16 de julho de 2016

O Fim do Protestantismo | Peter J. Leithart


A Reforma não acabou. Mas o Protestantismo sim, ou deveria.

Quando eu estudei em Cambridge, eu descobri que os evangélicos ingleses se definiam sobretudo contra a Igreja da Inglaterra. Seja lá a Igreja da Inglaterra é, eles não são. O que estou chamando de "Protestantismo" é faz a mesma coisa com Catolicismo Romano. Protestantismo é uma teologia negativa; um protestante é um não-católico. Tudo aquilo que os católicos dizem ou fazem, o protestante faz e diz tão perto do oposto quanto possível.

As principais igrejas são quase desprovidas de "Protestantes". Se você quer detectar um nestes dias, a sua melhor aposta é visitar a Igreja Batista ou a a igreja bíblia local, embora você possa encontrar uma fartura de protestantes entre os presbiterianos conservadores também.

O Protestantismo deve dar lugar ao Catolicismo Reformacional. Como um Protestante, um Católico Reformacional rejeita reivindicações papais, se recusa a venerar a Hóstia, e não reza para Maria ou os Santos; ele insiste que a salvação é uma simples dádiva de Deus recebida pela fé e admite que toda a tradição deve ser julgada pelas Escrituras, a voz do Espírito na conversa que é a Igreja.

Embora ele concorde com o protesto 'Protestante' original, o Catolicismo Reformacional é definido tanto pelas coisas que compartilha com o Catolicismo Romano como por suas diferenças. Sua existência não está atada a falhas encontradas no Catolicismo Romano. Enquanto está nela, o católico Reformacional poderia muito bem reivindicar a maiúscula "C." Por que deveria a Sé Romana ter um monopólio sobre a maiúscula?

Um protestante exagera a sua distância do Catolicismo Romano em cada ponto da teologia e da prática, e é cético quanto aos Católicos Romanos que dizem que creem na salvação pela graça. Um Católico Reformacional alegremente reconhece que compartilha credos com os católicos romanos, e dá boa acolhida a reformas e reformulações como sinais esperançosos de que poderíamos, finalmente, entre as barricadas, demarcar o terreno comum. (Protestantes também exageram diferenças entre si, mas essa é uma história para outro dia.)

Um protestante acredita (moda antiga) nas afirmações dos católicos romanos sobre a sua estabilidade imutável. Um Católico Reformacional sabe que o catolicismo romano mudou e está mudando.

Alguns protestantes não veem os católicos romanos como cristãos, e não reconhecerão a Igreja Católica Romana como uma igreja verdadeira. Um católico reformacional considera os católicos como irmãos, e lamenta a necessidade de modificar essa irmandade como "separada". Para um Católico Reformacional, é claramente óbvio que há uma Igreja de Jesus Cristo, com um bilhão de membros, centralizada em Roma. O Protestantismo deixa o catolicismo romano entregue aos seus próprios instrumentos, porque mal considera a Igreja Católica Romana como cristã. "Eles" tiveram um escândalo de pedofilia, e "eles" têm um papa controverso. Um Católico Reformacional reconhece que uma perturbação na Igreja Católica Romana é uma perturbação em sua própria família.

Um Protestante vê a Igreja como um instrumento para salvação individual. Um Católico Reformacional crê ser a salvação inerentemente social.

Os heróis de um protestante são Lutero, Calvino, Zwínglio, e seus herdeiros. Se ele reconhece alguma ascendência antes da Reforma, eles são os proto-protestantes como Hus e Wycliffe. Um católico reformacional recebe, com gratidão, a história de toda a Igreja como sua história e, junto aos Reformadores, ele honra Agostinho e Gregório o Grande e os capadócios, Alcuíno e Rabanus Maurus, Tomás e Boaventura, Domingos e Francisco e Dante, Inácio e Teresa de Ávila, Chesterton, de Lubac e Congar como pais, irmãos, e irmãs. Um católico reformacional sabe que alguns de seus ancestrais eram profundamente imperfeitos mas não retirará nenhum deles da árvore da família. Ele sabe que toda família tem seus embaraços.

Os protestantes suspeitam de uma igreja pública, "Constantiniana". Embora reconhecendo as tentações do poder, um católico reformacional vê o testemunho público como uma expressão da missão da Igreja para as nações.

Um protestante zomba da interpretação bíblica patrística e medieval e encontra segurança na exegese histórico-gramatical. Um católico reformacional diverte-se nas riquezas, mesmo enquanto tenta compreender as singularidades de Agostinho e Orígenes, Bernardo e Beda. Ele sabe que há insondáveis profundidades na Escritura, jamais sonhadas por Lutero e Calvino.

Um protestante é indiferente ou hostil a formas litúrgicas, ornamentação na adoração e aos sacramentos, porque isso é o que os católicos fazem. A piedade do catolicismo reformacional é comunal e sacramental, e sua devoção segue padrões litúrgicos históricos. Um protestante usa um casaco e uma gravata, ou uma camiseta Mickey Mouse sem mangas, para conduzir um culto; um católico reformado se paramenta com sotaina e estola. Para um protestante, um sacramento é uma ajuda para a memória. Um católico reformado crê que Jesus batiza e se doa como alimento aos fiéis, e não evita falar de "Eucaristia" ou "Missa" apenas porque os católicos romanos usam essas palavras.

Um católico reformacional encontra o Catolicismo Evangélico de George Weigel, vindo da direção de Roma, e lhe dá um caloroso aperto de mão.

O protestantismo teve uma boa corrida. Refez a Europa e fez a América. Inspirou missões globais, cozinhas com sopa, plantação de igrejas e faculdades nos quatro cantos da terra. Mas o mundo e a Igreja mudaram, e o protestantismo não é o que a Igreja, incluindo os próprios protestantes, necessita hoje. É tempo de voltarmos o protesto contra o Protestantismo e vislumbrarmos uma nova maneira de sermos herdeiros da Reforma, uma nova maneira que possa conformar-se à visão católica original dos reformadores.

Peter J. Leithart é presidente da Trinity House.


Fonte:
http://www.firstthings.com/web-exclusives/2013/11/the-end-of-protestantism

Tradução: Daniel Vieira