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1 de julho de 2014

Podemos esperar por um diálogo neocalvinista-neopuritano?

Revista Comment - December 1, 2008 - Ray Pennings

Forjando uma teologia pública relevante para os nossos tempos.


Parte de mim se sente boba propondo uma conversa entre "neocalvinistas" e "neopuritanos". Poucas pessoas se identificam usando um desses rótulos teológicos, e no contexto do evangelicalismo norte-americano mais amplo, as duas ênfases doutrinárias são reunidas em um únic sub-agrupamento calvinista. Para alguns em nosso tempo de falta de ênfase doutrinária, até mesmo o rótulo calvinista é visto como relevante principalmente para os seminaristas que precisam para passar nos exames, simultaneamente se perguntando: é certo gastar tanto dinheiro em um curso de estudo tão irrelevante para o meu o desejo de ministrar às pessoas na igreja?

No entanto, as questões relacionadas com essas ênfases doutrinárias não são apenas relevantes para o ministério, mas também para a vida cultural, e uma compreensão de cada uma e as maneiras que podem trabalhar em conjunto é importante. Embora possa haver características intramurais do debate neocalvinista-neopuritano que são de interesse para as pessoas de determinadas convicções teológicas, o cerne da questão trata de uma problema mais vasto que enfrentam todos aqueles que se esforçam para entender o que significa responder a seu chamado como cristãos em nossa cultura comum. Aqueles que procuram enraizar sua obediência em uma compreensão da Bíblia e do mundo que cava um pouco mais do que alguns brometos éticos ou convenientes textos-prova exigem uma teologia pública relevante para os nossos tempos.

No coração de uma proposta de conversa entre neocalvinistas e neopuritanos repousa questões de interseção. Como a fé pessoal coincide com a ação corporativa? Pode haver tensões entre o amor por Deus e meu amor ao próximo? Como praticamente se permanece "no mundo" sem ser "do mundo"?

Neopuritanismo e Neocalvinismo: Estabelecimento dos termos

Eu uso o termo "neopuritano" como um rótulo abrangente para capturar o recente ressurgimento de uma teologia e vida da igreja calvinista do tipo documentado no livro de Collin Hansen recente, Young, Restless and Reformed (Crossway: 2008). Hansen caracteriza esse fenômeno como uma redescoberta das doutrinas da soberania de Deus em particular, bem como uma redescoberta da literatura puritana em geral. Isto traz consigo "uma visão ampliada da autoridade de Deus mudando o modo como (os adeptos vêm) o evangelismo, a adoração e os relacionamentos."

O movimento neopuritano tem um impulso diferente do que aquele do neocalvinismo, que é um outro movimento testemunhando um ressurgimento em nosso tempo. Muitos neocalvinistas considerariam o movimento neopuritano como um pouco "igrejeiro" (churchy). Neocalvinistas enfatizam a vida para além da igreja. Seu Calvinismo tem uma abrangência "mudar o mundo". Ele concentra-se em todas as esferas da sociedade e coloca a restauração da criação claramente à vista. Ou, para citar o slogan líder cultural holandês do século 19 Abraham Kuyper (que tem sido usado como uma quase definição de credo resumido das neocalvinismo): "Não há um centímetro quadrado em todo o domínio da existência humana sobre o qual Cristo, que é soberano sobre tudo, não clame: 'Meu!"

Distinguir os dois movimentos ao caracterizar o neopuritanismo por seu foco sobre a soberania de Deus na salvação, e neocalvinismo pela soberania de Deus sobre a criação, contém um elemento de verdade, mas não faz justiça a nenhum dos dois movimentos. Esta divisão implica que neocalvinistas não se preocupam com a piedade pessoal, enquanto neopuritanos são indiferentes quanto à implicação do evangelho para a sociedade e suas estruturas. Farta evidência pode ser compilada para refutar convincentemente ambas as acusações. Ainda assim, enquanto ambos os movimentos afirmam verdades e apelam ás mesmas fontes em relação à aplicação de toda a gama de dados bíblicos no contexto contemporâneo, o neopuritanismo é inclinado mais para a piedade individual e avivamento da igreja, e o neocalvinismo é inclinado mais para o ativismo corporativo e a renovação cultural.

A típica conversa entre os dois campos é corre mais ou menos assim. Os neocalvinistas criticam os neopuritanos por um impulso em direção a retirada da cultura comum para o "gueto" de uma subcultura cristã ou o enclave da igreja, como um resultado do que neocalvinistas chamam de "pietismo". Os neopuritanos admitem possíveis deficiências em expressar plenamente a sua vocação bíblica de expressar a soberania de Deus no todo da vida, mas advertem que a experiência histórica mostra que essas atividades muitas vezes trazem conseqüências negativas indesejadas. Os exemplos históricos que os neopuritanos citam concentram-se na desvalorização da igreja institucional e de seus ministérios; um triunfalismo sem caridade às vezes sombreando a utopia; e a combinação de uma teologia voltada para a transformação cultural com uma ênfase menos do que a adequada sobre a santidade pessoal e o relacionamento pessoal com o Senhor.

Então, nós temos duas correntes que fluem de uma única fonte, mas em direções muito diferentes. Alguns minimizam essa diferença como uma questão de ênfase. Outros implicitamente elevam a sua corrente como uma forma mais "pura" de obediência. Meu ponto aqui é que ambos os movimentos têm algo a aprender ao considerar suas próprias correntes em relação à outra, pois dentro desta conversa estão as sementes de alguns aspectos essenciais do ensino bíblico que muitas vezes são esquecidos. Nosso tempo pede uma teologia pública bem-arredondada, a existência da qual parece em falta no mundo mais amplo da América do Norte protestante. Essa conversa expõe algumas questões importantes a serem consideradas.

