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1 de maio de 2017

O Lecionário agora é uma Publicação

O Lecionário agora é uma publicação no Medium.



 
Ali o conteúdo será expandido e as publicações serão diversificadas.

Reservamos as quartas-feiras e as quintas-feiras para as publicações principais dos textos bíblicos.

Nas quartas-feiras publicamos as Leituras Diárias em uma postagem semanal, com suplementos para pequenos grupos de discipulado.

Na quinta-feira publicamos as postagens relativas à liturgia dos Cultos de domingo.

Nos outros dias da semana postaremos diversos outros conteúdos, contando com a participação de vários autores.

O objetivo desta publicação é ajudar igrejas que priorizam a formação espiritual a realizarem esta tarefa.

Para ir até a Publicação, clique no link a seguir:

3 de agosto de 2016

O Culto como o Antídoto ao Pós-modernismo

 Blog do Zac Hicks - Zac Hicks // Culto. Igreja. Teologia. Cultura.


Procurando relevância cultural, profundidade bíblica, engajamento histórico e reflexão teológica acerca do culto.


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Alguns lá fora não acham que o pós-modernismo precisa de um antídoto, pois isso implicaria que alguma coisa está errada com ele. Acontece que eu acho que quase todo "ismo" precisa de uma conferida. Muitos escritores e pensadores no pós-modernismo apontam a fragmentação que ocorre em uma cultura da pós-modernidade. Crença comum já não são compartilhadas em grande quantidades entre as massas, e a verdade que uma vez nós uniu, tanto como indivíduos inteiros e comunidades inteiras, já não estão presentes (existencialmente falando). O resultado da pós-modernidade é uma cultura fragmentada e pessoas fragmentas.

Enquanto eu estou lendo o grande livro de James K. A. Smith, Desiring the Kingdom (Desejando o Reino, obra a ser publicada por Edições Vida Nova), estou percebendo que a batalha por integridade e shalom não pode ser travada apenas no campo das ideias, proposições e visões de mundo, conquanto eu seja todo a favor destas (talvez até um pouco mais do que Smith). Como Smith gostaria de salientar, porquanto o núcleo do ser humano está mais apropriadamente assentado no coração ou "entranhas," as pessoas são, essencialmente, seres que desejam, seres que amam. Smith explicita o que isso significa pelo que somos formados como seres humanos à imagem e semelhança de Cristo, e embora isso certamente aconteça no nível cognitivo, da "cabeça", isso acontece mais basicamente (e talvez de forma mais holística) no nível existencial, afetivo e experimental. Em outras palavras, somos formados pela prática e pelo ritual. Agora, vamos ver se podemos manter isso em mente enquanto ouvimos uma palavra profética de 1960, do teólogo do culto, Jean-Jacques von Allmen:

O Culto tem também uma utilidade sociológica. Ele reúne os homens e lhes empresta a mais profunda das coesões, a mais fundamental das solidariedades que se possam encontrar na terra. "Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão" (1 Co 10.17). Mas a utilidade sociológica do culto não repousa exclusivamente nessa capacidade de atribuir coesão à Igreja. Essa utilidade se encontra também no plano da integração, do apaziguamento pessoal. Pois o ato de culto imprime na nossa vida um estilo, uma maneira de ser, uma simplicidade, uma HAPLOTES que nos livra das dilacerações e contradições comuns ao homem natural. Ela tem também uma dimensão cósmica, na medida em que, como já tivemos ocasião de observar, o culto inaugura entre os homens o único tipo de união que não conduz à massificação, isto é, reúne-os em e para a ação de graças. Em virtude disso, podemos afirmar que o culto atribui estabilidade ao mundo, inserindo nele um elemento que se opõe à fragmentação e o livra do caos.

Eu estou convencido de que nós evangélicos sofremos de uma doença genética que nos faz pensar de modo muito anêmico sobre o poder do culto em nosso mundo (pós)moderno. Se o culto é o lugar onde Deus escolhe mais agudamente se encontrar com, alimentar, nutrir e fortalecer Seu corpo, faz sentido que é neste lugar onde a humanidade encontra a sua maior concentração de plenitude e integridade. É neste lugar, enquanto praticamos a fé e a ritualizamos, que descobrimos em maiores profundidades, o significado e o propósito da nossa existência. Como eu disse em um sermão sobre o Salmo 10 (um salmo de lamento) ontem: algumas verdades da Escritura são melhor compreendidas não enquanto as estudamos ou as contemplamos, mas sim enquanto as cantamos ou oramos. A adoração, em grande parte, é cantar, orar, receber, provar, ouvir, ensaiar, agir e viver a Verdade. E uma coisa engraçada acontece quando nos envolvemos no culto de todo coração ... Deus, o tapeceiro, continua o processo lento e constante de costura restauradora de nossos eus fragmentados.

(Uma espetada final: Talvez isso aumente os riscos para aqueles de nós que planejam ou dirijam o culto. Não podemos simplesmente planejar o que os ouvidos agradáveis querem ouvir. Devemos escolher por nos envolvermos em nosso planejamento como pastores, que sabem que o culto é muito formativa para ser tomado levemente).

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ALLMEN, Jean-Jacques von. O Culto Cristão: teologia e prática. São Paulo: ASTE, 2006, p. 116- 117


Original: http://www.zachicks.com/blog/2012/7/2/worship-as-the-antidote-to-postmodernism.html

29 de julho de 2016

Culto e Cultura

A “recompensa” da formulação litúrgica

“Buscai em primeiro lugar, o reino (de Deus) e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6.33). A essa busca do Reino, que é a formulação litúrgica, corresponde, igualmente, algo que é dado por acréscimo, à guisa de recompensa. Não se trata, é claro, de um alvo a ser perseguido, mas de uma graça concedida. Buscá-la afanosamente por meio da formulação do culto significaria perverter todo o processo. De outro lado, porém, falsearíamos os fatos se não a recebêssemos como recompensa, gratuita, boa e bela como são todas as recompensas que provêm da graça. Esse acréscimo consiste na capacidade que tem o culto de inspirar a cultura ou provocar o surgimento de uma cultura. Desprezar tal aspecto da adoração da Igreja equivaleria a cometer o pecado da ingratidão e incorrer na heresia docética. Celebrado conforme os ditames do Senhor, o culto se constitui em foco de irradiação cultural da maior importância, pois tem um poder que purifica, favorece a auto-expressão e induz ao engajamento. A título de exemplo tão-somente, e com o fito de estimular pesquisas cujo teor só podemos indicar neste trabalho, citamos três dentre os vários aspectos de que se reveste o presente problema.

a) Em primeiro lugar, o culto é uma escola de bom gosto. “A liturgia — observa Max Thurian — é o âmbito privilegiado onde se forja a expressão estética cristã, dentro das dimensões que lhe são propostas pela simplicidade evangélica. Só a liturgia, verdadeiramente vivida como ação de graças do povo cristão, em palavras, gestos, em formas e cores, abre à vida estética um amplo campo de ação e lhe oferece uma inspiração constantemente enriquecida, inspiração essa que se reveste de caráter, não exclusivamente religioso, mas universal, cósmico — tanto é assim que na adoração litúrgica, que tem os Salmos por pano de fundo, a criação inteira, com suas luzes e sombras, é reunida e ofertada em Cristo, num sacrifício de louvor. Por ser ação de graças, a liturgia permite o desenvolvimento da vida estética na Igreja. Pois a arte outra coisa não é, em essência, senão autodoação em forma de beleza”.

Mas se o culto contribui para a formação do gosto dos fiéis, ele constitui, por via indireta, elemento de formação do gosto do mundo em que vive a Igreja. A prova está em que “não é possível pensar na história da arte sem fazer referência ao liame que a vincula constantemente à história da Igreja”. Por ser fundamentalmente cristocêntrico, isto é, pelo fato de que dá testemunho do segredo de todas as coisas, que a sua recapitulação em Cristo, o culto expurga a cultura humana de todas as suas distorções, do egocentrismo, do caos e da desarmonia que a caracterizam. Ele é o ponto focal da cultura. Se a Igreja recusa essa recompensa que provém do seu culto, ou se o mundo não se deixa pôr em xeque e inspirar pelo Evangelho, então a desordem vem à tona.

Ao tornar-se veículo da proclamação do Evangelho e da oração, a palavra se purifica. “Quanto mais sério e devoto o exercício da oração, tanto mais a oração enobrece a palavra humana. A experiência de todos os que de fato oram nos diz que só por meio de um esforço crescente é possível dominar as palavras da oração. Para os que oram com regularidade e seriedade a oração se torna cada vez menos banal. Pouco a pouco passamos a usar uma linguagem mais concentrada e cuidada, em que cada palavra adquire mais peso. Pois o que temos a dizer, reiteradamente, em circunstâncias sempre novas, é que pertencemos a Deus, que renunciamos ao esforço de possuir-nos a nós mesmos, que nos demos a ele em sacrifício, corpo e alma, para sempre”. Da mesma forma, a música se purifica ao tornar-se veículo de hinos, salmos, doxologias, louvor. Purificam-se as cores, ao transformar-se em refração simbólica da brilhante luz do Evangelho, e a arquitetura, quando se torna instrumento de construção do lugar em que se dá o encontro entre Deus e seu povo.

