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1 de maio de 2017

O Lecionário agora é uma Publicação

O Lecionário agora é uma publicação no Medium.



 
Ali o conteúdo será expandido e as publicações serão diversificadas.

Reservamos as quartas-feiras e as quintas-feiras para as publicações principais dos textos bíblicos.

Nas quartas-feiras publicamos as Leituras Diárias em uma postagem semanal, com suplementos para pequenos grupos de discipulado.

Na quinta-feira publicamos as postagens relativas à liturgia dos Cultos de domingo.

Nos outros dias da semana postaremos diversos outros conteúdos, contando com a participação de vários autores.

O objetivo desta publicação é ajudar igrejas que priorizam a formação espiritual a realizarem esta tarefa.

Para ir até a Publicação, clique no link a seguir:

16 de julho de 2016

O Fim do Protestantismo | Peter J. Leithart


A Reforma não acabou. Mas o Protestantismo sim, ou deveria.

Quando eu estudei em Cambridge, eu descobri que os evangélicos ingleses se definiam sobretudo contra a Igreja da Inglaterra. Seja lá a Igreja da Inglaterra é, eles não são. O que estou chamando de "Protestantismo" é faz a mesma coisa com Catolicismo Romano. Protestantismo é uma teologia negativa; um protestante é um não-católico. Tudo aquilo que os católicos dizem ou fazem, o protestante faz e diz tão perto do oposto quanto possível.

As principais igrejas são quase desprovidas de "Protestantes". Se você quer detectar um nestes dias, a sua melhor aposta é visitar a Igreja Batista ou a a igreja bíblia local, embora você possa encontrar uma fartura de protestantes entre os presbiterianos conservadores também.

O Protestantismo deve dar lugar ao Catolicismo Reformacional. Como um Protestante, um Católico Reformacional rejeita reivindicações papais, se recusa a venerar a Hóstia, e não reza para Maria ou os Santos; ele insiste que a salvação é uma simples dádiva de Deus recebida pela fé e admite que toda a tradição deve ser julgada pelas Escrituras, a voz do Espírito na conversa que é a Igreja.

Embora ele concorde com o protesto 'Protestante' original, o Catolicismo Reformacional é definido tanto pelas coisas que compartilha com o Catolicismo Romano como por suas diferenças. Sua existência não está atada a falhas encontradas no Catolicismo Romano. Enquanto está nela, o católico Reformacional poderia muito bem reivindicar a maiúscula "C." Por que deveria a Sé Romana ter um monopólio sobre a maiúscula?

Um protestante exagera a sua distância do Catolicismo Romano em cada ponto da teologia e da prática, e é cético quanto aos Católicos Romanos que dizem que creem na salvação pela graça. Um Católico Reformacional alegremente reconhece que compartilha credos com os católicos romanos, e dá boa acolhida a reformas e reformulações como sinais esperançosos de que poderíamos, finalmente, entre as barricadas, demarcar o terreno comum. (Protestantes também exageram diferenças entre si, mas essa é uma história para outro dia.)

Um protestante acredita (moda antiga) nas afirmações dos católicos romanos sobre a sua estabilidade imutável. Um Católico Reformacional sabe que o catolicismo romano mudou e está mudando.

Alguns protestantes não veem os católicos romanos como cristãos, e não reconhecerão a Igreja Católica Romana como uma igreja verdadeira. Um católico reformacional considera os católicos como irmãos, e lamenta a necessidade de modificar essa irmandade como "separada". Para um Católico Reformacional, é claramente óbvio que há uma Igreja de Jesus Cristo, com um bilhão de membros, centralizada em Roma. O Protestantismo deixa o catolicismo romano entregue aos seus próprios instrumentos, porque mal considera a Igreja Católica Romana como cristã. "Eles" tiveram um escândalo de pedofilia, e "eles" têm um papa controverso. Um Católico Reformacional reconhece que uma perturbação na Igreja Católica Romana é uma perturbação em sua própria família.

Um Protestante vê a Igreja como um instrumento para salvação individual. Um Católico Reformacional crê ser a salvação inerentemente social.

Os heróis de um protestante são Lutero, Calvino, Zwínglio, e seus herdeiros. Se ele reconhece alguma ascendência antes da Reforma, eles são os proto-protestantes como Hus e Wycliffe. Um católico reformacional recebe, com gratidão, a história de toda a Igreja como sua história e, junto aos Reformadores, ele honra Agostinho e Gregório o Grande e os capadócios, Alcuíno e Rabanus Maurus, Tomás e Boaventura, Domingos e Francisco e Dante, Inácio e Teresa de Ávila, Chesterton, de Lubac e Congar como pais, irmãos, e irmãs. Um católico reformacional sabe que alguns de seus ancestrais eram profundamente imperfeitos mas não retirará nenhum deles da árvore da família. Ele sabe que toda família tem seus embaraços.

Os protestantes suspeitam de uma igreja pública, "Constantiniana". Embora reconhecendo as tentações do poder, um católico reformacional vê o testemunho público como uma expressão da missão da Igreja para as nações.

Um protestante zomba da interpretação bíblica patrística e medieval e encontra segurança na exegese histórico-gramatical. Um católico reformacional diverte-se nas riquezas, mesmo enquanto tenta compreender as singularidades de Agostinho e Orígenes, Bernardo e Beda. Ele sabe que há insondáveis profundidades na Escritura, jamais sonhadas por Lutero e Calvino.

Um protestante é indiferente ou hostil a formas litúrgicas, ornamentação na adoração e aos sacramentos, porque isso é o que os católicos fazem. A piedade do catolicismo reformacional é comunal e sacramental, e sua devoção segue padrões litúrgicos históricos. Um protestante usa um casaco e uma gravata, ou uma camiseta Mickey Mouse sem mangas, para conduzir um culto; um católico reformado se paramenta com sotaina e estola. Para um protestante, um sacramento é uma ajuda para a memória. Um católico reformado crê que Jesus batiza e se doa como alimento aos fiéis, e não evita falar de "Eucaristia" ou "Missa" apenas porque os católicos romanos usam essas palavras.

Um católico reformacional encontra o Catolicismo Evangélico de George Weigel, vindo da direção de Roma, e lhe dá um caloroso aperto de mão.

O protestantismo teve uma boa corrida. Refez a Europa e fez a América. Inspirou missões globais, cozinhas com sopa, plantação de igrejas e faculdades nos quatro cantos da terra. Mas o mundo e a Igreja mudaram, e o protestantismo não é o que a Igreja, incluindo os próprios protestantes, necessita hoje. É tempo de voltarmos o protesto contra o Protestantismo e vislumbrarmos uma nova maneira de sermos herdeiros da Reforma, uma nova maneira que possa conformar-se à visão católica original dos reformadores.

Peter J. Leithart é presidente da Trinity House.