Quatro Insights Neocalvinistas

O neocalvinism se organiza, para usar o argumento central de Albert Wolters em A Criação Restaurada, "em torno da visão central de que "a graça restaura a natureza" -isto é, a redenção em Jesus Cristo significa a restauração de uma boa criação original ".

Há quatro insights particulares que surgiram dentro do neocalvinismo que eu encontrei particularmente úteis e práticos na triagem das questões que me confrontaram em mais de duas décadas de ativismo na vida pública. Trata-se de ordem da criação, antítese, graça comum, e esfera de soberania.

O termo comumente usado "mandato cultural" (referindo-se a ordem de Deus para a humanidade, mencionado em Gênesis 1:28 e 2:15, para governar e cuidar do restante da criação) não pode ser adequadamente compreendido sem referência à ordem criacional. Entre os sinais vitais relevantes para o testemunho público cristão, hoje, está o sentido de "potencial" que existe na criação. Quando Deus criou o mundo, sua criação era boa ou completa. Isso significa que toda a tecnologia, cultura e progresso que foi descoberto e desenvolvido pelo homem desde o Éden é para ser entendido como algo englobado na boa criação de Deus. Quando uma nova descoberta científica é feita pelo homem devemos entender isso como parte da criação de Deus, que ele permitiu que o homem, como portador de sua imagem, descobrir e desenvolver.

A noção de ordem está ligada ao conceito de que a criação é preenchida com potencial. Embora existam distinções importantes a serem feitas entre "ordem da criação" e o conceito católico romano de "lei natural", os dois partilham muitos aspectos que se sobrepõem, e esses conceitos funcionam de forma semelhante no desenvolvimento da estrutura para a compreensão cristã do mundo e da sociedade.

O conceito de antítese é a ideia de que o pecado atravessa o coração humano, e, portanto, não se limita a condenar determinadas atividades culturais. Isso não ignora o fato de que algumas atividades podem ser espiritualmente prejudiciais, mas ele reconhece que o conceito de pecado não deve tornar-se um conceito de legalismo, onde determinadas atividades são condenados de forma grosseira, enquanto a abstenção dessas atividades de alguma forma constituem retidão. O pecado tem duas dimensões, e ambos devem ser considerados: a dimensão humana do pecado, bem como os efeitos do pecado sobre o mundo não-humano. O "gemido da criação" em Romanos 8 destaca o alcance do pecado e suas conseqüências: mesmo o solo e sua vegetação são impactados pela desobediência do homem caído. Toda atividade em que os seres humanos se envolver é afetada pela queda; o pecado é pessoal, mas também se manifesta nas diversas organizações da sociedade, incluindo aquelas que se nomeiam cristãs. Assim como uma apreciação do mandato cultural amplia a nossa visão da criação e de como Deus é glorificado por meio dela, a antítese amplia nossa compreensão da queda como algo mais do que apenas afetando a culpa pessoal diante de Deus; é uma corrupção de todos os aspectos da sua boa criação.

A graça comum é uma terceira característica do neocalvinismo que fornece informações valiosas para a vocação cristã na cultura contemporânea. Embora este conceito também tem sido alvo de alguma controvérsia, ele fornece insights importantes para a atividade social cristã. Há duas consequências da compreensão neocalvinista da graça comum que são importantes. A primeira é que a bondade da criação, particularmente quando é administrada de uma forma que está de acordo geral com os mandamentos de Deus, proporciona benefícios para os crentes e não crentes. Assim como a chuva cai sobre os justos e os injustos (Mateus 5:45), desse modo os benefícios da criação de Deus fluem para todos os homens. Em segundo lugar, não são apenas as ações dos fiéis que contribuem para estes benefícios. Porque todos os homens são feitos à imagem de Deus, os incrédulos podem ter idéias verdadeiras e realizar obras benéficas. Ainda que não sejam de um benefício salvífico (os incrédulos não podem experimentar a verdadeira shalom fora de um relacionamento com Deus, veja o Catecismo de Heidelberg, Perguntas 62 e 91), eles não deixam de ser proveitosos e podem ser usado por Deus para beneficiar o mundo inteiro, inclusive os crentes . Às vezes, Deus, na sua providência, organiza as coisas de modo que os incrédulos têm um papel importante a desempenhar, como foi o caso com Ciro e os israelitas. Esses insights, combinados com as implicações "do tipo lei natural" da ordem da criação, criam uma estrutura para uma compreensão bíblica da atividade cultural que percorre um longo caminho para a triagem através de questões tais como a extensão em que os cristãos podem trabalhar em projetos conjuntos com os infiéis , o lugar da tecnologia e pesquisa, e nossa abordagem da história e do progresso. Também nos ajuda a começar a enfrentar os desafios do pluralismo social.

