18 de março de 2013

A Virtude da Castidade

N. T. Wright

Além dessas [virtudes da humildade e da paciência] há a castidade. Muitos se surpreendem ao descobrir que os cristãos antigos (assim como os judeus) eram considerados ultrapassados com relação à cultura nessa área. Praticamente todo mundo na antiguidade assumia que as pessoas, para dizer de forma direta, deveriam ter o máximo de sexo possível. Casamento (entre um homem e uma mulher) era uma coisa, e muitos nem sequer queriam ser fiéis ou, por algum motivo, temiam a traição. O principal problema com o adultério, contudo, não era moral: era o cônjuge enciumado. Ligações sexuais fora do casamento eram comuns e aceitas. Os abortos eram procurados com frequência e os filhos indesejados eram abandonados para os animais selvagens comerem. Os problemas que restavam eram resolvidos com facilidade, sendo que a principal dificuldade era a da família tentando encontrar um marido para uma filha com um “passado”. Houve tabus diversos, em vários tempos e lugares. Em Atenas, por exemplo, havia uma escalada detalhada do que era aceitável quando um homem tinha relacionamento homossexual com outro mais jovem. Todavia ninguém considerava o homossexualismo, inclusive parcerias matrimoniais por toda a vida, como estranho, nem repreensível. Platão chegou a celebrar essas parcerias como a forma mais elevada de amor (em Simpósio). Ninguém se preocupava com outras práticas sexuais bem diferentes, como a relação com animais. Muitas dessas coisas aconteciam nos templos pagãos e em volta deles, mas não eram limitadas a eles.



Os primeiros cristãos compartilhavam a visão dos judeus, da antiguidade e atuais, de que esse comportamento era tenebroso, desumanizador e distorcia a essência do significado da vida humana. Acreditavam que o sexo foi concedido para prazer mútuo, entre marido e esposa, voltado para o exterior (para o exterior porque, como o amor de Deus, gera nova criação, tanto em filhos quanto na criação de um lar caloroso, seguro e hospitaleiro). Esse, e não um preconceito arbitrário ou uma repressão pelo medo, foi o motivo de rejeitarem o costume generalizado em seu mundo. Eles acreditavam terem sido chamados para lançar nessas trevas a luz de uma forma diferente de viver.



O contraste marcante entre a crença e o comportamento deles e o ambiente que os cercava nos leva de volta a Jesus, que alertou, em passagem que já vimos, contra o comportamento impuro que emerge de forma espontânea do fundo da personalidade humana. Os termos com que ele se expressa, fazendo eco e endossando proibições importantes do Antigo Testamento, deixando claro que, a despeito de impressões contrárias no meio do povo, ele endossava com firmeza a proibição judaica ancestral quanto a relacionamento sexual de qualquer tipo fora do casamento por toda a vida entre um homem e uma mulher. Todo o Novo Testamento mostra que o motivo da vida cristã é refazer os seres humanos à imagem de Deus; quando seguimos a ideia até sua raiz, fica claro que o par que carregava a imagem era macho e fêmea, chamados para deixar os outros e se apegarem um ao outro. Não é à toa que teólogos de todos os tempos veem essa união humana como sinal do compromisso inabalável do Deus criador com sua criação. Não é surpresa que quando céu e terra finalmente se unem, no fim do livro de Apocalipse, a imagem usada é a do casamento. Esse é o telos, o alvo de toda a nossa existência. A virtude agarra o alvo pela fé e apreende as lições para viver no presente antecipando genuinamente o futuro, com fidelidade no casamento e abstinência fora dele.



A cultura ocidental, composta em grande parte por nações pelo menos nominalmente cristãs, foi em parte colonizada com a visão cristã sobre casamento e sexualidade -- mas a maioria, não. Tentativas de forçar a abstinência vêm e vão, sendo substituídas, também de forma intermitente, por indulgência quase que forçada (pense no século 17, com a restauração que sucedeu os puritanos; ou a rebeldia contra os padrões considerados “vitorianos” após a Primeira Guerra Mundial, embora a história mostre que durante grande parte do século 19 a vida sexual na Europa era tão sem restrições quanto em qualquer outra época). Os que tomam os ensinos de Freud de forma superficial entendem que o sexo está por trás de tudo e, assim, somos incapazes de resistir. Nem devemos tentar. O Darwinismo popular insiste que o que importa é a força vital que nos induz a propagar nossa espécie, então é melhor aceitar. As duas correntes criaram a atmosfera em que, na mente popular, qualquer convite sério a se restringir a forma ou as circunstência da expressão sexual encontra não discussão séria, mas apenas desprezo. Um correspondente de um jornal popular outro dia exclamou: “Ah! Toda essa conversa sobre abstinência vem de uns lunáticos de direita, mal orientados. Logo a biologia vai se manifestar e eles vão agir como todo mundo”. Em outras palavras: a biologia reina, temos impulsos que somos incapazes de controlar, e resistir vai contra a saúde e a natureza. Múltiplas parcerias sexuais -- e, agora, até vários relacionamentos quase contratuais (poliamor, com três ou mais pessoas em um acordo de relacionamento multidirecional de sexo) -- começam a ser comportamentos aceitáveis. Contracepção fácil e aborto abriram as comportas para uma nova rodada de licença sexual nas últimas décadas -- licença que nem a crise da aids conseguiu revogar.