Fonte:
http://www.firstthings.com/web-exclusives/2013/11/the-end-of-protestantism

Tradução: Daniel Vieira

19 de março de 2016

Liturgia de Ramos

​20 de março de 2016








Leituras bíblicas:
Isaías 50: 4-9a; Salmo 118: 1-2, 19-29; Filipenses 2: 5-11; Lucas 19: 28-40 *.

Convite ao Culto**

Bendito seja o que vem em nome do SENHOR!
Hosana nas alturas!

Alegra-te muito, ó filha de Sião;
exulta, ó filha de Jerusalém;
o teu rei vem a ti;
ele é justo e traz a salvação;
ele é humilde e vem montado num jumento,
num jumentinho, filho de jumenta. 

Primeira Leitura:

Isaías 50: 4-9a

O SENHOR Deus deu-me a língua dos instruídos
  para que eu saiba o que dizer ao que está cansado;
ele me desperta todas as manhãs;
desperta-me o ouvido para que eu ouça como discípulo.
O SENHOR Deus abriu-me os ouvidos,
  e eu não fui rebelde, nem me afastei.
Ofereci as minhas costas aos que me feriam,
  e a minha face, aos que me arrancavam a barba;
não escondi o rosto dos que me afrontavam e me cuspiam.
Pois o SENHOR Deus me ajuda;
portanto, não fico envergonhado;
por isso o meu rosto está firme como uma pedra,
  e sei que não serei envergonhado.
Aquele que me defende está perto;
quem contenderá comigo?
Apresentemo-nos juntos;
quem é meu adversário?
Aproxime-se.
O SENHOR Deus é quem me ajuda!
Quem me condenará?

Coleta/Confissão:

Onipotente e Eterno Deus, de tal modo amaste o mundo, que enviaste teu Filho, nosso Salvador e Jesus Cristo, para tomar sobre si a nossa carne e sofrer morte na cruz, dando ao gênero humano exemplo de sua profunda humildade; concede, em tua misericórdia, que imitemos a sua paciência no sofrimento e possamos participar também de sua ressurreição; mediante o mesmo Jesus Cristo, nosso Senhor, que vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus, agora e sempre. Amém!***

Salmo 118: 1-2, 19-29

Rendei graças ao SENHOR, pois ele é bom;
seu amor dura para sempre.
Diga Israel:
Seu amor dura para sempre.

Abri as portas da justiça para mim,
para que eu entre por elas
e renda graças ao SENHOR.
Esta é a porta do SENHOR;
os justos entrarão por ela.
Eu te dou graças, pois me respondeste
e foste minha salvação.

A pedra que os construtores rejeitaram,
essa se tornou a pedra angular.
Foi o SENHOR quem fez isso,
e é maravilhoso aos nossos olhos.
Este é o dia que o SENHOR fez;
vamos regozijar-nos e alegrar-nos nele.


Salva-nos, SENHOR, nós te pedimos;
ó SENHOR, nós te pedimos, envia-nos prosperidade.
Bendito seja o que vem em nome do SENHOR!
Nós vos abençoamos da casa do SENHOR.
O SENHOR é Deus e faz resplandecer sua luz sobre nós;
preparai a festa com ramos até as pontas do altar.


Tu és o meu Deus, e eu te renderei graças;
tu és o meu Deus, e eu te exaltarei.

Rendei graças ao SENHOR, pois ele é bom;
seu amor dura para sempre.

Ofertório:

Pai misericordioso, nós oferecemos com alegria e gratidão aquilo que tu primeiro nos deste – nós mesmos, o nosso tempo e as nossas posses – sinais do teu amor misericordioso. Recebe-os por causa daquele que se ofereceu a nós: Jesus Cristo, nosso Senhor. Amém! ****

Evangelho:

Lucas 19: 28-40

Tendo assim falado, Jesus seguiu caminhando adiante deles, subindo para Jerusalém. Ao aproximar-se de Betfagé e de Betânia, perto do monte chamado das Oliveiras, enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: Ide ao povoado que está adiante, e ali, ao entrar, achareis amarrado um jumentinho sobre o qual ninguém jamais montou; desamarrai-o e trazei-o. Se alguém vos perguntar: Por que o desamarrais?, respondereis assim: O Mestre precisa dele.

Partiram, pois, os que haviam sido enviados e acharam tudo conforme lhes dissera. Enquanto desamarravam o jumentinho, os seus donos lhes perguntaram: Por que desamarrais o jumentinho?

Eles responderam: O Mestre precisa dele.

Levaram-no, pois, a Jesus e, pondo os seus mantos sobre o jumentinho, fizeram com que Jesus o montasse. E, enquanto ele passava, outros estendiam os seus mantos pelo caminho. Já perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão de discípulos, alegrando-se muito, começou a louvar a Deus em alta voz, por todos os milagres que havia visto, dizendo:

Bendito o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas.

Nisso, alguns dos fariseus dentre a multidão disseram-lhe: Mestre, repreende os teus discípulos.

Mas ele lhes respondeu: Eu vos digo que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.

Envio:

Filipenses 3: 4b-14

Tende em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus,

que, existindo em forma de Deus,
  não considerou o fato de ser igual a Deus
  algo a que devesse se apegar,
  mas, pelo contrário, esvaziou a si mesmo,
  assumindo a forma de servo
  e fazendo-se semelhante aos homens.
Assim, na forma de homem,
  humilhou a si mesmo,
  sendo obediente até a morte,
  e morte de cruz.
Por isso, Deus também o exaltou
  com soberania e lhe deu o nome
  que está acima de qualquer outro nome;
para que ao nome de Jesus
  se dobre todo joelho
  dos que estão nos céus,
  na terra e debaixo da terra,
  e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor,
  para glória de Deus Pai.

Bênção:

Filipenses 4: 7

A paz de Deus, que ultrapassa todo entendimento,
guarde o vosso coração e os vossos pensamentos
no conhecimento e no amor de Deus,
e do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor;
e a bênção de Deus todo-poderoso,
o Pai, o Filho, e o Espírito Santo,
permanecerá sempre convosco. Amém. 


* Revised Common Lectionary
** Zacarias 9: 9
*** Livro de Oração Comum Brasileiro
**** The Worship Sourcebook

**** Arte: Entrada em Jerusalém, 1320. Pietro Lorenzetti. Igreja de São Francisco, Assis, Itália.

12 de fevereiro de 2016

40+ motivos para observar a Quaresma - Peter J. Leithart

Um assassinato de tweets.

Para observarmos a Quaresma corretamente, nós temos que estar convencidos que já estamos no favor de Deus.

A Quarta-feira de Cinzas nos lembra a contar os nossos dias. Ela ajuda-nos a alcançar um coração sábio (Salmo 90:12).

Nós guardamos a Páscoa manifestando e aprofundando nosso precedente compartilhamento na ressurreição. Nós observamos a Quaresma manifestando e aprofundando nossa participação na cruz.

