29 de dezembro de 2010

Eustáquio e a Morte do Dragão Orgulho

No livro de C. S. Lewis para crianças A Viagem do Peregrino da Alvorada, um dos personagens principais é um tirano aprendiz, um garoto chamado Eustáquio Mísero. Sua evidente ambição de poder se expressava das formas mais maldosas e mesquinhas para um garoto de escola: provocando colegas, torturando animais, fazendo fofocas e buscando a simpatia de autoridades adultas. 

Certa noite, Eustáquio encontrou uma enorme pilha de tesouros em uma caverna. Ficou exultante e começou a imaginar a vida de conforto e poder que agora teria. Quando acordou, porém, para seu horror, havia se transformado em um horrendo dragão. "Ao dormir sobre o tesouro do dragão com pensamentos ambiciosos e dragonescos no coração, virou um dragão".¹

Tornar-se um dragão foi uma "consequência cósmica natural". Porque pensava como um dragão, ele se tornou um. Quando colocamos nosso coração no poder, tornamo-nos predadores insensíveis. Transformamo-nos no que idolatramos.

Eustáquio era agora um ser muito poderoso, muito mais do que jamais sonhara, mas também era temível, medonho e completamente só. É claro que isso é o que o poder faz conosco quando buscado como um fim em si. O choque da transformação humilhou Eustáquio e ele desejou ser um garoto normal novamente. Quando o orgulho se esvaiu, a idolatria do seu coração começou a ser curada.

Certa noite, o dragão Eustáquio encontrou um leão misterioso. O leão o desafiou a se "despir", a tentar tirar sua pele de dragão. Ele conseguia descascar uma camada, mas descobriu que ainda havia um dragão por baixo dela. Tentou fazer isso várias vezes, mas não obteve progresso algum. O leão finalmente disse:

"Você terá de me deixar despi-lo." Eu tinha medo das garras dele, posso lhe dizer, mas estava à beira do desespero. Então me deitei no chão para deixá-lo fazer isso. O primeiro rasgo que ele fez foi tão profundo que pensei ter atingido meu coração. E, quando ele começou a puxar a pele, doía mais do que qualquer coisa que eu já houvesse sentido. [...] Bem, ele retirou toda a casca animalesca --- da mesma forma que eu julgava já ter feito por três vezes, com a diferença de que não havia doído --- e lá estava ela na grama: mas muito mais espessa, escura e empelotada que das outras vezes. E lá estava eu, macio e suave como um pêssego, e menor que antes. [...] Eu era um menino novamente.²

O leão do conto de fadas, Aslam, representa Cristo, e a história dá testemunho do que todos os cristãos descobriram: que o orgulho leva à morte, ao colapso, à perda da humanidade. Mas se você deixa que isso o humilhe em vez de amargurá-lo e se volta para Deus em vez de viver para sua própria glória, então a morte de seu orgulho pode levar à ressurreição. Você pode emergir, enfim, completamente humano, com um coração terno em vez de um coração duro.

Timothy Keller, Deuses Falsos, pp. 113-114 (Rio de Janeiro, Thomas Nelsom Brasil, 2010) 

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1. C. S. Lewis, As Crônicas de Nárnia: A viagem do peregrino da alvorada (São Paulo, Martins Fontes, 2003.



2. Lewis, idem.





O comentário de Tim Keller em sua análise dos ídolos do poder e da glória demonstra que a belíssima cena que aparece na adaptação que chegou nesse mês nas telas do cinema nem consegue captar toda a profundidade do que encontramos nos livros. 

O site da Christianity Today esteve presente num evento em fevereiro que contou com a participação da equipe de produção do filme e 100 líderes, onde eles mostraram vídeos de Peregrino da Alvorada e falaram sobre todo o roteiro e publicou um extenso relato sobre o que viu. Segundo a matéria "Kathy Keller, esposa do pastor sênior da Igreja Presbiteriana do Redentor, Tim, sem dúvidas tem laços pessoais com Nárnia: ela se correspondeu com Lewis quando adolescente (quatro das respostas dele estão no livro C. S. Lewis’ Letters to Children), tornou-se cristã apenas como resultado da leitura de Lewis, escreveu sua tese da faculdade com o tema “C. S. Lewis’ Mythopoetic Understanding of Literature” [em tradução livre "Mitopoética compreensão da literatura de C.S. Lewis"], e hoje agradece ao autor “como meu mentor pessoal, meu padrão de comparação para uma escrita clara e eficaz, e minha posse privada”.