3 de agosto de 2010

Expiação e o Problema do Mal

Como juntar a questão da expiação e o problema do mal?

A primeira coisa a dizer é que todas as teorias da expiação são, por elas mesmas, abstrações dos eventos reais e que os eventos, reais no tempo e no espaço, são o que as teorias tentam entender, mas não podem substituir. De fato, as histórias se aproximam mais dos eventos do que as teorias, já que é por meio das narrativas que somos colocados em contato com os eventos, que são a realidade, o que realmente interessa. E é por meio de outros eventos do presente que somos levados ainda mais para perto: a eucaristia, uma repetição da refeição que Jesus repartiu como sendo sua própria interpretação de sua morte, e os atos de cura, amor e perdão pelos quais a morte de Jesus se torna uma nova realidade dentro de um mundo ainda corrompido.

Tendo dito isso, sinto-me direcionado a uma das teorias mais correntes sobre a expiação, sobre como Deus lida com o mal por meio da morte de Jesus -- não como uma substituição de eventos ou histórias, nem como uma única teoria que supera todas as outras, mas como um tema que me leva para além dos outros, rumo a essência de tudo. Refiro-me ao tema do Christus Victor, a crença de que sobre a cruz Jesus venceu os poderes do mal. A partir disso, as outras teorias entram para desempenhar suas respectivas funções. Para Paulo, a morte de Jesus claramente envolve (por exemplo, em Romanos 8.3) um elemento judicial ou penal, que é o próprio 'não' de Deus ao pecado, expresso em Jesus, o Messias, como representante de Israel e, consequentemente, de todo o mundo. É nesse momento que o reconhecimento de que a linha divisória entre o bem e o mal passa exatamente por entre mim, por entre cada um de nós, se une com a proclamação do evangelho de que morte de Jesus é 'para mim', em meu lugar, em meu favor. Por ser o Messias, o representante de Israel e do mundo, ele pode fazer isso por todos. Paulo diz que, por nossa causa, Deus fez com que aquele que não conheceu o pecado fosse pecado, para ser oferecido como pecado por amor a nós (2 Co 5.21). Portanto, o Novo Testamento apresenta essa morte como ato de amor, tanto do próprio Jesus (Gl 2.20) quanto de Deus, de quem Jesus era a própria expressão física (Jo 3.16; 13.1; Rm 5.6-11; 8.31-39; 1 Jo 4.9-10). Assim vemos, não como fundamento mas como resultado, que o sacrifício e morte de Jesus são um exemplo de como devemos amar uns aos outros.

Dentro de tudo isso, precisamos ter em mente que estamos falando e pensando, em termos escatológicos, sobre os propósitos de Deus e agindo por meio da história rumo a um momento de clímax. Isso quer dizer que a conquista da cruz não foi um acontecimento atemporal e abstrato, situado, segundo Platão, fora da realidade de tempo e espaço da história. Não basta afirmar que um dia Deus fará um novo mundo onde não haverá mais pranto nem dor; isso não confere justiça por todo o mal posterior. Não chegaremos a uma solução satisfatória para o problema do mal simplesmente pelo progresso, como se, contanto que a geração final seja feliz, toda a desgraça das gerações anteriores pudesse ser ignorada ou até justificada (como nas terríveis palavras de um hino: 'Então saberão, aqueles que o amam, como a dor que sentiam era boa'; esse é um tipo de indiferença ao mal para o qual o Novo Testamento não oferece qualquer base). Todas as teorias da expiação, adequadas ao que pretendem, devem incluir um olhar para o passado (ver a culpa, o pecado e a vergonha das gerações anteriores lançadas na cruz) e uma dimensão futura, a promessa de que aquilo que Deus conquistou no Calvário será instituído de maneira plena e decisiva. Caso contrário, a cruz se torna apenas um gesto sem sentido, ineficaz, ao menos que alguém note e seja influenciado por ele a agir de maneira diferente.

É nesse ponto que o significado pessoal da cruz fica bem claro. Chegará o dia em que eu -- até mesmo eu, tão pecador! -- ficarei totalmente livre do pecado, quando Deus completar sua obra de graça em mim. Porém, já desfruto, em antecipação ao futuro, do perdão no presente, e da vida nova no Espírito, disponível precisamente quando Jesus foi 'glorificado' ao ser 'levantado' na cruz (Jo 7.39; 20.22). E então, como deveríamos esperar, dada a estreita ligação sacramental entre a eucaristia e a cruz, a eucaristia incorpora e expressa o primeiro deles (o perdão), e fortalece e possibilita o segundo (a vida no Espírito). A mensagem pessoal da Sexta-feira Santa, proclamada em tantos hinos e orações que expressam a tradição do Servo sofredor (Is 53) e sua apresentação no Novo Testamento, pode ser assim resumida: "veja seus pecados lançados sobre Jesus"; "o filho de Deus me amou e se entregou por mim"; ou nas palavras que Jesus pronunciou na Ceia, mas que Deus disse na própria Sexta-feira Santa: "Este é o meu corpo, entregue por vocês". Aplicando isso de forma pessoal, aos pecados de hoje e aos de amanhã, o resultado não é uma licença para pecarmos, já que tudo já foi resolvido; em vez disso, somos convocados, pelo mais poderoso amor do mundo, a vivermos segundo o padrão de morte e ressurreição, arrependimento e perdão, em um viver cristão diário, em esperança e certeza da vitória final. O 'problema do mal' não é apenas uma questão 'cósmica', tem a ver comigo. E Deus resolveu isso na cruz de seu filho, o Messias. É por isso que há tradições cristãs que veneram a cruz, assim como alguns veneram o chão em que uma pessoa amada pisa. A cruz é o lugar o meio pelo qual Deus mais nos amou.


O Mal e a Justiça de Deus, pp. 84-87, Ultimato

Como disse Frank Viola, "Qualquer um que esteja familiarizado com os vários tópicos "quentes" de alta tensão círculos teológicos hoje está ciente de que a expiação de Jesus Cristo é um desses tópicos."

Em sua Bacia das Almas, Paulo Brabo apresenta a noção da substituição penal como um discurso ausente:

Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [1]
Os discursos ausentes: Jesus morreu em seu lugar [2]
Eu citei algumas teorias da expiação como comentário num post anterior.


Como bem colocado por Trevin WaxN. T. Wright detém a distinção de ser um dos poucos teólogos do nosso tempo que regularmente contradiz e se opõe à ala liberal da academia, e ao mesmo tempo deixa perplexos muitos conservadores da tradição Reformada. Acadêmicos liberais zombam de sua insistência sobre a ressurreição literal e física de Jesus; acadêmicos conservadores criticam sua aparente negação da doutrina da expiação vicária penal.
A seguir, um vídeo de N. T. Wright sobre "The Atonement Debate":