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1 de maio de 2017

O Lecionário agora é uma Publicação

O Lecionário agora é uma publicação no Medium.



 
Ali o conteúdo será expandido e as publicações serão diversificadas.

Reservamos as quartas-feiras e as quintas-feiras para as publicações principais dos textos bíblicos.

Nas quartas-feiras publicamos as Leituras Diárias em uma postagem semanal, com suplementos para pequenos grupos de discipulado.

Na quinta-feira publicamos as postagens relativas à liturgia dos Cultos de domingo.

Nos outros dias da semana postaremos diversos outros conteúdos, contando com a participação de vários autores.

O objetivo desta publicação é ajudar igrejas que priorizam a formação espiritual a realizarem esta tarefa.

Para ir até a Publicação, clique no link a seguir:

13 de janeiro de 2016

A Catolicidade da Igreja – Hermann Bavinck

(...)
E, finalmente, há a característica da catolicidade ou universalidade da Igreja. Essa característica é mencionada pela primeira vez em um escrito pós-apostolico, cuja intenção era declarar que, contra todos os tipos de heresias e cismas, a verdadeira Igreja é a única que obedece ao bispo e continua sendo o corpo de Cristo, pois a Igreja católica universal é a única na qual Cristo está presente. Mas tarde, todos os tipos de explicações foram adicionadas ao nome; as pessoas começaram a entender que a Igreja está espalhada por todo o mundo, que desde o princípio até os nosso dias ela inclui os crentes de todas as épocas, e que, desfrutando de toda verdade e Graça, ela é o meio de salvação adequado para todas as pessoas. Essas explicações não estão erradas se, ao pensarmos na Igreja, nós não estivermos pensando na organização eclesiástica, na Igreja Católica Romana, por exemplo, mas se entendermos que estamos falando da Igreja cristã, que se revela em todas as igrejas, em diferentes graus de pureza e saúde. Essa é de fato a Igreja católica. No Velho Testamento, a promessa-mãe foi feita a Adão e Eva e, dessa forma, a toda a humanidade. Se, mais tarde, as condições conduziram à formação de um povo específico em Abraão para servir como o portador da revelação, essa revelação continuar sendo feita a toda a humanidade. Na descendência de Abraão seriam abençoados todos os povos da terra (Gn 12.2). E a profecia conserva seus olhos fixos nessa destinação geral da redenção (Jl 2.32; Mq 4.1,2; Zc 2.11; Is 25.6-10).

(...)
Como todos os tesouros do reino que a Igreja possui são espirituais e não consistem de prata e ouro, em poder e força, mas em justiça, paz e alegria no Espírito Santo, a qualidade característica da catolicidade é acrescentada à Igreja. A Igreja não está vinculada a uma terra ou a um povo, a um tempo ou a um lugar, ao dinheiro ou à propriedade; ela é independente de todas as distinções e de todos os contrastes terrenos. Ela leva o Evangelho a todas as criaturas e esse Evangelho é sempre e somente o Evangelho, uma boa nova que é apropriada e necessária para todas as pessoas, em todas as épocas, sob todas as circunstâncias, em todas as condições. O reino de Deus a nada se opõe, exceto ao pecado.

Teologia Sistemática, pp. 576-579, Santa Bárbara d’Oeste, 2001, SOCEP.

28 de janeiro de 2014

A Disciplina da Castidade - Dallas Willard

Ao listar uma disciplina que lida especificamente com o impulso sexu­al, sentimos falta de uma terminologia apropriada. Usarei o termo "castidade", embora ele, como a "simplicidade", se refira ao resultado de uma disciplina sob a graça, e não às atividades disciplinares em si. Ao exercer a disciplina espiritual da castidade, nós nos afastamos deliberadamente do engajamento na dimensão sexual do relacionamento com outros – até mesmo nosso cônjuge.

A sexualidade é uma das forças mais poderosas e mais sutis da nature­za humana, e o sofrimento ligado diretamente a ela é muito alto. Os abu­sos do sexo, fora e dentro do casamento, tornam imperativo aprender "como possuir nosso vaso em santificação e honra" (I Ts 4.4).

