13 de novembro de 2008

Frugalidade

Há certas disciplinas de abstenção que algumas pessoas podem julgar como não sendo tão importantes no processo de plena redenção como a solitude, o silêncio e o jejum. No entanto, ainda assim são muito impor­tantes, já que nos permitem lidar com tendências comportamentais que podem nos destruir ou, no mínimo, nos tornar inoperantes no serviço de Cristo.

Na frugalidade, nós nos abstemos de usar o dinheiro ou os bens à nossa disposição de modo a meramente gratificar nossos desejos ou nosso apetite por status, glamour ou luxo. Praticar a frugalidade significa perma­necer dentro os limites daquilo que o bom senso designa como suficiente ao tipo de vida para o qual Deus nos dirige.

O fato de que existe um senso geral do que é "necessário" é indicado pelas leis suntuárias decretadas pelas autoridades seculares do mundo an­tigo e em épocas mais recentes. Os antigos espartanos, por exemplo, eram proibidos de possuir casa ou mobília que exigissem na sua fabricação fer­ramentas mais sofisticadas do que um machado ou um serrote. Os roma­nos com freqüência escreviam leis limitando despesas com entretenimen­to. A legislação inglesa continha muitos decretos determinando o alimento e a roupa de várias classes sociais.

Tais leis são difíceis de imaginar no mundo ocidental de hoje, onde nenhuma extravagância é considerada vergonhosa, mas livre exercício, mais ou menos espantoso, do presumível direito sagrado da "busca da felicida­de". A palavra profética do Antigo e do Novo Testamento é clara. Tiago, por exemplo, diz: "Ouçam agora vocês, ricos! Chorem e lamentem-se, ten­do em vista a desgraça que lhes sobrevirá" (5.1). Em favor das discussões subseqüentes, é necessário salientar que esta advertência de Tiago aos ricos não é simplesmente por causa do fato de serem ricos, mas porque "viveram luxuosamente na terra, desfrutando prazeres, e fartaram-se de comida em dias de abate" (5.5).

A sabedoria espiritual reconhece sempre que o consumismo frívolo corrompe a alma e impede que ela confie em Deus e o adore e sirva, além de prejudicar o próximo.

Neste sentido, O. Hardman faz esta aguda observação:

É uma injúria à sociedade e uma ofensa a Deus quando os homens mimam seus corpos com comidas finas e caras e diminuem seriamente seus poderes físicos e mentais pelo uso excessivo de alimentos nocivos... O luxo em todas as formas é economicamente ruim, é uma provocação ao pobre que tem de ver a ostentação e é moralmente degradante àqueles que se submetem a ele. Portanto, o cristão que tem condições de viver no luxo mas se afasta de toda extravagância. e pratica a simplicidade em suas roupas, em sua casa e em sua a sua maneira de viver. está prestando um bom serviço à sociedade.

Embora a frugalidade seja um serviço a Deus e à humanidade, nosso interesse aqui é com o seu aspecto de disciplina. Como tal, ela nos liberta da preocupação e do envolvimento com uma multidão de desejos que tor­na impossível "praticar a justiça, amar a fidelidade e andar humildemente com o nosso Deus" (Mq 6.8). Ela torna possível nossa concentração na "única coisa necessária", a "boa parte" que Maria escolheu (Lc 10.42).

No mundo atual, a liberdade que procede da frugalidade provém, em grande parte, da libertação da escravidão espiritual causada elas dívidas financeiras. Muitas vezes as dividas resultam da compra de coisas supérfluas. As dividas diminuem nosso senso de dignidade, comprometem nos­so futuro e eliminam nossa sensibilidade às necessidades dos outros. As­sim, a admoestação de Paulo, "não devam nada a ninguém, a não ser o amor de uns pelos outros" (Rm 13.8), é um sábio conselho financeiro, a par de ser um bom conselho espiritual.

Certa vez perguntaram a John Joseph Surin por que, quando tanta gente parece desejar ser grande aos olhos de Deus, há tão poucas pessoas que são verdadeiramente santas. "A principal razão", respondeu ele, "é que elas deixam coisas irrelevantes ocuparem espaço demais nas suas vidas."

A frugalidade como estilo de vida nos liberta das coisas irrelevantes. A simplicidade e (o arranjo da vida em torno de poucos propósitos consistentes, excluindo explicitamente o que não é necessário para o bem-estar humano) e a pobreza voluntária (a rejeição de todas as posses) são disciplinas espirituais tanto quanto são amplamente expressões de frugalidade.

Dallas Willard, O Espírito das Disciplinas: entendendo como Deus transforma vidas. Danprewan, 2006)

A frugalidade é componente essencial do investidor bem-sucedido. Muitos estão aprendendo sobre os investimentos inteligentes, sem a motivação correta. Assim, é de se repensar a relação da fé com a riqueza. John Wesley, por exemplo, "não conseguiu vislumbrar a possibilidade de um ensino cristão ou disciplina que produzisse uma pessoa capaz de possuir bens e poder sem se corromper. Ele não podia acreditar que aqueles que têm dinheiro não precisam amar o dinheiro."