4 de agosto de 2009

Justificação pela Fé - nova perspectiva

Como é então que a "justificação pela fé" se opera? Em Romanos 2, Paulo já falou da justificação definitiva do povo de Deus, com base em toda a sua vida. Esta justificação ocorrerá no final, quando Deus julgar os segredos de todos os corações através do Messias. A questão da justificação pela fé é que, como Paulo insiste em 3:26, esta justificação tem lugar no presente, em oposição ao último dia. Esta questão tem a ver com as perguntas: "Quem pertence hoje ao povo de Deus?" e "Como se pode afirmar?" A resposta é: todos os que crêem no evangelho pertencem ao povo de Deus hoje, e, portanto, não importa quem tenham sido os pais, ou como se obedeceu à Torá (ou a qualquer outro código moral), ou se foi aplicada ou não a circuncisão. Para Paulo, a justificação é um subconjunto da eleição, isto é, faz parte de sua doutrina sobre o povo de Deus.

Sem dúvida, apesar de muitos esforços para impor esta conclusão, não quer dizer que a justificação nada tenha a ver com a salvação dos pecadores, do pecado e da morte pelo amor e pela graça de Deus. A eleição sempre supõe que os seres humanos são pecadores, que o mundo jaz no caos e que Deus está montando uma operação de resgate. Esta é a finalidade da aliança, e por isso é que "pertencer à aliança" significa, entre outras coisas, "o perdão do pecador". O que se prova é que a "justificação" em si não denota o processo ou o acontecimento pelo qual a pessoa é conduzida da descrença, da idolatria e do pecado para a fé, a verdadeira adoração e a renovação da vida, por obra da graça. Paulo emprega uma palavra clara e inequívoca neste sentido: ele fala de "chamado". A palavra "justificação", apesar de uso equivocado do termo pelos cristãos durante séculos, é empregada por Paulo para denotar o que acontece imediatamente depois do "chamado": "aos que chamou também justificou" (Rm 8:30). Em outras palavras, aqueles que ouvem o evangelho e a ele respondem na fé são, assim, declarados por Deus seu povo, seus eleitos, "a circuncisão", "os judeus", "o Israel de Deus", distinguidos com a condição de dikaios, "justos, participantes da aliança".

Mas a palavra "chamado" por si mesma e o fato de que a "justificação" não se refere ao modo "como sou salvo", mas ao modo "como sou declarado membro do povo de Deus", devem sempre abranger também os planos maiores da aliança. Na verdade, o esquecimento deste ponto, como tantas vezes ocorreu na teologia ocidental, tanto do catolicismo como do protestantismo, equivale a incidir no erro bem parecido pelo qual Paulo censura seus concidadãos. O objetivo da aliança era enfrentar a idolatria e o pecado para que o mundo como um todo pudesse ser resgatado, e não se discute, como lemos em Romanos 5-8, que é para este objetivo que Paulo encaminha seu argumento. Assim, a idéia dos seres humanos chamados pelo evangelho a abandonarem a idolatria e o pecado a fim de passarem a adorar o Deus vivo e verdadeiro significa por um lado, que eles podem ser resgatados e, por outro lado, que através deste resgate e pela comunidade que passam a formar poderá concretizar-se o plano de Deus de resgatar o mundo inteiro. É por esta razão que em Romanos 5:17 Paulo diz que os justificados "reinarão na vida"; o objetivo não é simplesmente que eles sejam resgatados da calamidade, mas que através deles Deus possa governar sua nova criação. É por esta razão também que a união de judeus e gentios em uma única família é uma idéia essencial para a justificação. Não se trata unicamente de tornar a vida mais fácil para os gentios convertidos aos quais podia não agradar a idéia da circuncisão, como alguns comentaristas já afirmaram, tentando ridicularizar a "nova perspectiva", mas, como Paulo explica tão brilhantemente em Efésios 3, o que se pretende inculcar é que pela criação da família formada de judeus mais gentios o Deus vivo possa implantar o projeto completo da nova criação, declarando aos principados e potestades que sua hora já chegou. A eleição repensada em torno do Messias, e reelaborada por Paulo em seus esforços apostólicos para gerar e sustentar exatamente este tipo de comunidade, mantém juntos elementos de seu pensamento que muitos séculos de sistemas alternativos mantiveram separados.


3 de agosto de 2009

Arrebatamento

"... a passagem-chave de 1 Tessalonicences 4, passagem apocalíptica, se é que se pode atribuir alguma passagem apocalíptica a Paulo, não pode ser encarada como se predissesse o que na América do Norte atualmente se tornou um tema principal, a saber, o "arrebatamento" em que o povo de Deus será arrebatado literalmente para a atmosfera, deixando casas, automóveis e famílias para trás e escapando para sempre do mundo de espaço-tempo que se precipita na ruína. A idéia da passagem mencionada é o conforto das pessoas enlutadas. O que Paulo visa neste texto é afirmar com insistência que aqueles que morreram e os que ainda estiverem vivos, quando o Messias aparecer como rei, haverão de herdar a nova era que ele virá inaugurar, mas a linguagem que Paulo emprega para expor seu argumento, que é uma combinação de imagens apocalípticas clássicas, deve ser visto como o que na realidade é: uma evocação de Daniel 7 (o filho do homem vindo nas nuvens) e do apocalipse do monte Sinai (o clamor e a trombeta e Moisés descendo com a Lei).