Uma parte fundamental desse aprendizado consiste de abstenção de práticas sexuais e de não-rendição a sentimentos e pensamentos sexuais, aprendendo assim a não ser governado por eles.

A abstenção temporária dentro do casamento, mediante consentimen­to mútuo, também foi aconselhada por Paulo como um auxílio ao jejum e à oração (I Co 7.5). Em desacordo com o pensamento predominante no mundo atual, é absolutamente vital para a saúde de qualquer casamento que a gratificação sexual não seja colocada como centro. A abstenção vo­luntária nos ajuda a apreciar e amar nossos parceiros como pessoas com­pletas, nas quais a sexualidade é apenas um aspecto. Isso reforça em nós a prática de estar bem próximo das pessoas, sem embaraços sexuais.

A castidade tem uma parte importante a desempenhar dentro do casa­mento, mas o principal efeito que buscamos por meio dela é a postura apropriada em face dos atos, sentimentos, pensamentos e das atitudes se­xuais na nossa vida como um todo, dentro e fora do casamento. A sexua­lidade não terá permissão de dominar nossa vida, se vivermos como filhos e filhas de Deus, como irmãos e irmãs em Jesus Cristo.

Isso não significa que a nossa sexualidade é algo de que devemos nos afastar. Isso seria impossível. Somos seres sexuais: "Homem e mulher os criou" (Gn 1.27). Esta passagem crucial vincula a sexualidade ao fato de termos sido criados à imagem de Deus. Ela é parte do poder com o qual servimos ao Senhor. Na sexualidade, o envolvimento pessoal, o conhecer e ser conhecido, característica da natureza básica de Deus, é providenciado de forma especial para o ser humano integral. Na união sexual plena, a pessoa é conhecida em seu corpo todo e conhece a outra pessoa por meio de todo o seu corpo. A profundidade do envolvimento é tão grande que não pode haver "sexo casual". Isso é uma contradição muito bem compre­endida pelo apóstolo Paulo, que, por isso, ensinou que a fornicação é um pecado contra o próprio corpo (I Co 6.18).

A sexualidade está na essência do nosso ser. Portanto, castidade não significa não-sexualidade, e qualquer afirmação desse jaez certamente causa­rá grande malefício. Este é um ponto muito importante. O sofrimento, em grande parte, que procede da sexualidade, não vem pela indulgência de pensamentos impróprios, sentimentos, atitudes e práticas sexuais. Grande parte procede da abstenção inadequada.

Em nenhum outro aspecto da vida humana, é mais verdadeiro o pro­vérbio "A esperança que se retarda deixa o coração doente" (Pv 13.12), e a mente também. Jesus viu claramente que a abstenção de relações sexuais ainda deixa brecha para grosseiras impropriedades e distúrbios sexuais ­alguns dos quais Ele chamou de "adultério no coração" (Mt 5.28). Jesus sabia que a abstenção correta era algo que exigia qualificações especiais (Mt 19.11:12). Paulo seguiu seu Mestre. Ele tinha o mesmo realismo quan­to ao sexo. Por isso ensinou sobre um tipo errado de abstenção quando escreveu que "é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo" (I Co 7.9).

Temos de entender que o "arder de desejo" não é uma questão "inte­rior" trivial, mas algo muito sério em suas implicações. Ele pode aflorar na vida humana de muitas formas: distorção severa no pensamento e nas emoções, incapacidade de engajamento em relações sexuais normais e apro­priadas, desgosto e ódio entre mulheres e homens frustrados, abuso infan­til, perversão sexual e crimes sexuais. A castidade corretamente praticada como parte de um rico caminhar com Deus pode prevenir enfermidades do coração e da mente envenenada na vida sexual, na sociedade moderna.

Dietrich Bonhoeffer faz a seguinte observação: "A essência da castida­de não é a supressão do desejo, mas a total orientação da vida do indivíduo em direção a um objetivo."

