2 de março de 2012

Eucaristia Além do Tempo

N. T. Wright


Entre um ritual pretensamente mágico de um lado, e um simples memorial de outro, uma visão mais bem fundamentada historicamente nos faz recordar como as refeições sagradas judaicas (principalmente a Páscoa, que deu origem à eucaristia) cumpriam sua função. Mesmo quando Jesus celebrou a Páscoa, os discípulos não imaginavam que estavam fazendo algo diferente da celebração original. Durante a celebração da Páscoa, os judeus costumavam dizer: "Esta é a noite em que o Senhor nos tirou do Egito", o que torna as pessoas sentadas ao redor da mesa não apenas herdeiros distantes da geração do deserto, mas também parte do mesmo povo. Tempo e espaço se unem. No mundo dos sacramentos, passado e presente são uma só coisa. Juntos, eles apontam para a libertação, que acontecerá no futuro.


Na eucaristia, essa dimensão futura é trazida diretamente até nós, por meio da morte e da ressurreição de Jesus Cristo. Partimos o pão para compartilhar o corpo de Cristo; fazemos iso em memória dele e assim nos tornamos, por um momento, como os discípulos assentados ao redor da mesa da última ceia. No entanto, se pararmos aqui, estaremos dizendo apenas a metade sobre a eucaristia. Para compreendermos melhor o seu significado, devemos considerá-la em termos da chegada do futuro de Deus no presente, e não apenas como o prolongamento do passado de Deus (ou do passado de Jesus) em nosso presente. Não estamos simplesmente relembrando a morte de Jesus, ocorrida há muito tempo, mas celebrando a presença do Senhor vivo. Ele vive, por meio da ressurreição, precisamente como aquele que vai à frente na nova criação, no novo mundo transformado, como aquele que é, em si mesmo, o seu protótipo. O Jesus que se entregou a nós como comida e bebida é também o início do novo mundo de Deus. Na comunhão, somos como os filhos de Israel no deserto, provando o fruto colhido da terra prometida. É o futuro vindo nos encontrar no presente.
 (...)


O Novo Testamento oferece uma explicação muito melhor sobre a nova criação. Romanos 8 é um bom ponto de partida: vemos ali que a criação está gemendo, com dores de parto, enquanto espera pela redenção. No entanto, uma parte da velha criação já foi transformada e está liberta do jugo da deterioração: o corpo de Cristo, o corpo que morreu na cruz e que agora está vivo, com um tipo de vida que a morte não pode jamais alcançar. Jesus nos precedeu na nova criação de Deus e, quando olhamos para trás, para sua morte, através das lentes que ele mesmo forneceu - ou seja, a refeição que ele partilhou na noite em que foi traído -, descobrimos que ele vem até nós por meio dos símbolos, o pão e o vinho, que são retirados da história de Cristo e se tornam vasos que transportam o novo mundo de Deus e os eventos salvadores que nos capacitam a compartilhá-lo.


Dentro desse contexto, do entendimento da criação e da nova criação a partir da verdadeira Páscoa, podemos entender melhor a Eucaristia como a antecipação do banquete que será oferecido quando forem criados o novo céu e nova terra, a saber, as bodas do Cordeiro (...) O futuro de Deus está começando, o advento futuro está vindo ao nosso encontro. Toda eucaristia é um pequeno Natal e uma pequena Páscoa. 


Isso não é mágica. A mágica tenta convencer pela astúcia, visando poder ou prazer pessoal, mas Deus nos concede pela graça, por meio da fé para promover santidade e amor. A ressurreição de Jesus e a promessa de um novo mundo fornecem a estrutura ontológica, epistemológica e, acima de tudo, escatológica, dentro da qual podemos entender a eucaristia de uma nova maneira. Não devemos nos privar da esperança que vem do futuro de Deus para nos sustentar no presente. O novo mundo de Deus está começando. Se não conseguimos enxergar isso, estamos negando o poder eficaz da vida cristã.




Surpreendido pela Esperança, 288-290


foto: Literatura Teológica