7 de abril de 2014

The way we navigate the world

The orthodox Christian tradition was launched with the Incarnation of God in Christ, the apostolic witness, and the Scriptures. But we inherit that rule of faith in two ways: first, in the creeds and confessions of the church (the articulated, explicit aspects of the faith), and second, in the liturgical heritage that hands down the know-how of the faith—our practices, our disciplines, our liturgical forms. Ideally, there's a feedback loop between those two things. If you had just the creeds and confessions without the practices of Christian worship, you would never get the full inheritance of what the Spirit has passed on to us. That inheritance is not owned by Constantinople or Rome or Canterbury. Rather, it is a common universal heritage of the body of Christ that can be renewed for any who call themselves Christians.


James K. A. Smith, 

From Issue:
May 2013, Vol. 57, No. 4, Pg 54, "You Can't Think Your Way to God"

28 de janeiro de 2014

A Disciplina da Confissão - Dallas Willard

Confissão é uma disciplina que funciona dentro da comunhão. Nela, permitimos que pessoas confiáveis conheçam nossas fraquezas mais pro­fundas e nossas falhas. Isso nutre nossa fé na provisão de Deus para nossas necessidades por meio do seu povo, nosso senso de ser amado e nossa humildade diante de nossos irmãos. Assim permitimos que alguns amigos em Cristo saibam quem somos na verdade, não retendo nada importante, mas procurando manter a máxima transparência. Deixamos de carregar o peso de esconder e fingir, que normalmente absorve uma quantidade es­pantosa de energia, e engajamo-nos mutuamente nas profundezas da alma.

A igreja do Novo Testamento parece ter admitido que, se um irmão tivesse alguma enfermidade ou estivesse passando por qualquer aflição, a situação poderia ser motivada por um pecado, que separava a pessoa do pleno fluir da vida redentora. Assim, a Epístola de Tiago (5.16) diz: "Con­fessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz. "Temos de aceitar o fato de que um pecado inconfesso é um tipo especial de jugo ou obstrução na realidade psicológica e física do cristão. A disciplina da confissão e do perdão remove este jugo.

A confissão também ajuda a evitar o pecado. Provérbios 28.13 diz que "quem esconde os seus pecados não prospera, mas quem os confessa e os abandona encontra misericórdia". Obviamente, "confessar" ajuda a "aban­donar", pois persistir num pecado dentro de um círculo íntimo de rela­cionamentos (sem mencionar a comunhão no corpo transparente de Cris­to) é insuportável. Dizem que a confissão é boa para a alma mas ruim para a reputação; e que uma má reputação torna a vida mais difícil em relação às pessoas mais próximas, isso todos nós sabemos. No entanto, proximi­dade e confissão nos forçam a manter uma distância do mal. Nada oferece melhor suporte para o comportamento correto do que a verdade aberta.

Abrir a alma para um amigo cristão maduro ou um ministro qualifica­do capacita essa pessoa a orar por problemas específicos e fazer coisas que podem ser úteis à redenção daquele que está confessando. Somente a con­fissão torna possível a comunhão profunda, e a falta dela explica muito da superficialidade encontrada nas igrejas. O que torna a confissão suportável? A comunhão. Há uma reciprocidade essencial entre as duas disciplinas.

Onde há confissão dentro de uma comunidade, a restituição não pode ser omitida e também serve como uma poderosa disciplina. É difícil não retificar os erros, uma vez que são confessados e conhecidos. É evidente que nem todo pecado exige restituição. Contudo, é inconcebível que eu sinceramente confesse a meu irmão que roubei sua carteira ou manchei sua reputação e depois siga alegremente meu caminho sem tentar fazer alguma coisa em relação ao que foi perdido.

Em geral, nossa integridade inata (uma força dentro de nossa persona­lidade) exige restituição. Freqüentemente, não é uma experiência muito agradável, mas de fato fortalece nossa vontade de fazer a coisa certa.

A confissão é uma das disciplinas mais poderosas para a vida espiri­tual. No entanto, com facilidade, pode haver abusos; e o seu uso efetivo requer considerável experiência e maturidade, tanto por parte do indiví­duo envolvido como da liderança do grupo – o que nos leva à última disciplina (Submissão).

Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, Editorial Habacuc, 2003, pp. 212-214

A Disciplina da Castidade - Dallas Willard

Ao listar uma disciplina que lida especificamente com o impulso sexu­al, sentimos falta de uma terminologia apropriada. Usarei o termo "castidade", embora ele, como a "simplicidade", se refira ao resultado de uma disciplina sob a graça, e não às atividades disciplinares em si. Ao exercer a disciplina espiritual da castidade, nós nos afastamos deliberadamente do engajamento na dimensão sexual do relacionamento com outros – até mesmo nosso cônjuge.