A abstenção saudável na castidade só pode ser suportada pelo envol­vimento amoroso e positivo com membros do sexo oposto. A alienação abre espaço para a concupiscência nociva. Esta disciplina deve ser funda­mentada na compaixão, em associação e na disposição de ajudar. Se ­situação familiar fosse como deveria ser, um relacionamento íntimo e com­passivo entre os sexos seria o caminho natural de relacionamentos entre mãe e filho, pai e filha, irmão e irmã. Um estudo recente indica que pais que cuidam dos filhos, dando banho, alimentando e segurando-os no colo desde os primeiros dias de vida raramente cometem abuso sexual com eles. Eles desenvolvem um amor verdadeiro pelos filhos, e o amor efetiva­mente evita que causemos mal uns aos outros. Para praticar a castidade então, devemos, primeiro, praticar o amor na busca do bem das pessoas do sexo oposto, com as quais mantemos contato em casa, no trabalho, na escola, na igreja e na vizinhança. Então seremos livres para praticar a disci­plina da castidade e extrair apenas resultados positivos dela.


Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas, Editorial Habacuc, 2003, pp. 193-196

18 de março de 2013

A Virtude da Castidade

N. T. Wright

Além dessas [virtudes da humildade e da paciência] há a castidade. Muitos se surpreendem ao descobrir que os cristãos antigos (assim como os judeus) eram considerados ultrapassados com relação à cultura nessa área. Praticamente todo mundo na antiguidade assumia que as pessoas, para dizer de forma direta, deveriam ter o máximo de sexo possível. Casamento (entre um homem e uma mulher) era uma coisa, e muitos nem sequer queriam ser fiéis ou, por algum motivo, temiam a traição. O principal problema com o adultério, contudo, não era moral: era o cônjuge enciumado. Ligações sexuais fora do casamento eram comuns e aceitas. Os abortos eram procurados com frequência e os filhos indesejados eram abandonados para os animais selvagens comerem. Os problemas que restavam eram resolvidos com facilidade, sendo que a principal dificuldade era a da família tentando encontrar um marido para uma filha com um “passado”. Houve tabus diversos, em vários tempos e lugares. Em Atenas, por exemplo, havia uma escalada detalhada do que era aceitável quando um homem tinha relacionamento homossexual com outro mais jovem. Todavia ninguém considerava o homossexualismo, inclusive parcerias matrimoniais por toda a vida, como estranho, nem repreensível. Platão chegou a celebrar essas parcerias como a forma mais elevada de amor (em Simpósio). Ninguém se preocupava com outras práticas sexuais bem diferentes, como a relação com animais. Muitas dessas coisas aconteciam nos templos pagãos e em volta deles, mas não eram limitadas a eles.



Os primeiros cristãos compartilhavam a visão dos judeus, da antiguidade e atuais, de que esse comportamento era tenebroso, desumanizador e distorcia a essência do significado da vida humana. Acreditavam que o sexo foi concedido para prazer mútuo, entre marido e esposa, voltado para o exterior (para o exterior porque, como o amor de Deus, gera nova criação, tanto em filhos quanto na criação de um lar caloroso, seguro e hospitaleiro). Esse, e não um preconceito arbitrário ou uma repressão pelo medo, foi o motivo de rejeitarem o costume generalizado em seu mundo. Eles acreditavam terem sido chamados para lançar nessas trevas a luz de uma forma diferente de viver.