Como uma busca focada dos frutos da santidade, a Quaresma está enraizada na união com Cristo, que é nossa santificação.

Quaresma é a época de sangue, tripas e carne. É a suprema temporada anti-Gnóstica.

Alguns dizem que a Quaresma inibe o impacto cultural da igreja. Para isso, existem três respostas: Cristandade, Bizâncio e Bach.

Quaresma é uma perseguição da glória, porque o Senhor exalta aqueles que humilham a si mesmos.

Para observar a Quaresma corretamente, nós precisamos estar confiantes de que o poder para obedecer a Deus é uma dádiva de Deus.

Israel procura e purga o fermento velho uma vez ao ano. A Quaresma é a festa cristã do pão sem fermento.

Para os cristãos, a morte não é o fim mas o começo. Quaresma é uma longa meditação nessa boa notícia.

A Vida é uma jornada quaresmal através da morte em direção a ressurreição.

A Quaresma é um campo de treinamento para guerreiros espirituais.

Sem a Quaresma ou algo como isso, a igreja arrisca cair dentro de um triunfalismo sem a cruz, a qual é a arma da vitória.

A Quaresma não impediu os cristãos de converter a Europa, formando a Cristandade, construindo catedrais, celebrando o carnaval.

A Quaresma é o treinamento na fundamental disciplina cristã de esperar.

A Quaresma é a preparação para o martírio. Nada é mais poderoso politicamente do que um mártir.

Como todo o calendário da igreja, a Quaresma introduz "o fato do Cristo dentro do ritmo das estações, semanas, dias e horas." - Congar

Nós estamos famintos por todas as coisas erradas. Nós precisamos da Quaresma para desenvolver um gosto para o fruta da árvore da vida -- isto é, o fruto da cruz.

O Roxo é a cor litúrgica para a Quaresma, uma profunda cor de penitência, uma cor luxuriante de realeza. A Quaresma é para reis em treinamento.

O ano da igreja é uma comemoração estendida da história do evangelho. A Quaresma é longa porque a Paixão é o maior episódio na história.

Um exercício de gratificação deferida, a Quaresma é profundamente contracultural.

A Quaresma é católica porque significa nossa inclusão na igreja una, santa, católica e apostólica.

A Quaresma lembra-nos que o único Deus que existe é o Deus da cruz. A Quaresma é uma prevenção contra o monoteísmo genérico.

A Quaresma não é uma retirada da história. O Deus da Quaresma é o Deus que entra no tempo, o Deus que derramou o sangue por nós.

A Quaresma dá a única resposta que existe para o problema do mal: A cruz que triunfa sobre o mal, uma morte que esmaga a morte.

Alguns demônios só são expelidos com jejum e oração. Parece uma boa razão para jejuar e orar.

O ano cristão tem um ritmo, cada estação tem sua própria tonalidade e coloração. Sem Quaresma, o ano fica insípido.

Sem Quaresma, quantos quadros deixariam de ter sido pintados? Quantas cantigas deixariam de ser escritas e cantadas?

A Quaresma nos diz que tempo é -- o tempo entre a ressurreição e a ressurreição.

A Quaresma nos lembra que Jesus foi para a cruz para nós pudéssemos escapar da cruz; Ele foi para a cruz para permitir a nós suportá-la depois dele.

A Quaresma nos dá 40 dias para contemplar a glória do crucificado, que salvou o mundo.

A quaresma é um esforço concentrado para identificar e quebrar ídolos. A Quaresma é um campo de treinamento para Josias.

A Quaresma nos ensina que o Nome que carregamos tem o peso de uma cruz

Durante a Quaresma, nós contemplamos a obediência do Filho para que nos tornemos filhos que honrem nosso Pai e nossos pais.

A Quaresma reconstrói casamentos à medida que comungamos com o Esposo Perfeito que deu a si próprio inteiramente para Sua Noiva.

A Quaresma é o movimento menor na sinfonia do ano da igreja, a dissonância que se abre para a resolução da Páscoa.

A Quaresma é um antídoto contra o sentimentalismo.

A Quaresma nos sintoniza para a beleza quebrada do mundo.

A Quaresma arranca camadas de autoengano que nos resguarda do Cristo Ressuscitado.

A Quaresma não é para fazer coisas que nós nunca fazemos. Como o Domingo, a Quaresma é para intensificar coisas que nós fazemos todo o tempo.

O ano da igreja é pintado em luz e sombra (chiaroscuro). Sem a tonalidade escura da Quaresma, a Páscoa é bidimensional.

A Quaresma nos ensina a cruzar nossos olhos: “For if the eye seek good objects, and will take / No cross from bad, we cannot ‘scape a snake.” - Donne - Donne

Peter J. Leithart é o presidente do Instituto Teópolis.


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ORIGINAL TEXT: https://theopolisinstitute.com/40-reasons-to-observe-lent/

11 de fevereiro de 2016

A Great Lent Makes Much of Christ

Zac Hicks

So here's what I'm thinking, friends. Liturgy and the Church Calendar are in vogue right now. And praise God for that. I happen to think the Church Calendar is much more than extra-biblical "dead traditionalism." It is rooted in a Scriptural understanding of annual Christ-centered cycles of worship, and it is therefore a quite lively tradition. Perhaps, though, we Protestants need to think more carefully about how we re-engage and appropriate these traditions, and Lent is case in point.

Lent is a wonderful season that can go all wrong if we don't, in the Spirit of the Reformers, maintain a stubborn commitment to the very Gospel that drove them to edit, redact, and overhaul their received liturgies. Lent is one of those places where works-righteousness likes to sneak in, where the Old Adam tries to reassert himself and gain a place at the table. For in a season of fasting and repentance (both thoroughly biblical ideas), we're always tempted to make it about us and what we do for God. Lent can become far more about what we give up for God and far less about what Christ gave up for God the Father on our behalf. Lent is ultimately about Christ's fasting, not ours...Christ's earning God's favor, not ours...Christ's victory over the world, the flesh, and the devil, not ours.

Jesus fasted for forty days to secure the favor of the Father, and he did this, in the words of the Nicene Creed, "for us and for our salvation." Jesus fasted in His Lenten wilderness so that our Lenten fast could be completely freed from any sense of securing the favor of God. We fast and repent from out of the favor of God, not for it. This does a marvelous relativizing work on our works, for it puts our fasting completely on the horizontal plane (between us and our fellow human beings), not the vertical (between us and God). It means that we fast for our neighbor. How is this so?

God doesn't need one ounce of our good works. He's got the King's chest...a big pile of merit secured by His Son and placed in its overflowing, eternal storehouse.  The Father looks at the Son's spoils from His war on earth and is satisfied. But though God doesn't need our good works, our neighbor does. We fast, therefore, that we may be freed up toward the types of "Godly motions in righteousness" that bless our neighbor. When I am self-controlled, my wife and my children are blessed. When I am not self-controlled, I hurt them. Though God doesn't benefit one ounce from my good works, my neighbor does a whole lot. So, we might say that a truly Gospel-centered Lent "horizontalizes" the works of the season.

