11 de janeiro de 2008

CARNE


"Os que pertencem a Cristo Jesus crucificaram a carne, com suas paixões e os seus desejos"
(Gl 5:24).
Há 8 anos, quando tive o primeiro contato com a obra de Dallas Willard, iniciou-se um processo em andamento na minha compreensão da espiritualidade cristã. O autor, cuja mais nova obra, A Grande Omissão já está disponível em língua portuguesa, ensina com maestria acerca do que mais importa em todo o pensamento cristão: a formação espiritual.

Exemplo disso é a sua explanação do significado do termo carne, de fundamental importância para entender o Novo Testamento, bem como sua distinção de "natureza decaída" e "corpo" .

(...)"pense na 'carne' como aquilo que sentimos, pensamos e fazemos mais ou menos automaticamente"(...) escreve o autor na página 387 de A Conspiração Divina.

Ao explicar Romanos 8:5-7 na página 49 de A Renovação do Coração, o professor traduz o vocábulo como "os poderes naturais humanos somente".

Todavia, a melhor explanação do assunto está em sua obra O Espírito das Disciplinas, do qual extraio os trechos selecionados a seguir:

(volto no final do post*)

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p. 69:
"(...)Com esta explicação, podemos avançar para um entendimento correto de um termo absolutamente central à compreensão da psicologia da redenção:da "carne". Este termo bíblico essencial aplica-se à substância física na
tural de uma pessoa (sobre a qual falaremos mais) e refere-se ao reservatório de poderes independentes, finitos, inerentes ao corpo humano como um "ser vivente" entre outros seres viventes(...)."

p.105:
"(...)Agora é tempo de falarmos algo positivo sobre a carne, a qual tem sido mal interpretada e falsamente acusada. O termo "carne", em seu uso bíblico, raramente significa a mera substância física que compõe as partes do corpo. O termo às vezes é usado para designar a "carne" no sentido de alimento, cortado em pedaços e comido (Êx 12; 16; Lv 7; 51 78.20,21; :.1q 3.2,3; Rm 14.21; I Co 8.13). No entanto, "carne" geralmente é mencionado na Bíblia como algo ativo, um poder específico ou alcance dos po­deres embutidos no corpo, capaz de fazer somente certos tipos de coisas.

Assim, diz-se que os animais "de toda carne, em que havia fôlego de rida, entraram de dois em dois para Noé na arca; eram macho e fêmea os que entraram de toda carne
, como Deus lhe havia ordenado" (Gn 7.14,15, AR.A). Outro texto diz: "Em Deus pus a minha confiança e não temerei; que me pode fazer a carne?" (5156.4, ARC). Outro diz: "Os egípcios são homens e não deuses; os seus cavalos, carne e não espírito" (Is 31.3, ARA). "O [filho] da escrava nasceu segundo a carne", sem assistência da "pro­messa" de Deus, que é espírito (Gl.4.23).

Estas passagens, dentre muitas outras, ilustram o senso bíblico básico do termo "carne". Elas não pressupõem que a carne deve ser algo inerente­mente mau, embora seja um poder finito com certo grau de independência do suporte direto de Deus.

Nicolas Berdyaev descreve a carne com grande precisão:

Esta natureza inferior, quando ocupa seu lugar apropriado na hierarquia do universo, não é em si má, pois pertence ao mundo divino. Somente quan­do usurpa o lugar de algo superior, ela se torna insincera consigo mesma e má. A natureza animal certamente tem seu lugar na esca
la de valores e um destino eterno; mas, quando ela se apossa do homem, quando este submete seu espírito ao controle do elemento inferior, então ela de fato torna-se uma coisa má. O mal é uma questão da direção buscada pelo espírito, e não da constituição da natureza em Si.

É preciso enfatizar nesta discussão as tendências específicas da carne em relação à ação, e as limitações dos seus poderes independentes – o que ela pode e o que não pode fazer. Essas tendências e limitações, é claro, variam de um tipo de "ser vivo" para outro. A carne humana é caracteriza­da por seu espantoso potencial de possibilidades sociais e intelectuais, bem como por sua capacidade para Deus. Pode ser a raiz do mal ou da justiça (Ez 11.19,20). Ela pode dar lugar a outro tipo de substância na estrutura geral do corpo, dotando o indivíduo de um corpo "celestial". A pessoa de carne corruptível pode assim se revestir de incorruptibilidade. Este é o ensino do Novo Testamento (I Co 15).

Em suas epístolas, o apóstolo Paulo estabelece as distinções que já vimos nos primeiros capítulos de Gênesis. Em sua bem elaborada discus­são sobre os estágios finais no pr
ocesso de redenção, ele afirma: "Nem toda carne é a mesma: os homens têm uma espécie de carne, os animais, têm outra, as aves outra, e os peixes outra" (I Co 15.39).