O contraste marcante entre a crença e o comportamento deles e o ambiente que os cercava nos leva de volta a Jesus, que alertou, em passagem que já vimos, contra o comportamento impuro que emerge de forma espontânea do fundo da personalidade humana. Os termos com que ele se expressa, fazendo eco e endossando proibições importantes do Antigo Testamento, deixando claro que, a despeito de impressões contrárias no meio do povo, ele endossava com firmeza a proibição judaica ancestral quanto a relacionamento sexual de qualquer tipo fora do casamento por toda a vida entre um homem e uma mulher. Todo o Novo Testamento mostra que o motivo da vida cristã é refazer os seres humanos à imagem de Deus; quando seguimos a ideia até sua raiz, fica claro que o par que carregava a imagem era macho e fêmea, chamados para deixar os outros e se apegarem um ao outro. Não é à toa que teólogos de todos os tempos veem essa união humana como sinal do compromisso inabalável do Deus criador com sua criação. Não é surpresa que quando céu e terra finalmente se unem, no fim do livro de Apocalipse, a imagem usada é a do casamento. Esse é o telos, o alvo de toda a nossa existência. A virtude agarra o alvo pela fé e apreende as lições para viver no presente antecipando genuinamente o futuro, com fidelidade no casamento e abstinência fora dele.



A cultura ocidental, composta em grande parte por nações pelo menos nominalmente cristãs, foi em parte colonizada com a visão cristã sobre casamento e sexualidade -- mas a maioria, não. Tentativas de forçar a abstinência vêm e vão, sendo substituídas, também de forma intermitente, por indulgência quase que forçada (pense no século 17, com a restauração que sucedeu os puritanos; ou a rebeldia contra os padrões considerados “vitorianos” após a Primeira Guerra Mundial, embora a história mostre que durante grande parte do século 19 a vida sexual na Europa era tão sem restrições quanto em qualquer outra época). Os que tomam os ensinos de Freud de forma superficial entendem que o sexo está por trás de tudo e, assim, somos incapazes de resistir. Nem devemos tentar. O Darwinismo popular insiste que o que importa é a força vital que nos induz a propagar nossa espécie, então é melhor aceitar. As duas correntes criaram a atmosfera em que, na mente popular, qualquer convite sério a se restringir a forma ou as circunstência da expressão sexual encontra não discussão séria, mas apenas desprezo. Um correspondente de um jornal popular outro dia exclamou: “Ah! Toda essa conversa sobre abstinência vem de uns lunáticos de direita, mal orientados. Logo a biologia vai se manifestar e eles vão agir como todo mundo”. Em outras palavras: a biologia reina, temos impulsos que somos incapazes de controlar, e resistir vai contra a saúde e a natureza. Múltiplas parcerias sexuais -- e, agora, até vários relacionamentos quase contratuais (poliamor, com três ou mais pessoas em um acordo de relacionamento multidirecional de sexo) -- começam a ser comportamentos aceitáveis. Contracepção fácil e aborto abriram as comportas para uma nova rodada de licença sexual nas últimas décadas -- licença que nem a crise da aids conseguiu revogar.



Os cristãos, porém, sempre afirmaram que o autocontrole é uma das variedades de fruto do Espírito. Sim, é difícil. Sim, é necessário se dedicar para descobrir por que é mais difícil resistir a determinadas tentações, em certos momentos e lugares. O motivo é que a castidade é virtude: não é, primeiro e acima de tudo, uma regra que se decide seguir ou quebrar (embora certas regras sejam bem claras nas Escrituras); com certeza não é algo que se calcula segundo um princípio, como “a maior felicidade possível para o maior número de pessoas” (até porque a esmagadora felicidade de curto prazo da maioria dos relacionamentos sexuais influenciaria artificialmente o resultado); e, em paticular, como Jesus mesmo indicou, não surgirá se seguirmos o curso do que vem naturalmente. É aí que os celibatários, como Jesus e muitos outros heróis e heroínas desconhecidos em comunidades monásticas e muitos lugares menos óbvios, descobriram a alegria de uma “segunda natureza” de autocontrole que grande parte de nossa cultura, como a maioria do mundo antigo, jamais chegou a imaginar. No lado inverso, como sabem os que fazem atendimento pastoral nas famílias e encontram pessoas que seguem os hábitos da sociedade, as mágoas e feridas causadas por esses hábitos são profundas, demoram a sarar e prejudicam a vida. Muitos dizem que a Igreja é estraga-prazeres, por protestar contra a liberdade sexual. No entanto, o verdadeiro fim da alegria vem com a busca exclusiva do prazer. Como no uso dos cartões de crédito, a etiqueta do preço fica escondida a princípio, mas os débitos físicos e emocionais causados demandam um longo tempo para serem sanados.