Como se explica então — poder-se-ia indagar — o fato de o culto poder tornar-se também âmbito de expressão do gosto mais abominável e mais ofensivo à graça e esperança cristã? A resposta é simples. O mau gosto vem a infectar o culto cristão em duas situações: quando a fé comunitária da Igreja é empobrecida a fim de dar lugar à mera justaposição de crenças individuais, cada uma com suas reivindicações particulares, fruto do isolamento e do orgulho, ou, em segundo lugar, quando a liturgia se recusa a dar forma à cultura que a circunda, preferindo submeter-se passivamente a ela, a pretexto de dar uma acolhida benevolente às aspirações do mundo. Neste último caso, a fé deixa de ser filtro e transforma-se em mero canal condutor. O mau gosto, portanto, só encontra acolhida quando o culto se torna, de começo, corrupto, seja por haver perdido sua coesão comunitária, seja por haver olvidado que não existe possibilidade de acesso à Igreja senão mediante a morte para o eu,.

b) Em segundo lugar, o culto convoca a arte ao seu serviço e atribui-lhe justificação. Consideramos desnecessário, a esta altura, invocar os fundamentos de uma filosofia cristã da arte. Mas não é a arte, no fundo, o anseio das coisas no sentido de exprimir-se liturgicamente, de descobrir a sua razão de ser na adoração para a qual foram criadas? “Não seria exato afirmar que todas as artes conduzem a uma crise, ou , melhor dizendo, estão condenadas à decomposição, ao se distanciarem do seu centro, que é de natureza fundamentalmente litúrgica? E não é o culto cristão o lugar onde as artes são julgadas e, por conseguinte, descobrem a possibilidade de reencontrar a realidade de seu ser e de sua função? E o lugar que, de qualquer forma, as artes reivindicam para si, no contexto da adoração, não é ele o vínculo que, mediante um sinal que é promessa, insere a criação não-humana no louvor que a Igreja oferece ao seu Senhor? Não seria necessário entender a arte no culto como sinal de que a adoração da Igreja escatologicamente dá acolhida ao louvor ofertado pelas criaturas não-humanas, e, por conseguinte, como sinal da profunda solidariedade existente entre os filhos de Deus e o restante da criação?* Só a falta de amor para com o mundo nos poderia excluir a arte da adoração, pelo qual o mundo redescobre sua verdadeira vocação, implica ódio ao mundo.

Mas o culto não é somente o contexto em que a arte é convocada a redescobrir a sua função específica. Ele é também o mistério no qual a arte encontra sua justificação e liberdade. Longe de nós afirmar com isso que a arte se deva restringir, por causa do culto, à categoria “religiosa”. Assim, como ao domingo segue-se a semana e ao culto dominical os trabalhos, as alegrias, as lutas e os anseios humanos, assim também é possível e absolutamente necessário que haja outros poemas além dos hinos, outras melodias que não os cânticos, outros edifícios além dos templos, outra coreografia que não as procissões, outras pinturas que não os ícones, outras esculturas além das cadeiras, atris e mesas. No entanto, como os trabalhos e alegria são justificados e santificados pelo culto, e os dias da semana pelo domingo, da mesma forma todas as demais expressões artísticas são justificadas e santificadas porque no culto cristão as artes redescobrem sua terra prometida, sua verdadeira origem e destinação.

c) O culto é, por fim, formador de cultura porque inspira a vida política e social. Ele é ponto de referência da ordem e da liberdade, da justiça e da paz. Isso porque ele celebra a verdadeira hierarquia das coisas, confessa o senhorio de Cristo e dá testemunho da graça inaudita de qua tal senhoria não anula aqueles sobre os quais domina, mas ao contrário, constitui o fundamento de sua liberdade e nutre respeito por esta. Daí a possibilidade de vocações diversas mas atentas umas as outras; daí também o cuidado dos fracos, a descoberta dos verdadeiros direitos do homem, a possibilidade de entendimento e de reconciliação entre os homens. Impossível medir os resultados do compromisso que brota do fato de a Igreja interceder pelas autoridades, pela paz, pelos fracos e doentes. É assim que o culto constitui, em relação ao mundo, fator de ordem e de liberdade, de justiça e de paz. E não basta afirmar que se trata de um fator de certa importância: é um fato determinante. Evidentemente, o mundo não reconhece que, quando investe contra o culto da Igreja, está, na realidade, abalando aquilo que o protege e preserva. A Igreja, contudo, tem o direito de capacitar-se desse fato, não para dele prevalecer-se ou tirar proveito, mas sim para se rejubilar com o serviço político e social que ela presta ao mundo, direta ou indiretamente, ao oferecer ações de graças e intercessões.

Permitimo-nos recordar, porém, uma vez mais, que, na sua formulação litúrgica, a Igreja não tem por escopo primeiro formar o gosto, justificar a existência da arte ou dar proteção ao mundo*. Procurando, por meio do culto, celebrar pelo Espírito Santo o amor do Pai manifesto no Filho, a Igreja, para sua grande surpresa, descobre que Deus recompensa esse esforço fazendo com que ela se torne formadora de cultura, lugar de beleza e bondade. E a Igreja daria mostras de ingratidão se com isso não se alegrasse.



VON ALLMEN, J. J. O Culto Cristão: teologia e prática. São Paulo: ASTE, 2006, p. 104–107

19 de março de 2016

Liturgia de Ramos

​20 de março de 2016








Leituras bíblicas:
Isaías 50: 4-9a; Salmo 118: 1-2, 19-29; Filipenses 2: 5-11; Lucas 19: 28-40 *.

Convite ao Culto**

Bendito seja o que vem em nome do SENHOR!
Hosana nas alturas!

Alegra-te muito, ó filha de Sião;
exulta, ó filha de Jerusalém;
o teu rei vem a ti;
ele é justo e traz a salvação;
ele é humilde e vem montado num jumento,
num jumentinho, filho de jumenta. 

Primeira Leitura:

Isaías 50: 4-9a

O SENHOR Deus deu-me a língua dos instruídos
  para que eu saiba o que dizer ao que está cansado;
ele me desperta todas as manhãs;
desperta-me o ouvido para que eu ouça como discípulo.
O SENHOR Deus abriu-me os ouvidos,
  e eu não fui rebelde, nem me afastei.
Ofereci as minhas costas aos que me feriam,
  e a minha face, aos que me arrancavam a barba;
não escondi o rosto dos que me afrontavam e me cuspiam.
Pois o SENHOR Deus me ajuda;
portanto, não fico envergonhado;
por isso o meu rosto está firme como uma pedra,
  e sei que não serei envergonhado.
Aquele que me defende está perto;
quem contenderá comigo?
Apresentemo-nos juntos;
quem é meu adversário?
Aproxime-se.
O SENHOR Deus é quem me ajuda!
Quem me condenará?

Coleta/Confissão:

Onipotente e Eterno Deus, de tal modo amaste o mundo, que enviaste teu Filho, nosso Salvador e Jesus Cristo, para tomar sobre si a nossa carne e sofrer morte na cruz, dando ao gênero humano exemplo de sua profunda humildade; concede, em tua misericórdia, que imitemos a sua paciência no sofrimento e possamos participar também de sua ressurreição; mediante o mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém!***

Salmo 118: 1-2, 19-29

Rendei graças ao SENHOR, pois ele é bom;
seu amor dura para sempre.
Diga Israel:
Seu amor dura para sempre.

Abri as portas da justiça para mim,
para que eu entre por elas
e renda graças ao SENHOR.
Esta é a porta do SENHOR;
os justos entrarão por ela.
Eu te dou graças, pois me respondeste
e foste minha salvação.

A pedra que os construtores rejeitaram,
essa se tornou a pedra angular.
Foi o SENHOR quem fez isso,
e é maravilhoso aos nossos olhos.
Este é o dia que o SENHOR fez;
vamos regozijar-nos e alegrar-nos nele.


Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos;
ó SENHOR, nós te pedimos, envia-nos prosperidade.
Bendito seja o que vem em nome do SENHOR!
Nós vos abençoamos da casa do SENHOR.
O SENHOR é Deus e faz resplandecer sua luz sobre nós;
preparai a festa com ramos até as pontas do altar.


Tu és o meu Deus, e eu te renderei graças;
tu és o meu Deus, e eu te exaltarei.

Rendei graças ao SENHOR, pois ele é bom;
seu amor dura para sempre.

Ofertório:

Pai misericordioso, nós oferecemos com alegria e gratidão aquilo que tu primeiro nos deste – nós mesmos, o nosso tempo e as nossas posses – sinais do teu amor misericordioso. Recebe-os por causa daquele que se ofereceu a nós: Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém! ****

Evangelho:

Lucas 19: 28-40

Tendo assim falado, Jesus seguiu caminhando adiante deles, subindo para Jerusalém. Ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide ao povoado que está adiante, e ali, ao entrar, achareis amarrado um jumentinho sobre o qual ninguém jamais montou; desamarrai-o e trazei-o. Se alguém vos perguntar: Por que o desamarrais?, respondereis assim: O Mestre precisa dele.

Partiram, pois, os que haviam sido enviados e acharam tudo conforme lhes dissera. Enquanto desamarravam o jumentinho, os seus donos lhes perguntaram: Por que desamarrais o jumentinho?

Eles responderam: O Mestre precisa dele.

Levaram-no, pois, a Jesus e, pondo os seus mantos sobre o jumentinho, fizeram com que Jesus o montasse. E, enquanto ele passava, outros estendiam os seus mantos pelo caminho. Já perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão de discípulos, alegrando-se muito, começou a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que havia visto, dizendo:

Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas.

Nisso, alguns dos fariseus dentre a multidão disseram-lhe: Mestre, repreende os teus discípulos.

Mas ele lhes respondeu: Eu vos digo que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.

Envio:

Filipenses 3: 4b-14

Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus,

que, existindo em forma de Deus,
  não considerou o fato de ser igual a Deus
  algo a que devesse se apegar,
  mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo,
  assumindo a forma de servo
  e fazendo-se semelhante aos homens.
Assim, na forma de homem,
  humilhou a si mesmo,
  sendo obediente até a morte,
  e morte de cruz.
Por isso, Deus também o exaltou
  com soberania e lhe deu o nome
  que está acima de qualquer outro nome;
para que ao nome de Jesus
  se dobre todo joelho
  dos que estão nos céus,
  na terra e debaixo da terra,
  e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
  para glória de Deus Pai.

Bênção:

Filipenses 4: 7

A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento,
guarde o vosso coração e os vossos pensamentos
no conhecimento e no amor de Deus,
e do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor;
e a bênção de Deus todo-poderoso,
o Pai, o Filho, e o Espírito Santo,
permanecerá sempre convosco. Amém. 


* Revised Common Lectionary
** Zacarias 9: 9
*** Livro de Oração Comum Brasileiro
**** The Worship Sourcebook

**** Arte: Entrada em Jerusalém, 1320. Pietro Lorenzetti. Igreja de São Francisco, Assis, Itália.

12 de fevereiro de 2016

40+ motivos para observar a Quaresma - Peter J. Leithart

Um assassinato de tweets.