Furthermore, a truly Gospel-centered Lent understands with Cranmer, Luther, Calvin, Bucer, and the other reformers that it is only in focusing on Christ's work for us (our justification) that enables our work for the sake of our neighbor (our vocation). Therefore, Lent in the light of the Gospel remains, just like all the other seasons, all about Jesus.

Worship planners and leaders, a great Lent makes much of Christ.

13 de janeiro de 2016

A Catolicidade da Igreja – Hermann Bavinck

(...)
E, finalmente, há a característica da catolicidade ou universalidade da Igreja. Essa característica é mencionada pela primeira vez em um escrito pós-apostolico, cuja intenção era declarar que, contra todos os tipos de heresias e cismas, a verdadeira Igreja é a única que obedece ao bispo e continua sendo o corpo de Cristo, pois a Igreja católica universal é a única na qual Cristo está presente. Mas tarde, todos os tipos de explicações foram adicionadas ao nome; as pessoas começaram a entender que a Igreja está espalhada por todo o mundo, que desde o princípio até os nosso dias ela inclui os crentes de todas as épocas, e que, desfrutando de toda verdade e Graça, ela é o meio de salvação adequado para todas as pessoas. Essas explicações não estão erradas se, ao pensarmos na Igreja, nós não estivermos pensando na organização eclesiástica, na Igreja Católica Romana, por exemplo, mas se entendermos que estamos falando da Igreja cristã, que se revela em todas as igrejas, em diferentes graus de pureza e saúde. Essa é de fato a Igreja católica. No Velho Testamento, a promessa-mãe foi feita a Adão e Eva e, dessa forma, a toda a humanidade. Se, mais tarde, as condições conduziram à formação de um povo específico em Abraão para servir como o portador da revelação, essa revelação continuar sendo feita a toda a humanidade. Na descendência de Abraão seriam abençoados todos os povos da terra (Gn 12.2). E a profecia conserva seus olhos fixos nessa destinação geral da redenção (Jl 2.32; Mq 4.1,2; Zc 2.11; Is 25.6-10).

(...)
Como todos os tesouros do reino que a Igreja possui são espirituais e não consistem de prata e ouro, em poder e força, mas em justiça, paz e alegria no Espírito Santo, a qualidade característica da catolicidade é acrescentada à Igreja. A Igreja não está vinculada a uma terra ou a um povo, a um tempo ou a um lugar, ao dinheiro ou à propriedade; ela é independente de todas as distinções e de todos os contrastes terrenos. Ela leva o Evangelho a todas as criaturas e esse Evangelho é sempre e somente o Evangelho, uma boa nova que é apropriada e necessária para todas as pessoas, em todas as épocas, sob todas as circunstâncias, em todas as condições. O reino de Deus a nada se opõe, exceto ao pecado.

Teologia Sistemática, pp. 576-579, Santa Bárbara d’Oeste, 2001, SOCEP.

5 de janeiro de 2015

Lecionário, meu plano de leitura bíblica

"A fim de tomar a totalidade do texto a sério, a igreja "desconstrutiva" emprega a tradição reverenciada do Lecionário, que, ao longo de alguns anos, nos guia através da totalidade da narrativa do texto ..." James K. A. Smith -- Quem tem medo do pós-modernismo? p. 57

No começo de um novo ano em que muitos (re)iniciam planos de leitura bíblica para uso devocional, gostaria de indicar o plano que tenho usado: as Leituras Diárias do Lecionário. A grande vantagem do plano de leitura do Lecionário é a conexão da leitura devocional com os textos do culto da comunidade do Domingo. Como nossa igreja está usando o ano B (o segundo de um total de três) do Lecionário nos cultos, também estou usando o Lecionário Diário, ano B.

Como funciona o Lecionário Diário?

"O lecionário diário permite que se conte o tempo da semana de maneira distinta, colocando o Domingo como o centro da semana e da vida do cristão. Dessa forma a semana começa toda quinta-feira, com a preparação para o domingo, os textos do Velho e do Novo testamento mudam a cada dia, porém o Salmo é relido a cada dia até o Domingo. De segunda-feira em diante reflete-se sobre o que foi lido e falado quando a comunidade esteve junta no Domingo e assim se busca evitar perder o sentido daquilo que foi visto em comum, e se aprofunda a meditação e leitura até a quarta-feira seguinte."
(fonte: http://lecionario.blogspot.com.br/2008/05/o-lecionario-comum-revisado.html)

Um arquivo para as referências das Leituras Diárias (inclusive as de Domingo) pode ser encontrado aqui na página da Consultation on Common Texts (CCT):
http://www.commontexts.org/publications/DailyreadingsB.pdf

Uma versão online do Revised Common Lectionary é disponibilizado pela Vanderbilt Divinity Library, que possui muitas informações acerca do Lecionário Comum Revisado:
http://lectionary.library.vanderbilt.edu/

Para links com arquivos do Lecionário em português:
https://cultoreformado.wordpress.com/lecionario/

Lecionário, o que é isso?
http://igrejaanglicana.com.br/o-lecionario-o-que-e-isso

2 de dezembro de 2014

Contando o Tempo de Forma Diferente


Jake Belder



The Christian Calendar from Christ Church Anglican on Vimeo.

O vídeo acima fornece uma introdução realmente útil para o calendário da Igreja e o significado das diferentes estações ao longo do ano. Embora eu não tenha crescido num contexto em que foi observado o Ano Igreja (com exceção dos grandes dias de festa), trata-se de algo que eu vim a apreciar profundamente, e eu acho que seguir o calendário litúrgico é de grande benefício para o a modelagem da vida da Igreja, por algumas diversas razões.

Em primeiro lugar, como diz o vídeo, ele enraiza a Igreja na história do evangelho. Não se trata de apenas ouvir o evangelho a cada vez que nos reunimos, embora certamente esse deve ser o caso, mas de habitarmos a história ao longo de todo o ano de uma forma muito mais profunda. Passamos longos períodos de tempo refletindo e habitando sobre a história da redenção e da obra de Jesus para nos reconciliar com Deus e nos dar uma nova vida, situando-nos dentro do drama que se desenrola. Nós desaceleramos e reconhecemos o que o povo de Deus já sabe há muito tempo - que esta é uma história que se desenrola ao longo de milhares e milhares de anos, e que temos de esperar no Senhor, que traz a salvação na plenitude do tempo.