Aqui, paciência e humildade, até então à margem, voltam ao jogo. O impulso frenético pela intimidade sexual é parte do desejo de se expressar, de se desenvolver, de mostrar quem se é e como pretende se comportar. “Não”, diz a humildade, “não é esse o caminha para descobrir seu verdadeiro eu. Você o descobre ao abrir mão de você mesmo”. “Exatamente”, concorda a paciência, “satisfazer-se por impulso é menosprezar você mesmo e todas as outras pessoas”. As virtudes se relacionam. Se quiser uma delas, você tem de desenvolver todas.



O mesmo vale, claro, para a caridade, que, como notamos, Paulo descreve como a virtude que se deve colocar sobre e em volta de todas as outras, como um cinto que mantém todo o resto no lugar certo (Cl 3.13). Amor (a palavra que normalmente usamos, embora seja imprecisa, pois o significado de “caridade” encolheu) é o que capacita a paciência, a humildade e a castidade a permanecerem no devido lugar, porque o amor respeita o outro e deseja o melhor para ele. Por sua vez, o amor é sustentado, conforme afirma Paulo em sua famosa passagem, pela fé e pela esperança, tudo junto olhando para Deus, o criador e recriador, e para as promessas dele, asseguradas em Jesus Cristo.





Fonte:  Eu Creio, e Agora, p. 246-250

Autor de Eu Creio, e Agora,  Surpreendido pela Esperança, Simplesmente Cristão e O Mal e a Justiça de Deus, Os Desafios de Jesus, O Caminho do Peregrino, Seguindo Jesus, Judas e o Evangelho de Jesus,  Paulo: Novas Pespectivas, N.T. Wright é um dos mais conhecidos e respeitados estudiosos do Novo Testamento da atualidade. Foi Bispo anglicano de Durham, na Inglaterra, professor das universidades de Cambridge e Oxford por vinte anos e é professor visitante de universidades como Harvard Divinity School, nos Estados Unidos, Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Gregoriana em Roma, entre outras. É autor de mais de quarenta livros e articulista de jornais como The Times, The Independent e The Guardian.




30 de junho de 2012

Os Dons do Espírito e o Fruto do Espírito

Reflexões de Dallas Willard sobre o Espírito Santo, extraídas de seu livro "A Grande Omissão":

http://goo.gl/i7a2z

"Uma das grandes tentações que enfrentamos como evangélicos -- e para este fim, incluo aqui a ala da Igreja que às vezes chamamos de renovada ou carismática -- é a idéia de que a personalidade e o coração serão transformados como que por um raio do Espírito. Você pode chamar isso de avivamento ou qualquer outro nome. Haverá um grande estrondo e, de repente, você se verá transformado em todos os aspectos de seu ser. Não será necessário passar por um processo -- o seu objetivo será alcançado de forma passiva e imediata.

Considere agora o seguinte: quando o povo de Israel entrou na Terra Prometida, a primeira cidade com a qual deparou foi Jericó e, como sabemos, os muros de Jericó ruíram. Agora, diga-me uma coisa, quantos muros ruíram na conquista das outras cidades da Terra Prometida? O que os israelitas tiveram de fazer com o restante dessas cidades? Tiveram deconquistá-las, não é?
(...)


Precisamos entender que a formação espiritual é um processo que envolve a transformação da pessoa como um todo, e que, nesse processo, a pessoa deve ser ativa em Cristo."



"Abrindo nossa vida para o Espírito

O segundo lado do triângulo é a interação com o Espírito de Deus dentro de nós e ao nosso redor. Como Paulo diz, viver no Espírito nos permite "andar" no Espírito (Gl 5:25). Essa personalidade onipotente e criativa, o "fortalecedor", o parakletos de João 14, aguarda com toda calma nosso convite para que ele opere em nós, conosco e por nós.

