco e as nossas prioridades. Como povo que é batizado em Cristo e recebeu uma nova identidade, enraizamo-nos na história da redenção e gastamos o ano apontando para Jesus e para a salvação que vem através dele, constantemente ensaiando o modo em que Deus agiu na história e colocando-nos nessa história .
E isso só pode ser uma coisa boa.

(O gráfico abaixo marca de modo útil as estações do ano Igreja juntamente com as cores litúrgicas, conforme elas são observadas na Igreja da Inglaterra.)

Original: http://blog.jakebelder.com/post/telling-time-differently

Tradução: @danieldliver

8 de setembro de 2014

Igreja e Instituição – Revisitando uma Trilha Percorrida

Algumas falas no último Encontro Mosaico (30/09) me fizeram reviver muito das discussões que remontam ao ano de 2008, numa movimentação na blogosfera sobre o tópico igreja: igreja emergente, igreja orgânica, igreja caseira, etc ...

Esse assunto todo é muito pessoal para mim, pois como me escreveu um amigo em janeiro de 2013: “uma coisa comum nos nossos dois destinos foi o clima de mudança de transição, estamos em busca de um lugar, não só de uma comunidade eclesiástica, mas de um lugar na vida mesmo.”

Em agosto de 2010 eu já tinha escrito uma espécie de “suma” de tantas coisas que tinha lido e discutido até aquele momento acerca do assunto. Já naquela época eu destacava a posição de Sandro Baggio, que se envolvera a fundo nas discussões e conhecia a literatura produzida no período sobre o tema.

Enquanto eu ainda morava e trabalhava em Nerópolis-GO (para onde fui após 25 anos em Uberlândia dos quais 15 na Igreja Metodista), a leitura de um livro (que Baggio comenta em um de seus posts) de Kevin DeYoung e Ted Kluck em 2010 encerrou um ciclo de debates e uma tomada de posição pessoal. O livro Why We Love the Church: In Praise of Institutions and Organized Religion ressoou com muito do que eu então percebia após os debates que tiveram na leitura de “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola, um de seus momentos mais intensos.

Recordei muitas daquelas posições ventiladas à época nesse final de semana. Segundo uma dessas posições, a “instituição” é retratada como um problema para a vida das relações na igreja. (Essa discussão é semelhante aquela sobre religião x espiritualidade, que rendeu vivo debate reproduzido no blog Voltemos ao Evangelho).

Em uma série de postagens sobre o tema, Sandro Baggio tomou posição que representou um significativo contraponto à onda da juventude digitalmente incluída da época:

Nos comentários das postagens encontramos muitos interlocutores das discussões à época. Vale destacar o debate entre Baggio e Brabo nos comentários do primeiro post, porque representa bem os modos de pensar distintos que se firmaram ali. Digna de nota é a referência de Brabo a um texto de Elienai Cabral Júnior:

     “A instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos.”

Sandro Baggio, contudo, afirma em suas postagens listadas acima:

“Não considero a instituição como, por natureza, inimiga mortal da igreja. (...)

Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.

Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições. (...)

Minha sugestão sincera: não perca tempo lutando contra o fantasma da instituição. Ele é tão somente isto: um fantasma. Em vez disso, use seu tempo para amar e servir a Deus e ao próximo, em relacionamentos de compromisso e mutualidade numa comunidade de fé, amor e esperança centrada em Jesus.”

Em comentário ao segundo post, Ariovaldo Carlos Júnior, em 27 de julho de 2011, escreveu:

“Ótima reflexão. Afinal, a instituição deve SERVIR à Igreja de Cristo. O problema tem sido o radicalismo de alguns em considerar que, devido às inversões de prioridade deste “serviço”, tudo que é organizado é ruim. Como se tudo que fosse desorganizado fosse necessariamente melhor e duradouro.”