Para observarmos a Quaresma corretamente, nós temos que estar convencidos que já estamos no favor de Deus.

A Quarta-feira de Cinzas nos lembra a contar os nossos dias. Ela ajuda-nos a alcançar um coração sábio (Salmo 90:12).

Nós guardamos a Páscoa manifestando e aprofundando nosso precedente compartilhamento na ressurreição. Nós observamos a Quaresma manifestando e aprofundando nossa participação na cruz.

Como uma busca focada dos frutos da santidade, a Quaresma está enraizada na união com Cristo, que é nossa santificação.

Quaresma é a época de sangue, tripas e carne. É a suprema temporada anti-Gnóstica.

Alguns dizem que a Quaresma inibe o impacto cultural da igreja. Para isso, existem três respostas: Cristandade, Bizâncio e Bach.

Quaresma é uma perseguição da glória, porque o Senhor exalta aqueles que humilham a si mesmos.

Para observar a Quaresma corretamente, nós precisamos estar confiantes de que o poder para obedecer a Deus é uma dádiva de Deus.

Israel procura e purga o fermento velho uma vez ao ano. A Quaresma é a festa cristã do pão sem fermento.

Para os cristãos, a morte não é o fim mas o começo. Quaresma é uma longa meditação nessa boa notícia.

A Vida é uma jornada quaresmal através da morte em direção a ressurreição.

A Quaresma é um campo de treinamento para guerreiros espirituais.

Sem a Quaresma ou algo como isso, a igreja arrisca cair dentro de um triunfalismo sem a cruz, a qual é a arma da vitória.

A Quaresma não impediu os cristãos de converter a Europa, formando a Cristandade, construindo catedrais, celebrando o carnaval.

A Quaresma é o treinamento na fundamental disciplina cristã de esperar.

A Quaresma é a preparação para o martírio. Nada é mais poderoso politicamente do que um mártir.

Como todo o calendário da igreja, a Quaresma introduz "o fato do Cristo dentro do ritmo das estações, semanas, dias e horas." - Congar

Nós estamos famintos por todas as coisas erradas. Nós precisamos da Quaresma para desenvolver um gosto para o fruta da árvore da vida -- isto é, o fruto da cruz.

O Roxo é a cor litúrgica para a Quaresma, uma profunda cor de penitência, uma cor luxuriante de realeza. A Quaresma é para reis em treinamento.

O ano da igreja é uma comemoração estendida da história do evangelho. A Quaresma é longa porque a Paixão é o maior episódio na história.

Um exercício de gratificação deferida, a Quaresma é profundamente contracultural.

A Quaresma é católica porque significa nossa inclusão na igreja una, santa, católica e apostólica.

A Quaresma lembra-nos que o único Deus que existe é o Deus da cruz. A Quaresma é uma prevenção contra o monoteísmo genérico.

A Quaresma não é uma retirada da história. O Deus da Quaresma é o Deus que entra no tempo, o Deus que derramou o sangue por nós.

A Quaresma dá a única resposta que existe para o problema do mal: A cruz que triunfa sobre o mal, uma morte que esmaga a morte.

Alguns demônios só são expelidos com jejum e oração. Parece uma boa razão para jejuar e orar.

O ano cristão tem um ritmo, cada estação tem sua própria tonalidade e coloração. Sem Quaresma, o ano fica insípido.

Sem Quaresma, quantos quadros deixariam de ter sido pintados? Quantas cantigas deixariam de ser escritas e cantadas?

A Quaresma nos diz que tempo é -- o tempo entre a ressurreição e a ressurreição.

A Quaresma nos lembra que Jesus foi para a cruz para nós pudéssemos escapar da cruz; Ele foi para a cruz para permitir a nós suportá-la depois dele.

A Quaresma nos dá 40 dias para contemplar a glória do crucificado, que salvou o mundo.

A quaresma é um esforço concentrado para identificar e quebrar ídolos. A Quaresma é um campo de treinamento para Josias.

A Quaresma nos ensina que o Nome que carregamos tem o peso de uma cruz

Durante a Quaresma, nós contemplamos a obediência do Filho para que nos tornemos filhos que honrem nosso Pai e nossos pais.

A Quaresma reconstrói casamentos à medida que comungamos com o Esposo Perfeito que deu a si próprio inteiramente para Sua Noiva.

A Quaresma é o movimento menor na sinfonia do ano da igreja, a dissonância que se abre para a resolução da Páscoa.

A Quaresma é um antídoto contra o sentimentalismo.

A Quaresma nos sintoniza para a beleza quebrada do mundo.

A Quaresma arranca camadas de autoengano que nos resguarda do Cristo Ressuscitado.

A Quaresma não é para fazer coisas que nós nunca fazemos. Como o Domingo, a Quaresma é para intensificar coisas que nós fazemos todo o tempo.

O ano da igreja é pintado em luz e sombra (chiaroscuro). Sem a tonalidade escura da Quaresma, a Páscoa é bidimensional.

A Quaresma nos ensina a cruzar nossos olhos: “For if the eye seek good objects, and will take / No cross from bad, we cannot ‘scape a snake.” - Donne - Donne

Peter J. Leithart é o presidente do Instituto Teópolis.


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ORIGINAL TEXT: https://theopolisinstitute.com/40-reasons-to-observe-lent/

11 de fevereiro de 2016

A Great Lent Makes Much of Christ

Zac Hicks

So here's what I'm thinking, friends. Liturgy and the Church Calendar are in vogue right now. And praise God for that. I happen to think the Church Calendar is much more than extra-biblical "dead traditionalism." It is rooted in a Scriptural understanding of annual Christ-centered cycles of worship, and it is therefore a quite lively tradition. Perhaps, though, we Protestants need to think more carefully about how we re-engage and appropriate these traditions, and Lent is case in point.

Lent is a wonderful season that can go all wrong if we don't, in the Spirit of the Reformers, maintain a stubborn commitment to the very Gospel that drove them to edit, redact, and overhaul their received liturgies. Lent is one of those places where works-righteousness likes to sneak in, where the Old Adam tries to reassert himself and gain a place at the table. For in a season of fasting and repentance (both thoroughly biblical ideas), we're always tempted to make it about us and what we do for God. Lent can become far more about what we give up for God and far less about what Christ gave up for God the Father on our behalf. Lent is ultimately about Christ's fasting, not ours...Christ's earning God's favor, not ours...Christ's victory over the world, the flesh, and the devil, not ours.

Jesus fasted for forty days to secure the favor of the Father, and he did this, in the words of the Nicene Creed, "for us and for our salvation." Jesus fasted in His Lenten wilderness so that our Lenten fast could be completely freed from any sense of securing the favor of God. We fast and repent from out of the favor of God, not for it. This does a marvelous relativizing work on our works, for it puts our fasting completely on the horizontal plane (between us and our fellow human beings), not the vertical (between us and God). It means that we fast for our neighbor. How is this so?

God doesn't need one ounce of our good works. He's got the King's chest...a big pile of merit secured by His Son and placed in its overflowing, eternal storehouse.  The Father looks at the Son's spoils from His war on earth and is satisfied. But though God doesn't need our good works, our neighbor does. We fast, therefore, that we may be freed up toward the types of "Godly motions in righteousness" that bless our neighbor. When I am self-controlled, my wife and my children are blessed. When I am not self-controlled, I hurt them. Though God doesn't benefit one ounce from my good works, my neighbor does a whole lot. So, we might say that a truly Gospel-centered Lent "horizontalizes" the works of the season.

Furthermore, a truly Gospel-centered Lent understands with Cranmer, Luther, Calvin, Bucer, and the other reformers that it is only in focusing on Christ's work for us (our justification) that enables our work for the sake of our neighbor (our vocation). Therefore, Lent in the light of the Gospel remains, just like all the other seasons, all about Jesus.

Worship planners and leaders, a great Lent makes much of Christ.

25 de abril de 2015

A teologia holandesa é arrojada, afirma N. T. (Tom) Wright


O teólogo inglês N.T. (Tom) Wright vem à Holanda, no final de outubro (2014). Ele é Anglicano, mas mostra ter uma afinidade surpreendente com a tradição reformada holandesa. Como prévia da conferência em Kampen, no dia 31 de outubro: uma conversa com Wright sobre suas irritações dogmáticas, sua visão a respeito da teologia bíblica e sua paixão por alcançar “o crente comum”.

Por quatro dias o estudioso do Novo Testamento Tom Wright (1948) estará na Holanda no final desse mês. Primeiro será o palestrante principal de um congresso na Universidade de Groningen, depois visitara a Universidade Teológica de Kampen. Wright está ansioso, diz, pois ele entende que a teologia holandesa o “formou”, e a considera “extraordinária”. Essa parece uma afirmação educada, patente dos nossos vizinhos britânicos, mas em Wright parece um sentimento honesto de dívida (n. t. Para com a teologia holandesa). E realmente há temas comuns, que facilmente conectam os reformados e os neocalvinistas à teologia de Wright, na qual a ênfase está no pacto e na história da redenção, no significado concreto da cruz e da ressurreição, e na chegada real (n. t. efetiva) do novo mundo de Deus.
Wright é professor na St. Mary”s College, a faculdade teológica da Universidade de St. Andrews. Ele aceitou esse posto depois de sua despedida como bispo de Durham. Essa decisão teve tudo a ver com o seu quarto grande livro acadêmico da série Christian Origins and the Question of God (Origens Cristãs e a Questão de Deus). O livro se chama Paul and the Faithfulness of God (Paulo e a Fidelidade de Deus), e contém nada menos que 1650 páginas, e parece coroar o fascínio que Wright teve por toda a vida por Paulo. 