A presença do Espírito Santo pode sempre ser reconhecida pela maneira de ele nos mover em direção ao modo de ser e agir de Jesus (Jo 16:7-15). Sabemos que o Espírito está agindo em nós quando experimentamos em nosso ser interior a doçura celestial e o poder de vida — o amor, a alegria e a paz — que Jesus experimentou.

A vida no Espírito se manifesta, no exterior, de duas maneiras. Os dons do Espírito nos permitem realizar algumas funções específicas — como servir, curar ou liderar o culto —, com efeitos que superam, de forma clara, nossas capacidades. Esses dons cumprem os propósitos de Deus no meio de seu povo, mas não indicam, necessariamente, a condição de nosso coração.

O fruto do Espírito, em contrapartida, é indicador seguro de um caráter transformado. Quando aprendemos a deixar que o Espírito cultive a vida de Jesus dentro de nós, temos atitudes e inclinações mais profundas semelhantes às de Jesus. Paulo confessou: "Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim" (Gl 2:19-20). O resultado de Cristo viver em nós por meio do Espírito é fruto: "amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio" (Gl 5:22-23; cf. também Jo 15:8).

Tanto os dons quanto o fruto são o resultado, e não a realidade da presença do Espírito em nossa vida. O que nos transforma à semelhança de Cristo é nossa interação direta e pessoal com Cristo por meio do Espírito. O Espírito torna Cristo presente para nós e nos aproxima de sua semelhança. Ao contemplarmos desse modo "a glória do Senhor [...] estamos sendo transformados com glória cada vez maior, a qual vem do Senhor, que é o Espírito" (2Co 3:18).

(...)

Qual é o papel dos dons e do fruto do Espírito na formação espiritual? 


Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio" (Gl 5:22-23). A idéia é a mesma ou intimamente relacionada àquilo que Paulo chama em outra passagem de "fruto da luz |que] consiste em toda bondade, justiça e verdade" (Ef 5:9). Evidentemente, é o mesmo que amor no sentido abrangente da palavra descrito por Paulo em 1 Coríntios 13 e Colossenses 3:14, um tema constante nos ensinamentos de Jesus.

O fruto do Espírito e simplesmente o caráter interior do próprio Cristo concretizado em nós por meio do processo da formação espiritual cristã. É o resultado da formação espiritual. É "Cristo formado em nós". É chamado de "fruto", pois, como o fruto das árvores ou videiras, e conseqüência daquilo que nos tornamos, e não o resultado de um esforço específico para dar frutos. E, desse modo, nos tornamos "frutuosos", pois recebemos a presença do Espírito de Cristo por meio do processo de formação espiritual e agora esse Espírito, interagindo conosco, nos enche de amor, alegria, paz etc.

A medida que o fruto do Espírito aumenta em nós, é evidente que se torna um elemento dinâmico por si mesmo no processo contínuo de formação espiritual. Ser tomado de amor, alegria, paz etc. e ter os recursos ricos para manter e intensificar uma vida repleta de fé e para crescer em todas as dimensões da graça interior e exterior. O fruto do Espírito e a formação espiritual passam a se sustentar mutuamente, à medida que a formação espiritual progride no indivíduo.

Isso também se aplica, de outra forma, à formação espiritual e aos dons do Espírito. Os dons do Espírito são habilidades sobrenaturais específicas distribuídas entre aqueles que constituem o Corpo de Cristo aqui na terra, a fim de que todos os membros possam ser beneficiados por todos esses dons conforme necessário. "Há diferentes formas de atuação, mas é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum" (1 Co 12:6-7). A formação espiritual não tem meios de avançar da forma como Deus determinou se o indivíduo não fizer parte de um corpo de cristãos onde possa receber os benefícios dos dons de outros. Sem os dons, o fruto não pode ser produzido nem mantido.