Em 2009 foram publicados no Brasil os livros "A Cabana" e "Por que você não quer mais ir à igreja?" pela Editora Sextante. Essas obras representavam o pensamento e sentimento de desconforto que se difundia entre a juventude que percebia sinais de necessidade de renovação das instituições eclesiásticas, mas não fornecia uma proposta construtiva ou reformadora, mas um sentimento revolucionário, quase iconoclasta.  No entanto, os jovens que atualmente estão preocupados com missão cristã, transformação e justiça parecem não ecoar esse discurso.

Desde 2009, nas discussões sobre igreja emergente, a posição assumida pelo novo calvinismo americano (neopuritanismo) me pareceu oferecer interessantes contrapontos a algumas posições do diálogo emergente da época. Já em 2010, John Piper, que no ano seguinte diria adeus ao ensino de Rob Bell, já profetizara que movimento emergente se desvaneceria:

        Isso é o que acontece quando se prioriza relacionamentos em detrimento da verdade. Quando a verdade é priorizada, os relacionamentos se tornam parte dela. Quando os relacionamentos são priorizados e a verdade é deixada de lado, então ela se perde. Como consequência, os relacionamentos se arruínam, e é a isso que me refiro quando digo que sua liderança está em ruínas.

Demorou, porém, para eu superasse a resistência com o calvinismo e entender que há duas correntes distintas representadas atualmente por movimentos compreendidos sob os termos neopuritanismo (soberania de Deus na salvação) e neocalvinismo (soberania de Deus na criação).

Contudo, desde que conheci esse neocalvinismo (holandês), o qual descobri por meio do L’Abri (que visitei pela primeira vez em maio de 2011), venho me movendo até uma posição “católica reformada” que abraço hoje. É bom destacar que, segundo Guilherme de Carvalho,

       L'Abri é uma síntese de calvinismo evangelicizado (Schaeffer) com neocalvinismo (Rookmaaker). E o ponto de conexão é a visão Bavickiana de Natureza e Graça (que era fundamental para Rookmaaker e também para Schaeffer, via Van Til).”

Conhecer esses pensadores e a expressão dessa tradição em instituições de ensino como o Calvin College me abriram para um vasto campo do que eu me referi como uma fé católica reformada, abraçado pelo professor James K. A. Smith, o qual me fora apresentado pelo teólogo e pedagogo Igor Miguel. Na minha peregrinação passei pela conversa emergente que enfatizava a necessidade de a igreja contextualizar-se frente aos desafios da pós-modernidade. Num ponto da caminhada cheguei ao livro de Smith, Who’s Afraid of Postmodernism, 2006: Baker Academic, em que ele sintetiza:

"Uma igreja verdadeiramente pós-moderna será profundamente histórica (recuperando sua antiga herança) e litúrgica (ativando a imaginação através do símbolo e do sacramento".

É interessante notar como essas trajetórias se cruzam num post de Igor Miguel, de maio de 2011, em que ele escreve:

“Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras gotas de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido.

Mas, de verdade, o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja", me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade amarmos a Igreja Local novamente. Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.

Como eu disse, o tema "plantação de igreja" me “salvou” quando eu estava em “crise” sobre o assunto. O movimento anglicano norte-americano de plantação de igrejas me despertou para olhar para os temas “igreja e instituição”, teologia, arte e liturgia com outra perspectiva.

Em 2011, participando de um grupo jovem Dedo de Prosa com Deus eu percebia que precisávamos da transição de grupo para igreja, mas não reuníamos condições para fazer essa travessia à época. Em fevereiro de 2012 reencontrei parte do grupo do Love s.a.(em cujas reuniões de oração participei em 2010) comecei a participar em um pequeno grupo que nutria a visão de se tornar uma igreja em plantação.

Com esse histórico, revisitar a discussão sobre instituição me causa certa inquietação, pois sob uma perspectiva da cosmovisão reformada, adquire-se uma compreensão melhor daquilo que Sandro Baggio disse:

“Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.”

