29 de maio de 2008

O Vaso e o Tesouro

Dallas Willard
O que caracteriza a maioria das nossas congregações locais, grandes ou pequenas em tamanho, é a simples distração. Os muitos tipos de "fracassos" observados de maneira freqüente mostram que o problema fundamental na vida da Igreja contemporânea não está dentro e ao redor das congregações. Eles são muito mais conseqüência que causa.


Em contrapartida, uma das declarações mais proveitosas e profundas que li nos últimos anos sobre a vida da Igreja contemporânea é de Leith Anderson:
Embora o Novo Testamento se refira muitas vezes às igrejas, ele é surpreendentemente silencioso sobre muitas questões que associamos à estrutura e à vida da Igreja. Não há menções à arquitetura, aos púlpitos, à extensão típica dos sermões [ou aos sermões!], às regras da escola dominical. Pouco é dito sobre o estilo da música, a ordem da adoração, ou a duração dos cultos. Não havia Bíblias, denominações, acampamentos, conferências de pastor ou reuniões da diretoria. Os que se esforçam para serem a Igreja do Novo Testamento devem procurar viver seus princípios e verdades absolutas, não reproduzir os detalhes.
Esses detalhes simplesmente não estão determinados.

Agora você pode se pergu
ntar por que o Novo Testamento não diz nada sobre todas essas questões, às quais a congregação habitual de hoje dedica quase todo o seu pensamento e esforço? Resposta: elas não são essenciais e, por isso, devem receber pouca atenção sempre que o fundamental for buscado de forma adequada. Devemos dar a devida atenção aos "princípios e verdades absolutas" da Igreja do Novo Testamento e, como é lógico, o restante se ajustará -- em grande medida porque "o restante", de qualquer modo, não importa muito realmente. Não pôr o foco nos princípios e nas verdades absolutas, em contrapartida, é vagar num estado de distração, no qual a maioria de nossas congregações locais na verdade se encontra. Elas acabam se especializando em questões secundárias, deixando as principais, do ponto de vista do Novo Testamento, desaparecer.

O VASO E O TESOURO

É claro que não acreditamos que somos destraídos. As coisas nas quais investimos nosso esforço parecem, em absoluto, fundamentais. São em geral coisas que fazem um bom e apropriado protestante, católico, anglicano, batista, ou simplesmente um "bom cristão", conforme entendido em condições particulares. Mas as pessoas hoje têm na verdade confundido o vaso com o tesouro.


Paulo nos apresenta uma distinção crucial:
Pois Deus, que disse: 'Das trevas resplandeça a luz', ele mesmo brilhou em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós. (2 Coríntios 4:6-7)
A aplicação básica dessa distinção entre o tesouro e o vaso se deu no próprio corpo de Paulo e nos eventos visíveis de sua vida terrestre. O apóstolo disse: "Nosso homem exterior é corrompido" (v. 16). Ele não estava preocupado com isso, pois olhava para o seu lado espiritual no mundo espiritual. E ele queria que a fé dos que o ouviam consistisse na "demonstração do poder do Espírito, para que a fé [deles] não se baseasse na sabedoria humana, mas no poder de Deus" (1 Co 2:4-5). A fraqueza do vaso, a realidade física de Paulo, foi aceita e reconhecida por ele como uma oportunidade para o triunfo do tesouro.

Mas os mesmos princípios de "vaso" e "tesouro" se aplicam às congregações locais, às suas tradições e seus grupos de alto-nível chamados de "denominações". Ora, vale observar que quase tudo o que define qualquer denominação é negativo, isto é, alguma coisa que "nós" não fazemos, mas que "eles" fazem. Sem dúvida a maioria de nossos grupos nasceu da negação. Pensemos apenas na massa de pessoas das muitas denominações que são chamadas protestantes. Nossa identidade se vincula ao protesto? Contra o quê? E então dentro das tradições protestantes e católicas existem os inúmeros grupos que foram definidos por aquilo que não fazem e que os outros fazem.


Com o passar do tempo os vários grupos se tornam quase cem por cento vasos. Ou seja, aquilo que parecem considerar essencial e ao que dedicam quase toda a sua atenção e esforço tem a ver com contingências históricas e humanas, associadas a indivíduos formados num certo caminho. Eles naturalmente amam tais contingências, e amam os que compartilham a vida com eles dentro das formas contingentes. E porque as contingências nos são caras -- não raro há muitos espinhos associados ao seu passado -- nós as confundimos com o tesouro da verdadeira presença de Cristo e perdemos muito de nosso tempo preocupados com acasos históricos ou contingências de nosso grupos, tentando até mesmo usá-los como exemplos para os outros, como essenciais para a salvação ou, pelo menos para nós ou para eles. Não é de admirar que estejamos desviados do caminho da formação espiritual em Cristo.