A quarta característica do neocalvinismo que tem relevância significativa é o conceito de esfera de soberania. Essa é essencialmente a percepção de que há uma diferenciação dentro da criação em "diferentes esferas que possuem sua própria natureza única", e que essas naturezas são normativas. Nicholas Wolterstorff o diz muito bem: "Da mesma forma que podemos considerar o que constitui o leão bem formado, assim, de forma semelhante, podemos considerar o que constitui o estado bem-formado, a escola bem formada, a família bem formada e assim por diante. Em suma, há normas permanentes para o Estado, para a escola, e para todas as outras estruturas sociais categoricamente distintas." (Until Justice and Peace Embrace, 1983, página 58)

Em contraste com as perspectivas sociais e políticas do individualismo moderno e do estatismo, ambas enraizadas numa concepção iluminista/Revolução Francesa de direitos individuais e de contrato social, uma visão bíblica da sociedade vai além do indivíduo e do Estado. Discurso político norte-americano contemporânea pode ser considerada como o giro de uma única moeda de duas faces. De um lado, temos os direitos individuais e os mercados livres, enquanto do outro lado, nós temos o poder do Estado como um engenheiro social. Seja qual for o lado que a moeda repousa, o discurso político procede de uma autonomamente humana visão de autoridade. Estruturas sociais intermediárias, como as famílias, igrejas, empresas e escolas têm apenas status secundário ou derivado. A maior parte do ativismo cristão, tanto á esquerda como à direita, se aproxima da vida pública ao aceitar essa estrutura.

A esfera de soberania, por outro lado, oferece uma estrutura alternativa para a compreensão da sociedade. Ela fornece uma base teórica que melhor reconhece a realidade da arquitetura social que os norte-americanos tomam por certo e melhor capacita os cristãos para o engajamento em questões importantes do dia.

Dois Insights Neopuritanos

É evidente a partir do exposto que o neocalvinismo fornece insights importantes que são relevantes para os nossos tempos e ajudam muito no desenvolvimento de uma teologia pública que é profundamente bíblica. Ao lamentar O Escândalo da Mentalidade Evangélica em 1994, Mark Noll salienta a contribuição dos neocalvinistas como um "tônica -- ousada ao confessar a fé cristã histórica, especialista no exercício da argumentação filosófica sofisticada, e de longo alcance na proposição de novas teorias" É também um movimento diverso que está sofrendo reavaliação auto-crítica. Então, se o neocalvinismo tem todas essas ideias e respostas, por que é ainda relativamente desconhecido na conversa norte-americana mais ampla?

Não há uma resposta fácil ou simples. Muitas das explicações históricas estão embaraçadas por polêmicas interdenominacionais reformadas, e seria muito limitado nos concentrar nas raízes históricas idiosincraticamente holandeses deste debate. Em vez disso, deixe-me destacar duas características do neopuritanismo norte-americana que poderiam parcialmente explicar o que se encontra deficiente em grande parte dos escritos neocalvinistas, usando-o como um trampolim para propor uma agenda para uma possível conversa entre os dois movimentos.

O primeiro tema neopuritano é uma visão muito alta da igreja como instituição. Reconhecendo que algumas das "explosões de energia" para o ressurgimento do neopuritanismo vieram de movimentos paraeclesiásticos (por exemplo, conferências como o evento Passion anual, ou ministérios de recursos como Desiring God de John Piper ou Ligonier Ministries de R. C. Sproul), no entanto, a pulsação do neopuritanismo é uma visão elevada do culto e da igreja local. A linha de abertura do Catecismo de Westminster -- "O fim principal do homem é glorificar a Deus e gozá-lo para sempre", serve como o slogan unificador, e há uma ênfase na experiência pessoal e na adoração corporativa que anima a vida espiritual. Culto semanal em que a exposição e o ensino bíblico são centrais caracteriza este movimento diverso, assim como a forma de adoração que é muito variável. Um culto liderado por C. J. Mahaney na Covenant Life Church vai parecer quase Pentecostal em comparação com a pregação mais tradicional da Palavra e serviço de música, com coro e orquestra, na Grace Community Church liderada por John MacArthur, que contrasta novamente com o culto com cantos dos salmos conduzidos pelo ministro que se poderia encontrar na Heritage Reformed Service, no qual Joel Beeke pode estar no púlpito. No entanto, apesar de suas diferenças, essas igrejas consideram que a Igreja institucional, o serviço de adoração, e os ofícios da igreja têm funções específicas na ordem dada por Deus. A teologia não é apenas mais uma ciência; é a "rainha das ciências", e a Igreja, e não apenas em seu sentido orgânico, mas também em seu sentido institucional, é a "noiva de Cristo." Deus se deleita em encontrar-se com sua noiva e receber a sua adoração.

Esta ênfase neopuritana no culto regular da Igreja não se encontra na mesma medida entre neocalvinistas. Um século atrás, F.M. TenHoor, um crítico contemporâneo de Abraham Kuyper, acusou que essa visão "orgânica" de Kuyper da igreja -- que Ten Hoor sustentou que tinha raízes filosóficas Romantismo Alemão -- tinha profundas implicações para a pregação e a vida da Igreja em geral, e, inevitavelmente leva a um mal-estar espiritual. Kuyper argumentou que a essência da igreja era "a igreja invisível" e que a estrutura "visível" da igreja era de importância secundária. Ela flui a partir da posição de Kuyper de que o verdadeiro trabalho da igreja ocorre durante a semana, quando o povo de Deus está ocupado em gratidão obediente servindo a Deus em suas respectivas vocações, cumprindo seus mandatos culturais. O culto de domingo, para tomar emprestada a descrição de Nicholas Wolterstorff, torna-se "uma parada para reabastecimento." Os dois entendimentos bastante diferentes por parte de neopuritanos e neocalvinistas acerca de onde a igreja "visível" e a disciplina da teologia se encaixam dentro de um quadro mais amplo precisam de mais diálogo e exploração.

