18 de dezembro de 2007

Ética da Virtude

Pessoal, o texto abaixo é extraído do livro FILOSOFIA E COSMOVISÃO CRISTÃ, de J. P. Moreland e Willian Lane Craig (Edições Vida Nova, páginas 555-557) e acredito ser importante para entender muitos conceitos presentes na obra de Dallas Willard, para quem, aliás, o livro em questão é dedicado:


"A teoria da virtude, também chamada ética aretaica (da palavra grega arete, “virtude”), possui uma linhagem antiga e distinta, desde Aristóteles e Platão, passando por Tomás de Aquino e incluindo muitos defensores contemporâneos. Os éticos da virtude às vezes afirmam que a ética deontológica falha por abstrair do próprio agente moral, concentrando-se inteiramente em fazer as coisas certas em vez de criar uma boa pessoa e dar pouco substância para a compreensão de como desenvolver um caráter ético e uma motivação moral. Em contraste, é fundamental para a ética da virtude a questão do que é uma pessoa boa e como uma pessoa boa é desenvolvida. Além do mais, afirma-se que a ética deontológica coloca muita ênfase na autonomia moral, enquanto a teoria da virtude inclui a ênfase na comunidade e nos relacionamentos. O resto desta seção tratará da exposição e da avaliação da ética da virtude.

EXPLICAÇÃO DA ÉTICA DA VIRTUDE

A ética da virtude é teleológica por natureza. O tipo de teleologia (o foco nos objetivos e nos fins) envolvido na ética da virtude não é semelhante a do utilitarismo. O utilitarismo é teleológico no sentido de se concentrar em qual tipo de ação maximizará a utilidade. A ética da virtude se concentra no propósito da vida em geral, a saber, viver bem e alcançar excelência e experiência como ser humano. Nesse sentido, a ética da virtude é profundamente ligada ao conceito de vida como um todo e à idéia da pessoa. Dada a compreensão do propósito da vida e do desenvolvimento humano ideal, bem como do viver habilidoso que seja parte desse propósito, a ética da virtude é a tentativa de esclarecer a natureza da pessoa boa e como alguém se desenvolve à luz desse conceito tão elevado. Em outras palavras, a ética da virtude objetiva definir e desenvolver a boa pessoa e a boa vida, e as virtudes são traços de caráter que capacitam as pessoas a alcançar a eudemonia ou felicidade, não entendida como o estado de satisfação prazenteira, mas sim como o estado de bem-estar, de excelência e experiência na vida.
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A ética da virtude clássica inclui o compromisso como essencialismo, resumidamente a idéia de que os seres humanos têm uma essência ou natureza. A essência é o conjunto de propriedades ­– para os humanos, constituintes do que é ser humano – que definem o tipo de objeto que uma entidade é, e são tais que, se a entidade em questão as perde, ela deixa de existir. Para ilustrar, Sócrates tem a humanidade como essência e a propriedade de ser branco como característica acidental. Sócrates poderia perder a cor de sua pele e continuar existindo, mas, se ele perdesse a humanidade, deixaria de existir. Além do mais, ser humano nos diz o que Sócrates é em sua natureza. De acordo com a ética da virtude clássica, a natureza humana nos fornece as bases para o ideal da forma de agir; aquele que age de maneira ideal e habilidosa na vida é quem atua de maneira adequada de acordo com a natureza humana. A natureza humana define o que é único e próprio para o desenvolvimento humano a pessoa má é a que vive de maneira contrária à natureza humana. Assim, em Romanos 1.26,27, Paulo argumenta que o homossexualismo é errado por ser “contrário à natureza”, ou seja, contraria o agir humano adequado de acordo com a essência do ser humano.
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Uma ilustração pode ajudar a esclarecer mais essa noção. Um carburador ruim ou com defeito não funciona da maneira como deveria funcionar, ou seja, de acordo com o modo projetado para funcionar. De maneira similar, uma vida sexual disfuncional é a que não funciona da maneira como deveria funcionar, ou seja, de acordo com o modo que os seres humanos foram planejados para funcionar segundo sua natureza.
Na ética da virtude contemporânea, algumas pessoas, como Alasdair MacIntyre, rejeitaram o essencialismo e procuram explicar a idéia da virtude num contexto anti-essencialista. De maneira resumida, as virtudes são característica consideradas habilidades relevantes para a boa vida do modo como é compreendida em relação à narrativa incorporada em diferentes tradições. A tradição é a comunidade cujos membros são unidos por um núcleo de crenças compartilhadas e pela dedicação a elas. Desse modo, as virtudes não estão fundamentadas na natureza humana objetiva; em vez disso, são construções lingüísticas relativas às valorações e aos compromissos de diferentes tradições. Consideremos mais tarde se essa idéia contemporânea da ética da virtude é realmente adequada.
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Dada o conceito do funcionamento e habilidades humanas ideais, a ética das virtudes coloca grande importância no caráter e no hábito. Caráter é a soma dos hábitos do indivíduo e hábito é a disposição de pensar, sentir, desejar e agir de certa maneira sem que seja necessário fazer isso conscientemente. A virtude é o hábito por excelência, a tendência benéfica, a disposição de habilidade que capacita uma pessoa a realizar as potencialidades fundamentais que constituem o desenvolvimento humano adequado de acordo com a natureza humana ideal. Dizendo de maneira mais simples, a virtude é a habilidade que capacita alguém para a excelência na vida.
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A virtude ultrapassa as virtudes morais. Existem, por exemplo, virtudes racionais, como o desejo de buscar a verdade, ser racional e assim por diante. Tradicionalmente, a teoria da virtude engloba o compromisso com as quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, coragem e temperança. O cristianismo adicionou as chamadas virtudes claramente cristãs: fé, esperança e amor.
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Por fim, existe um grande número de deferentes pontos de vista sobre como desenvolver a virtude, mas as disciplinas espirituais têm sido, há algum tempo, fundamentais para a compreensão cristã do desenvolvimento do caráter, e elas estão emergindo novamente como aspectos importantes da santificação. Entendida dessa maneira, a disciplina espiritual, como o jejum, a solidão ou o silêncio, é uma atividade física repetitiva, feita em submissão ao Espírito Santo, objetivando desenvolver hábitos que treinem a pessoa na vida de virtude. A disciplina espiritual é muito semelhante a tocar as escalas do piano. A pessoa não pratica o tocar escalas para ser bom em tocar escalas. Em vez disso, toca as escalas para formar o hábito necessário para ser um pianista habilidoso. De maneira similar, ninguém executa uma disciplina espiritual para ficar bom nela, mas, em vez disso, para ser hábil na vida. A disciplina espiritual é o meio para a formação de hábitos relevantes para o desenvolvimento do caráter da virtude."