Neste tempo de Advento no qual acabamos de entrar, por exemplo, é tão importante para a Igreja porque temos em grande parte perdido aquela sensação de espera e expectativa. O Advento nos obriga a enfrentar a realidade de que continuamos a nos encontrar vivendo em um tempo de escuridão, em um mundo que ainda está quebrado e precisa de redenção. Desacelerar para refletir nisso nos ajuda a entrar na saudade e na espera com expectativa de que os profetas falaram enquanto esperavam o Messias prometido, para juntar-se ao grito de Isaías: Ah, se rompesses os céus e descesses! (Isaías 64:1) Não podemos ir direto para o Natal; a vinda do Messias só faz sentido no contexto desse anseio de libertação, enquanto aprendemos o que significa expectativa esperançosa no cumprimento das promessas de Deus. Além do mais, uma das características da Igreja Primitiva era o senso de que a volta de Jesus era iminente, e, portanto, a ideia de correr a corrida e pressionar em busca da santidade era uma tarefa urgente, como era o convite para fazer discípulos de todas as nações e testemunhar para o Reino. Enquanto esperamos o segundo Advento de Cristo, recapturar essa sensação de iminência de seu retorno ajuda a despertar uma Igreja que, em muitos aspectos, perdeu essa urgência.

Em segundo lugar, trata-se de formação. Como observou James KA Smith, somos moldados menos por aquilo que pensamos do que por aquilo que amamos, e esses amores são cultivados pelas histórias e liturgias que habitamos, intencionalmente ou não. Ele argumenta em seu livro, Desejando o Reino, que a nossa cultura está bem consciente da realidade de que somos seres litúrgicos e nos bombardeia incessantemente com narrações do mundo que buscam capturar os nossos corações e as imaginações e orientar-nos no sentido de uma visão particular de florescimento e do que significa ser humano. O único antídoto para essas tentativas invasivos para re-narrar o mundo é nos enraizar firmemente na história verdadeira do mundo, revelada a nós nas Escrituras. E o principal meio de fazer isso é através do culto da Igreja. Calendário da Igreja nos ajuda a ensaiar que a verdadeira história do mundo ao longo de todo o ano em nossa adoração, sempre nos mantendo enraizados nessa história e nos ajudando a resistir àquelas tentativas de reformular e reorientar-nos.

Finalmente, essa é uma maneira de os cristãos serem distintamente separados do mundo, de declarar que pertencemos a um reino diferente e que as nossas vidas são ordenadas de forma diferente. Cristo é o Senhor de toda a nossa vida, incluindo a forma como nós marcamos tempo. Nós marchamos pelo tique-taque de um relógio diferente, e permitimos que esse relógio defina o nosso foco e as nossas prioridades. Como povo que é batizado em Cristo e recebeu uma nova identidade, enraizamo-nos na história da redenção e gastamos o ano apontando para Jesus e para a salvação que vem através dele, constantemente ensaiando o modo em que Deus agiu na história e colocando-nos nessa história .
E isso só pode ser uma coisa boa.

(O gráfico abaixo marca de modo útil as estações do ano Igreja juntamente com as cores litúrgicas, conforme elas são observadas na Igreja da Inglaterra.)

Original: http://blog.jakebelder.com/post/telling-time-differently

Tradução: @danieldliver

8 de setembro de 2014

Igreja e Instituição – Revisitando uma Trilha Percorrida

Algumas falas no último Encontro Mosaico (30/09) me fizeram reviver muito das discussões que remontam ao ano de 2008, numa movimentação na blogosfera sobre o tópico igreja: igreja emergente, igreja orgânica, igreja caseira, etc ...

Esse assunto todo é muito pessoal para mim, pois como me escreveu um "amigo" em janeiro de 2013: “uma coisa comum nos nossos dois destinos foi o clima de mudança de transição, estamos em busca de um lugar, não só de uma comunidade eclesiástica, mas de um lugar na vida mesmo.”

Em agosto de 2010 eu já tinha escrito uma espécie de “suma” de tantas coisas que tinha lido e discutido até aquele momento acerca do assunto. Já naquela época eu destacava a posição de Sandro Baggio, que se envolvera a fundo nas discussões e conhecia a literatura produzida no período sobre o tema.

Enquanto eu ainda morava e trabalhava em Nerópolis-GO (para onde fui após 25 anos em Uberlândia dos quais 15 na Igreja Metodista), a leitura de um livro (que Baggio comenta em um de seus posts) de Kevin DeYoung e Ted Kluck em 2010 encerrou um ciclo de debates e uma tomada de posição pessoal. O livro Why We Love the Church: In Praise of Institutions and Organized Religion ressoou com muito do que eu então percebia após os debates que tiveram na leitura de “Cristianismo Pagão”, de Frank Viola, um de seus momentos mais intensos.

Recordei muitas daquelas posições ventiladas à época nesse final de semana. Segundo uma dessas posições, a “instituição” é retratada como um problema para a vida das relações na igreja. (Essa discussão é semelhante aquela sobre religião x espiritualidade, que rendeu vivo debate reproduzido no blog Voltemos ao Evangelho).

Em uma série de postagens sobre o tema, Sandro Baggio tomou posição que representou um significativo contraponto à onda da juventude digitalmente incluída da época:

Nos comentários das postagens encontramos muitos interlocutores das discussões à época. Vale destacar o debate entre Baggio e Brabo nos comentários do primeiro post, porque representa bem os modos de pensar distintos que se firmaram ali. Digna de nota é a referência de Brabo a um texto de Elienai Cabral Júnior:

     “A instituição também incorpora uma dinâmica maligna. Na instituição somos tentados a substituir a presença pessoal e afetiva por ritos burocráticos.”

Sandro Baggio, contudo, afirma em suas postagens listadas acima:

“Não considero a instituição como, por natureza, inimiga mortal da igreja. (...)

Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.

Livrar-se de instituição é, de certa forma, desencarnar, deixar de viver, de se comunicar, de servir, de se relacionar, pois todas estas coisas, de alguma forma, estão cercadas por instituições. (...)

Minha sugestão sincera: não perca tempo lutando contra o fantasma da instituição. Ele é tão somente isto: um fantasma. Em vez disso, use seu tempo para amar e servir a Deus e ao próximo, em relacionamentos de compromisso e mutualidade numa comunidade de fé, amor e esperança centrada em Jesus.”

Em comentário ao segundo post, Ariovaldo Carlos Júnior, em 27 de julho de 2011, escreveu:

“Ótima reflexão. Afinal, a instituição deve SERVIR à Igreja de Cristo. O problema tem sido o radicalismo de alguns em considerar que, devido às inversões de prioridade deste “serviço”, tudo que é organizado é ruim. Como se tudo que fosse desorganizado fosse necessariamente melhor e duradouro.”

Em 2009 foram publicados no Brasil os livros "A Cabana" e "Por que você não quer mais ir à igreja?" pela Editora Sextante. Essas obras representavam o pensamento e sentimento de desconforto que se difundia entre a juventude que percebia sinais de necessidade de renovação das instituições eclesiásticas, mas não fornecia uma proposta construtiva ou reformadora, mas um sentimento revolucionário, quase iconoclasta.  No entanto, os jovens que atualmente estão preocupados com missão cristã, transformação e justiça parecem não ecoar esse discurso.