"Tive muito prazer trabalhando com esse livro," conta, "mas me custou mais tempo do que eu esperava. Comecei-o em um ano sabático em 2009. Em janeiro de 2010 voltei a Durham, onde era bispo. Logo ficou claro que eu não poderia terminar o livro se continuasse em Durham. Foi uma decisão difícil, mas escolhi aceitar o convite de St. Andrews para lecionar. Quando estava aqui ainda tinha que terminar diversos outros livros, como a série A Bíblia para Todos (n. t. Uma serie de comentários bíblicos). Também escrevi, a pedido da minha editora o livro Simplesmente Jesus (Simply Jesus: A new vision of who he was, what he did and why he matters) e em minha mente cresceu o conceito para Como Deus se tornou Rei (How God became King: The Forgotten Story of the Gospels). Enquanto isso meu editor ainda me pediu se podia desenvolver um livro a respeito dos Salmos a partir de uma palestra que tinha dado. Ele disse, pegue a palestra como estrutura básica e cada vez que abordar um Salmo você amplia um pouco – e eis que há um livro. Então acabei por fazê-lo em The Case for the Psalms (O Caso dos Salmos ou Em favor dos Salmos). Assim, fiquei bastante aliviado quando ano passado o grande livro a respeito de Paulo foi publicado."

Público Amplo
Trabalhar em todos esses projetos diferentes parece jogar diversas partidas de xadrez ao mesmo tempo. O público alvo de Wright também varia bastante. Mas isso o relaxa, diz, com um senso de ironia: “Esses livros científicos muito amplos me custam muitas gotas de suor. Entre estes escrevo os livros curtos e populares, e gosto muito disso. Eu gosto muito de escrever e esses livros para um público mais amplo não me custam tempo demais, muitas vezes é uma série de palestras, e entre estas apenas adiciono ordem e estrutura”.

Obviamente relaxar não é a única motivação de Wright. Ele busca conscientemente o contato com o público amplo nos seus livros populares. Essa é uma característica marcante das ocupações de Wright, pois são poucos os seus colegas que conseguiriam fazer o mesmo. “É verdade, e na verdade isso é uma vergonha”, diz Wright. “Na minha carreira sempre andei nesses dois caminhos. Eu trabalhava na esfera acadêmica, mas também estava ativo como pastor, bispo e pregador. Isso se tornou incomum nas esferas científicas atuais. O estudo do Novo Testamento tornou-se altamente especializado, e assim atrai pessoas que gostam de se ater a detalhes. Mas você deve ousar dar o passo para o público amplo que não quer saber apenas dos detalhes, mas são mais interessados no quadro maior, mais amplo. E é evidente que se deve fazer isso sem termos complicados. Quanto a isso, minha família, enquanto eu crescia, me ensinou uma lição útil. As crianças me faziam perguntas, e quando eu trazia termos carregados, diziam: 'Papai, fale normal!' A partir dessa lição de humildade vieram os meus livros Simplesmente Jesus e Simplesmente Cristão. E devo dizer que escrever esse tipo de livro me dá muito prazer”.

Herman Dooyeweerd
Wright enfatiza que frequentemente suas ideias teológicas são renovadoras, ou pelo menos surpreendentes. Mas ele também tem as suas fontes, por exemplo os grandes pensadores aos quais se sente em dívida. Em uma entrevista para a revista holandesa Wapenveld, Wright cita o nome do filósofo reformado Herman Dooyeweerd (1894-1977), que concebeu uma cosmovisão filosófica ampla – a Wijsbegeerte der Wetsidee (N. T. Filosofia da Ideia Cosmonômica) -- na qual ele aborda o todo da realidade, da escola e hospital à economia e ao sacramento. Wright ficou impressionado com a abordagem Dooyeweerdiana. “Herman Dooyeweerd foi importante para mim,” conta, “apesar de não ter feito um estudo rigoroso de sua obra. Suas ideias me alcançaram através de um bom amigo, Brian Walsh , que foi muito influenciado por Dooyeweerd. No começo da década de 90 demos uma série de palestras juntos em Oxford, na qual deveríamos abordar uma serie de tópicos, de Novo Testamento a Ética, de forma coerente e uniforme. Eu estava na fase preparatória dos volumosos livros acadêmicos a respeito do Novo Testamento, dos quais The New Testament and the People of God (1992) (n.t. O Novo Testamento e o Povo de Deus) seria o primeiro. Não há dúvida de que devo às conversas com Brian Walsh a percepção de que o Reino abrangente de Deus se conecta com a esperança messiânica do Antigo Testamento, e evidentemente com a maneira como tudo isso foi abordado em Jesus."

Kuyper
Brian Walsh desafiou Wright a pensar diferente do que este estava acostumado. “Não no sentido de “dai a Deus o que é de Deus e ao imperador o que pertence ao imperador” – que seriam compartimentos separados – mas deliberadamente abordar uma profunda conexão entre igreja e mundo. Dooyeweerd queria integrar todas os aspectos da vida sob o ponto de vista da vitória de Cristo. Ele estava convencido, assim como C.S. Lewis, que cada centímetro quadrado e cada segundo é reivindicado por Deus – e também por Satanás. Essa visão não me era totalmente estranha, estava presente de forma embrionária, mas eu nunca tinha pensado a respeito nessa profundidade.  Agora eu tinha que fazê-lo por causa do fascínio do meu amigo por Dooyeweerd. E devo dizer que comecei admirar a consciência intelectual dos pensadores cristãos holandeses – entre os quais evidentemente também devo citar Kuyper aqui! Era muito diferente do que estava acostumado da forma mimada e doce dos ingleses pensarem. Não que não conhecesse pensadores sérios e minuciosos na Inglaterra, mas a meticulosidade dos pensadores holandeses causou uma mudança em mim.”

Historiografia e Teologia
Parece que o senhor conscientemente escolhe ser historiador, por exemplo com o seu modelo de cosmovisão (worldview-model). O senhor não se profila como alguém que escreve Teologia Bíblica.
“A questão de Deus é uma questão teológica, não há escapatória, nem se  mantivermos uma perspectiva historiográfica. Para mim essa separação não existe de forma alguma. Alguns colegas me acusam de teologia bíblica, que entendem ser um empreendimento tolo e do século 19. O que eu proponho é: entremos no mundo do Judaísmo do Segundo Templo e então tentemos entender o que importava para a primeira geração de cristãos. Quando se faz isso, muitas coisas se encaixam. Nós mantemos tantos anacronismos no Cristianismo atual, desde como explicamos as parábolas a como entendemos Paulo. Mas tudo entra na perspectiva correta quando se começa a ver como o Judaísmo do Segundo Templo funciona. Você realmente tem aqueles momentos de: “Agora sim!” É a partir dessa perspectiva que tento pensar consequentemente Paulo no contexto da época. Assim sua pesquisa resulta em respostas históricas e teológicas. O que se ouve dos cristãos do primeiro século trata de “encarnação”, sobre a questão de quem Deus é, qual é o significado de Jesus no quadro geral das expectativas messiânicas. Enquanto pesquisador sempre tentei viver com essa tensão (n.t. No sentido positivo, emoção, empolgação, ansiedade, anseio), pesquisando a história e a teologia em conjunto. Minhas publicações podem assim serem classificadas como historiográficas, teológicas, ou até mesmo missiológicas”.

Construto teológico
Geralmente se mantêm as disciplinas separadas. Qual o argumento mais importante para se relacionar mais a teologia bíblica com a historiografia?
“Os textos do Novo Testamento que na história de Jesus Cristo se trata da presença direta de Deus. Isso se dá na história real, essa é a convicção deles. E é exatamente essa afirmação que por muito tempo foi considerada anátema por estudiosos do Novo Testametno. Considerava-se que era mais aceitável presumir que os evangelistas não tinham a pretensão de descreverem a história de forma realista. Para eles tratar-se-ia de um belo construto teológico que tinha importância para eles. Mas quando lemos Josefo, ou outros escritores Greco-Romanos, percebemos que eles escrevem de forma consciente sobre as coisas que aconteciam na época. E é dessa forma que se leem os evangelhos de forma natural. Isso não é inocente, mas baseia-se na forma séria dos judeus da época lerem”.

Aconteceu de verdade
Em How God Became King (Como Deus se tornou Rei, 2012), Wright argumenta que o tipo de histórias que os evangelhos contam, tratam de Deus o Criador e seu mundo. Nesse livro, ele afirma que os evangelhos tratam da realidade concreta, na qual se realiza uma ação divina. Wright: “Historicamente não faz sentido dizer que os evangelistas queriam enfatizar uma espiritualidade platônica, um significado religioso que estaria fora da realidade concreta! É exatamente isso que eles não têm em vista. O que Marcos, Lucas e os outros afirmam poderia ser ficção, no sentido de não estar de acordo com os fatos – mas essa é uma discussão completamente diferente. Mas eles estão convencidos de que a grande história das escrituras alcançou o seu clímax histórico na vinda do Messias Jesus. O fator esquecido, que poderia ter levado a interpretação ao caminho correto, é a expectativa dos profetas do período do Segundo Templo de que o Deus de Israel realmente retornaria. Deus prometeu que voltaria – mas ninguém sabe quando! Também não está claro como será ou o que acontecerá. O retorno de Deus poderia ser assustador, ou talvez empolgante. Mas esse é o assunto, que na percepção dos evangelistas Jesus assumiu o reinado de Deus. Eles contam com a convicção de que foi assim que aconteceu, assim Deus tornou-se rei.”

Irritações
O senhor se mostra irritado quanto a alguns pontos de vista teológicos. Quais as suas principais irritações dogmáticas?
“A forma como as pessoas reivindicam uma cristologia ortodoxa muitas vezes me causa certa resistência. Você deve pensar X ou Y a respeito de Jesus, e se não o fizer você está fora do barco. Geralmente é a reinvindicação de que Jesus é Deus. As pessoas presumem que o Jesus humano poderia sem problemas lembrar-se de como era quando Ele ainda estava com o Pai, antes de encarnar. Eu acho essa abordagem problemática, porque forca padrões racionalistas à explicação das Escrituras. Parece que as pessoas querem subscrever uma fé trinitária ortodoxa a qualquer custo, sem sondarem a profundidade da mesma. Dá para ouvi-las dizerem: “com certeza, Jesus era Deus! Eu subscrevo a isso, portanto estou tranquilo”. Mas a verdade é que se trata do que esse Deus encarnado faz! E o que fará. Se você o limita a “Ele morreu pelos nossos pecados e vai me levar ao céu”, você está perdendo o ponto central dos 4 evangelhos. De acordo com os evangelhos, Jesus se torna o encarregado. O próprio Deus está à frente de tudo em Cristo, e isso significa que algo acontecerá."