A sexualidade é uma das forças mais poderosas e mais sutis da nature­za humana, e o sofrimento ligado diretamente a ela é muito alto. Os abu­sos do sexo, fora e dentro do casamento, tornam imperativo aprender "como possuir nosso vaso em santificação e honra" (I Ts 4.4).

Uma parte fundamental desse aprendizado consiste de abstenção de práticas sexuais e de não-rendição a sentimentos e pensamentos sexuais, aprendendo assim a não ser governado por eles.

A abstenção temporária dentro do casamento, mediante consentimen­to mútuo, também foi aconselhada por Paulo como um auxílio ao jejum e à oração (I Co 7.5). Em desacordo com o pensamento predominante no mundo atual, é absolutamente vital para a saúde de qualquer casamento que a gratificação sexual não seja colocada como centro. A abstenção vo­luntária nos ajuda a apreciar e amar nossos parceiros como pessoas com­pletas, nas quais a sexualidade é apenas um aspecto. Isso reforça em nós a prática de estar bem próximo das pessoas, sem embaraços sexuais.

A castidade tem uma parte importante a desempenhar dentro do casa­mento, mas o principal efeito que buscamos por meio dela é a postura apropriada em face dos atos, sentimentos, pensamentos e das atitudes se­xuais na nossa vida como um todo, dentro e fora do casamento. A sexua­lidade não terá permissão de dominar nossa vida, se vivermos como filhos e filhas de Deus, como irmãos e irmãs em Jesus Cristo.

Isso não significa que a nossa sexualidade é algo de que devemos nos afastar. Isso seria impossível. Somos seres sexuais: "Homem e mulher os criou" (Gn 1.27). Esta passagem crucial vincula a sexualidade ao fato de termos sido criados à imagem de Deus. Ela é parte do poder com o qual servimos ao Senhor. Na sexualidade, o envolvimento pessoal, o conhecer e ser conhecido, característica da natureza básica de Deus, é providenciado de forma especial para o ser humano integral. Na união sexual plena, a pessoa é conhecida em seu corpo todo e conhece a outra pessoa por meio de todo o seu corpo. A profundidade do envolvimento é tão grande que não pode haver "sexo casual". Isso é uma contradição muito bem compre­endida pelo apóstolo Paulo, que, por isso, ensinou que a fornicação é um pecado contra o próprio corpo (I Co 6.18).

A sexualidade está na essência do nosso ser. Portanto, castidade não significa não-sexualidade, e qualquer afirmação desse jaez certamente causa­rá grande malefício. Este é um ponto muito importante. O sofrimento, em grande parte, que procede da sexualidade, não vem pela indulgência de pensamentos impróprios, sentimentos, atitudes e práticas sexuais. Grande parte procede da abstenção inadequada.

Em nenhum outro aspecto da vida humana, é mais verdadeiro o pro­vérbio "A esperança que se retarda deixa o coração doente" (Pv 13.12), e a mente também. Jesus viu claramente que a abstenção de relações sexuais ainda deixa brecha para grosseiras impropriedades e distúrbios sexuais ­alguns dos quais Ele chamou de "adultério no coração" (Mt 5.28). Jesus sabia que a abstenção correta era algo que exigia qualificações especiais (Mt 19.11:12). Paulo seguiu seu Mestre. Ele tinha o mesmo realismo quan­to ao sexo. Por isso ensinou sobre um tipo errado de abstenção quando escreveu que "é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo" (I Co 7.9).

Temos de entender que o "arder de desejo" não é uma questão "inte­rior" trivial, mas algo muito sério em suas implicações. Ele pode aflorar na vida humana de muitas formas: distorção severa no pensamento e nas emoções, incapacidade de engajamento em relações sexuais normais e apro­priadas, desgosto e ódio entre mulheres e homens frustrados, abuso infan­til, perversão sexual e crimes sexuais. A castidade corretamente praticada como parte de um rico caminhar com Deus pode prevenir enfermidades do coração e da mente envenenada na vida sexual, na sociedade moderna.

Dietrich Bonhoeffer faz a seguinte observação: "A essência da castida­de não é a supressão do desejo, mas a total orientação da vida do indivíduo em direção a um objetivo."