Desde 2009, nas discussões sobre igreja emergente, a posição assumida pelo novo calvinismo americano (neopuritanismo) me pareceu oferecer interessantes contrapontos a algumas posições do diálogo emergente da época. Já em 2010, John Piper, que no ano seguinte diria adeus ao ensino de Rob Bell, já profetizara que movimento emergente se desvaneceria:

        Isso é o que acontece quando se prioriza relacionamentos em detrimento da verdade. Quando a verdade é priorizada, os relacionamentos se tornam parte dela. Quando os relacionamentos são priorizados e a verdade é deixada de lado, então ela se perde. Como consequência, os relacionamentos se arruínam, e é a isso que me refiro quando digo que sua liderança está em ruínas.

Demorou muito, porém, para que eu superasse a resistência com o calvinismo e entender que há duas correntes distintas representadas atualmente por movimentos compreendidos sob os termos neopuritanismo (soberania de Deus na salvação) e neocalvinismo (soberania de Deus na criação).

Contudo, desde que conheci esse neocalvinismo (holandês), o qual descobri por meio do L’Abri (que visitei pela primeira vez em maio de 2011), venho me movendo até uma posição “católica reformada” que abraço hoje. É bom destacar que, segundo Guilherme de Carvalho,

       “L'Abri é uma síntese de calvinismo evangelicizado (Schaeffer) com neocalvinismo (Rookmaaker). E o ponto de conexão é a visão Bavickiana de Natureza e Graça (que era fundamental para Rookmaaker e também para Schaeffer, via Van Til).”

Conhecer esses pensadores e a expressão dessa tradição em instituições de ensino como o Calvin College me abriram para um vasto campo do que eu me referi como uma fé católica reformada, abraçado pelo professor James K. A. Smith, o qual me fora apresentado pelo teólogo e pedagogo Igor Miguel. Na minha peregrinação passei pela conversa emergente que enfatizava a necessidade de a igreja contextualizar-se frente aos desafios da pós-modernidade. Num ponto da caminhada cheguei ao livro de Smith, Who’s Afraid of Postmodernism, 2006: Baker Academic, em que ele sintetiza:

"Uma igreja verdadeiramente pós-moderna será profundamente histórica (recuperando sua antiga herança) e litúrgica (ativando a imaginação através do símbolo e do sacramento".

É interessante notar como essas trajetórias se cruzam num post de Igor Miguel, de maio de 2011, em que ele escreve:

“Sim, desde o livro de James K.A. Smith, Desiring the Kingdom, tenho procurado viver uma espiritualidade na comunidade, por isto, menos individualista, intimista e pietista. Eis o motivo de alguns textos aqui escritos sobre orações, a docilidade da vida comunitária e outras gotas de louvor e gratidão por tudo que tenho aprendido.

Mas, de verdade, o livro de Kevin DeYoung & Ted Kluck, intitulado "Por que amamos a Igreja", me surpreendeu por sua simplicidade e objetividade ao apresentar a possibilidade amarmos a Igreja Local novamente. Em dias em que todo mundo quer dar uma resposta à "crise evangélica", encontramos boas opiniões a respeito, mas também péssimas soluções.

Como eu disse, o tema "plantação de igreja" me “salvou” quando eu estava em “crise” sobre o assunto. O movimento anglicano norte-americano de plantação de igrejas me despertou para olhar para os temas “igreja e instituição”, teologia, arte e liturgia com outra perspectiva.

Em 2011, participando de um grupo jovem Dedo de Prosa com Deus eu percebia que precisávamos da transição de grupo para igreja, mas não reuníamos condições para fazer essa travessia à época. Em fevereiro de 2012 reencontrei parte do grupo do Love s.a.(em cujas reuniões de oração participei em 2010) comecei a participar em um pequeno grupo que nutria a visão de se tornar uma igreja em plantação.

Com esse histórico, revisitar a discussão sobre instituição me causa certa inquietação, pois sob uma perspectiva da cosmovisão reformada, adquire-se uma compreensão melhor daquilo que Sandro Baggio disse:

“Ao insistirmos no conceito de que para ser igreja de verdade precisamos nos livrar da instituição que a cerca, o que estamos dizendo é que a vida é algo que pode (e não só pode, mas deve) ser vivida fora do corpo. A instituição é a matéria má que sufoca o espírito (o livro que mata a borboleta) e, por isto, precisamos nos livrar dela. Esta idéia é tão velha quanto o gnosticismo com sua visão dualista e maniqueísta da vida. E não condiz com as realidades da vida.”

Albert Wolters, apresentado em seu importante livro “A Criação Restaurada” (Creation Regained), nos esclarece (p. 71, 77):

“O grande risco é sempre escolher algum aspecto ou fenômeno da boa criação de Deus e identifica-lo, em vez da intrusão da apostasia humana, como o vilão no drama da vida humana. (...) O resultado é que algo na boa criação é declarado mau. (...) Parece haver um traço gnóstico, enraizado no pensamento humano, que faz com que as pessoas culpem alguns aspectos da obra da mão de Deus por todas as aflições e desgraças do mundo em que vivem. (...)

Em resumo, vimos que a queda afeta toda a extensão da criação terrena; que o pecado é um parasito sobre a criação, e não parte dela; e que, à medida que afeta toda a terra, o pecado profana todas as coisas, tornando-as “mundanas”, “seculares”, “terrenas”. Consequentemente, cada área do mundo criado clama por redenção e pela vinda do reino de Deus”.

Em uma resenha de um livro de D. A. Carson, James K. A. Smith chama a atenção para a importância, na grande narrativa bíblica (criação, queda, redenção, consumação), do "Mandato Cultural" (Gn 1:27-29): o chamado criacional da humanidade para cultivar as possibilidades latentes dentro da criação através do contínuo trabalho cultural. O autor clama por uma teologia da cultura que mostra como o trabalho de "fazer humano" está enraizado na própria criação: "essa tarefa de elaboração humana é precisamente a forma como portamos a imagem de Deus no mundo (como "sub-criadores", nas palavras de Tolkien)."

O autor destaca que se "as instituições, sistemas e estruturas" estiverem ausentes de uma abordagem da criação, eles também não aparecerão no radar da queda e no da redenção. Já por uma perspectiva da escatologia, a "eternidade" nos aparece em muitas abordagens evangelicais como carente de instituições culturais – uma eternidade sem comércio ou política, arte ou atletismo. Para Smith, "tal visão achatada do nosso futuro redimido é o correlato de uma compreensão atrofiada da criação".