O segundo tema neopuritano envolve a forma como se lida com a teologia do fim dos tempos (escatologia). Como observado anteriormente, o tema central do neocalvinismo é "a graça restaurando a natureza." Em contraste com a maioria do evangelicalismo do século 20, onde a imagem predominante de glória eterna envolve almas desencarnadas que se juntam aos anjos em um coro perpétuo, neocalvinistas enfatizam um contrapeso necessário. Para citar Wolterstorff novamente: "O relato de Gênesis permite concluir que shalom é, em grande medida, a contrapartida escatológica da criação." A ênfase é sobre o físico -- os textos bíblicos que falam de banquetes com vinho fluindo e cidades majestosas sendo apreciados. O "drama da Escritura" (para tomar emprestado o título do livro de Craig Bartolomeu e Michael Goheen) envolve uma história que se move do "Jardim" para "A Cidade", e nossa leitura da Bíblia precisa ser feita com uma lente visão de mundo que nos permite aplicar um tema "criação-queda-redenção" para toda a vida.

Estes são antídotos muito necessários e valiosos para tanto da teologia do século 20, que não faz justiça aos dados bíblicos sobre os tempos finais, nem fornece orientações para a vida na sociedade de hoje. No entanto, temo que na resposta a um desequilíbrio, haja o perigo de virar para longe demais e potencialmente cair em uma vala oposta. Parte da razão pela qual o neocalvinismo não ressoa plenamente com os de um impulso neopuritano é a sua inadequação para lidar com os dados bíblicos sobre o julgamento. No neopuritanismo, os temas bíblicos do julgamento, das disciplinas espirituais, e da guerra espiritual parecem ter uma maior ênfase. Na tendência dominante, é improvável encontrar divergência significativa entre os pressupostos escatológicos defendidos pelos neopuritanos e neocalvinistas (reconhecendo o fato de que as posições divergentes, principalmente em relação ao que se entende por milênio mencionado em Apocalipse 20:1-6, serão encontradas em ambos os campos). Ainda assim, quando se investiga o papel que desempenha a escatologia no cotidiano da igreja e de seus membros, existem diferenças significativas para ser encontradas.

Uma agenda para a Conversa

Comecei com a sugestão de que precisávamos de uma teologia pública para o nosso tempo, sugerindo implicitamente que atualmente não temos uma adequada. Na minha própria jornada, ambas as fontes neopuritana e neocalvinista têm desempenhado um papel central na formação de meu pensamento, com a consequência desconfortável de que, dependendo de quem faz a pergunta, eu geralmente me identifico como ambos, ou como nenhum dos dois A tensão, no entanto, pode ser uma coisa boa, pois nos obriga a considerar questões antigas de novas maneiras. Ela nos obriga a voltar às fontes, não contentes com respostas prontas que são proferidas.

Ambas as tradições estão vendo um ressurgimento, e esta energia recém-descoberta pode levar a conversas produtivas. Eu proporia que o enquadramento de uma nova teologia pública para o nosso tempo pode emergir de uma convergência desses dois movimentos. Essa teologia precisaria estar enraizada na doutrina ortodoxa, ter uma visão de mundo robusta o suficiente para responder às perguntas que nossos vizinhos estão fazendo, ser aplicada com uma ética de integridade, e ser vivida a partir de um espírito de peregrinação, visto que não são chamados a construir uma cidade permanente, mas buscamos aquela que há de vir (Hebreus 13:14). O neopuritanismo e neocalvinismo, e as fontes de onde eles surgem, podem dar uma contribuição valiosa para o preenchimento desse quadro.

Os seis temas que identifiquei, ainda que dificilmente forneçam a resposta completa, pelo menos, fornece o que eu espero ser uma agenda saudável para a discussão. O resultado de um diálogo entre neopuritanos e neocalvinistas, espero, vai incentivar um testemunho renovado em que o povo de Deus vive de uma maneira que proclama o senhorio de Cristo sobre toda a vida, para direcionar as pessoas a, com coração, alma, mente e força viver para a honra e para a glória de Deus.


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23 de outubro de 2012

Santificação para a Vida Ordinária - James K. A. Smith


SANTIFICAÇÃO PARA A VIDA ORDINÁRIA
James K. A. Smith*



Há muitas maneiras diferentes de contar a história da Reforma Protestante. Uma maneira predileta centraliza-se no conto heróico de Martinho Lutero, um monge agostiniano recém-convencido por sua descoberta do evangelho forense de Paulo, martelando furiosamente suas 95 Teses na porta da igreja de Wittenberg. A Reforma é assim lançada por uma espécie de postagem de blog medieval sobre a justificação pela fé, que se torna o catalisador de uma narrativa teológica de ação e aventura repleta de batalhas públicas, intriga pelas costas, vilões traiçoeiros, e nosso herói solitário Coração Valente declarando "Aqui estou!"

Um ângulo diferente sobre a história da Reforma -- que é enfatizado por estudiosos tão diversos como Michael Walzer, Nicholas Wolterstorff, e, mais recentemente, pelo filósofo canadense Charles Taylor -- vê a Reforma não apenas como um debate estritamente teológico mas mais amplamente como um movimento cristão de reforma preocupado com a forma de vida social, com a forma como entendemos a nossa vida coram Deo, diante da face de Deus.


A Santificação da Vida Ordinária (comum/corrente)
Como Taylor conta a história, a Reforma Protestante foi um dos vários movimentos de "reforma" no final da Idade Média e do início da era moderna que protestou contra os arranjos sociais distorcidos da cristandade medieval. Em particular, a Reforma pôs em questão a religião de duas camadas que surgiu, com os monges, freiras e sacerdotes (as "vocações de renúncia") na camada superior e com todos os demais atolados na vida ("secular") doméstica consignados ao nível mais baixo como cidadãos espirituais de segunda classe. O "religiosos" adoravam enquanto todos os outros somente trabalhavam.