A abstenção saudável na castidade só pode ser suportada pelo envol­vimento amoroso e positivo com membros do sexo oposto. A alienação abre espaço para a concupiscência nociva. Esta disciplina deve ser funda­mentada na compaixão, em associação e na disposição de ajudar. Se ­situação familiar fosse como deveria ser, um relacionamento íntimo e com­passivo entre os sexos seria o caminho natural de relacionamentos entre mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã. Um estudo recente indica que pais que cuidam dos filhos, dando banho, alimentando e segurando-os no colo desde os primeiros dias de vida raramente cometem abuso sexual com eles. Eles desenvolvem um amor verdadeiro pelos filhos, e o amor efetiva­mente evita que causemos mal uns aos outros. Para praticar a castidade então, devemos, primeiro, praticar o amor na busca do bem das pessoas do sexo oposto, com as quais mantemos contato em casa, no trabalho, na escola, na igreja e na vizinhança. Então seremos livres para praticar a disci­plina da castidade e extrair apenas resultados positivos dela.


Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, Editorial Habacuc, 2003, pp. 193-196

18 de janeiro de 2014

O Perdão Como Libertação do Mal

Uma das melhores obras de teologia cristã escritas na década passada é Exclusion and Embrace (Exclusão e Aceitação), de Miroslav Volf, que conquistouo prestigiado prêmio Grawemeyer em 2002. Volf, que dá aulas na Escola de Divindade em Yale, defrontou-se, há alguns anos, com uma questão: como ele, um croata batista, poderia amar seu vizinho sérvio ortodoxo, depois das coisas terríveis que os sérvios haviam feito em seu país? Descobriu, com a ajuda de Jürgen Moltmann, que, caso não conseguisse responder a essa pergunta, a autenticidade de toda a sua teologia seria questionada. Quem nunca precisou enfrentar de perto esse tipo de dilema deve ficar surpreso com a perspicaz mente cristã de Volf lutando com um problema tão emotivo e pessoalmente envolvente, e encarando, no processo, algumas das maiores questões teológicas, culturais e filosóficas de nosso tempo.

O argumento básico de Volf é: seja nas relações internacionais ou pessoais, o mal deve ser identificado e confrontado. Não se pode esquivar-se ou fingir (seja para facilitar a vida ou para resolver a situação de forma mais rápida) que o que aconteceu não foi tão ruim assim. Só depois disso, quando o mal e o agente do mal são identificados pelo que são e pelo que fazem -- é isso que Volf chama de “exclusão” -- pode-se dar o segundo passo, rumo à “aceitação” daquele que me (ou nos) magoou e feriu profundamente. Claro que, mesmo assim, pode ser que a aceitação não aconteça, caso o agente do mal se recuse a ver seus atos sob essa ótica. Porém, se eu nomeei o mal e me esforcei ao máximo para oferecer perdão e reconciliação genuínos, estou livre para amar a pessoa mesmo que ela não queira corresponder.

(...)

Pense um pouco na dinâmica interna do perdão. Talvez por conhecerem um pouco de psicologia pastoral, muitos leitores devem estar familiarizados com isso; no entanto, poucos o relacionam ao problema generalizado do mal. O fato é que, quando perdoamos, liberamos não apenas a pessoa do fardo de nossa ira e suas possíveis consequências, mas também a nós mesmos do fardo do que quer que tenham feito contra nós e do estado emocional debilitado em que viveremos se nos apegarmos à ira e amargura e não perdoarmos. O perdão -- de Deus para conosco, entre duas pessoas e até de nós mesmos -- é parte central da libertação do mal.

(...)

Volf e outros [afirmam] que o reconhecimento do mal é o primeiro estágio rumo ao perdão, não uma alternativa a ele.

(...)

O que devemos entender, com a máxima urgência, é que perdão não é o mesmo que tolerância. Ouvimos hoje, o tempo todo, que precisamos ser “inclusivos”; que Jesus recebeu todo tipo de gente; que a igreja acredita no perdão, e que por isso devemos casar divorciados sem questionar, recontratar funcionários demitidos por fraude e permitir que pedófilos condenados voltem a trabalhar com crianças… Normalmente não fazemos essa última afirmação, o que mostra pelo menos alguns vestígios de bom senso. Perdão não é o mesmo que tolerância. Não é sinônimo de inclusão. Não é indiferença, seja ela pessoal ou moral. Perdão não significa que não levamos o mal a sério. Na verdade, significa que o levamos bastante a sério. Para começar, implica uma determinação em dar nome ao mal e envergonhá-lo. Sem isso, não haverá o quê perdoar. Além disso, perdão quer dizer que estamos determinadosa fazer tudo que está ao nosso alcance para retomar um relacionamento adequado com o ofensor depois que o mal for tratado. Por fim, significa que decidimos, em nossa mente, que não permitiremos que o mal determine o tipo de pessoa que seremos. É isso o que significa perdão. É algo difícil de praticar e receber -- e difícil também no sentido de que, um vez em prática, ele é poderoso; diferente da falsa tolerância, que se limita a seguir a lei da menor resistência.