Na sequência do texto, o autor pergunta:

"Mas o que é o evangelho senão o chamado e convite de Deus para sermos restaurados e renovados como portadores apropriados da imagem de Deus -- que carregam sua imagem ao desdobrar o potencial da criação em cultura corretamente ordenada? Ser portadores da imagem de Deus é um chamado, uma vocação e uma tarefa, e não uma propriedade estática do ser humano. E Cristo, como o segundo Adão, mostrou-nos como se parece fazer isso: em um mundo caído e quebrado, a forma de tal vocação é cruciforme; ser agentes culturais do Deus crucificado não é um projeto de transformação triunfal, mas de testemunho sofredor."

O mandato cultural é, pois, uma tarefa humana que envolve a expressão da lei criacional na civilização humana. Como nos diz Albert Wolters (p. 55, 28):

"O governo da lei de Deus é imediato no domínio não-humano, mas tem um mediador na cultura e na sociedade. No domínio humano, homens e mulheres tornam-se co-trabalhadores com Deus; como criaturas feitas à imagem de Deus, eles também têm um tipo de senhorio sobre a terra, e são vice-regentes na criação" (...) "Somos chamados a participar na obra criacional de Deus que está em progresso, para sermos ajudadores de Deus na execução da sua obra-prima".

Assim, instituições culturais como escolas, empresas, igrejas, estados, assembleias legislativas, bibliotecas, fazem parte da criação, são totalmente afetadas pela queda e estão sob o alcance da redenção de Cristo que é Senhor sobre todos os centímetros da realidade criada. A tendência gnóstica se manifesta, na discussão que estamos enfocando, em suspeitar das instituições em si mesmas, especialmente quando estas são um aspecto da igreja. No editorial da edição fall 2013 da revista canadense Comment, entitulada "We Believe in Institutions", James K. A. Smith escreve:

Em uma era cínica que tende a glorificar 'start-ups' e celebrar a suspeita anti-institucional, a fé em instituições soará datada, indigesta, fora de moda, e mesmo (suspiro) "conservadora". Assim os cristãos que estão ansiosos por ser progressistas, hip, relevantes e criativos tendem a comprar tal anti-institucionalismo, assim espelhando e imitando tendências culturais mais amplas (o que, ironicamente, são frequentemente, parasitárias das instituições!).

        E, no entanto esses mesmos cristãos estão justamente preocupados com "o bem comum". Eles são recém convencidos de que o Evangelho tem implicações para toda a vida e que ser cristão deve significar algo para este mundo. Jesus chama-nos não só para garantir a nossa própria salvação em algum gueto religioso privatizado. Ele nos chama para buscar o bem-estar da cidade e de seus habitantes ao redor de nós. Nós amamos a Deus ao amar o próximo; glorificamos a Deus ao cuidar dos pobres; exibimos a bondade de Deus através da promoção do bem comum.

       Mas aqui está a coisa: se você está realmente apaixonado por promover o bem comum, então você deve resistir ao anti-institucionalismo. Por que as instituições são maneiras de amar nosso próximo. As instituições são estruturas concretas duráveis ​​que -- quando funcionando bem -- cultivam todo o potencial da criação em direção ao que Deus deseja: shalom, paz, bondade, justiça, florescimento, prazer. As instituições são a nossa forma de obter uma alça sobre realidades concretas e abordar diferentes aspectos da existência humana. As instituições, por vezes, são andaimes para apoiar os fracos; às vezes elas funcionam como cercas para proteger os mais vulneráveis​​; em outros casos, as instituições são o trampolim que nos permite buscar inovação. Mesmo que elas possam tornar-se corruptas e necessitarem de reforma, as próprias instituições não são o inimigo.

     Assim, acreditamos nas instituições porque nos opomos à injustiça. Mas fundamentalmente acreditamos nas instituições porque acreditamos nas Escrituras e na comissão cultural dada à humanidade no Jardim. Ser frutífero e multiplicar é começar -- e herdar -- a instituição da família. Cultivar a criação é encher a terra com a vida institucional que estava implorando para ser desfraldada em museus e escolas, nas legislaturas e bibliotecas, nas universidades e sindicatos. As instituições são maneiras comuns duráveis pelos quais podemos atuar em conjunto com nosso próximo para conseguir bens penúltimos. Então, ao invés de pensar as instituições como grandes, pesadonas, gigantes e estáticas, pense em instituições como encenações sociais dinâmicas. Tente imaginar "instituições" como esferas de ação. As instituições não são apenas algo que nós construímos; eles são algo que fazemos.”

Dallas Willard, falecido professor de filosofia que escrevia sobre formação e disciplinas espirituais, faz uma interessante aplicação da imagem de Paulo que: “temos esse tesouro em vasos de barro” (2 Co. 4.7). Aqui, o vaso de barro é o corruptível corpo do apóstolo e os eventos visíveis de sua vida terrestre. Para Willard, os mesmos princípios de "vaso" e "tesouro" se aplicam às congregações locais, às suas tradições e seus grupos de alto-nível chamados de "denominações". A identidade de grupos, congregações e denominações são definidas historicamente por contingências humanas que são muitas vezes confundidas com o tesouro da verdadeira presença de Cristo. Para evitar a “armadilha do vaso”, Willard recomenda o foco na Grande Comissão:

Certamente que não podemos evitar ter vasos. E devemos ser sensíveis a eles, pois isso faz parte do que é ser humano e finito. Até mesmo Jesus teve o seu vaso. Ele era um judeu e isso se tornou a primeira armadilha do vaso que as primeiras congregações de discípulos precisaram enfrentar. Atos e as cartas do Novo Testamento são um registro de como isso foi superado.

Podemos, portanto, evitar fazer do vaso o tesouro. E podemos identificar o tesouro sem fazer referência a qualquer vaso. No entanto, o tesouro sempre terá um vaso. O próprio Jesus nos mostrou o caminho, e a congregação local pode seguir esse caminho. [...]

Em poucas palavras, a congregação local que adotar os "princípios e as verdades absolutas" do Novo Testamento, com a natural consequência de se tornar e produzir filhos da luz, tem que apenas seguir as instruções finais de Jesus: "Ao saírem pelo mundo, façam aprendizes de para mim de todos os tipos de pessoas, imergindo-as na realidade Trinitária e ensinando-as a fazer todas as coisas que lhes ordenei" (Mt 28:19-20, paráfrase). As ordens foram acompanhadas de declarações categóricas sobre os muitos recursos para a tarefa: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "estarei com vocês a cada momento, até que o trabalho esteja concluído" (v. 18, 20, PAR).”

N. T. Wright, um dos maiores estudiosos contemporâneos do Novo Testamento, escreve em seu livro dedicado à ressurreição, escatologia e missão, Surpreendido pela Esperança, que a igreja deve remodelar a sua missão identificando-a com “viver o futuro”. Parte essencial desse futuro consiste na redimida criação: espaço, tempo e matéria. O autor explica sua tese (p. 273):

“A ordem criada, que Deus começou a redimir na ressurreição de Jesus, é um mundo no qual o céu e a terra foram planejados para estarem unidos, não separados. A partir dessa união, Deus irá aprimorar a declaração que fez no princípio, de que a criação é “muito boa”.