Albert Wolters, apresentado em seu importante livro “A Criação Restaurada” (Creation Regained), nos esclarece (p. 71, 77):

“O grande risco é sempre escolher algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identifica-lo, em vez da intrusão da apostasia humana, como o vilão no drama da vida humana. (...) O resultado é que algo na boa criação é declarado mau. (...) Parece haver um traço gnóstico, enraizado no pensamento humano, que faz com que as pessoas culpem alguns aspectos da obra da mão de Deus por todas as aflições e desgraças do mundo em que vivem. (...)

Em resumo, vimos que a queda afeta toda a extensão da criação terrena; que o pecado é um parasito sobre a criação, e não parte dela; e que, à medida que afeta toda a terra, o pecado profana todas as coisas, tornando-as “mundanas”, “seculares”, “terrenas”. Consequentemente, cada área do mundo criado clama por redenção e pela vinda do reino de Deus”.

Em uma resenha de um livro de D. A. Carson, James K. A. Smith chama a atenção para a importância, na grande narrativa bíblica (criação, queda, redenção, consumação), do "Mandato Cultural" (Gn 1:27-29): o chamado criacional da humanidade para cultivar as possibilidades latentes dentro da criação através do contínuo trabalho cultural. O autor clama por uma teologia da cultura que mostra como o trabalho de "fazer humano" está enraizado na própria criação: "essa tarefa de elaboração humana é precisamente a forma como portamos a imagem de Deus no mundo (como "sub-criadores", nas palavras de Tolkien)."

O autor destaca que se "as instituições, sistemas e estruturas" estiverem ausentes de uma abordagem da criação, eles também não aparecerão no radar da queda e no da redenção. Já por uma perspectiva da escatologia, a "eternidade" nos aparece em muitas abordagens evangelicais como carente de instituições culturais – uma eternidade sem comércio ou política, arte ou atletismo. Para Smith, "tal visão achatada do nosso futuro redimido é o correlato de uma compreensão atrofiada da criação".

Na sequência do texto, o autor pergunta:

"Mas o que é o evangelho senão o chamado e convite de Deus para sermos restaurados e renovados como portadores apropriados da imagem de Deus -- que carregam sua imagem ao desdobrar o potencial da criação em cultura corretamente ordenada? Ser portadores da imagem de Deus é um chamado, uma vocação e uma tarefa, e não uma propriedade estática do ser humano. E Cristo, como o segundo Adão, mostrou-nos como se parece fazer isso: em um mundo caído e quebrado, a forma de tal vocação é cruciforme; ser agentes culturais do Deus crucificado não é um projeto de transformação triunfal, mas de testemunho sofredor."

O mandato cultural é, pois, uma tarefa humana que envolve a expressão da lei criacional na civilização humana. Como nos diz Albert Wolters (p. 55, 28):

"O governo da lei de Deus é imediato no domínio não-humano, mas tem um mediador na cultura e na sociedade. No domínio humano, homens e mulheres tornam-se co-trabalhadores com Deus; como criaturas feitas à imagem de Deus, eles também têm um tipo de senhorio sobre a terra, e são vice-regentes na criação" (...) "Somos chamados a participar na obra criacional de Deus que está em progresso, para sermos ajudadores de Deus na execução da sua obra-prima".

Assim, instituições culturais como escolas, empresas, igrejas, estados, assembleias legislativas, bibliotecas, fazem parte da criação, são totalmente afetadas pela queda e estão sob o alcance da redenção de Cristo que é Senhor sobre todos os centímetros da realidade criada. A tendência gnóstica se manifesta, na discussão que estamos enfocando, em suspeitar das instituições em si mesmas, especialmente quando estas são um aspecto da igreja. No editorial da edição fall 2013 da revista canadense Comment, entitulada "We Believe in Institutions", James K. A. Smith escreve:

Em uma era cínica que tende a glorificar 'start-ups' e celebrar a suspeita anti-institucional, a fé em instituições soará datada, indigesta, fora de moda, e mesmo (suspiro) "conservadora". Assim os cristãos que estão ansiosos por ser progressistas, hip, relevantes e criativos tendem a comprar tal anti-institucionalismo, assim espelhando e imitando tendências culturais mais amplas (o que, ironicamente, são frequentemente, parasitárias das instituições!).