Neste clima, o impacto verdadeiramente revolucionário da Reforma foi emitido mais de Genebra do que de Wittenberg. Colocando em questão esse arranjo sagrado/secular de dois níveis, reformadores como João Calvino e seus herdeiros recusaram tais distinções. Tudo da vida é para ser vivido diante da face de Deus, eles disseram. Todas as vocações podem ser santas, pois todos os nossos trabalhos culturais podem ser expressões de cuidado pelo mundo de Deus. Não há "secular", porque não há um centímetro quadrado da criação que não seja do Senhor.

O resultado é o que Taylor chama de "santificação da vida ordinária". Por um lado, isso tem um efeito de nivelamento: o monge não é mais santo do que o agricultor, a freira não é mais santa do que a mãe. A vocação religiosa não é mais vista como um atalho para a bênção divina; ao contrário, ela é vista como um um possível desprezo aos dons de Deus. Por outro lado, não é que as vocações de renúncia sejam abolidas; ao contrário, as expectativas para os leigos são aumentadas. Engajamento na vida doméstica não seria uma liberação da busca por santidade. A vida doméstica normal é retomada e santificada e a renúncia é construída na vida comum.

Então, o açougueiro, o padeiro e o fabricante de velas são chamados a servir a Deus, mesmo quando eles são afirmados em suas estações "mundanas". É essa interação de santidade mundana com santa mundanidade que Max Weber chamaria mais tarde de a "ética protestante do trabalho."


Toda a Vida é Adoração
Esta "santificação da vida ordinária" está no coração da herança da Reforma. Somos exortados a fazer tudo para a glória de Deus (1 Coríntios. 10:31). Tudo da vida pode ser adoração. Quer estejamos no laboratório ou no escritório de advocacia, quer cuidando da casa ou jogando futebol, lavrando a terra ou esculpindo o barro, todos os nossos trabalhos culturais podem ser expressões de louvor ao Rei.

Mas esse princípio de que "tudo na vida é adoração" pode ser levado ao extremo, especialmente quando conjugado com uma espécie de kuyperianismo mutante que é um pouco vigoroso no policiamento das fronteiras entre as "esferas", uma estirpe que é mais kuyperiana do que o próprio Kuyper!  Uma vez que tudo na vida é a adoração -- o argumento segue -- então o culto da igreja reunida parece, bem, opcional, talvez até desnecessário. A biblioteca e o laboratório estão a par com a capela, mesmo preferidos sobre capela. Nesta esteira, a "santificação da vida ordinária" torna-se uma diretiva para desocupar o santuário.

É isso o que os reformadores tinham em mente? Ou essa é uma distorção do impulso dos reformadores, como uma versão estendida do jogo de telefone sem fio em que o primeiro sussurro dos reformadores "Toda a vida é sagrada", tem a mensagem truncada ao longo da linha, até que finalmente chega como "Quem precisa da igreja?”.

Expressão e Formação


O alcance do princípio “toda vida é adoração” é parte de um mau hábito que nós assumimos após a reforma: a tendência em reduzir adoração à expressão. Após a reforma, e especialmente no despertamento da modernidade, um estrato significativo do cristianismo contemporâneo tende a pensar adoração apenas como um ato “ascendente” por parte do povo de Deus que se reúne para oferecer seus sacrifícios de louvor, expressando sua gratidão e devoção ao Pai, com o Filho, no poder do Espírito Santo.


Obviamente este é um impulso e entendimento completamente bíblico: se não adorarmos, até mesmo as pedras clamarão. Em um sentido, fomos feitos para adorar. A visão bíblica da história culmina no livro de Apocalipse com uma multidão adorando e reafirmando a exortação do Salmo 150: “Louve o Senhor!”.

Mas, alguém também pode perceber quanto do entendimento expressivista de adoração nutre, e também é nutrido, por alguns dos piores aspectos da modernidade. Adoração-como-expressão é facilmente invadida pelo turbilhão do individualismo. Neste caso, mesmo a reunião de adoração torna-se mais como um conjunto de indivíduos em um encontro privado com Deus no qual adoradores expressam uma devoção “interior”. E, é exatamente este modelo que preza tanto pela “autenticidade”.

O mesmo expressivismo está por trás destas versões do princípio “tudo na vida é adoração” que vê a reunião dominical como algo basicamente opcional. Esta é uma versão “reformada” do “espiritual mas não religioso” que sutilmente pode parecer eloquente a partir de expressões como “a Igreja é a natureza” e a experiência sagrada do nascer do sol de uma montanha.

Mas, através do curso da história (incluindo a reforma), a Igreja sempre entendeu adoração como algo mais do que mera expressão. Adoração cristã é também uma prática formativa precisamente porque adoração é também um encontro “descendente” em que Deus é o ator principal. Adoração não é apenas sobre alguma coisa que nós fazemos; mas também sobre o que ela faz em nós. Adoração é um espaço onde nós somos nutridos pela Palavra e o sacramento – nós comemos a Palavra e o pão que é a Palavra da vida. Tal entendimento da adoração é igualmente central para a herança reformada, e isto está no coração do legado de João Calvino.

Se falharmos em apreciar que a Palavra e sacramento são canais especialmente carregados de poder formativo do Espírito, será fácil imaginar que o culto pode simplesmente acontecer em qualquer lugar. Por outro lado, se apreciarmos a ideia de que adoração cristã ao redor da Palavra e da mesa é o único “hot spot” dos feitos milagrosos do poder do Espírito Santo, então apreciaremos que o santuário não pode ser substituído apenas por qualquer outro espaço no bom mundo de Deus. Por esta razão, é no santuário que somos feitos povo do louvor. Na adoração comunal recebemos a promessa única do Espírito que está atrelada à Palavra e ao sacramento.