Combinação    
"A maioria dos cristãos nem para para pensar nisso. Talvez na Holanda seja diferente, assim como com seus “parentes” calvinistas em Grand Rapids! Quando eu dei uma palestra no Calvin College sobre How God Became King, James K. A. Smith me disse: “Você diz que nós nos esquecemos disso mas nas nossas aulas o reino de Deus e o seu significado concreto são sempre um ponto central!” Na verdade, suspeito que a teologia holandesa seja uma exceção. Dei incontáveis palestras e preleções em outras partes da Europa e dos EUA. Especialmente nos EUA as pessoas dizem: “Nunca ouvimos isso antes!” E quando digo que presumo que muitos pastores se limitam à mensagem de que Jesus se tornou Deus somente para nos perdoar e levar ao céu – ouço pessoas dizendo: “é isso que sempre ouvimos!” Parece que há pouca percepção da atualidade do Reino de Deus, que, de acordo com Jesus, vem “na terra como no céu”. Quando você expande para isso as pessoas rapidamente passam a achar que você está trocando o evangelho da redenção e perdão por um evangelho de melhoras sociais. Mas é claro que essa é uma conclusão precoce.  Nos evangelhos encontramos a combinação incomum de Reino e Cruz.  Os dois, na verdade, andam juntos apesar de a teologia ocidental ter muita dificuldade em mantê-los juntos. As pessoas parecem entender que tudo era um sucesso na missão de Jesus, até que algo deu errado e Ele acabou na cruz. Com isso parece que um plano B entrou em ação quando sua missão original foi por água abaixo – e o que sobra é apenas uma morte isolada que nos salva dos nossos pecados."

Solto da cruz
“A questão central então é: “como os dois se combinam? Como conectar a sua atuação e sua pregação, suas curas, seu envolvimento critico nas relações sociais – e por outro lado sua terrível morte e gloriosa ressurreição?” Simplesmente não se levanta essa questão o bastante. E como consequência disso se deslizou para uma teologia da cruz, de tons pietistas, na qual tudo é a respeito da morte salvífica de Jesus, a salvação da minha alma. Do outro lado do espectro deslizaram para uma forma de horizontalismo social no qual o reino se soltou da cruz. Mas no grande capítulo da ressurreição – 1 Coríntios 15 – Paulo escreve que a morte de Jesus resulta em seu reinado concreto, “até que tenha colocado todos os inimigos debaixo de seus pés”. Nesse sentido o Reino de Deus é uma realidade presente e atual. O Reino evidentemente ainda não é o reino de paz na qual resultará quando Deus for “tudo em todos” e a morte for definitivamente derrotada. Mas a partir da ressurreição de Cristo o mundo mudou definitivamente e Deus ativamente dá forma ao Seu novo mundo.”

Quebra cabeça
As irritações dogmáticas de Wright se voltam principalmente ao abismo entre algumas construções dogmáticas e o testemunho dos escritores do Novo Testamento. Muitos evangélicos na Inglaterra e nos EUA se satisfazem com os lugares-comuns dogmáticos, observa Wright. “Enquanto você disser que Jesus é Deus – você está tranquilo. Se subscrever: Jesus morreu no meu lugar – daí está ótimo! É certo que tais afirmações contêm elementos verdadeiros. Mas é como montar um quebra-cabeça com as peças nos lugares errados. Você pode até usar todas as peças, mas como não se encaixam o quadro geral fica deformado. Se olhar bem, a imagem não convence. Esse também é o problema das grandes confissões (n.t. De fé): O reino (quase) não é citado. No Credo de Nicéia você só tem alguma coisa a respeito do Reino lá no final. Então as pessoas pensam: “Ah, então isso ainda virá!” Em How God Became King sou crítico quanto a essa omissão e sua estrutura teológica, mas não advogo a favor da abolição das grandes confissões. O que é importante é que as compreendamos de uma maneira nova: a partir do testemunho dos evangelistas e dos escritores do Novo Testamento.”


*Arrojada: Audaz, atrevida, arrojada, minuciosa, meticulosa, resoluta, corajosa, firme todas estas seriam traduções possíveis da palavra “doortastend” que o autor usa em holandês. Depende de qual palavra inglesa Wright usou originalmente para saber qual seria a tradução mais correta. Usei a que me parece mais exata quanto a palavra holandesa, que é de difícil tradução. 
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Fonte: https://tukampen.afasonline.com/nieuwsbericht-tu-kampen-nl/nederlandse-theologie-doortastend-stelt-n-t-tom-wright
Original: Tjerk de Reus e Hans Burger
Tradução: Tijs vanden Brink
Revisão: Daniel de Lima Vieira


23 de janeiro de 2015

O Futuro da Religião em Uma Era Secular. - James K. A. Smith

Mas se cada crença está fragilizada e é contestada, então a descrença, em si mesma, é contestável. Se o crente é assaltado pela dúvida, o descrente pode ser assaltado pela fé. Mesmo os ateus podem ser surpreendidos ao descobrirem a si mesmos tentando acreditar. Apesar do barulho agitado das espadas dos fundamentalistas -- quer dos cristãos ou dos novos ateus -- o cenário de uma era secular é um meio-termo bagunçado, em que somos espirituais mas não religiosos. A nossa assim chamada era "secular" é um tempo caracterizado não tanto pela descrença, mas pela explosão de milhares de maneiras diferentes de se crer, onde até os ateus querem ser devotos.

Então o que faz da nossa era uma era "secular" não é que seja uma era de descrença, mas uma na qual nossas crenças são contestadas e frágeis - e, no entanto, não conseguimos deixar de crer. O escritor David Foster Wallace capturou esse sentido em seu famoso discurso inicial no Kenyon College:

Nas trincheiras do dia-a-dia da vida adulta, não existe essa coisa de ateísmo. Não existe essa coisa de não-adoração. Todos adoram algo. A única escolha que nós temos é o quê adorar. E a razão irresistível para talvez escolher algum tipo de deus ou alguma coisa do tipo espiritual para adorar - seja JC ou Alá, seja YHWH ou a Deusa-Mãe Wiccan, ou as Quatro Nobres Verdades, ou algum inviolável grupo de princípios éticos - é que praticamente tudo o mais que você adoraria seria capaz de te devorar vivo.

Então, que futuro existiria para a religião em uma era secular? Dada a abrangência do tema, vamos focar especificamente no futuro do Cristianismo na América.

Prever o futuro do Cristianismo primeiro requer certo trabalho genealógico: Como chegamos aqui? A este respeito, Taylor salienta uma tendência particular do Cristianismo moderno que tem tido um impacto significativo nas expressões contemporâneas, particularmente no Evangelicalismo. Taylor a descreve como uma dinâmica da "excarnação".

O termo é deliberadamente provocativo, contrariando um dogma central da fé cristã chamado "encarnação" - a ideia de que Deus tornou-se humano, feito em carne. Esta é a realidade que os cristãos celebram no Natal: que o Deus eterno e imaterial condescendeu a tornar-se corpo, carne, matéria. Esta noção de encarnação é a base do tradicional entendimento cristão dos sacramentos - a convicção de que a substância material e encarnada medeia o eterno e divino. Assim, em adição à convicção de que o Jesus humano incorpora Deus, os cristãos têm também enfatizado que a criação em si mesma é encantada pela presença do Espírito.

Mas uma das consequências involuntárias da Reforma Protestante, argumenta Taylor, foi o desencantamento do mundo. Críticos da maneira como o entendimento sacramental, encantado, do mundo tinha degenerado em mera superstição, os Reformadores enfatizaram a simples escuta da Palavra, a mensagem do Evangelho e a árida simplicidade do culto cristão. O resultado foi um processo de excarnação - desincorporando o culto e a religião, tornando-a um assunto "mental" que poderia ser resumido à mensagem e compreendido com a mente. Como eu descrevi em outro lugar, a religião ficou reduzida a algo para cérebros afiados.

A espiritualidade das pessoas espiritualizadas-mas-não-religiosas frequentemente imita este tipo de religião excarnada, muitas vezes sem o perceber. Nossa espiritualidade de autoajuda é notavelmente "protestante", poderia-se dizer. Dá-nos uns poucos aforismos inspiradores, uns poucos "pensamentos-do-dia" para nos levar através das dificuldades, um par de frases pungentes ao lado dos nossos copos da Starbucks e esta é a mensagem que nós precisamos para nos manter significativamente vivos. Esta é a espiritualidade feita à medida de seres pensantes que habitam um universo desencantado.

Por que isso importa para o futuro do Cristianismo? Porque agora que o mundo inteiro tem sido desencantado e nós temos sido encapsulados em uma "natureza" achatada, eu espero que existirão formas de re-encantar o Cristianismo que realmente terão futuro. A excarnação protestante basicamente cedeu sua função a outros: se você está procurando uma mensagem, uma ideia inspiradora, algum combustível de primeira categoria para o seu receptáculo intelectual - bem, existe uma indústria cultural inteira feliz para te proporcionar isso. Por que você precisaria da igreja? Você pode assistir Ellen ou Oprah ou uma palestra TED.

Mas o que poderá impedir as pessoas -- o que poderá verdadeiramente assombrá-las -- serão encontros com comunidades religiosas que têm clarabóias perfuradas no nosso céu de bronze. Será comunidades de desenho de cristãos "tradicionais" sobre os poços de histórico, "encarnar" o culto cristão, com seus cheiros e sinos em toda a sua Gothic-estranheza que encarnam uma espiritualidade que carrega whiffs de transcendência que serão estranhos e, portanto, atraentes. Eu não faço nenhuma afirmação de que essas comunidades serão grandes movimentos de massa ou populares. Mas eles vão crescer justamente porque sua antiga prática de encarnação é uma resposta aos retornos decrescentes da espiritualidade "excarnada".

