15 de janeiro de 2008

A Economia do Grátis

Os custos da tecnologia digital e da infra-estrutura da internet tendem a zero - e os serviços do mundo online, também - Sérgio Teixeira Jr.

É possível entregar produtos e serviços de graça e ainda assim ganhar dinheiro? Pelo menos no mundo online, a resposta é sim, e a economia do grátis é uma tendência inevitável, de acordo com uma idéia levantada por Chris Anderson, editor da revista Wired. Anderson, que deve publicar um livro sobre o tema no segundo semestre de 2008, argumenta que muitos dos custos ligados à tecnologia da informação -- sejam eles de armazenamento, de processamento ou de telecomunicações -- estão caindo de forma vertiginosa e tendem a zero. "O custo de guardar ou transmitir 1 kilobyte de dados é tão baixo que nem é mais medido. Em pouco tempo, o mesmo vai ser verdade para 1 megabyte e, no momento seguinte, para 1 terabyte", escreveu ele num artigo recentemente publicado na revista inglesa The Economist. Esse movimento formidável de aumento de capacidade com redução de custos -- expresso de forma definitiva na Lei de Moore, que afirma que a cada 18 meses dobra o poder de computação dos microchips e os preços caem pela metade -- já tem impacto claro em algumas indústrias, como a da música. Outro caso clássico é o Google, empresa que deve passar dos 15 bilhões de dólares de faturamento neste ano oferecendo a imensa maioria de seus serviços de graça. Mas existem efeitos não tão óbvios assim. A indústria da televisão, por exemplo, tem de se transformar por causa da emergência de serviços como o YouTube, que se aproveita dos custos decrescentes de infra-estrutura tecnológica para oferecer uma coleção virtualmente infinita de vídeos, com a comodidade de se assistir somente o desejado, na hora mais conveniente. De uma maneira ou de outra, argumenta Anderson, todos os negócios tocados pela internet -- e eles são muitos -- vão ser influenciados pela economia do grátis.


Muitos dos inúmeros serviços gratuitos oferecidos na internet são pagos com o dinheiro dos anunciantes. Esse modelo de negócios, que tradicionalmente se aplicou à TV aberta e ao rádio, está se expandindo. No negócio da música, a equação é um pouco diferente: o dinheiro vem cada vez mais das performances ao vivo e menos da venda de discos. Mas a distribuição gratuita de faixas é essencial para angariar fãs e, conseqüentemente, fazer boas turnês. Em outubro, a banda de rock inglesa Radiohead ganhou as manchetes ao lançar um disco pela internet. Supostamente cansados da "exploração injusta" das gravadoras, eles decidiram cortar o intermediário e oferecer suas músicas num site. Os fãs poderiam pagar quanto quisessem pelo disco -- ou simplesmente baixá-lo de graça (pesquisas posteriores indicaram que somente 40% dos fãs fizeram uma contribuição, de 6 dólares em média). "Hoje, ganhamos dinheiro principalmente fazendo shows", disse Thom Yorke, o líder da banda, numa entrevista recente. O negócio das gravadoras, que sempre se baseou na venda de gravações e na distribuição de produtos físicos, pode estar diante da maior crise de sua história. Mas, para os músicos, a doação de suas criações e até mesmo a disseminação de suas músicas por meio da pirataria passaram a ser parte integral da viabilidade econômica.


A abundância da tecnologia digital também está por trás de um dos modelos de negócios mais inovadores dos últimos tempos, o das empresas aéreas de baixo custo. Graças a novos e modernos sistemas de informação, as mais agressivas empresas aéreas européias podem cobrar menos de 10 dólares por uma passagem dentro do continente. É evidente que uma viagem custa muito mais caro que isso, e os custos são cobertos com a venda de uma série de outros serviços, como refeições nos vôos, manuseio de bagagem e diversos itens relacionados a viagens, como aluguel de carros e diárias de hotéis. E, é claro, essas empresas também têm vantagens econômicas ao planejar suas rotas sempre envolvendo aeroportos secundários, que oferecem taxas de operação muito mais baixas que as dos grandes centros. Ao redefinir o negócio da aviação em torno do transporte aéreo "quase gratuito", em vez de simplesmente vender passagens, essas empresas mudaram para sempre o setor -- e ganharam muito dinheiro com isso.

A maior delas, a irlandesa RyanAir, faturou 3,2 bilhões de dólares no ano fiscal de 2007, um crescimento de 32% em relação ao período anterior, e os lucros aumentaram 42%, atingindo 626 milhões de dólares. As operadoras de telefonia celular adotam um modelo de negócios semelhante ao oferecer aparelhos cada vez mais sofisticados de graça em troca de contratos de longa duração e da garantia de receitas com os serviços. É claro que não existe quase nada efetivamente de graça na vida, incluídos aí os proverbiais almoços grátis que ficaram célebres nas declarações do Nobel de Economia Milton Friedman. Mas a economia do grátis deve prosperar como nunca em 2008.

(Exame)

O crédito da imagem é do meu amigo Diogo Catapreta, que tem registrado imagens belíssimas da Europa, em sua temporada por aquelas plagas.