Os dons do Espírito, por sua vez, só podem ser usados corretamente se aquele que os recebe e serve a outros por meio deles tiver a devida formação interior na semelhança de Cristo. Não somos passivos no processo de receber e servir com os dons do Espírito. Eles devem ser buscados, recebidos e cultivados ativamente. Tudo isso requer uma transformação contínua do ser interior. A formação espiritual lança os alicerces e fornece a estrutura apropriada para o exercício desses dons pelo indivíduo e pelo grupo, e o exercício desses dons pelo indivíduo para o grupo e, dentro do grupo para o indivíduo, é necessário para que a formação espiritual avance da maneira como deve. Os dons, de per si, não têm participação relevante na formação do espírito e do caráter daqueles que o exercitam. E, o que é mais importante, apesar de fazerem parte da formação espiritual, os dons do Espírito não a substituem."


17 de maio de 2012

O Mistério da Ascensão

A ascensão, portanto, remete ao Jesus que permanece verdadeiramente humano e, nesse sentido, ausente de nós, porém, em outro sentido, presente e nós de uma nova maneira. Nesse ponto, o Espírito Santo e os sacramentos adquirem importância fundamental, exatamente por serem os meios pelos quais Jesus se faz presente. Na igreja, geralmente, ficamos tão entusiasmados ao enfatizar a presença de Jesus por esses meios que nos esquecemos de mencionar sua ausência, deixando as pessoas querendo saber se, realmente isso é "tudo que podem esperar". A resposta é: não, não é. O senhorio de Jesus, o fato de que há um ser humano no comando do mundo, intercedendo por nós, tudo isso está além e acima de sua presença conosco. Acima ainda do nosso senso dessa presença, que pode variar, é claro, de acordo com as circunstâncias e nosso estado de espírito. 

(...)
O mistério da ascensão é exatamente isso, um mistério. Ele exige que pensemos o que para muitos hoje é quase impensável: reconhecemos que quando a Bíblia fala de "céu" e "terra" não está falando de dois locais relacionados entre si do mesmo espaço/tempo contínuo, nem de um mundo "não-material" de um lado e "material" de outro, mas de dois tipos diferentes do que chamamos de "espaço", dois tipos diferentes do que chamamos de "matéria" e, provavelmente, (embora não seja necessário que esse elemento acompanhe os outros dois) dois tipos diferentes do que chamamos de "tempo". Nós, ocidentais pós-iluministas, somos muitos pouco imaginativos... Embora os pensadores da Nova Era e muitos escritores contemporâneos possam nos levar a mundos, espaços e tempos paralelos, nós nos refugiamos em nosso universo racionalista e fechado assim que nos referimos a Jesus. C. S. Lewis certamente fez um bom trabalho com As Crônicas de Nárnia e outros escritos, ao imaginar como dois mundos poderiam se relacionar e interagir. Entretanto, a geração que cresceu sabendo o caminho até Nárnia não sabe como fazer a transição de uma história infantil para o mundo real da devoção e da teologia cristã.

(N. T. Wright, Surpreendido pela Esperança, Ed. Ultimato, pp. 130-132)

Leia também: Ascensão do Nosso Senhor

6 de outubro de 2011

Impregnado de Amor


Jesus anunciou nas bem-aventuranças que mesmo as pessoas mais desprovidas de insignificantes da terra poderiam ser abençoadas por viver no reino: os pobres, os tristes, os em reputação ou crédito (os mansos), e assim por diante (Mt 5.3-10; Lc 6.20-23). A bem-aventurança não estava em sua condição de pobres, tristes ou desrespeitados. Eles eram abençoados porque podiam entrar no reino, e estar no reino significa ser abençoado não importa o que mais aconteça. Eles podem descansar nisso. Seu futuro em Deus está assegurado, e sua condição presente, redimida. Para sempre. De qualquer forma.