N. T. Wright, Paulo - Novas Perspectivas, p.78

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2 de agosto de 2009

30000 crianças

“Enquanto você dormia ontem, 30000 crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas a má nutrição. E mais, a maioria de vocês nunca ajudaram em merda nenhuma. E o que é pior: você está mais perturbado com o fato de eu ter dito “merda” do que com a notícia de que 30000 crianças morreram de fome na última noite.”

Tony Campolo



Fonte: Livraria do Thiago

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18 de julho de 2009

Repensando a Hierarquia no Mundo

A Cabana certamente deve receber o crédito por apresentar uma tese ambiciosa e abrangente. Mas até que ponto devemos (ou podemos) rejeitar todas as hierarquias?

A pergunta "Como alguém se torna igual a Cristo?" é uma versão cristã de uma pergunta mais geral: "Como alguém se torna uma boa pessoa?". Esta pergunta tem há séculos preocupado os pensadores. Muitos daqueles que têm pensado sobre a formação ética descobriram ser tentador recorrer às regras, como se alguém pudesse ser ético simplesmente seguindo as regras certas. Mas uma abordagem da ética ou da santificação meramente baseada em regras é reducionista e legalista. Entretanto, será que por isso podemos concluir que as regras e a priorização das regras não têm lugar na vida do discipulado? Afinal, quando Jesus foi indagado sobre as prioridades, ele identificou duas prioridades: "Amarás ão Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e todo o teu entendimento" (Mateus 22:37) e "'Amarás o teu próximo como a ti mesmo.' Toda a Lei e os Profetas baseiam-se nestes dois mandamentos" (Mateus 22: 39-40). Por isso, parece que não podemos simplesmente falar na jornada para a santidade como um relacionamento com Jesus, pois essa jornada é dirigida por estes dois princípios.

E quanto à visão de A Cabana sobre a Igreja organizada? Aqui, acho que precisamos ser especialmente cuidadosos, pois, afinal, a concepção do livro sobre a Igreja não é tão revolucionária; na verdade, parece incrivelmente com um típico "Protestantismo da Baixa Igreja". Como disse George Marsden: "Uma das características notáveis de grande parte do evangelicalismo é o seu descaso pela Igreja institucional"*. Como outras rejeições da Igreja Institucional, encontramos aqui tanto críticas violentas quanto soluções explicitamente simplistas. É certamente correto dizer que a Igreja é uma pessoa em um relacionamento especial com Deus, com o próximo e com o mundo. Mas isso não requer que marginalizemos a expressão institucional da Igreja. Não é possível que o mesmo Deus que fala através de experiências carismáticas espontâneas e encontros comunais íntimos na sala de estar da casa de alguém possa também atuar através da beleza do Livro do Oração Comum da Igreja Anglicana, da liturgia mística da Igreja Ortodoxa Oriental e até mesmo do austero Colégio dos Cardeais da Igreja Católico Romana (juntamente com o papa!)? Pode ser que uma rejeição categórica da hierarquia institucional represente uma reação exagerada ao abuso de poder em favor de uma suposição ingênua de que "tudo o que você necessita é amor"?

Nossas indagações continuam quando passamos a considerar a hierarquia no Estado secular. Afinal, Paulo parece afirmar que o Estado é um poder comandado por Deus: "Que todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por Ele instituídas" (Romanos 13:1). E certamente não é segredo que Paulo fez bom uso da autoridade e do status que derivou de sua cidadania romana (ver Atos 16:37; 22:25,28). Na verdade, a condenação total das hierarquias de autoridade e submissão em A Cabana não deixa claro se é permitido aos cristãos servir na polícia ou nas forças militares, ou nos ramos do judiciário, legislativo ou executivo do governo. (Se toda participação for negada, então A Cabana enfrenta as mesmas fragilidades contra-culturais do clássico anabatismo.) Mais radicalmente, ela deixa o leitor pensando se deve haver uma governança secular ou se o livro na verdade defende a anarquia (literalmente: ausência de regras)!

Qualquer tentativa de ir além das estruturas de autoridade e submissão enfrenta um enorme problema: não vivemos em um mundo perfeito. A crianças ainda precisam ser corrigidas pelos pais, a polícia precisa conter a desobediência civil, e exércitos inteiros podem ser ainda necessários para restaurar a regra da lei. Em termos práticos, como a A Cabana propõe que vivamos neste mundo? É importante notar que o livro deixa aberta a possibilidade de participarmos destas estruturas falidas. Como diz Papai: "Nós trabalhamos dentro dos seus sistemas, ao mesmo tempo em que procuramos libertá-los deles" (113). Desse modo, pode ser que Papai defenda que os cristãos continuem a participar das estruturas de autoridade e submissão que dominan o cenário político, econômico e social. Entretanto, se essa participação é permitida, não o é sem obrigação; ao contrário, os cristãos devem participar das estruturas de poder falidas com a intenção e o objetivo de redimi-las a ponto de a hierarquia de poder não mais existir. Para dizer o mínimo, se esta concepção fosse seguida consistentemente, transformaria o cristianismo em um agente radical de mudança social e política.