(No caso de algum patrulheiro kuyperiano começar a ficar preocupado, pode ser útil lembrar que Kuyper mesmo enfatizou este ponto. A Igreja como “organismo” – que se engajada na atividade cultural – trabalha “em necessária conexão” com a Igreja como “instituição” – que se reúne em adoração cristã. Nossa imersão em práticas formativas como a reunião de adoração cristã ao redor da Palavra e do sacramento nos forma e nos equipa a sermos agentes de renovação cultural. A Igreja como organismo não substitui a igreja como instituição; ao contrário, o organismo precisa ser cuidado pela instituição.)

Abraham Kuyper
Abraham Kuyper (1837-1920) foi um influente pastor, professor, e político na Holanda e tornou-se primeiro ministro do pais em 1901. Ficou conhecido por promover uma cosmovisão cristã, afirmando que as crenças de uma pessoa devem se interpor entre vida pessoal e pública, e também, que Deus é ativo e soberano sobre todas as esferas da vida. Kuyper também pensou sobre adoração, escrevendo o livro “Onze Eredienst” (Nossa Adoração) [N.T.: em inglês: “Our Worship”], que foi traduzido para o inglês por Harry Boonstra (Eerdmans 2009).

Santificação Para a Vida Ordinária
A reunião de adoração cristã ao redor da Palavra e da mesa não é apenas uma plataforma para nossa expressão; é o espaço para nossa (trans)formação no Espírito. As práticas da reunião de adoração cristã possuem um formato específico – precisamente porque é assim que o Espírito nos recruta na história de Deus reconciliando o mundo com ele mesmo em Cristo. Há uma lógica nesta formação intencional, a adoração cristã histórica dramatiza o evangelho repetidamente como um meio para formar e reformar nossos hábitos. Se falharmos em nossa imersão na adoração sacramental e transformativa, não seremos adequadamente formados para sermos embaixadores da redenção de Cristo no e para o mundo. Em resumo, enquanto os reformadores corretamente enfatizavam a santificação da vida ordinária, nem por um momento pensaram que isto seria possível sem serem santificados pela Palavra e por meio do sacramento.

Esta visão uma vez incorporada se tornará muito útil, ou até mesmo, profética, enquanto um corretivo para nossas tendências triunfalistas. A perspectiva reformada de renovação cultural pode nutrir um tipo próprio de “ativismo”, uma confiança em nosso próprio trabalho de transformação cultural. De fato, podemos algumas vezes nos tornar tão consumidos por “transformar a cultura” e perseguir a “shalom”, que nossas atividades muito bem intencionadas acabam se tornando um fim em si mesmas. Dedicamos tanto tempo sendo a igreja-como-organismo que terminamos abandonando a igreja-como-instituição. Não apenas enfatizamos que tudo da vida é adoração, como nos elevamos com gracejos de auto-exaltação com um olhar de desprezo à adoração como se fosse “pietista”, um atraso em relação ao trabalho difícil e sujo da atuação cultural.

Mas, como Kuyper mesmo enfatizou, não temos como perseverar na monumental tarefa de engajamento cultural orientado pelo Reino se não nos habituarmos a sermos cidadãos do Rei. Como o conselho de N.T. Wright nas seguintes páginas:

A obra de Deus no mundo nunca é meramente pragmática. Não é simplesmente “podemos organizar um programa para irmos e fazermos isto”. Se você acha que podemos fazer a obra de Deus desta forma, leia sobre a vida de pessoas como William Wilberforce e pense de novo. Você não pode. Você precisa orar, precisa dos sacramentos, precisa de fidelidade paciente – porque não estamos lutando contra carne e sangue, mas contra principados e poderes que governam o presente mundo de trevas. (Reformed Worship, março de 2009)

Se queremos ser tomados pela missão de Deus de refazer o mundo, santificando a vida ordinária, precisamos ser santificados pelo Espírito através da Palavra e do sacramento. Se tudo da vida deve ser encarado como adoração, o santuário é o lugar onde aprendemos como fazer isto.


Sobre o autor:
James K. A. Smith é professor de filosofia no Calvin College em Grand Rapids, Michigan, onde ensina no departamento de estudos congregacionais e ministeriais.

Tradução: Igor Miguel - @igorpensar; Daniel Vieira - @danieldliver
Original: http://www.reformedworship.org/article/march-2012/sanctification-ordinary-life

Publicado originalmente no Iprodigo: 

18 de abril de 2011

Dois sermões de Páscoa

Se eu fosse um apostador, apostaria um bom dinheiro em duas mensagens que certamente serão ouvidas nesta Páscoa (e em todas as outras).*

O pregador da primeira mensagem é o pastor Frank Evangelista. Ele acredita piamente na ressurreição corpórea de Jesus, no sepulcro vazio, em anjos e em tudo o que é sobrenatural. Todos os anos, durante a Páscoa, ele denuncia os liberais perversos, principalmente o reverendo Linguassolta, por sua má vontade em reconhecer que a Bíblia é verdadeira, que Deus realmente faz milagres, e que — como demonstram esses dois pontos — Jesus realmente ressuscitou. O pastor Evangelista costuma usar alguns truques para provar que testemunhas oculares podem contar histórias estranhas e ainda estar falando a verdade: observe-o aniquilar um narciso no púlpito. Ele talvez cite um hino antigo que diz: “Tu me perguntas como eu sei que ele vive? Ele vive em meu coração!”. Sim, Jesus ressuscitou dentre os mortos e, portanto, está vivo, e nós podemos conhecê-lo.

