6 de fevereiro de 2010

N. T. Wright: a idolatria do lugar santo


A igreja da atualidade (inclusive a "igreja emergente", a "igreja líquida", as "novas expressões de igreja", a "igreja remodelada para a missão" e muitas outras") tem debatido a questão de qual seria sua missão e sua vida no futuro. No entanto, a frustração com o padrão atual da vida da igreja, somado ao liberalismo da pós-modernidade e aos temores protestantes remanescentes em relação à ordem criada, têm conspirado para produzir um caos ora agradável, ora nem tanto. É nesse contexto que uma visão apropriada da escatologia bíblica pode e deve gerar uma nova e, sem dúvida, polêmica, visão da missão da igreja.

Para ser claro, a criação deve ser redimida, ou seja, o espaço deve ser redimido, o tempo deve ser redimido e a matéria deve ser redimida. Depois de ter criado espaço, tempo e matéria, Deus viu que tudo era muito bom e, embora a redenção deste mundo da atual corrupção e decadência envolva transformações que não podemos imaginar, podemos ter certeza que Deus não irá dizer: "Bem, foi uma tentativa, fiz o possível, mas evidentemente não deu certo, de modo que vamos ter de trocar este mundo por outro, onde não haja espaço, tempo e matéria".

Porém, se Deus realmente deseja redimir o mundo e não rejeitá-lo, estamos diante de uma questão: como celebrar essa redenção, essa cura e essa transformação no presente, antecipando assim, de maneira adequada, a intenção final de Deus?

Cabe aqui uma observação, antecipando as objeções que certamente surgirão. Enquanto existir esse mundo, haverá o perigo constante da idolatria, da adoração à criatura no lugar do criador. Uma vez que espaço, tempo e matéria constituem os elementos que formam os ídolos, algumas pessoas consagradas supõem que devemos rejeitar tudo isso, colocando sob suspeita qualquer objeto usado na adoração, qualquer ação realizada, qualquer "lugar santo".

Esta é uma preocupação bastante justa: a idolatria é um perigo real, e devemos nos guardar dela. Na verdade, devemos pôr fim nela sem piedade. Porém, a idolatria é sempre a perversão de algo bom. A ganância, ou seja, o desejo desenfreado de satisfazer aos apetites, é a perversão do instinto dado por Deus para desfrutarmos de modo apropriado da boa criação. A maneira adequada de combater a idolatria não é, portanto, pelo dualismo, com a rejeição do espaço, do tempo e da matéria como sendo maus ou perigosos, mas pela adoração renovada ao Deus Criador, que estabelece o contexto para o desfrute e o uso apropriado da ordem criada, sem o perigo de adorá-la. Nossa habitação no tempo, no espaço e na matéria e o uso e proveito que fazemos de tudo isso devem constantemente ser comparados à história de Jesus e à maneira como ele usou esse espaço, tempo e matéria: enquanto Filho encarnado, em sua morte, lançando juízo sobre toda a idolatria e pecado, e em sua ressurreição, na qual espaço, tempo e matéria foram renovados em seu corpo, antecipando a renovação final de todas as coisas. O perigo da idolatria e a réplica a ela são como uma indicação daquilo que está para vir. A igreja é chamada para a missão de implementar a ressurreição de Jesus e, desta forma, antecipar a nova criação final. O que isso poderia sugerir?


N. T. WRIGHT
Surpreendido pela Esperança, Ultimato, 2009, p. 225-226