Gostaria de desenvolver um pouco mais esse ponto. Perdoar não significa não se importar, ou achar que não foi importante. Eu me importei, foi importante; caso contrário, não teria nada para perdoar, precisaria apenas ajustar minha atitude ao que aconteceu. (Hoje, ouvimos falar de pessoas que precisam ajustar sua atitude diante das coisas que antes achavam erradas. Porém, isso não é perdão. Se minha atitude para com alguém está errada e precisa ser corrigida, não perdoei ninguém; estou apenas dizendo que a pessoa não precisa de perdão, e, se alguém precisa, sou eu, por causa da minha postura anterior). Perdão também não é fingir que algo não aconteceu. Este aspecto é um pouco mais sutil, porque parte do ato de perdoar é comprometer-me a trabalhar no sentido de conseguir agir como se não tivesse acontecido. Aconteceu, e perdoar não implica fingir o contrário; é examinar bem o fato de que aconteceu e tomar uma decisão consciente, de vontade moral, de deixar a ofensa de lado para que ela não se torne uma barreira entre os dois lados envolvidos. Em outras palavras, o perdão pressupõe que o que aconteceu foi maligno e não pode ser considerado irrelevante. Fazer isso gera uma raiva reprimida e uma distanciamento cada vez maior entre pessoas, que já não confiam umas nas outras. É muito melhor colocar tudo sobre a mesa, seguindo a orientação do Novo Testamento, e lidar com os problemas.


N. T. Wright, O Mal e a Justiça de Deus, Ed. Ultimato, cap. 5



14 de dezembro de 2013

Tempo Litúrgico: Ritmos e Cadências de Esperança

Tempo Litúrgico: Ritmos e Cadências de Esperança

Antes mesmo que tomemos nossos assentos, podemos perceber o ambiente de culto. Em particular, podemos notar as cores que adornam o espaço. Aqui já nos deparamos com uma instância em que nosso exercício vai contra um limite, perdendo o que seria particularmente notável se tivéssemos uma série de fotografias do mesmo espaço ao longo de um ano. Veríamos as cores mudando ao longo do tempo: de um roxo escuro, real a um negro lamentoso para um branco cintilante e triunfante. A um ponto em que podemos ver o culto de adoração extinto nas trevas das sombras, o povo partindo em sóbrio silêncio e mais tarde voltar ao espaço cheio de luz. Faixas e bandeiras e imagens no espaço moveriam e mudariam. Em suma, somente o espaço de culto contaria uma história que realmente organiza o tempo -- uma indicação de que aqui reside um povo com um senso único de temporalidade, que habita um tempo que é desconjunturado do tique-taque do tempo comercial ou a forma padrão do ano acadêmico.

Embora visualmente representado na cor e ornamento do espaço de culto, isso é ainda mais integralmente refletido no formato das práticas -- no foco da oração, nas disciplinas espirituais que são observadas, em rituais únicos que acontecem anualmente em vez de semanalmente (por exemplo, o acendimento das velas do Advento ou a imposição das cinzas). Esse povo relaciona-se com o tempo de um modo que é único e peculiar, expresso no que é conhecido como o ano litúrgico ou o Ano Cristão. Se lemos as práticas do culto cristão, concluiríamos que os cristãos são pessoas cujo ano não mapeia simplesmente o calendário da cultura dominante. (...) Então, a distinta marcação do tempo que é integral à adoração cristã histórica estabelece um senso de que a igreja é um “povo peculiar”, e o calendário litúrgico já constitui uma matriz que funciona como uma contra-formação ao incessante padrão 24/7 de nossa cultura comercial frenética.

Como assim? O que é tão peculiar acerca do tempo cristão? Primeiro, o tempo aqui gira em torno de uma pessoa -- Jesus de Nazaré, um judeu do primeiro século que “padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado. Desceu ao Inferno. E no terceiro dia ressuscitou dos mortos. Subiu ao Céus.” O próprio Credo Apostólico situa Jesus no tempo, no reino histórico de Pôncio Pilatos. A igreja não é um povo reunido por ideias, ensinos ou ideais abstratos; ela é o povo reunido para a pessoa histórica de Jesus Cristo. A igreja é o povo do Messias que adora um Deus que invadiu o tempo e nele habitou, que sofreu nas mãos de regimes históricos, e que ressuscitou “no terceiro dia”. Reunidos como um povo para adorar o Messias, que não flutua em algum céu esotérico, ahistórico, mas que deixou um entalho no tempo -- e o fará novamente.