E quando o mingau ralo da espiritualidade "faça você mesmo" acaba por se tornar isolamento, somente, e incapaz de suportar crises, a multidão "espiritual mas não religiosa" pode encontrar-se surpreendentemente aberta para algo completamente diferente. De maneiras que nunca poderiam ter previsto, alguns vão começar a se perguntar se a "renúncia" não é o caminho para a totalidade, se a liberdade pode ser encontrada no dom de constrangimento, e se os estranhos rituais do culto cristão são a resposta para as suas maiores aspirações humanas. A assombração do secular será mútua, poderíamos dizer.

O que as comunidades cristãs precisam cultivar em nossa "era secular" é uma paciência fiel, e mesmo receber a era secular como um presente para renovar e cultivar um Cristianismo encarnado, encorpado, robustamente ortodoxo que sozinho parecerá uma alternativa genuína ao "espiritual".

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ORIGINAL TEXT
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# What Is The Future Of Religion? - The Future of Religion in a “Secular” Age
http://www.slate.com/bigideas/what-is-the-future-of-religion/essays-and-opinions/the-future-of-religion-in-a-secular-age

Tradução Livre: @DanielDliver

5 de janeiro de 2015

Lecionário, meu plano de leitura bíblica

"A fim de tomar a totalidade do texto a sério, a igreja "desconstrutiva" emprega a tradição reverenciada do Lecionário, que, ao longo de alguns anos, nos guia através da totalidade da narrativa do texto ..." James K. A. Smith -- Quem tem medo do pós-modernismo? p. 57

No começo de um novo ano em que muitos (re)iniciam planos de leitura bíblica para uso devocional, gostaria de indicar o plano que tenho usado: as Leituras Diárias do Lecionário. A grande vantagem do plano de leitura do Lecionário é a conexão da leitura devocional com os textos do culto da comunidade do Domingo. Como nossa igreja está usando o ano B (o segundo de um total de três) do Lecionário nos cultos, também estou usando o Lecionário Diário, ano B.

Como funciona o Lecionário Diário?

"O lecionário diário permite que se conte o tempo da semana de maneira distinta, colocando o Domingo como o centro da semana e da vida do cristão. Dessa forma a semana começa toda quinta-feira, com a preparação para o domingo, os textos do Velho e do Novo testamento mudam a cada dia, porém o Salmo é relido a cada dia até o Domingo. De segunda-feira em diante reflete-se sobre o que foi lido e falado quando a comunidade esteve junta no Domingo e assim se busca evitar perder o sentido daquilo que foi visto em comum, e se aprofunda a meditação e leitura até a quarta-feira seguinte."
(fonte: http://lecionario.blogspot.com.br/2008/05/o-lecionario-comum-revisado.html)

Um arquivo para as referências das Leituras Diárias (inclusive as de Domingo) pode ser encontrado aqui na página da Consultation on Common Texts (CCT):
http://www.commontexts.org/publications/DailyreadingsB.pdf

Uma versão online do Revised Common Lectionary é disponibilizado pela Vanderbilt Divinity Library, que possui muitas informações acerca do Lecionário Comum Revisado:
http://lectionary.library.vanderbilt.edu/

Para links com arquivos do Lecionário em português:
https://cultoreformado.wordpress.com/lecionario/

Lecionário, o que é isso?
http://igrejaanglicana.com.br/o-lecionario-o-que-e-isso

2 de dezembro de 2014

Contando o Tempo de Forma Diferente


Jake Belder



The Christian Calendar from Christ Church Anglican on Vimeo.

O vídeo acima fornece uma introdução realmente útil para o calendário da Igreja e o significado das diferentes estações ao longo do ano. Embora eu não tenha crescido num contexto em que foi observado o Ano Igreja (com exceção dos grandes dias de festa), trata-se de algo que eu vim a apreciar profundamente, e eu acho que seguir o calendário litúrgico é de grande benefício para o a modelagem da vida da Igreja, por algumas diversas razões.

Em primeiro lugar, como diz o vídeo, ele enraiza a Igreja na história do evangelho. Não se trata de apenas ouvir o evangelho a cada vez que nos reunimos, embora certamente esse deve ser o caso, mas de habitarmos a história ao longo de todo o ano de uma forma muito mais profunda. Passamos longos períodos de tempo refletindo e habitando sobre a história da redenção e da obra de Jesus para nos reconciliar com Deus e nos dar uma nova vida, situando-nos dentro do drama que se desenrola. Nós desaceleramos e reconhecemos o que o povo de Deus já sabe há muito tempo - que esta é uma história que se desenrola ao longo de milhares e milhares de anos, e que temos de esperar no Senhor, que traz a salvação na plenitude do tempo.

Neste tempo de Advento no qual acabamos de entrar, por exemplo, é tão importante para a Igreja porque temos em grande parte perdido aquela sensação de espera e expectativa. O Advento nos obriga a enfrentar a realidade de que continuamos a nos encontrar vivendo em um tempo de escuridão, em um mundo que ainda está quebrado e precisa de redenção. Desacelerar para refletir nisso nos ajuda a entrar na saudade e na espera com expectativa de que os profetas falaram enquanto esperavam o Messias prometido, para juntar-se ao grito de Isaías: Ah, se rompesses os céus e descesses! (Isaías 64:1) Não podemos ir direto para o Natal; a vinda do Messias só faz sentido no contexto desse anseio de libertação, enquanto aprendemos o que significa expectativa esperançosa no cumprimento das promessas de Deus. Além do mais, uma das características da Igreja Primitiva era o senso de que a volta de Jesus era iminente, e, portanto, a ideia de correr a corrida e pressionar em busca da santidade era uma tarefa urgente, como era o convite para fazer discípulos de todas as nações e testemunhar para o Reino. Enquanto esperamos o segundo Advento de Cristo, recapturar essa sensação de iminência de seu retorno ajuda a despertar uma Igreja que, em muitos aspectos, perdeu essa urgência.

Em segundo lugar, trata-se de formação. Como observou James KA Smith, somos moldados menos por aquilo que pensamos do que por aquilo que amamos, e esses amores são cultivados pelas histórias e liturgias que habitamos, intencionalmente ou não. Ele argumenta em seu livro, Desejando o Reino, que a nossa cultura está bem consciente da realidade de que somos seres litúrgicos e nos bombardeia incessantemente com narrações do mundo que buscam capturar os nossos corações e as imaginações e orientar-nos no sentido de uma visão particular de florescimento e do que significa ser humano. O único antídoto para essas tentativas invasivos para re-narrar o mundo é nos enraizar firmemente na história verdadeira do mundo, revelada a nós nas Escrituras. E o principal meio de fazer isso é através do culto da Igreja. Calendário da Igreja nos ajuda a ensaiar que a verdadeira história do mundo ao longo de todo o ano em nossa adoração, sempre nos mantendo enraizados nessa história e nos ajudando a resistir àquelas tentativas de reformular e reorientar-nos.

Finalmente, essa é uma maneira de os cristãos serem distintamente separados do mundo, de declarar que pertencemos a um reino diferente e que as nossas vidas são ordenadas de forma diferente. Cristo é o Senhor de toda a nossa vida, incluindo a forma como nós marcamos tempo. Nós marchamos pelo tique-taque de um relógio diferente, e permitimos que esse relógio defina o nosso foco e as nossas prioridades. Como povo que é batizado em Cristo e recebeu uma nova identidade, enraizamo-nos na história da redenção e gastamos o ano apontando para Jesus e para a salvação que vem através dele, constantemente ensaiando o modo em que Deus agiu na história e colocando-nos nessa história .
E isso só pode ser uma coisa boa.

(O gráfico abaixo marca de modo útil as estações do ano Igreja juntamente com as cores litúrgicas, conforme elas são observadas na Igreja da Inglaterra.)

Original: http://blog.jakebelder.com/post/telling-time-differently

Tradução: @danieldliver

8 de setembro de 2014

Igreja e Instituição – Revisitando uma Trilha Percorrida

Algumas falas no último Encontro Mosaico (30/09) me fizeram reviver muito das discussões que remontam ao ano de 2008, numa movimentação na blogosfera sobre o tópico igreja: igreja emergente, igreja orgânica, igreja caseira, etc ...

Esse assunto todo é muito pessoal para mim, pois como me escreveu um "amigo" em janeiro de 2013: “uma coisa comum nos nossos dois destinos foi o clima de mudança de transição, estamos em busca de um lugar, não só de uma comunidade eclesiástica, mas de um lugar na vida mesmo.”

Em agosto de 2010 eu já tinha escrito uma espécie de “suma” de tantas coisas que tinha lido e discutido até aquele momento acerca do assunto. Já naquela época eu destacava a posição de Sandro Baggio, que se envolvera a fundo nas discussões e conhecia a literatura produzida no período sobre o tema.

Enquanto eu ainda morava e trabalhava em Nerópolis-GO (para onde fui após 25 anos em Uberlândia dos quais 15 na Igreja Metodista), a leitura de um livro (que Baggio comenta em um de seus posts) de Kevin DeYoung e Ted Kluck em 2010 encerrou um ciclo de debates e uma tomada de posição pessoal. O livro Why We Love the Church: In Praise of Institutions and Organized Religion ressoou com muito do que eu então percebia após os debates que tiveram na leitura de “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola, um de seus momentos mais intensos.

Recordei muitas daquelas posições ventiladas à época nesse final de semana. Segundo uma dessas posições, a “instituição” é retratada como um problema para a vida das relações na igreja. (Essa discussão é semelhante aquela sobre religião x espiritualidade, que rendeu vivo debate reproduzido no blog Voltemos ao Evangelho).

Em uma série de postagens sobre o tema, Sandro Baggio tomou posição que representou um significativo contraponto à onda da juventude digitalmente incluída da época:

Nos comentários das postagens encontramos muitos interlocutores das discussões à época. Vale destacar o debate entre Baggio e Brabo nos comentários do primeiro post, porque representa bem os modos de pensar distintos que se firmaram ali. Digna de nota é a referência de Brabo a um texto de Elienai Cabral Júnior:

     “A instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos.”

Sandro Baggio, contudo, afirma em suas postagens listadas acima:

“Não considero a instituição como, por natureza, inimiga mortal da igreja. (...)

Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.

Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições. (...)

