8 de junho de 2010

Graça e Obras

A "formação espiritual" não é apenas outro termo para "obras"? Sim, estamos falando de obras se, com isso, você quer saber se terá de fazer alguma coisa. Não é possível ser um "folgado" e, ao mesmo tempo, se dedicar à formação espiritual à semelhança de Cristo. É preciso envolver sua vida toda no discipulado a Jesus Cristo, se é isso o que você quer dizer com obras. No entanto, nada funciona tão bem quanto a fé verdadeira ou confiança em Deus.


Ao contrário do que se costuma dizer, grande parte de nossos problemas não se deve à dificuldade de transferirmos para o coração aquilo que sabemos com a mente. Muitos dos empecilhos são associados ao fato de princípios teológicos equivocados em nossa mente terem chegado ao coração. Esses conceitos errados controlam nossa dinâmica interior de tal modo que, mesmo com a ajuda da Palavra e do Espírito, a mente e o coração não conseguem corrigir um ao outro.

Permita-me dizer uma coisa: graça não é o oposto de esforço, mas sim, de mérito. O mérito é uma atitude. O esforço é uma ação. A graça não diz respeito apenas ao perdão dos pecados. Muitas pessoas não sabem disso, e esse é um dos principais resultados da prática atual de resumir o evangelho a uma teoria da justificação. Já ouvi evangélicos proeminentes dizerem que a graça é relacionada exclusivamente ao pecado. Hoje em dia, muitas pessoas entendem a justificação como o único resultado essencial do evangelho, e o evangelho que pregam — e que pode ser ouvido repetidamente da boca de grandes figuras da fé evangélica — é de que nossos pecados podem ser perdoados. E é só!

Contrastando com isso, tomo a liberdade de afirmar que a mensagem do Novo Testamento como um todo é de que você pode ter vida nova hoje no reino de Deus se confiar em Jesus Cristo. Não apenas em algo que ele fez ou disse, mas em toda a pessoa de Cristo em tudo o que ele abrange — ou seja, absolutamente tudo. "Pois há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Cristo Jesus" (1Tm 2:5). Para viver dentro da graça consumidora, basta ter uma vida santa. O verdadeiro santo consome graça como um 747 queima combustível na decolagem. Torne-se o tipo de pessoa que pratica rotineiramente aquilo que Jesus fez e disse. Você consumirá muito mais graça levando uma vida santa do que pecando, pois todo ato santo que você realizar terá de ser sustentado pela graça de Deus. E esse sustento é o favor totalmente imerecido de Deus em ação. É a vida de regeneração e ressurreição — e justificação, que é absolutamente vital, pois nossos pecados precisam ser perdoados. Mas a justificação não é algo separável da regeneração. E a regeneração se desenvolve de modo natural em santificação e glorificação.

No entanto, se você pregar um evangelho que só diz respeito ao perdão dos pecados, ficará como estamos hoje: empacado numa posição em que a fé está aqui e a obediência e abundância estão lá do outro lado, e não há meio de ir daqui para lá, pois a ponte necessária é o discipulado. Se existe uma coisa que devemos saber a esta altura é que o evangelho da justificação, de per si, não gera discípulos. O discipulado é uma vida de aprendizagem com Jesus Cristo sobre como viver no reino de Deus hoje, como ele próprio viveu. Se você deseja ser uma pessoa repleta de graça, então viva a vida santa do discipulado, pois só será capaz de fazer isso se for sustentado constantemente pela graça. As obras do reino vivem da graça.


Dallas Willard, A Grande Omissão