Segundo, como um povo messiânico, a igreja é um povo que habita o presente com uma certa leveza do ser. Se somos estrangeiros e peregrinos em território estrangeiro (1 Pedro 2.11), então somos também peregrinos em um tempo estranho -- que sempre se relacionará com o presente um pouco como um viajante no tempo (não consigo de livrar de imagens de Marty em De Volta para o Futuro). Resistindo a um presentismo que pode apenas imaginar “viver para o momento”, a igreja é um povo com uma orientação para o futuro profundamente enraizada, um hábito que aprendemos de Israel. Durante o Advento, anualmente, o ano cristão ensina-nos novamente a nos tornar Israel, reconhecendo nosso pecado e necessidade, e então esperando, ansiando, chamando, e orando pela vinda do Messias, o advento da justiça, e a irrupção de shalom. Atravessamos o ritual de desejar o reino -- um tipo de impaciência santa -- promulgando novamente o anseio de Israel pela vinda do Rei. A repetição disso ano após ano é um treinamento em expectativa (e é reproduzido cada semana do ano na celebração da Eucaristia, pela qual “proclamamos a morte do Senhor até que ele venha). Portanto, o Advento sacode-nos da complacência presentista na qual podemos ser embalados. Em vez disso, somos chamados e formados para ser um povo de expectância -- procurando pela vinda (novamente) do Messias. Somos um povo futural que não procura escapar do presente, mas que se sentirá sempre de algum modo desconfortável no presente, assombrado pelo quebrantamento do “agora”.

O futuro pelo qual esperamos -- um futuro onde a justiça corre como água e a retidão como um ribeiro perene -- paira sobre o nosso presente e dá-nos uma visão do para que trabalhar aqui e agora enquanto continuamos a orar, “Venha o teu reino”. A temporalidade da adoração cristã -- macrocosmicamente expressada no Ano cristão, microcosmicamente expressa em particulares elementos cada Domingo -- treina nossa imaginação para ser escatológica, ansiando não pelo fim do mundo mas para “o fim do mundo como o conhecemos”*. Em adoração, provamos “os poderes da era vindoura” (Hb 6.5), que suscita em nós um anseio pelo reino vindouro, porque esse gosto é também um pouco de uma provocação: ele dá-nos o suficiente de um senso do que está vindo que nós olhamos ao redor para nosso mundo partido e vemos todas as maneiras em que o reino ainda não chegou. “Vem, Senhor Jesus!” e “Até quando, Senhor?!” são orações de um povo futural.

Ao mesmo tempo, os ritmos do culto cristão e do ano litúrgico estendem-nos para trás. Eles são práticas de recordação -- outro hábito que aprendemos de Israel. Lembramos com gratidão os atos de redenção de Deus no êxodo (Sl. 78) e na cruz. Quaresma e Páscoa convidam-nos a voltar e lembrar o poder desencadeado na cruz e na ressurreição -- um poder que continua a irromper no presente (Fp. 3.10-11). O próprio Ano Cristão é uma antiga herança lembrando-nos de que somos parte de um povo que é mais velho que nosso presente, que somos herdeiros de uma tradição. Portanto, somos constituídos como um povo que vive entre dois tempos, lembrando e esperando ao mesmo tempo. A cada semana esse “estar no meio” é executado na Eucaristia, que convida-nos a “Fazer isso em memória de mim” e a fazer assim para “proclamar a morte do Senhor até que ele venha”. (...)

Há um sentido no qual os cristãos são treinados pela liturgia para ser um povo “que nasceu fora de tempo”, como Paulo diz de si mesmo (I Co 15.8). Isso não é porque somos tradicionalistas  que servil e nostalgicamente anseiam pelas veredas antigas (Jr. 6.16). Contudo, há um senso profundo em que a igreja é o povo chamado para resistir o presentismo incorporado na tirania do contemporâneo. Somos chamados a ser um povo de memória, que é moldado por uma tradição que é milênios mais antiga do que as últimas paradas da Billboard. E somos chamados a ser um povo de expectativa, orando por e ansiando por um reino vindouro que irromperá sobre nosso presente como um ladrão na noite. Somos um povo estendido, cidadãos de um  reino que é tanto mais velho quanto mais novo que qualquer oferedido pelo “contemporâneo”. As práticas do culto cristão durante o ano litúrgico formam em nós uma espécie de “alma velha” que é perpetuamente apontada para o futuro, ansiando por um reino vindouro, e buscando ser tal povo estendido no presente que é um antegosto do reino que vem.