Minha sugestão sincera: não perca tempo lutando contra o fantasma da instituição. Ele é tão somente isto: um fantasma. Em vez disso, use seu tempo para amar e servir a Deus e ao próximo, em relacionamentos de compromisso e mutualidade numa comunidade de fé, amor e esperança centrada em Jesus.”

Em comentário ao segundo post, Ariovaldo Carlos Júnior, em 27 de julho de 2011, escreveu:

“Ótima reflexão. Afinal, a instituição deve SERVIR à Igreja de Cristo. O problema tem sido o radicalismo de alguns em considerar que, devido às inversões de prioridade deste “serviço”, tudo que é organizado é ruim. Como se tudo que fosse desorganizado fosse necessariamente melhor e duradouro.”

Em 2009 foram publicados no Brasil os livros "A Cabana" e "Por que você não quer mais ir à igreja?" pela Editora Sextante. Essas obras representavam o pensamento e sentimento de desconforto que se difundia entre a juventude que percebia sinais de necessidade de renovação das instituições eclesiásticas, mas não fornecia uma proposta construtiva ou reformadora, mas um sentimento revolucionário, quase iconoclasta.  No entanto, os jovens que atualmente estão preocupados com missão cristã, transformação e justiça parecem não ecoar esse discurso.

Desde 2009, nas discussões sobre igreja emergente, a posição assumida pelo novo calvinismo americano (neopuritanismo) me pareceu oferecer interessantes contrapontos a algumas posições do diálogo emergente da época. Já em 2010, John Piper, que no ano seguinte diria adeus ao ensino de Rob Bell, já profetizara que movimento emergente se desvaneceria:

        Isso é o que acontece quando se prioriza relacionamentos em detrimento da verdade. Quando a verdade é priorizada, os relacionamentos se tornam parte dela. Quando os relacionamentos são priorizados e a verdade é deixada de lado, então ela se perde. Como consequência, os relacionamentos se arruínam, e é a isso que me refiro quando digo que sua liderança está em ruínas.

Demorou muito, porém, para que eu superasse a resistência com o calvinismo e entender que há duas correntes distintas representadas atualmente por movimentos compreendidos sob os termos neopuritanismo (soberania de Deus na salvação) e neocalvinismo (soberania de Deus na criação).

Contudo, desde que conheci esse neocalvinismo (holandês), o qual descobri por meio do L’Abri (que visitei pela primeira vez em maio de 2011), venho me movendo até uma posição “católica reformada” que abraço hoje. É bom destacar que, segundo Guilherme de Carvalho,

       “L'Abri é uma síntese de calvinismo evangelicizado (Schaeffer) com neocalvinismo (Rookmaaker). E o ponto de conexão é a visão Bavickiana de Natureza e Graça (que era fundamental para Rookmaaker e também para Schaeffer, via Van Til).”

Conhecer esses pensadores e a expressão dessa tradição em instituições de ensino como o Calvin College me abriram para um vasto campo do que eu me referi como uma fé católica reformada, abraçado pelo professor James K. A. Smith, o qual me fora apresentado pelo teólogo e pedagogo Igor Miguel. Na minha peregrinação passei pela conversa emergente que enfatizava a necessidade de a igreja contextualizar-se frente aos desafios da pós-modernidade. Num ponto da caminhada cheguei ao livro de Smith, Who’s Afraid of Postmodernism, 2006: Baker Academic, em que ele sintetiza:

"Uma igreja verdadeiramente pós-moderna será profundamente histórica (recuperando sua antiga herança) e litúrgica (ativando a imaginação através do símbolo e do sacramento".

É interessante notar como essas trajetórias se cruzam num post de Igor Miguel, de maio de 2011, em que ele escreve:

“Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras gotas de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido.

Mas, de verdade, o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja", me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade amarmos a Igreja Local novamente. Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.

Como eu disse, o tema "plantação de igreja" me “salvou” quando eu estava em “crise” sobre o assunto. O movimento anglicano norte-americano de plantação de igrejas me despertou para olhar para os temas “igreja e instituição”, teologia, arte e liturgia com outra perspectiva.

Em 2011, participando de um grupo jovem Dedo de Prosa com Deus eu percebia que precisávamos da transição de grupo para igreja, mas não reuníamos condições para fazer essa travessia à época. Em fevereiro de 2012 reencontrei parte do grupo do Love s.a.(em cujas reuniões de oração participei em 2010) comecei a participar em um pequeno grupo que nutria a visão de se tornar uma igreja em plantação.

Com esse histórico, revisitar a discussão sobre instituição me causa certa inquietação, pois sob uma perspectiva da cosmovisão reformada, adquire-se uma compreensão melhor daquilo que Sandro Baggio disse:

“Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.”

Albert Wolters, apresentado em seu importante livro “A Criação Restaurada” (Creation Regained), nos esclarece (p. 71, 77):

“O grande risco é sempre escolher algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identifica-lo, em vez da intrusão da apostasia humana, como o vilão no drama da vida humana. (...) O resultado é que algo na boa criação é declarado mau. (...) Parece haver um traço gnóstico, enraizado no pensamento humano, que faz com que as pessoas culpem alguns aspectos da obra da mão de Deus por todas as aflições e desgraças do mundo em que vivem. (...)

Em resumo, vimos que a queda afeta toda a extensão da criação terrena; que o pecado é um parasito sobre a criação, e não parte dela; e que, à medida que afeta toda a terra, o pecado profana todas as coisas, tornando-as “mundanas”, “seculares”, “terrenas”. Consequentemente, cada área do mundo criado clama por redenção e pela vinda do reino de Deus”.

Em uma resenha de um livro de D. A. Carson, James K. A. Smith chama a atenção para a importância, na grande narrativa bíblica (criação, queda, redenção, consumação), do "Mandato Cultural" (Gn 1:27-29): o chamado criacional da humanidade para cultivar as possibilidades latentes dentro da criação através do contínuo trabalho cultural. O autor clama por uma teologia da cultura que mostra como o trabalho de "fazer humano" está enraizado na própria criação: "essa tarefa de elaboração humana é precisamente a forma como portamos a imagem de Deus no mundo (como "sub-criadores", nas palavras de Tolkien)."

O autor destaca que se "as instituições, sistemas e estruturas" estiverem ausentes de uma abordagem da criação, eles também não aparecerão no radar da queda e no da redenção. Já por uma perspectiva da escatologia, a "eternidade" nos aparece em muitas abordagens evangelicais como carente de instituições culturais – uma eternidade sem comércio ou política, arte ou atletismo. Para Smith, "tal visão achatada do nosso futuro redimido é o correlato de uma compreensão atrofiada da criação".

Na sequência do texto, o autor pergunta:

"Mas o que é o evangelho senão o chamado e convite de Deus para sermos restaurados e renovados como portadores apropriados da imagem de Deus -- que carregam sua imagem ao desdobrar o potencial da criação em cultura corretamente ordenada? Ser portadores da imagem de Deus é um chamado, uma vocação e uma tarefa, e não uma propriedade estática do ser humano. E Cristo, como o segundo Adão, mostrou-nos como se parece fazer isso: em um mundo caído e quebrado, a forma de tal vocação é cruciforme; ser agentes culturais do Deus crucificado não é um projeto de transformação triunfal, mas de testemunho sofredor."

O mandato cultural é, pois, uma tarefa humana que envolve a expressão da lei criacional na civilização humana. Como nos diz Albert Wolters (p. 55, 28):

"O governo da lei de Deus é imediato no domínio não-humano, mas tem um mediador na cultura e na sociedade. No domínio humano, homens e mulheres tornam-se co-trabalhadores com Deus; como criaturas feitas à imagem de Deus, eles também têm um tipo de senhorio sobre a terra, e são vice-regentes na criação" (...) "Somos chamados a participar na obra criacional de Deus que está em progresso, para sermos ajudadores de Deus na execução da sua obra-prima".

Assim, instituições culturais como escolas, empresas, igrejas, estados, assembleias legislativas, bibliotecas, fazem parte da criação, são totalmente afetadas pela queda e estão sob o alcance da redenção de Cristo que é Senhor sobre todos os centímetros da realidade criada. A tendência gnóstica se manifesta, na discussão que estamos enfocando, em suspeitar das instituições em si mesmas, especialmente quando estas são um aspecto da igreja. No editorial da edição fall 2013 da revista canadense Comment, entitulada "We Believe in Institutions", James K. A. Smith escreve:

Em uma era cínica que tende a glorificar 'start-ups' e celebrar a suspeita anti-institucional, a fé em instituições soará datada, indigesta, fora de moda, e mesmo (suspiro) "conservadora". Assim os cristãos que estão ansiosos por ser progressistas, hip, relevantes e criativos tendem a comprar tal anti-institucionalismo, assim espelhando e imitando tendências culturais mais amplas (o que, ironicamente, são frequentemente, parasitárias das instituições!).

        E, no entanto esses mesmos cristãos estão justamente preocupados com "o bem comum". Eles são recém convencidos de que o Evangelho tem implicações para toda a vida e que ser cristão deve significar algo para este mundo. Jesus chama-nos não só para garantir a nossa própria salvação em algum gueto religioso privatizado. Ele nos chama para buscar o bem-estar da cidade e de seus habitantes ao redor de nós. Nós amamos a Deus ao amar o próximo; glorificamos a Deus ao cuidar dos pobres; exibimos a bondade de Deus através da promoção do bem comum.

       Mas aqui está a coisa: se você está realmente apaixonado por promover o bem comum, então você deve resistir ao anti-institucionalismo. Por que as instituições são maneiras de amar nosso próximo. As instituições são estruturas concretas duráveis ​​que -- quando funcionando bem -- cultivam todo o potencial da criação em direção ao que Deus deseja: shalom, paz, bondade, justiça, florescimento, prazer. As instituições são a nossa forma de obter uma alça sobre realidades concretas e abordar diferentes aspectos da existência humana. As instituições, por vezes, são andaimes para apoiar os fracos; às vezes elas funcionam como cercas para proteger os mais vulneráveis​​; em outros casos, as instituições são o trampolim que nos permite buscar inovação. Mesmo que elas possam tornar-se corruptas e necessitarem de reforma, as próprias instituições não são o inimigo.

