23 de março de 2009

A história e o significado das disciplinas espirituais

A propósito de continuar a conversa, Dallas Willard afirma:

"Atualmente, 200 anos depois de Hume, o preconceito é mais forte ainda. O protestantismo, ou o simples progresso do Iluminismo, desenvolveu a idéia de que a visão cristã da salvação refuta qualquer exigência de disciplina para a vida espiritual. O mundo ocidental em geral, e não apenas os filósofos e eruditos, agora está firme no conceito contra atividades disciplinares como parte da vida religiosa.

Qual, perguntamos, poderia ser a base para tal disciplina, senão a presunção da conquista do perdão mediante méritos da abnegação e do sofrimento? Afinal, o princípio fundamental do movimento protestante – a salvação é assegurada pela justificação por meio da fé, e não das obras mortas – "cortou pela raiz o monasticismo e a mortificação em geral". É assim que o artigo sobre "ascetismo" na conhecida Enciclopédia M'Clintock e Strong sobre religião expressa essa atitude prevalecente na cultura protestante. De alguma forma, o fato de que "mortificação" (abnegação ou controle dos impulsos naturais) é o ensino central do Novo Testamento é convenientemente ignorado.

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O modelo de vida espiritual do monasticismo, com toda a sua devoção e paixão intensiva, estava em total desacordo com a vida em Cristo Jesus.

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Foi neste ponto que veio a reação protestante contra o ascetismo: era uma reação contra qualquer papel importante das disciplinas espirituais no processo da redenção. De fato, a Reforma Protestante pode ter feito mais do que todas as tentativas de reforma interna para perpetuar o ascetismo monástico, pressionando-o de fora. Nada traz mais disciplina e unidade para um grupo ou instituição do que os ataques exteriores ou rejeição, tais como as exprobrações de Lutero ao ascetismo que aprendera quando jovem.

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Assim, já vimos que esta obsessão com mérito e perdão de pecados como a única questão para o interesse cristão na ascese não permitiu que o sistema monástico de cristianismo desenvolvesse um padrão de disciplinas espirituais que fosse bíblico e ao mesmo tempo psicológica e espiritualmente saudável.

No entanto, é estranho como o protestantismo tratou essa questão. Evitava as "obras" e os sacramentos do catolicismo como essenciais para a salvação, mas continuou a carecer de qualquer prestação de contas sobre o que os seres humanos fazem para se tornar, pela graça de Deus, o tipo de pessoas que Jesus obviamente os chama a ser.

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A substituição da salvação (nova vida em Cristo) por um dos seus efeitos ou componentes (o perdão dos pecados) dominou o sistema monástico cristão e a reação contra ele, que ainda vivemos hoje.

O protestantismo [...] cometeu o erro de rejeitar simplesmente as disciplinas como essenciais à nova vida em Cristo. Como resultado, jamais foi capaz de desenvolver uma visão coerente da participação humana na salvação que fizesse justiça às diretrizes do Novo Testamento ou aos fatos da psicologia humana.
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Fonte: capítulo 8: "A história e o significado das disciplinas", da obra "O Espírito das Disciplinas", Editora Danprewan.
Comentário ao texto Por Que Não Abraço a “Espiritualidade”, de Augustus Nicodemus.

Mais: Disciplinas cristãs como caminho para a graça - Uma conversa entre Richard J. Foster e Dallas Willard.