Quando chegamos ao “e então?”, o pastor é igualmente enfático. Realmente há vida após a morte! Jesus foi preparar um lugar para nós no céu! A salvação nos aguarda em um glorioso mundo de delícias, distante deste mundo em que vivemos. Somos, afinal, “cidadãos do céu”, como diz Paulo, de modo que, quando nossa vida nesse mundo cruel chegar ao fim, nossas almas serão arrebatadas para estar ali para sempre. Estaremos junto de nossos queridos (não seria bom ouvir algo diferente, em vez desse velho clichê?) e viveremos na nova Jerusalém. “Só mais um pouco, e eu chegarei ao céu, ó Cordeiro de Deus.” “Então depositaremos nossas coroas diante de ti, e nos prostraremos em adoração e louvor.”
Infelizmente o pastor Evangelista confunde um pouco as coisas. Muito do que ele diz é verdade, mas boa parte não corresponde ao que as histórias da Páscoa desejam comunicar.
Longe dali, animado pelo champanhe na reitoria após a vigília da Páscoa (por que não quebrar o jejum da Quaresma com estilo, mesmo que seu jejum tenha sido esporádico?), o pastor Linguassolta está a pleno vapor. Evidentemente, sabemos que o aspecto rudimentar e exterior da história da Páscoa não é o que os autores tinham em mente. A ciência moderna tem demonstrado que milagres não acontecem, e mortos não ressuscitam. Seja como for, que tipo de Deus interromperia o curso da história apenas uma vez, para resgatar uma única pessoa, e não faria nada para impedir o Holocausto? Crer em algo tão óbvio, tão evidente, tão pouco espiritual, como o sepulcro vazio e a ressurreição corpórea, é ofensivo a qualquer pessoa com uma percepção mais apurada. Particularmente, isso pode indicar (como seu bom amigo, pastor Evangelista, sem dúvida imaginaria, graças ao seu fundamentalismo) a superioridade do cristianismo sobre todas as outras crenças, considerando que sabemos que Deus é radicalmente inclusivo e que todas as religiões, todas as crenças, todas as visões de mundo, podem ser caminhos que levam a Deus.

Assim... tudo indica que as histórias sobre o sepulcro vazio surgiram muito tempo depois. O erudito pastor quer deixar muito claro que essas histórias são a re-mitificação do drama escatológico primário, que pegou os discípulos em um momento de empatia sociomórfica, e possivelmente sociopática, culminando com o anúncio apocalíptico da visão beatífica. Bem, parece que a congregação não está conseguindo entender direito o que ele está dizendo... Mas, como eles também haviam encerrado o jejum da Quaresma com estilo...

Em se tratando do “por quê?”, o reverendo Linguassolta é enfático. Agora que nos livramos de todo esse absurdo sobrenatural, o caminho está livre para a “verdadeira ressurreição”. Essa acaba sendo uma maneira nova de explicar o projeto humano, de romper velhos tabus (ele tem em mente a ética sexual tradicional, mas esse é um assunto muito delicado para o momento), e de descobrir um novo estilo de vida: uma abordagem mais acolhedora, mais “inclusiva”. A “pedra” do legalismo foi retirada e o “corpo ressuscitado”, a verdadeira centelha da vida e de identidade escondida dentro de cada um de nós, pode finalmente sair. Essa nova vida deve agora atingir todos os nossos relacionamentos. Todas as nossas políticas sociais.
A ressurreição não mais deve ser vista como um evento único, imaginado por mentes pré-modernas e sustentado com insistência por conservadores retrógrados, mas como um evento contínuo, capaz de promover a libertação dos seres humanos e do mundo.
O pastor Linguassolta parece, por fim, ter encontrado algo, mas não sabe bem o que é, nem se serve para alguma coisa.

O que o pastor Evangelista não percebe é que as histórias sobre a ressurreição registradas nos evangelhos não falam de ir para o céu depois de morrer. Na verdade, não há quase nada sobre “ir para o céu quando morrer” em todo o Novo Testamento. Ser “cidadão do céu” (Fp 3.20) não significa que nós vamos terminar lá. Muitos filipenses eram cidadãos romanos, mas Roma não os queria de volta quando se aposentavam. A função deles era levar a cultura romana à cidade de Filipos.

Esse é o argumento que os quatro evangelhos defendem, cada um a seu próprio modo. Jesus ressuscitou; portanto, o novo mundo de Deus já começou. Jesus ressuscitou; portanto, Israel e o mundo foram redimidos. Jesus ressuscitou; portanto, seus seguidores têm uma nova tarefa a cumprir.

E que tarefa é essa? Trazer o estilo de vida do céu para a realidade atual, física e terrena. É isso que o pastor Evangelista nunca pôde imaginar (embora sua pregação produza acidentalmente, e quase sempre, esse resultado). A ressurreição corpórea de Jesus é mais que uma prova de que Deus realiza milagres ou de que a Bíblia é verdadeira. É mais do que conhecer Jesus em nossa própria experiência (isso é verdade em relação ao Pentecostes, não à Páscoa). Ela é muito, mas muito mais que a certeza do céu após a morte (Paulo fala de “partir e estar com Cristo”, mas ele enfatiza principalmente a volta em um corpo ressuscitado, para vivermos na nova criação de Deus). A ressurreição de Jesus é o começo do novo projeto de Deus, não de arrebatar pessoas da terra para levá-las ao céu, mas de colonizar a terra com o estilo de vida do céu. É sobre isso que o Pai-Nosso está falando.