Assim, na visão de mundo de Jesus, ser próspero, ter a “boa vida”, não inviabiliza o ser uma pessoa verdadeiramente boa. O conflito que os moralistas têm enfrentado em vão por séculos reconciliar é reconciliado por aqueles que vivem no reino de Deus. Não tenho de entregar minha integridade para me assegurar ao que é bom para mim. Uma pessoa realmente boa, como Jesus ensina, é alguém impregnado de amor: amor pelo Deus que “nos amou primeiro” e que, em seu Filho nos ensinou o que é o amor (1 Jo 4. 9-11). E então, como resultado da abundância de tal vida no reino, levará amor a todos com quem temos contato significativo, nossos “próximos”. A riqueza da vida Shemá (Dt. 6. 4-5) naturalmente flui para dentro da cena humana.

O amor significa disposição para o bem, determinação em beneficiar o que ou quem é amado. Podemos dizer que amamos bolo de chocolate, mas não amamos. Antes, queremos comê-lo. Isso é desejo, e não amor. Em nossa cultura, temos um grande problema em distinguir entre amor e desejo, mas é essencial que façamos essa distinção. O grego do Novo Testamento tem várias palavras para “amor”. Duas são eros (de onde obtemos a palavra “erótico”) e ágape. Amor ágape, talvez a maior contribuição de Cristo à civilização humana, deseja o bem a quem quer esteja voltado. Ele não deseja consumi-lo. O ensino sobre amor que ainda permeia a civilização ocidental em seus melhores momentos entende isso. O chamado mais eleveado a seres morais é o de amar. Muito antes da vinda de Cristo isso era compreendido de maneira obscura. Sócrates observou, de acordo com Platão, que “o bem faz bem a seus vizinhos e o mal lhe faz mal”. Mas os gregos, como todo o seu fulgor, nunca conseguiram resolver o próximo problema da fila, que era como alguém se torna uma pessoa verdadeiramente boa no sentido já abordado. Como Jesus responde a essa quarta pergunta sobre visão de mundo?

Como você se torna uma pessoa verdadeiramente boa? Você coloca a sua confiança em Jesus Cristo e se torna seu aluno ou aprendiz na vida no reino. Isso equivale a, progressivamente, entrar na abundância de vida que ele nos traz. Você aprende dele como viver no reino de Deus como ele mesmo viveu. Há muito a ser aprendido depois que você entra. Passar pela porta não é necessariamente viver na casa. Nossa confiança de que Jesus é “O Único” nos leva a ir constantemente à escola com ele, levando nossa vida inteira conosco, e é em fazer isso que o amor vem impregnar nossa vida a ponto de sermos de maneira inequívoca seus alunos. Ele disse: “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” (Jo 13.35). Ele pode impor esse desafio a si mesmo como mestre porque não conhece nenhum outro que possa produzir a transformação humana que ele tem em mente.

Como discípulo de Jesus, estou aprendendo com ele como levar minha vida como ele levaria minha vida se fosse eu. Você está aprendendo com Jesus como levar sua vida como ele levaria a sua vida se fosse você. Sim, a vida que você tem. As mulheres não precisam se preocupar com serem excluídas dessa declaração. Por razões específicas, embutidas em sua missão, sem dúvida, ele precisava ser do sexo masculino. Mas fora algumas circunstâncias localizadas, não há nenhuma pessoa nesta terra que Jesus não poderia ter sido. Ele veio de forma humilde e assim viveu (Fp 2.5-11). ELe abdicou do poder supremo. Aprendeu a viver no reino de Deus como ser humano comum. Deus também estava na vida humana comum. A “encarnação” não diz respeito apenas aos eventos de sua concepção e nascimento. Ela representou o vestir-se de “carne” em todo o seu significado humano. Ele poderia viver em suas circunstâncias agora. Poderia ser você e ainda viver no reino de Deus. Você pode ser seu aprendiz, não importa quem você é e onde você esteja. É como seus amigos pessoais, vivendo interativamente com ele, que conhecemos a verdade e temos a liberdade -- o poder sobre o mal -- que vem com esse conhecimento (Jo 8.31-32)

Dallas Willard, Conhecendo a Cristo Hoje, pp. 64-67