        E, no entanto esses mesmos cristãos estão justamente preocupados com "o bem comum". Eles são recém convencidos de que o Evangelho tem implicações para toda a vida e que ser cristão deve significar algo para este mundo. Jesus chama-nos não só para garantir a nossa própria salvação em algum gueto religioso privatizado. Ele nos chama para buscar o bem-estar da cidade e de seus habitantes ao redor de nós. Nós amamos a Deus ao amar o próximo; glorificamos a Deus ao cuidar dos pobres; exibimos a bondade de Deus através da promoção do bem comum.

       Mas aqui está a coisa: se você está realmente apaixonado por promover o bem comum, então você deve resistir ao anti-institucionalismo. Por que as instituições são maneiras de amar nosso próximo. As instituições são estruturas concretas duráveis ​​que -- quando funcionando bem -- cultivam todo o potencial da criação em direção ao que Deus deseja: shalom, paz, bondade, justiça, florescimento, prazer. As instituições são a nossa forma de obter uma alça sobre realidades concretas e abordar diferentes aspectos da existência humana. As instituições, por vezes, são andaimes para apoiar os fracos; às vezes elas funcionam como cercas para proteger os mais vulneráveis​​; em outros casos, as instituições são o trampolim que nos permite buscar inovação. Mesmo que elas possam tornar-se corruptas e necessitarem de reforma, as próprias instituições não são o inimigo.

     Assim, acreditamos nas instituições porque nos opomos à injustiça. Mas fundamentalmente acreditamos nas instituições porque acreditamos nas Escrituras e na comissão cultural dada à humanidade no Jardim. Ser frutífero e multiplicar é começar -- e herdar -- a instituição da família. Cultivar a criação é encher a terra com a vida institucional que estava implorando para ser desfraldada em museus e escolas, nas legislaturas e bibliotecas, nas universidades e sindicatos. As instituições são maneiras comuns duráveis pelos quais podemos atuar em conjunto com nosso próximo para conseguir bens penúltimos. Então, ao invés de pensar as instituições como grandes, pesadonas, gigantes e estáticas, pense em instituições como encenações sociais dinâmicas. Tente imaginar "instituições" como esferas de ação. As instituições não são apenas algo que nós construímos; eles são algo que fazemos.”

Dallas Willard, falecido professor de filosofia que escrevia sobre formação e disciplinas espirituais, faz uma interessante aplicação da imagem de Paulo que: “temos esse tesouro em vasos de barro” (2 Co. 4.7). Aqui, o vaso de barro é o corruptível corpo do apóstolo e os eventos visíveis de sua vida terrestre. Para Willard, os mesmos princípios de "vaso" e "tesouro" se aplicam às congregações locais, às suas tradições e seus grupos de alto-nível chamados de "denominações". A identidade de grupos, congregações e denominações são definidas historicamente por contingências humanas que são muitas vezes confundidas com o tesouro da verdadeira presença de Cristo. Para evitar a “armadilha do vaso”, Willard recomenda o foco na Grande Comissão:

Certamente que não podemos evitar ter vasos. E devemos ser sensíveis a eles, pois isso faz parte do que é ser humano e finito. Até mesmo Jesus teve o seu vaso. Ele era um judeu e isso se tornou a primeira armadilha do vaso que as primeiras congregações de discípulos precisaram enfrentar. Atos e as cartas do Novo Testamento são um registro de como isso foi superado.

Podemos, portanto, evitar fazer do vaso o tesouro. E podemos identificar o tesouro sem fazer referência a qualquer vaso. No entanto, o tesouro sempre terá um vaso. O próprio Jesus nos mostrou o caminho, e a congregação local pode seguir esse caminho. [...]