Os cristãos, porém, sempre afirmaram que o autocontrole é uma das variedades de fruto do Espírito. Sim, é difícil. Sim, é necessário se dedicar para descobrir por que é mais difícil resistir a determinadas tentações, em certos momentos e lugares. O motivo é que a castidade é virtude: não é, primeiro e acima de tudo, uma regra que se decide seguir ou quebrar (embora certas regras sejam bem claras nas Escrituras); com certeza não é algo que se calcula segundo um princípio, como “a maior felicidade possível para o maior número de pessoas” (até porque a esmagadora felicidade de curto prazo da maioria dos relacionamentos sexuais influenciaria artificialmente o resultado); e, em paticular, como Jesus mesmo indicou, não surgirá se seguirmos o curso do que vem naturalmente. É aí que os celibatários, como Jesus e muitos outros heróis e heroínas desconhecidos em comunidades monásticas e muitos lugares menos óbvios, descobriram a alegria de uma “segunda natureza” de autocontrole que grande parte de nossa cultura, como a maioria do mundo antigo, jamais chegou a imaginar. No lado inverso, como sabem os que fazem atendimento pastoral nas famílias e encontram pessoas que seguem os hábitos da sociedade, as mágoas e feridas causadas por esses hábitos são profundas, demoram a sarar e prejudicam a vida. Muitos dizem que a Igreja é estraga-prazeres, por protestar contra a liberdade sexual. No entanto, o verdadeiro fim da alegria vem com a busca exclusiva do prazer. Como no uso dos cartões de crédito, a etiqueta do preço fica escondida a princípio, mas os débitos físicos e emocionais causados demandam um longo tempo para serem sanados.



Aqui, paciência e humildade, até então à margem, voltam ao jogo. O impulso frenético pela intimidade sexual é parte do desejo de se expressar, de se desenvolver, de mostrar quem se é e como pretende se comportar. “Não”, diz a humildade, “não é esse o caminha para descobrir seu verdadeiro eu. Você o descobre ao abrir mão de você mesmo”. “Exatamente”, concorda a paciência, “satisfazer-se por impulso é menosprezar você mesmo e todas as outras pessoas”. As virtudes se relacionam. Se quiser uma delas, você tem de desenvolver todas.



O mesmo vale, claro, para a caridade, que, como notamos, Paulo descreve como a virtude que se deve colocar sobre e em volta de todas as outras, como um cinto que mantém todo o resto no lugar certo (Cl 3.13). Amor (a palavra que normalmente usamos, embora seja imprecisa, pois o significado de “caridade” encolheu) é o que capacita a paciência, a humildade e a castidade a permanecerem no devido lugar, porque o amor respeita o outro e deseja o melhor para ele. Por sua vez, o amor é sustentado, conforme afirma Paulo em sua famosa passagem, pela fé e pela esperança, tudo junto olhando para Deus, o criador e recriador, e para as promessas dele, asseguradas em Jesus Cristo.





Fonte:  Eu Creio, e Agora, p. 246-250

Autor de Eu Creio, e Agora,  Surpreendido pela EsperançaSimplesmente Cristão e O Mal e a Justiça de Deus, Os Desafios de Jesus, O Caminho do Peregrino, Seguindo Jesus, Judas e o Evangelho de Jesus,  Paulo: Novas PespectivasN.T. Wright é um dos mais conhecidos e respeitados estudiosos do Novo Testamento da atualidade. Foi Bispo anglicano de Durham, na Inglaterra, professor das universidades de Cambridge e Oxford por vinte anos e é professor visitante de universidades como Harvard Divinity School, nos Estados Unidos, Universidade Hebraica de Jerusalém e Universidade Gregoriana em Roma, entre outras. É autor de mais de quarenta livros e articulista de jornais como The Times, The Independent e The Guardian.