10 de junho de 2012

Religião para Ateus: Instituções

Enquanto muitos cristãos estão combatendo os aspectos institucionais e litúrgicos da fé, os "ateus 2.0", representados pelo filósofo suíço Alain de Botton, "sugere que o secularismo tem muito a aprender com os ritos da fé e com as estratégias que a religião tem usado, desde o princípio dos tempos, para tornar-se indispensável na vida de boa parte da humanidade. Elementos como a arte, a educação, a convivência em comunidade e, pasmem, instituições!

Seguem abaixo excertos do último capítulo e, ao final, links para prosseguir na discussão. Adianto que concordo com James K. A. Smith, ao dizer que "muitas das coisas que Botton exalta na religião estão ausentes da "nossa" versão da religião. Podemos ter algo a aprender com o ateísmo 2.0".


(...) Os pensadores devem aprender a dominar o poder das instituições para que suas ideias tenham alguma chance de obter uma influência extensa no mundo.

Porém, infelizmente, intelectuais seculares sofreram por muito tempo de uma desconfiança temperamental em relação às instituições, enraizada na visão de mundo romântica que coloriu a vida cultural desde o século XIX. O Romantismo nos ensinou a zombar da solenidade e das restrições das instituições, de suas tendências à corrupção e sua tolerância à mediocridade. O ideal do intelectual tem sido aquele de uma espírito livre vivendo além dos limites de qualquer sistema, desdenhoso do dinheiro, isolado das questões práticas e orgulhoso de ser incapaz de ler um balanço patrimonial.

Se a vida interior das pessoas é até hoje mais influenciada por profetas bíblicos que por pensadores seculares, isso se deve em grande parte ao fato de que os últimos têm consistentemente relutado em criar estruturas institucionais por meio das quais sua ideias relacionadas à alma possam ser disseminadas de maneira bem-sucedida para uma audiência maior. As pessoas com interesses em tratar das necessidades da alma secular não têm tido escala, condições estáveis de emprego e capacidade de transmitir suas visões pelos meios de comunicações de massa. Em vez disso, inconstantes profissionais administram individualmente o que, na prática, não passa de micronegócios, enquanto as religiões organizadas infiltram em nossa consciência toda a força e a sofisticação disponíveis ao poder institucional.

(...) 
A grande distinção da religião é que, ao mesmo tempo em que possui um poder coletivo comparável ao das corporações modernas que vendem sabão e purê de batata, lida exatamente com aquelas necessidades interiores que o mundo secular deixa para indivíduos desorganizados e vulneráveis.

O desafio, por conseguinte, é criar -- por meio de um estudo das instituições religiosas -- entidades seculares que possam atender às necessidades do self interior com toda a força e habilidade que as empresas hoje empregam para satisfazer as necessidades do self exterior.

(...)
Uma vez que somos criaturas com corpos -- animais sensíveis e também seres racionais --, só podemos ser influenciados de maneira duradoura por conceitos quando eles vêm a nós por meio de uma variedade de canais. De uma maneira que as religiões parecem ser as únicas a compreender devidamente, não podemos ser marcados por ideias a menos que, além de serem transmitidas por livros, palestras e jornais, também repercutam no que vestimos, comemos, cantamos e usamos para decorar nossas casas e tomar banho.

(...)
As religiões demonstraram capacidades comparáveis no campo espiritual, conseguindo, pelo uso do ritual, resgatar momentos e sentimentos que em outras circunstâncias poderiam ter sido negligenciados ou esquecidos, mas que -- graças a uma visão religiosa de commoditização -- adquiriram nomes dignificantes e datas fixas em calendários.

(...)
As religiões trazem escala, consistência e força externa àquilo que de outra forma poderia permanecer para sempre como um evento pequeno, aleatório e privado. Elas dão substância às nossas dimensões interiores -- aquelas partes de nós que o Romantismo prefere deixas desregulamentadas, pelo medo de obstruir nossas chances de autenticidade. 

(...)
Precisamos de instituições para estimular e proteger aquelas emoções que estamos inclinados a cultivar, mas às quais, sem uma estrutura de apoio e um sistema de lembretes ativos, não dedicamos tempo porque somos distraídos e indisciplinados demais.

O mundo secular, romântico, vê na commoditização apenas perda de diversidade, qualidade e espontaneidade. No entanto, o processo permite que aspectos frágeis e raros, porém importantes, possam ser identificados com mais facilidade e compartilhados de maneira confiável. Aqueles de nós que não têm religião nem crenças sobrenaturais ainda precisam de encontros regulares e ritualizados com conceitos como amizade, comunidade, gratidão e transcendência. Não podemos depender da nossa capacidade de chegar a eles sozinhos. Precisamos de instituições que nos lembrem de que necessitamos deles e que os apresentem em embalagens atraentes -- assegurando, assim, o fortalecimento dos lados mais esquecidos e não autoconscientes de nossa alma.

(...)

A questão que enfrentamos agora é como aliar as diversas boas ideias, que hoje dormem nos recessos da vida intelectual, a esses instrumentos organizacionais, muitos deles religiosos na origem, que têm chances maiores de dar a elas o impacto devido no mundo.

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IHU.Unisinos: O ateísmo pastoral de Alain de Botton
Fors Clavigera: We're All Atheists Now
Video TED com legendas: www.ted.com/talks/view/lang///id/1327