5 de junho de 2009

Restaurando a adoração bíblica

por N. T. Wright

Adoração celebra os feitos poderosos de Deus e colabora com o próximo estágio do propósito redentor.


Introdução. A cena de Apocalipse, capítulos 4 e 5 é espetacular. João, ao ter a visão, é convocado a tornar-se um espectador da corte celestial, assistindo toda a criação derramar seu incessante louvor diante de seu Criador. Apocalipse 4 e 5 não é uma visão de um futuro distante - as pessoas às vezes pensam “ é assim que vai ser quando chegarmos no céu”. A visão do futuro em Apocalipse está nos capítulos 21 e 22. Esta é a dimensão celestial da realidade presente.


Entrelaçando as esferas da Criação. Aparentemente “suba para o céu” e “me vi tomado pelo Espírito,” nos primeiros dois versículos do capítulo 4, são expressões funcionalmente equivalentes: céu e terra são esferas entrelaçadas de uma única criação de Deus. Quando João está no Espírito, ele está conectado à dimensão celestial daquilo que chamamos de vida normal. Esta cena revelada a ele começa com a descrição da sala do trono celestial, assim como aquela em Ezequiel 1. A pessoa de Deus não é descrita - o que é significativo - mas o senso da Sua presença e majestade permeia toda a passagem. Não nos surpreendemos quando a primeira coisa que acontece é adoração – apesar de ficarmos surpresos em ver que os primeiros adoradores são animais e não humanos. Os quatro seres viventes – o leão, o boi, aquele com uma face humana e a águia - têm seis asas como o serafim em Isaías 6 e louvam a Deus incessantemente com o Triságio: “Santo, Santo, Santo é o Senhor, o Deus todo-poderoso que era, que é e que há de vir”. Neste contexto de louvor de toda a criação, 24 anciãos - representando o povo de Deus da Velha e da Nova Aliança – prostram-se e declaram que Deus é digno de toda aquela adoração porque Ele é o poderoso Criador de todas as coisas. Em inglês, a palavra adoração – worship - é etimologicamente relacionada à palavra digno - worthy. Adoração significa reconhecer o valor, a majestade, a dignidade daquele que é adorado – Aquele que está assentado no trono. Adorar é reconhecer, com alegria e celebração, que Deus é Aquele que é e faz o que faz.


Verdades que emergem da adoração. De saída, dois pontos fundamentais emergem desta passagem. Primeiro, adoração bíblica está fundamentada no fato de que Deus é o Criador de tudo. Qualquer tentativa de escorregar para um dualismo, no qual a criação é secundária ou completamente má, está excluída. Segundo, a tarefa dos seres humanos é oferecer uma expressão inteligente da adoração que resto da criação está oferecendo. Céus e terra estão cheios da glória de Deus, mas nós, seres humanos criados à imagem de Deus, somos chamados a reconhecer que isto é adoração e colocar isso em palavras e expressões conscientes de louvor. É isto que você faz toda vez que diz “santificado seja o Teu Nome” ou “glória seja ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo”. Tudo isto é uma reprise de Gênesis 1: “Deus viu tudo quanto havia feito e disse que era bom”. Depois de criar o homem, Deus disse que era “muito bom”. O ser humano - homem e mulher, feitos à imagem de Deus – foi designado para ser o clímax de toda a Criação.


O homem no projeto da Criação. Gênesis 1 era o início de um projeto, não um quadro fixo, ou um projeto falho. Em Apocalipse 5, nós vemos que Deus está segurando um pergaminho, um pergaminho que contém - pelo que entendemos - o propósito soberano de Deus para o mundo. Mas o pergaminho precisa ser aberto por alguém e João chora porque ninguém pode fazê-lo. Mais especificamente, a tarefa requer um ser humano, mas ninguém está qualificado. Então vemos o Leão - que também é o Cordeiro, o Messias, a Raiz de Davi que venceu, porque Ele é também o Cordeiro que foi sacrificado – que envia os Sete Espíritos de Deus para o mundo. Ele é o único que pode levar à frente o projeto de Deus - não apenas para os seres humanos, mas para toda a criação. O resultado é uma nova explosão de louvor. Apocalipse 5 desenvolve o pensamento de Apocalipse 4 e desta vez o cântico da criação toma a forma de um cântico da redenção. Agora há música instrumental, incenso, oração e cânticos. É uma nova canção, a canção da nova criação, trazendo os elementos da criação para celebrar a redenção. A canção abre um novo mundo de possibilidades na adoração, celebrando a morte redentora do Messias e a ressurreição, que transforma seres humanos em reis e sacerdotes que trazem a nova ordem de Deus para o mundo. No final da passagem - ao término da canção - os quatro seres viventes respondem “Amém” e nos vemos de volta ao ponto de onde começamos.


Adoração como progressão e integração. Veja como isto funciona: 1) a criação adora a Deus, o Criador; 2) os humanos articulam aquela adoração de forma consciente; 3) os humanos adoram a Deus pela redenção; e 4) a criação diz “Amém”. Nós vemos aqui a integração entre céu e terra e também da criação e da humanidade em adoração. Vemos também que o propósito de Deus não é salvar o homem do mundo, mas salvar o homem para o mundo. O propósito dele é capacitar seres humanos para serem Seus reis e sacerdotes, trazendo nova ordem e redenção para a Criação. A antiga caricatura do céu, como um lugar chato e sem nada para se fazer - a não ser tocar harpas o dia todo - vem de uma interpretação errônea do Apocalipse. Nesta cena - e depois de forma mais abrangente no fim do livro - o povo de Deus não é apenas adorador, mas também trabalhador, trazendo a nova criação para a realidade. A adoração é o início desta tarefa, como vamos ver adiante.


Recontando a história. Ao final, a visão não é de seres humanos escapando deste mundo e indo para o céu, mas sim da Nova Jerusalém descendo do céu para a terra. A adoração cristã é definida aqui: adorar é recontar a história do que Deus fez, está fazendo e ainda fará – como nos grandes salmos e canções do Velho Testamento. A adoração celebra os feitos poderosos de Deus e colabora com o próximo estágio do propósito redentor.


N. T. Wright é teólogo da Westminster Abbey, e foi deão da Catedral de Lichfield, na Inglaterra. É um autor prolífico e reconhecido por seu trabalho à respeito da história de Cristo, que inclui um trabalho de 700 páginas entitulado “Jesus e a Vitória de Deus”. Atualmente é o Bispo de Durham, servindo ativamente a igreja moderna na redescoberta do Jesus bíblico. Este artigo foi usado com a permissão de N.T. Wright e do Calvin College – www.calvin.edu


Fonte: Inside Worship Magazine

Vineyard Music Brasil

Tradução: Erika Lucas