Em poucas palavras, a congregação local que adotar os "princípios e as verdades absolutas" do Novo Testamento, com a natural consequência de se tornar e produzir filhos da luz, tem que apenas seguir as instruções finais de Jesus: "Ao saírem pelo mundo, façam aprendizes de para mim de todos os tipos de pessoas, imergindo-as na realidade Trinitária e ensinando-as a fazer todas as coisas que lhes ordenei" (Mt 28:19-20, paráfrase). As ordens foram acompanhadas de declarações categóricas sobre os muitos recursos para a tarefa: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "estarei com vocês a cada momento, até que o trabalho esteja concluído" (v. 18, 20, PAR).”

N. T. Wright, um dos maiores estudiosos contemporâneos do Novo Testamento, escreve em seu livro dedicado à ressurreição, escatologia e missão, Surpreendido pela Esperança, que a igreja deve remodelar a sua missão identificando-a com “viver o futuro”. Parte essencial desse futuro consiste na redimida criação: espaço, tempo e matéria. O autor explica sua tese (p. 273):

“A ordem criada, que Deus começou a redimir na ressurreição de Jesus, é um mundo no qual o céu e a terra foram planejados para estarem unidos, não separados. A partir dessa união, Deus irá aprimorar a declaração que fez no princípio, de que a criação é “muito boa”.

O eminente autor, bispo anglicano aposentado para se dedicar à docência, aborda o fenômeno do abandono das práticas tradicionais das igrejas pela juventude: templos, liturgias, orações formais e os sacramentos. Na visão de Wright, isso tem origem em um tipo de “protestantismo latente” na cultura cristã ocidental, na crença implícita de que “templos, liturgias e coisas assim são, por natureza, não-espirituais” (p. 272). Com base na “lógica da nova criação”, Tom Wright pergunta (p. 273): “O que acontece quando pensamos em espaço, tempo e matéria sendo renovados, em vez de abandonados, na vida da igreja?”

Quanto ao espaço, o autor afirma que é preciso urgentemente retomar uma “teologia do lugar” (presente na tradição celta), de “lugares finos” em que o véu que separa céu e terra se tornam quase transparente. A restauração futura do mundo inteiro por Deus é antecipada na restauração de lugares para adoração e oração; não um esconderijo do mundo, mas um posto avançado pelo qual se reivindica parte do espaço dado por Deus para a sua glória, antecipando o dia em que o mundo inteiro irá tremer diante dele. Para Wright, há um dualismo tolo na declaração de que templos antigos e coisas desse tipo são irrelevantes para a missão de Deus. O autor afirma um princípio norteador (p. 274): “Sim, reivindicações territoriais podem se tornar idólatras e abusivas [...] No entanto, a resposta ao abuso não está no dualismo, mas no uso apropriado".

No tocante à renovação e à reivindicação do tempo, o autor afirma que o tempo da igreja, a longa história da igreja cristã e a “tradição” acumulada durante esse período devem ser seriamente considerados em qualquer escatologia fundamentada na visão da igreja voltada para missão (p. 275):

“A história da igreja é a história de caminhos nos quais, a despeito da tolice, do fracasso e do pecado evidente, o futuro de Deus já começou naquele que, para nossos ancestrais, era o “tempo presente”, deixando-nos um legado que é parte do “passado”, e que está repleto não somente de erros e de estilos de vida culturalmente condicionados, mas também de padrões da nova criação que já estão, a partir do nosso ponto de vista, entrelaçados na história – pedaços do futuro de Deus, por assim, dizer que são agora pedaços do nosso passado. [...] Descartar a tradição apenas porque ela é “tradição” é render-se à pós-modernidade e a um tipo de ultraprotestantismo que arranca a raiz da árvore por acreditar que árvores devem sem completamente visíveis para que todos vejam seus frutos, e não enterradas em um solo sujo.”