     Assim, acreditamos nas instituições porque nos opomos à injustiça. Mas fundamentalmente acreditamos nas instituições porque acreditamos nas Escrituras e na comissão cultural dada à humanidade no Jardim. Ser frutífero e multiplicar é começar -- e herdar -- a instituição da família. Cultivar a criação é encher a terra com a vida institucional que estava implorando para ser desfraldada em museus e escolas, nas legislaturas e bibliotecas, nas universidades e sindicatos. As instituições são maneiras comuns duráveis pelos quais podemos atuar em conjunto com nosso próximo para conseguir bens penúltimos. Então, ao invés de pensar as instituições como grandes, pesadonas, gigantes e estáticas, pense em instituições como encenações sociais dinâmicas. Tente imaginar "instituições" como esferas de ação. As instituições não são apenas algo que nós construímos; eles são algo que fazemos.”

Dallas Willard, falecido professor de filosofia que escrevia sobre formação e disciplinas espirituais, faz uma interessante aplicação da imagem de Paulo que: “temos esse tesouro em vasos de barro” (2 Co. 4.7). Aqui, o vaso de barro é o corruptível corpo do apóstolo e os eventos visíveis de sua vida terrestre. Para Willard, os mesmos princípios de "vaso" e "tesouro" se aplicam às congregações locais, às suas tradições e seus grupos de alto-nível chamados de "denominações". A identidade de grupos, congregações e denominações são definidas historicamente por contingências humanas que são muitas vezes confundidas com o tesouro da verdadeira presença de Cristo. Para evitar a “armadilha do vaso”, Willard recomenda o foco na Grande Comissão:

Certamente que não podemos evitar ter vasos. E devemos ser sensíveis a eles, pois isso faz parte do que é ser humano e finito. Até mesmo Jesus teve o seu vaso. Ele era um judeu e isso se tornou a primeira armadilha do vaso que as primeiras congregações de discípulos precisaram enfrentar. Atos e as cartas do Novo Testamento são um registro de como isso foi superado.

Podemos, portanto, evitar fazer do vaso o tesouro. E podemos identificar o tesouro sem fazer referência a qualquer vaso. No entanto, o tesouro sempre terá um vaso. O próprio Jesus nos mostrou o caminho, e a congregação local pode seguir esse caminho. [...]

Em poucas palavras, a congregação local que adotar os "princípios e as verdades absolutas" do Novo Testamento, com a natural consequência de se tornar e produzir filhos da luz, tem que apenas seguir as instruções finais de Jesus: "Ao saírem pelo mundo, façam aprendizes de para mim de todos os tipos de pessoas, imergindo-as na realidade Trinitária e ensinando-as a fazer todas as coisas que lhes ordenei" (Mt 28:19-20, paráfrase). As ordens foram acompanhadas de declarações categóricas sobre os muitos recursos para a tarefa: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "estarei com vocês a cada momento, até que o trabalho esteja concluído" (v. 18, 20, PAR).”

N. T. Wright, um dos maiores estudiosos contemporâneos do Novo Testamento, escreve em seu livro dedicado à ressurreição, escatologia e missão, Surpreendido pela Esperança, que a igreja deve remodelar a sua missão identificando-a com “viver o futuro”. Parte essencial desse futuro consiste na redimida criação: espaço, tempo e matéria. O autor explica sua tese (p. 273):

“A ordem criada, que Deus começou a redimir na ressurreição de Jesus, é um mundo no qual o céu e a terra foram planejados para estarem unidos, não separados. A partir dessa união, Deus irá aprimorar a declaração que fez no princípio, de que a criação é “muito boa”.

O eminente autor, bispo anglicano aposentado para se dedicar à docência, aborda o fenômeno do abandono das práticas tradicionais das igrejas pela juventude: templos, liturgias, orações formais e os sacramentos. Na visão de Wright, isso tem origem em um tipo de “protestantismo latente” na cultura cristã ocidental, na crença implícita de que “templos, liturgias e coisas assim são, por natureza, não-espirituais” (p. 272). Com base na “lógica da nova criação”, Tom Wright pergunta (p. 273): “O que acontece quando pensamos em espaço, tempo e matéria sendo renovados, em vez de abandonados, na vida da igreja?”

Quanto ao espaço, o autor afirma que é preciso urgentemente retomar uma “teologia do lugar” (presente na tradição celta), de “lugares finos” em que o véu que separa céu e terra se tornam quase transparente. A restauração futura do mundo inteiro por Deus é antecipada na restauração de lugares para adoração e oração; não um esconderijo do mundo, mas um posto avançado pelo qual se reivindica parte do espaço dado por Deus para a sua glória, antecipando o dia em que o mundo inteiro irá tremer diante dele. Para Wright, há um dualismo tolo na declaração de que templos antigos e coisas desse tipo são irrelevantes para a missão de Deus. O autor afirma um princípio norteador (p. 274): “Sim, reivindicações territoriais podem se tornar idólatras e abusivas [...] No entanto, a resposta ao abuso não está no dualismo, mas no uso apropriado".

No tocante à renovação e à reivindicação do tempo, o autor afirma que o tempo da igreja, a longa história da igreja cristã e a “tradição” acumulada durante esse período devem ser seriamente considerados em qualquer escatologia fundamentada na visão da igreja voltada para missão (p. 275):

“A história da igreja é a história de caminhos nos quais, a despeito da tolice, do fracasso e do pecado evidente, o futuro de Deus já começou naquele que, para nossos ancestrais, era o “tempo presente”, deixando-nos um legado que é parte do “passado”, e que está repleto não somente de erros e de estilos de vida culturalmente condicionados, mas também de padrões da nova criação que já estão, a partir do nosso ponto de vista, entrelaçados na história – pedaços do futuro de Deus, por assim, dizer que são agora pedaços do nosso passado. [...] Descartar a tradição apenas porque ela é “tradição” é render-se à pós-modernidade e a um tipo de ultraprotestantismo que arranca a raiz da árvore por acreditar que árvores devem sem completamente visíveis para que todos vejam seus frutos, e não enterradas em um solo sujo.”

Finalmente, quanto ao item matéria, adverte Wright (p. 276-277):

“Se não quisermos cair no platonismo, negando assim a excelência da criação, devemos retomar a ideia da encarnação e da ressurreição corpórea de Jesus, e a promessa de que a criação será renovada e ficará livre da morte e da corrupção. [...] É dentro dessa estrutura de pensamento que os sacramentos cristãos clássicos do batismo e da eucaristia ganham significado. [...] O abuso do sacramento não anula seu uso apropriado. [...] Se a igreja precisa ser renovada em sua missão no mundo e para o mundo de espaço, tempo e matéria, não podemos ignorá-lo o marginalizá-lo. Devemos, antes, reivindica-lo para o reino de Deus, para o senhorio de Jesus e no poder do Espírito, a fim de que possamos então ir e trabalhar pelo reino, anunciar o senhorio de Cristo e realizar mudanças por meio desse poder. Ninguém ensina alguém a cantar jogando fora seus instrumentos musicais. Portanto, a missão da igreja deve incluir, em nível estrutural, o reconhecimento de que nosso espaço, tempo e matéria presentes estão sujeitos à redenção, e não à rejeição. [...] A despeito da tendência observada na “igreja emergente”, de marginalizar espaço, tempo e matéria, eu continuo convencido de que o modo de seguir adiante à descobrindo a verdadeira escatologia, a verdadeira missão enraizada na antecipação dessa escatologia, e de formas de igreja que incorporam essa antecipação”.

Portanto, o cristianismo bíblico nos provê recursos para evitar a rejeição da estrutura de qualquer aspecto da criação de Deus ao discernimos os efeitos da Queda na direção distorcida que assumem para que cooperamos com o Deus Trino direcionando para Cristo todas as coisas. A redenção em Jesus é “o antídoto completo e decisivo para a distorção criacional”. Qualquer coisa na criação pode ser direcionada para a obediência a Cristo: “os seres humanos individuais, os fenômenos culturais como a tecnologia, a arte e o conhecimento, as instituições sociais como sindicatos, escolas e corporações e as funções humanas como a emoção, a sexualidade e a racionalidade” (Wolters, 69).

Na Carta XXIII de suas "Cartas a um Jovem Calvinista", James Smith recorre a Santo Agostinho para articular uma doutrina robusta da bondade da criação:

      "As 'coisas' não são pecaminosas, o que é pecaminosa é a forma como nos relacionamos com elas, o que fazemos com elas. E isso se resume a uma questão sobre o que nós amamos e como amamos. [...]

        Para Agostinho, o pecado é uma questão de "como" e não do "quê". O que precisa mudar, diz Agostinho, não são as coisas da criação, mas o nosso amor. Assim, Agostinho introduz uma distinção importante, especialmente no livro 1 da "Doutrina Cristã", o que Deus deseja e projeta para as suas criaturas é uma "ordem correta do amor", que significa simplesmente que fomos criados e chamados a ser criaturas cujo propósito é amar ao Deus Trino, e, assim, encontrarmos a nossa identidade e nos deliciarmos nessa ordem correta do amor. Para Agostinho, nós somos o que nós amamos. Na verdade, não podemos deixar de amar: mesmo caída, a humanidade pecadora ainda é impelida a amar; mas como pecadores, nós amamos as coisas erradas da forma errada. [...]

        As tentações do mundo, então, não são um reflexo do que há de errado com a criação, elas são um indicador de que há de errado conosco. O que está em questão aqui não é a criação em si, mas como nos relacionamos com a criação. [...]

     Mas pela graça de Deus a nossa inclinação para amar pode ser corretamente direcionada, corretamente dirigida ao próprio Deus. Pela graça de Deus o nosso amor pode encontrar o propósito para o qual foi criado: o próprio Deus. Quando o nosso amor é corretamente direcionado de forma que nos deleitemos em Deus, então vamos perceber que Deus nos dá a sua criação, para que possamos desfrutar Dele."

O aspecto institucional da igreja, portanto, não está fora da abrangência do senhorio de Cristo e deve ser submetido a constante reforma para que obedeça a direção apontada pela graça. A instituição não é sagrada nem secular, mas é “santificada” pela palavra de Deus e pela oração (1 Tm 4.5).