1 de agosto de 2008

Fazer sem pensar

O PECADO COMO REALIDADE PSICOLÓGICA

Na condição da vida humana normal os recursos internos da pessoa encontram-se enfraquecidos ou mortos, e os elementos da vida não se relacionam entre si como era pretendido em vista de sua natureza e função. Trata-se do pecado no singular: não é um ato, mas uma condição. Não é uma questão de estarmos errados, mas de nossos elementos internos não estarem mais ligados uns aos outros como deveriam. Os fios estão emaranhados. Estamos torcidos, transtornados. Nosso raciocínio, nossos sentimentos e até mesmo nossas funções físicas são defeituosos e estão indevidamente ligados à vida como um todo.

Essa condição é mais pronunciada na vontade (que corresponde ao coração ou espírito humano). Nossa vontade despedaçada se contorce em meio às ruínas do sistema humano, operando aos solavancos ou permanecendo inteiramente passiva.

Paulo expressa de forma conclusiva nossa condição diante da alma desintegrada e corrompida: Estamos "mortos em [nossas] trangressões e pecados" (Ef 2.1). "Pois o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu continuo fazendo" (Rm 7:19). Mesmo que não saibamos nada sobre Paulo, conhecemos esse fenômeno que, é evidente, pode ter vários graus. Porém, nenhum ser humano escapa completamente da influência maligna da vontade e, para alguns, ela se torna uma questão de disfuncionalidade e miséria absoluta, deixa de ser rebelião e se torna-se doença. Pessoas assim são, com efeito, desviadas do bem que elas próprias buscam. O indivíduo pode desejar e, com freqüência, deseja ser bom e fazer o que é certo, mas está preparado, está programado para fazer o mal. É o que ele está pronto para fazer sem pensar.

Nessa condição, a mente se encontra confusa, ignorante e desorientada. A emoções dominam a personalidade e, ao mesmo tempo, são conflitantes entre si. O corpo e o ambiente social estão repletos de padrões fixos de malignidade e com freqüência propensos a fazer o que é errado. Nessa condição, o intelecto racionaliza que a perversidade é boa (ou pelo menos não é má) e que a bondade é má (ou pelo menos não é boa).

Em mais uma de suas reflexões profundas, Paulo descreve perfeitamente a situação: "Embora conheçam o justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas também aprovam aqueles que as praticam" (Rm 1:32).

E podemos estar certos de que o fazem sempre com justificativas bem elaboradas, pois esta se torna a principal função da mente na condição desintegrada da alma. Essa é a origem do ditado da cultura grega antiga: "Quando os deuses desejam destruir uma pessoa, primeiro eles a fazem enlouquecer".

Essa justificação própria e racionalização constituem uma expressão pervertida do papel natural da mente no sistema humano. Seu papel natural é encontrar a maneira certa de agir -- a maneira justa e correta que promove o bem. Quando a pessoa como um todo se dedica a fazer o que é errado e perverso, a mente passa da razão para a racionalização. Deixa de determinar os atos corretos a fim de colocá-los em prática e passa a definir quaisquer atos como "corretos" e "bons" ou, pelo menos, "necessários". Essa é a loucura.

Dallas Willard, A Grande Omissão, pp. 136-138