Finalmente, quanto ao item matéria, adverte Wright (p. 276-277):

“Se não quisermos cair no platonismo, negando assim a excelência da criação, devemos retomar a ideia da encarnação e da ressurreição corpórea de Jesus, e a promessa de que a criação será renovada e ficará livre da morte e da corrupção. [...] É dentro dessa estrutura de pensamento que os sacramentos cristãos clássicos do batismo e da eucaristia ganham significado. [...] O abuso do sacramento não anula seu uso apropriado. [...] Se a igreja precisa ser renovada em sua missão no mundo e para o mundo de espaço, tempo e matéria, não podemos ignorá-lo o marginalizá-lo. Devemos, antes, reivindica-lo para o reino de Deus, para o senhorio de Jesus e no poder do Espírito, a fim de que possamos então ir e trabalhar pelo reino, anunciar o senhorio de Cristo e realizar mudanças por meio desse poder. Ninguém ensina alguém a cantar jogando fora seus instrumentos musicais. Portanto, a missão da igreja deve incluir, em nível estrutural, o reconhecimento de que nosso espaço, tempo e matéria presentes estão sujeitos à redenção, e não à rejeição. [...] A despeito da tendência observada na “igreja emergente”, de marginalizar espaço, tempo e matéria, eu continuo convencido de que o modo de seguir adiante à descobrindo a verdadeira escatologia, a verdadeira missão enraizada na antecipação dessa escatologia, e de formas de igreja que incorporam essa antecipação”.

Portanto, o cristianismo bíblico nos provê recursos para evitar a rejeição da estrutura de qualquer aspecto da criação de Deus ao discernimos os efeitos da Queda na direção distorcida que assumem para que cooperamos com o Deus Trino direcionando para Cristo todas as coisas. A redenção em Jesus é “o antídoto completo e decisivo para a distorção criacional”. Qualquer coisa na criação pode ser direcionada para a obediência a Cristo: “os seres humanos individuais, os fenômenos culturais como a tecnologia, a arte e o conhecimento, as instituições sociais como sindicatos, escolas e corporações e as funções humanas como a emoção, a sexualidade e a racionalidade” (Wolters, 69).

Na Carta XXIII de suas "Cartas a um Jovem Calvinista", James Smith recorre a Santo Agostinho para articular uma doutrina robusta da bondade da criação:

      "As 'coisas' não são pecaminosas, o que é pecaminosa é a forma como nos relacionamos com elas, o que fazemos com elas. E isso se resume a uma questão sobre o que nós amamos e como amamos. [...]

        Para Agostinho, o pecado é uma questão de "como" e não do "quê". O que precisa mudar, diz Agostinho, não são as coisas da criação, mas o nosso amor. Assim, Agostinho introduz uma distinção importante, especialmente no livro 1 da "Doutrina Cristã", o que Deus deseja e projeta para as suas criaturas é uma "ordem correta do amor", que significa simplesmente que fomos criados e chamados a ser criaturas cujo propósito é amar ao Deus Trino, e, assim, encontrarmos a nossa identidade e nos deliciarmos nessa ordem correta do amor. Para Agostinho, nós somos o que nós amamos. Na verdade, não podemos deixar de amar: mesmo caída, a humanidade pecadora ainda é impelida a amar; mas como pecadores, nós amamos as coisas erradas da forma errada. [...]

        As tentações do mundo, então, não são um reflexo do que há de errado com a criação, elas são um indicador de que há de errado conosco. O que está em questão aqui não é a criação em si, mas como nos relacionamos com a criação. [...]

     Mas pela graça de Deus a nossa inclinação para amar pode ser corretamente direcionada, corretamente dirigida ao próprio Deus. Pela graça de Deus o nosso amor pode encontrar o propósito para o qual foi criado: o próprio Deus. Quando o nosso amor é corretamente direcionado de forma que nos deleitemos em Deus, então vamos perceber que Deus nos dá a sua criação, para que possamos desfrutar Dele."

O aspecto institucional da igreja, portanto, não está fora da abrangência do senhorio de Cristo e deve ser submetidoa constante reforma para que obedeça a direção apontada pela graça. A instituição não é sagrada nem secular, mas é “santificada” pela palavra de Deus e pela oração (1 Tm 4.5).