O eminente autor, bispo anglicano aposentado para se dedicar à docência, aborda o fenômeno do abandono das práticas tradicionais das igrejas pela juventude: templos, liturgias, orações formais e os sacramentos. Na visão de Wright, isso tem origem em um tipo de “protestantismo latente” na cultura cristã ocidental, na crença implícita de que “templos, liturgias e coisas assim são, por natureza, não-espirituais” (p. 272). Com base na “lógica da nova criação”, Tom Wright pergunta (p. 273): “O que acontece quando pensamos em espaço, tempo e matéria sendo renovados, em vez de abandonados, na vida da igreja?”

Quanto ao espaço, o autor afirma que é preciso urgentemente retomar uma “teologia do lugar” (presente na tradição celta), de “lugares finos” em que o véu que separa céu e terra se tornam quase transparente. A restauração futura do mundo inteiro por Deus é antecipada na restauração de lugares para adoração e oração; não um esconderijo do mundo, mas um posto avançado pelo qual se reivindica parte do espaço dado por Deus para a sua glória, antecipando o dia em que o mundo inteiro irá tremer diante dele. Para Wright, há um dualismo tolo na declaração de que templos antigos e coisas desse tipo são irrelevantes para a missão de Deus. O autor afirma um princípio norteador (p. 274): “Sim, reivindicações territoriais podem se tornar idólatras e abusivas [...] No entanto, a resposta ao abuso não está no dualismo, mas no uso apropriado".

No tocante à renovação e à reivindicação do tempo, o autor afirma que o tempo da igreja, a longa história da igreja cristã e a “tradição” acumulada durante esse período devem ser seriamente considerados em qualquer escatologia fundamentada na visão da igreja voltada para missão (p. 275):

“A história da igreja é a história de caminhos nos quais, a despeito da tolice, do fracasso e do pecado evidente, o futuro de Deus já começou naquele que, para nossos ancestrais, era o “tempo presente”, deixando-nos um legado que é parte do “passado”, e que está repleto não somente de erros e de estilos de vida culturalmente condicionados, mas também de padrões da nova criação que já estão, a partir do nosso ponto de vista, entrelaçados na história – pedaços do futuro de Deus, por assim, dizer que são agora pedaços do nosso passado. [...] Descartar a tradição apenas porque ela é “tradição” é render-se à pós-modernidade e a um tipo de ultraprotestantismo que arranca a raiz da árvore por acreditar que árvores devem sem completamente visíveis para que todos vejam seus frutos, e não enterradas em um solo sujo.”

Finalmente, quanto ao item matéria, adverte Wright (p. 276-277):

“Se não quisermos cair no platonismo, negando assim a excelência da criação, devemos retomar a ideia da encarnação e da ressurreição corpórea de Jesus, e a promessa de que a criação será renovada e ficará livre da morte e da corrupção. [...] É dentro dessa estrutura de pensamento que os sacramentos cristãos clássicos do batismo e da eucaristia ganham significado. [...] O abuso do sacramento não anula seu uso apropriado. [...] Se a igreja precisa ser renovada em sua missão no mundo e para o mundo de espaço, tempo e matéria, não podemos ignorá-lo o marginalizá-lo. Devemos, antes, reivindica-lo para o reino de Deus, para o senhorio de Jesus e no poder do Espírito, a fim de que possamos então ir e trabalhar pelo reino, anunciar o senhorio de Cristo e realizar mudanças por meio desse poder. Ninguém ensina alguém a cantar jogando fora seus instrumentos musicais. Portanto, a missão da igreja deve incluir, em nível estrutural, o reconhecimento de que nosso espaço, tempo e matéria presentes estão sujeitos à redenção, e não à rejeição. [...] A despeito da tendência observada na “igreja emergente”, de marginalizar espaço, tempo e matéria, eu continuo convencido de que o modo de seguir adiante à descobrindo a verdadeira escatologia, a verdadeira missão enraizada na antecipação dessa escatologia, e de formas de igreja que incorporam essa antecipação”.

Portanto, o cristianismo bíblico nos provê recursos para evitar a rejeição da estrutura de qualquer aspecto da criação de Deus ao discernimos os efeitos da Queda na direção distorcida que assumem para que cooperamos com o Deus Trino direcionando para Cristo todas as coisas. A redenção em Jesus é “o antídoto completo e decisivo para a distorção criacional”. Qualquer coisa na criação pode ser direcionada para a obediência a Cristo: “os seres humanos individuais, os fenômenos culturais como a tecnologia, a arte e o conhecimento, as instituições sociais como sindicatos, escolas e corporações e as funções humanas como a emoção, a sexualidade e a racionalidade” (Wolters, 69).

Na Carta XXIII de suas "Cartas a um Jovem Calvinista", James Smith recorre a Santo Agostinho para articular uma doutrina robusta da bondade da criação:

      "As 'coisas' não são pecaminosas, o que é pecaminosa é a forma como nos relacionamos com elas, o que fazemos com elas. E isso se resume a uma questão sobre o que nós amamos e como amamos. [...]

        Para Agostinho, o pecado é uma questão de "como" e não do "quê". O que precisa mudar, diz Agostinho, não são as coisas da criação, mas o nosso amor. Assim, Agostinho introduz uma distinção importante, especialmente no livro 1 da "Doutrina Cristã", o que Deus deseja e projeta para as suas criaturas é uma "ordem correta do amor", que significa simplesmente que fomos criados e chamados a ser criaturas cujo propósito é amar ao Deus Trino, e, assim, encontrarmos a nossa identidade e nos deliciarmos nessa ordem correta do amor. Para Agostinho, nós somos o que nós amamos. Na verdade, não podemos deixar de amar: mesmo caída, a humanidade pecadora ainda é impelida a amar; mas como pecadores, nós amamos as coisas erradas da forma errada. [...]

        As tentações do mundo, então, não são um reflexo do que há de errado com a criação, elas são um indicador de que há de errado conosco. O que está em questão aqui não é a criação em si, mas como nos relacionamos com a criação. [...]

     Mas pela graça de Deus a nossa inclinação para amar pode ser corretamente direcionada, corretamente dirigida ao próprio Deus. Pela graça de Deus o nosso amor pode encontrar o propósito para o qual foi criado: o próprio Deus. Quando o nosso amor é corretamente direcionado de forma que nos deleitemos em Deus, então vamos perceber que Deus nos dá a sua criação, para que possamos desfrutar Dele."

O aspecto institucional da igreja, portanto, não está fora da abrangência do senhorio de Cristo e deve ser submetido a constante reforma para que obedeça a direção apontada pela graça. A instituição não é sagrada nem secular, mas é “santificada” pela palavra de Deus e pela oração (1 Tm 4.5).