Randal Rauser, Encontre Deus na Cabana, pp.77-80.

Randal Rauser é professor associado de História da Teologia do Taylor Seminary, Edmonton, Canadá.






"Se você alguma vez teve uma conversa sobre A Cabana, quer com um entusiasta ou um crítico, você vai querer convidar este teólogo qualificado e acessível para a conversa. Antes de você ter lido uma dúzia de páginas você vai saber porque é que precisamos de manter a companhia dos teólogos. Eles nos ajudam a manter as nossas conversas sobre Deus inteligentes, informadas, e pacíficas"

Eugene H. Peterson, Professor Emérito de Teologia Espiritual, Regent College, Vancouver, B.C.

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Para os comentários:

1- Você acredita que as hierarquias de poder no casamento, na Igreja e/ou na sociedade precisam ser rejeitadas ou que devam ser reformadas? Se escolher a última opção, como seriam as hierarquias realmente transformadas?

2- Você concorda que a essência da Igreja está no relacionamento pessoal? Que implicações tem essa visão para as estruturas institucionais tradicionais, ofícios, práticas e missões da Igreja?

16 de julho de 2009

Heresia em A Cabana?

(...)
Por outro lado, tenho lido críticas sobre A Cabana, e algumas delas são muito injustas com o livro. Acusam-no de heresia, mas é evidente que o entenderam mal ou leram algo nele que não existe. Recomendo que os leitores encarem o livro com uma atitude de caridade e generosidade. É pena, mas alguns leitores cristãos pensam que é seu dever achar erro em quase tudo. A cabana contém certos erros, mas não encontrei nada que fosse flagrantemente herético.
(...)

É importante não confundir imagem com doutrina. Só porque algumas das imagens usadas em A Cabana sejam não convencionais não significa que são heréticas. O autor deixa bem claro que não pensa que Deus Pai seja literalmente uma alegre mulher negra. E ele vai longe para deixar claro que Pai, Filho e Espírito Santo são um ser e três pessoas. Apesar da imagística utilizada em A Cabana, a doutrina da Trindade está claramente refletida nas palavras de Deus sobre si mesmo para Mack. Receio que alguns críticos não tenham distinguido apropriadamente imagística e doutrina quando criticaram o livro.
(...)

Minha opinião é que não há nada de herético na doutrina implícita de A Cabana sobre a Trindade contanto que entendamos que a imagística é apenas isso -- imagística. A doutrina por atrás da imagística defende favoravelmente do Credo Niceno, o credo normativo da maioria dos ramos do Cristianismo, que afirma que Deus é "uma substância" e "três pessoas". A Cabana não utiliza essas palavras, e não deveria utilizar. É um romance escrito para o povo. Mas qualquer um que o ler com cuidado não pode acreditar seriamente que ele conflita com as Escrituras ou com o credo. Se alguém pensar assim, estará importando uma interpretação específica da Trindade que consta tanto na Bíblia quanto no credo. É muito comum dentre os caçadores de heresia. Eles tomam a sua própria interpretação estreita da doutrina e a colocam acima da Bíblia e do credo, e então acusam de heresia qualquer coisa que não combine com as suas interpretações. Mas está errado.

Uma avaliação cuidadosa da doutrina da Trindade de A Cabana é útil e justa. O livro pode ficar aquém de ser completo, e pode conter algumas distorções (ver capítulo três), mas não se pretende ser uma teologia sistemática. Para um romance, é uma adequada, se não particularmente iluminada, explicação da Trindade.
(...)

Levando tudo isso em conta, considero muitas críticas à Cabana problemáticas. Ofereci minhas próprias críticas neste livro. Mas elas têm a ver com os elementos da história que podem ser mal interpretados. Uma coisa é a sugeria correções e outra é lançar acusações de heresia! Não encontro heresia em A Cabana, e me preocupo com as pessoas que pensam que encontram.

Vou ser claro mais uma vez. Se uma pessoa que acusa A Cabana de heresia perder explicar por que o livro não está exatamente de acordo com as normas doutrinais de uma determinada denominação, muito bem. Mas a maioria dos críticos não diz isso. Eles simplesmente colocam o rótulo de "heresia" no livro, o que não é justo, caridoso, nem mesmo cristão.

Roger E. Olson, Deus e a Cabana, pp. 178-185.

Roger E. Olson, PhD, é professor de teologia no George W. Truett Theological Seminary, na Baylor University, em Waco, Texas.
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Clique aqui para assistir a crítica de Mark Driscoll.