É por isso que a argumentação final do reverendo Linguassolta tem uma ponta de verdade, embora todas as suas recusas anteriores o impeçam de ver por que ela é verdadeira ou qual é a sua forma apropriada. A ressurreição é, sem dúvida, o fundamento para uma nova maneira de viver no mundo e para o mundo. No entanto, para obter um resultado social, político e cultural, precisamos da ressurreição corpórea, não de um evento meramente “espiritual” que poderia ter acontecido a Jesus ou talvez apenas aos discípulos. Sua insistência em se referir à “ciência moderna” (não que ele tenha lido alguma coisa sobre física recentemente) é pura retórica iluminista. Não precisamos nem de Galileu, nem de Einstein para nos dizer que os mortos não voltam à vida.

Quando Paulo escreveu seu magnífico capítulo sobre a ressurreição em 1 Coríntios 15, ele não terminou dizendo: “Bem, vamos então celebrar o grandioso futuro que nos aguarda”. Ele concluiu dizendo: “Sede firmes, inabaláveis, e sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que, no Senhor, o vosso trabalho não é vão” (v. 58). Quando a ressurreição final acontecer, como o ponto principal da nova criação de Deus, descobriremos que tudo que foi feito no mundo presente por meio do poder da ressurreição de Jesus será celebrado, incluído, e adequadamente transformado.

Quando o pastor confuso tenta fazer com que a Páscoa signifique “libertação da coerção moral” e “descoberta da verdadeira centelha dentro de cada um de nós”, ele está forçando o verdadeiro cristianismo, obrigando-o a fazer truques como um leão de circo, transformando-o assim em outra forma de gnosticismo. A Páscoa fala da nova criação, de uma nova, imensa e impressionante dádiva de graça transformadora, e não da descoberta de que esse velho mundo tem sido mal compreendido e precisa apenas de permissão para ser ele mesmo.
Romanos 6, 1 Coríntios 6 e Colossenses 3 se mantêm firmes nesse ponto.

Bem, quantos de vocês já ouviram algum desses sermões?

Muito bem, podem recolher as apostas... Quanto eu ganhei?

E quantos ouviram um sermão que reflita sobre as palavras de Paulo em Romanos 8, ou sobre os capítulos finais dos evangelhos, ou sobre o que João escreveu em Apocalipse 21 e 22, a saber, que a Páscoa é o começo da nova criação de Deus em um mundo surpreendido, e aponta para a renovação, a redenção e o renascimento de toda a criação? E agora, quantos já ouviram a mensagem de que todo ato de amor, toda ação feita em Cristo e por meio do Espírito, toda obra de verdadeira criatividade — todas as vezes que a justiça é feita, a paz é conquistada, famílias são curadas, a tentação é vencida, e a verdadeira liberdade é requerida e conquistada? Que esse evento terreno toma lugar na longa história de atos que implementam a ressurreição de Jesus e antecipam a nova criação final, e atuam como sinalizadores de esperança, apontando da primeira para a segunda?
Foi o que eu pensei...

* Retirado do livro Surpreendido pela Esperança de N. T. Wright - Editora Ultimato
copiado daqui: http://www.ultimato.com.br/conteudo/dois-sermoes-de-pascoa

17 de janeiro de 2011

O Projeto Central do Grupo

"Para que a formação espiritual seja o principal foco da congregação local, o grupo deve ser dotado da visão do aprendizado de Jesus no reino vivo, como a realidade central da salvação e como as boas-novas elementares, e deve formular a clara intenção de ser discípulo e fazer discípulos, na condição de projeto central de seu grupo."

  • veja +

Church Communities - legendado

Dallas Willard bio:

26 de abril de 2010

Comunidades de Discípulos


Dallas Willard, renomado autor na área de filosofia e espiritualidade cristã, fala, nesse vídeo, acerca das comunidades de discípulos que o Novo Testamento chama de igreja.



Para donwload do vídeo com legendas embutidas, visite
http://vimeo.com/user2075947/videos

Abaixo o sumário da preleção.
Clique no título para ir ao ponto corresponde do vídeo:
-------------------------------1/10
1 The Church Community

Global communities
2 Ephesians 4 and the Church Community

Unity

Love

Power

3 Gifts in the Church Community

Equipping

2/10-----------------------------------

Maturity

Growth

Change desires

Kill the old self

Mortify the flesh

Renew the mind

-----------------------------------3/10

5 Life of the Kingdom

Heart, not laws


6 The Church Today

What matters to us?

Should it matter?


7 Jesus' Vision for Church Communities


8 Gatherings for a Global Community

4/10-----------------------------------

9 Vision in the Church Today

Group meetings


10 The Great Commission as Vision

Are we distracted?

Are we doing it?

Are we merely surviving?

-----------------------------------5/10

The glory of God

Weakness that hinders


12 Breaking Free of the Past

Look past the institution

Focus on Christ

Make obedience the goal

6/10-----------------------------------

13 Discipleship Gospel

Growing stronger

Working with Jesus

Extending the Kingdom


14 Barriers to a Discipleship Gospel

Lack of invitation

Lack of interest

-----------------------------------7/10

Fear of change

Consumer expectations


15 The Means of Discipleship

Leading as a Disciple

-----------------------------------8/10

16 Building a Discipleship Church

Announce the goal

Orient around that goal


17 Jesus on Telling the Truth

Swearing

Exaggeration

Manipulation


18 Learning to tell the Truth

Awareness

Silence

-----------------------------------9/10

Understanding

Disciplines

Practical steps


19 Churches that Teach Discipleship

Families

-----------------------------------10/10

The Spirit

Why Don't We Do It?

Centers of love


Veja também: 

O Vaso e o Tesouro

A Renovação do Coração