14 de agosto de 2008

Aprisionados Numa Célula

Há um ano atrás, comecei a reconsiderar o odre, e, agora, enquanto redescubro o prazer do sonhar a ekklesia, compartilho um pequeno excerto em que Frank Viola, emite sua opinião sobre o movimento da igreja em células:

Frank Viola
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Outra tentativa de renovação em anos recentes, mais promissora do que nos dois anteriores, foi a aparição do modelo da ‘igreja em células’. As igrejas em células estão baseadas num enfoque de duas formas de fazer igreja. Provê-se uma reunião semanal do ‘grupo de célula’ (efetuada num lar) e uma reunião de ‘celebração’ dominical (efetuada num edifício). As pequenas reuniões de células se destinam à confraternização, ministério, oração e evangelismo, enquanto que as grandes reuniões do grupo se destinam à pregação e adoração. Enquanto há muito de louvável no movimento da igreja de células — especialmente sua ênfase na relação estreita, na reciprocidade e no ministério coletivo — sua maior debilidade está em seu modelo de liderança.

Embora a igreja em células tentasse renovar a igreja institucional provendo um contexto para a relação coletiva e para o funcionamento mútuo, deixou intacto o sistema clerical não bíblico! Nas igrejas em células é endêmica uma estrutura de liderança hierárquica que tem demasiado pessoal dirigente, e que trabalha contra a comunidade. Assim, "o cabresto mais longo" é uma metáfora adequada para descrever o modelo da igreja em células. Isto é, a congregação proporciona uma medida de vida eclesial quando se reúne semanalmente no lar de alguém. No entanto, mediante uma altamente organizada hierarquia, o pastor controla as reuniões e as conduz de acordo a seus próprios desejos. (Por exemplo, não é raro que o "tempo de ministério" numa reunião de célula seja restrito à análise do último sermão do pastor!).

Por outro lado, na típica igreja em células, o culto dominical de basílica é considerado como a reunião proeminente, enquanto que as pequenas reuniões celulares são consideradas como meras instâncias secundárias. Apesar do fato de que na literatura das igrejas em células a célula seja chamada de "unidade básica" da igreja, não é bem assim que ela é modelada. Pelo contrário, as células servem principalmente como pontos de captação para fazer crescer em número a igreja basílica maior, à qual pertencem as células. Ademais, tipicamente cada ‘grupo celular’ demonstra pouco interesse em confraternizar com outros cristãos que assistem a uma igreja diferente no domingo pela manhã, mesmo que esses crentes desejem fazer parte ativa das reuniões celulares no meio da semana.

É inegável que o modelo da igreja em células revele-se impressionante no papel (os manuais das igrejas em células estão repletos de elaborados organogramas e atrativos gráficas organizacionais). Contudo, carece de uma verdadeira experiência de vida. Merece nosso aplauso, porque denuncia as igrejas ‘baseadas em programas’, que se encontram presas em estruturas burocráticas. Mas justifica nossa desaprovação por sua prazerosa adesão a uma estrutura de liderança hierárquica rígida e de muitos disfarces. Essa estrutura não apenas mina o princípio bíblico, como também faz de cada célula uma extensão da visão e do desígnio do pastor , sepultando assim o sacerdócio dos crentes sob a crosta de uma hierarquia humana.

Portanto, o modelo de igreja em células viola o próprio princípio que alega sustentar, isto é, e que a igreja é um organismo integrado por "células espirituais" individuais. Em rígido contraste, cada "grupo celular" é nada mais que um fac-símile de uma mesma parte do Corpo (o pastor único), longe da verdadeira unidade diversificada que caracteriza o Corpo do Ungido. Dito de forma simples, a mera adição de reuniões nos lares (células) à estrutura eclesiástica dominada pelo clero, de nada serve para prover uma expressão concreta do pleno ministério de todos os crentes e da liderança (como Cabeça) do Ungido.

* Reconsiderando o Odre, p. 65-66.