24 de agosto de 2007

Deus avança

"Deus periodicamente age sobre seu povo e a cultura que o cerca para alcançar seus propósitos eternos naquela minúscula extensão de tempo cósmico que chamamos "história humana". O que em geral ocorre de um modo que ninguém, exceto ele, poderia ter planejado ou previsto, e de uma forma que está muito além de nosso controle ou compreensão.

Descobrimos, normalmente depois do fato, que uma mudança penetrante e poderosa aconteceu. Uma mudança que pode se dar no indivíduo, no grupo ou em toda uma cultura. Formas tradicionais de fazer as coisas perdem sua eficácia, ainda que tenham sido muito poderosas no passado. Em tais condições, surge o perigo muito real de nos colocarmos em oposição ao que Deus verdadeiramente está fazendo agora e projeta fazer no futuro. Muitas vezes perdemos a oportunidade de agir com Deus no momento presente. Falhamos em encontrar, com a devida rapidez, o odre novo para o novo vinho.

Uma nova manobra de Deus ocorreu com o surgimento do povo hebreu vindo do Egito, "quando chegou a plenitude do tempo", e de novo com a sua ida para o exílio babilônico e, depois, seu retorno de lá. E ainda, vemos o movimento divino no surgimento do povo "cristão" dentro da cultura judaica e, então, o nascimento de um "corpo de Cristo" não-étnico a partir da igreja judaica.

Desde então, os movimentos penetrantes e poderosos de Deus têm acontecido continuamente e sempre durante essa curta permanência de Cristo em seu povo: a derrota do paganismo clássico, o surgimento da forma monástica de devoção cristã, os cistercienses, os franciscanos e as transformações da devotio moderna no monasticismo, a Reforma protestante, o pietismo, o wesleyanismo e o reavivamento estadunidense, além de muitos outros movimentos similares de menor impacto histórico, como as rebeldias contraculturais carismáticas do século XX (o "Povo de Jesus" e outras). O surgimento e o fortalecimento de tais movimentos são claramente o resultado da mão de Deus em nossa vida.

E Deus ainda está agindo. A busca pela formação espiritual (na verdade, conforme indicado, pela transformação espiritual) é de fato antiqüíssima e universal. Ela está arraigada na profunda necessidade pessoal, e até mesmo biológica, de bondade que assombra a humanidade. Ela tomou muitas formas e voltou agora à tona, no início do século XXI, para se encontrar com nossa atual situação. Um processo que, tenho certeza, é parte de uma maré de vida divina que hoje sobe para erguer nossa vida em uma viagem à eternidade. Nosso coração clama: "Senhor, eu quero ser um cristão em meu coração".

Assim, essa busca, atualmente tão profundamente experimentada, é ao mesmo tempo nova e muito antiga, tão promissora quanto cheia de perigo, iluminadora de nossas falhas e fracassos, e repleta de graça, uma expressão da eterna procura de Deus pelo homem e da necessidade irremovível que o homem tem de Deus. A busca contemporânea pela formação espiritual é essencial à vida de Deus em seu povo, à medida que este agora se move em direção ao cumprimento dos propósitos divinos, para hoje e para o futuro.

Visto da perspectiva sociológica e histórica, bem como espiritual, o novo impulso é um aspecto da dissolução do sectarismo protestante, como nós o conhecemos, e do surgimento de uma nova — mas também antiga — identidade para os cristãos: a intersecção de todas as linhas denominacionais e fronteiras nacionais e naturais.

Hoje, em geral, reconhece-se que a pergunta "Eu sou um cristão?" já não pode ser respondida de nenhum modo significativo pela menção de nomes ou símbolos denominacionais, étnicos ou nacionais. Existem atualmente 33.800 denominações cristãs diferentes na terra.5 É evidente que uma resposta adequada tem de ser mais profunda que nomear nossas associações religiosas; ela deve se referir ao que somos em nosso coração, diante de Deus, no profundo de nosso ser, sempre o centro da formação espiritual cristã.

Tal resposta sempre foi exigida "diante de Deus". Quem poderá negá-lo? Mas isso nem sempre foi reconhecido e enfatizado de forma adequada entre nós — especialmente no passado recente —, embora começamos a fazê-lo cada vez mais hoje. Essa mudança é uma coisa extremamente boa e um início altamente promissor a partir desse passado dos cristãos no mundo. "
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trecho do primeiro capítulo do livro "A Renovação do Coração", de Dallas Willard, que está saindo do forno pela Editora Mundo Cristão.