Portanto: que tipo de roupa as pessoas devem usar nas reuniões? Será que devem ficar paradas quando cantam, e o que devem cantar? Deve haver ministério de oração, e ele deve fazer parte do culto, ficar para depois do culto ou num culto diferente? Devemos questionar amistosamente? Se não, quais seriam as alternativas? Devemos esperar (permitir) que os milagres ocorram nos cultos ou apenas a sã doutrina? Como deve ser feita a ceia do Senhor? E o batismo? Devemos usar um livro de oração, e, nesse caso, deve ser o antigo ou o novo? Como devemos levantar fundos para a igreja, e como devem ser gastos? Quem deve gastá-los? Qual deve ser o nosso credo? Devemos ter um? E as pessoas que usam incenso? Ou quem não usa? Ou quem usa roupas incomuns para tratar das coisas ministeriais? Ou quem não usa? E por aí afora.


Agora, por favor, observem: não estou afirmando que tais coisas não tenham importância, ainda que algumas delas estejam por um triz. Quero dizer duas coisas: em primeiro lugar, elas não são o ponto de partida ou as questões centrais e fundamentais. É por isso que o Novo Testamento, conforme Leith Anderson observou, não diz nada a seu respeito. E, em segundo lugar, se você as coloca como essencial ou muito importante -- ou se você as faz apenas de forma prática, no sentido de gastar muito de seu tempo com elas --, a congregação local fará pouco ou nenhum progresso em termos da formação espiritual daqueles que a freqüentam com regularidade. Tais questões "vaso" não levam ninguém à semelhança com Cristo, independentemente do lado em que se baseiam. Esse é um fato provado da vida. Olhe e veja.

(...)

COMO EVITAR A ARMADILHA DO "VASO"

Não há outro caminho para as congregações locais seguir? Podemos evitar a armadilha do vaso? Certamente que não podemos evitar ter vasos. E devemos ser sensíveis a eles, pois isso faz parte do que é ser humano e finito. Até mesmo Jesus teve o seu vaso. Ele era um judeu e isso se tornou a primeira armadilha do vaso que as primeiras congregações de discípulos precisaram enfrentar. Atos e as cartas do Novo Testamento são um registro de como isso foi superado.


Podemos, portanto, evitar fazer do vaso o tesouro. E podemos identificar o tesouro sem fazer referência a qualquer vaso. No entanto, o tesouro sempre terá um vaso. O próprio Jesus nos mostrou o caminho, e a congregação local pode seguir esse caminho. Ele envolve a aplicação no grupo de nosso padrão VIM (Visão, Intenção, Meios) de crescimento espiritual (cf, cap.5), bem como no indivíduo participante.

Em poucas palavras, a congregação local que adotar os "princípios e as verdades absolutas" do Novo Testamento, com a natural conseqüência de se tornar e produzir filhos da luz, tem que apenas seguir as instruções finais de Jesus: "Ao saírem pelo mundo, façam aprendizes de para mim de todos os tipos de pessoas, imergindo-as na realidade Trinitária e ensinando-as a fazer todas as coisas que lhes ordenei" (Mt 28:19-20, paráfrase). As ordens foram acompanhadas de declarações categóricas sobre os muitos recursos para a tarefa: "Foi-me dada toda a autoridade nos céus e na terra" e "estarei com vocês a cada momento, até que o trabalho esteja concluído" (v. 18, 20, PAR).


Essas poucas palavras nos apresentam os princípios e as verdades absolutas da Igreja do Novo Testamento, a história relata o resultado. Desde que façamos o que essas palavras dizem, podemos realizar qualquer outra coisa que seja útil para tal fim. E o resto nem mesmo precisa estar "certo" para Deus nos abençoar -- embora sem dúvida é sempre melhor que esteja, contanto que não depositemos nossa confiança em tal certeza. Qualquer um que pensa que Deus abençoa somente o que é "certo" possui uma experiência muito estreita, e é provável que não tenha entendido de fato o que Deus fez por ele.

(do capítulo 13 de "A Renovação do Coração", de Dallas Willard, Editora Mundo Cristão.)