O apóstolo Paulo faz uma distinção que está profundamente enraizada na experiência da humanidade com Deus no Antigo e Novo Testamentos, mas também arraigada na perspectiva aristotélica ou científica da cultura greco-romana.

Trata-se da distinção entre tipos de corpos: "Há corpos celestes e há também corpos terrestres" (v. 40). Isto é lugar-comum na ciência aristotélica. No entanto, recebeu novas e vastas dimensões de significados para a comunidade cristã pela transfiguração e as aparições de Cristo depois da sua ressurreição, tornando, por sua vez, possível certas reinterpretações intrigantes de eventos notáveis do Antigo Testamento como sendo também manifestações de Cristo (I Co 10.1-4).

O "ser vivente" humano, "o primeiro Adão", possuía como sua subs­tância corpórea a mais elevada e mais potente forma de carne. Portanto, ele era a "quintessência do pó". Sendo a forma mais elevada de pó, ele era também aquele que prova, na visão de Paulo, ser capaz da transmigração de uma forma de corpo (o "terrestre") para outra (o "celeste") – aquele corpo "glorioso" de Jesus depois de sua ressurreição (Fp 3.21).

Assim, em última análise, é verdade que "carne e sangue não podem herdar o reino de Deus" (I Co 15.50). Contudo, a pessoa de carne e sangue pode. Mediante a iniciativa e a direção da palavra de Deus ( Jo. 6.63), a energia finita de uma pessoa pode ser associada com Deus de tal forma que progressivamente (e no final totalmente) ela pode "se revestir de incorruptibilidade" (I Co 15.54; cf. I Pe 1.4 e Fp. 3.11).

A pessoa de carne e sangue também pode, é claro, restringir seus pen­samen
tos e ações somente à carne e morrer. Ela pode firmar seus pensa­mentos e esperanças unicamente nos poderes naturais residentes no corpo humano separado de Deus, e então "colherá corrupção". Há uma escolha a ser feita e uma disciplina a ser seguida.

O próprio Paulo formula este fato assombroso em passagens bem co­nhecidas, como as que seguem:

Quem vive segundo a carne tem a mente voltada para o que a carne deseja; mas quem vive de acordo com o Espírito, tem a mente voltada para o que o Espírito deseja. A mentalidade da carne é morte, mas a mentalidade do Espírito é vida e paz; a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode fazê-lo. Quem é dominado pela carne não pode agradar a Deus (Rm 8.5-8).

Não se deixem enganar: de Deus não se zomba. Pois o que o homem semear, isso também colherá. Quem semeia para a sua carne, da carne colhe­rá destruição; mas quem semeia para o Espírito, do Espírito colherá a vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colhere­mos, se não desanimarmos (Gl. 6.7-9).

A escolha no final é muito séria quanto às suas conseqüências. Te­mos de tomar muito cuidado no entendimento de quais são as alternativas e o que elas significam. Meu objetivo nestas páginas é ajudar o leitor a ver que nossas escolhas se referem ao processo especifico de vida de crescimento ou decadência espiritual e que ações divinas em nosso favor não nos isentarão da responsabilidade nesse processo.

Espero que nossas discussões deixem claro que erramos seriamente ao pensar na carne como essencialmente degenerada, má ou pecaminosa. A visão bíblica da graça e da natureza humana não a encaram desta forma.

Este erro deve ser evitado se quisermos levar a sério nossa tarefa de "
submeter nossos membros como servos da justiça, em santidade" (Rm 6.19; cf 6.12-22). De outra forma, desprezaremos nosso corpo e não consideraremos como o instrumento da vida espiritual para o qual foi designa­do por Deus.

Há, porém, vários outros fatos a respeito do corpo que temos de acres­centar ao nosso entendimento. O corpo não pode ser, como deve, a fonte para a vida cristã se acharmos que "carne" é sinônimo de "natureza huma­na decaída". Não é verdade que a "carne", simplesmente, "está para a na­tureza humana como a queda do primeiro homem a deixou: estropiada e desordenada, não mais respondendo naturalmente a um controle racional, sendo, portanto, uma fonte permanente de rebelião, algo que a vontade humana por si só não é capaz de dominar. Entregue a si mesma, esta na
tu­reza humana decaída é uma fonte de pecado".

Certamente é verdade que, nas pessoas não-redimidas, a carne (tanto a estrutura material do corpo como os poderes naturais que esta estrutura exibe) serve como detentora primária do pecado. Mesmo assim, não é ela, mas sim a sua condição deformada que é a "natureza humana decaída". Nesta condição, a carne se opõe ao espírito, faz o que é mau, deve ser crucificada e posta sob controle (Gl 5.16,19ss).

Infelizmente, pouquíssimos homens em toda a história da Igreja per­ceberam a falácia de tratar a carne como sinônimo de natureza humana decaída. George Fox, que fundou o movimento Quaker, era um desses, e suas observações com freqüência o levavam a um intenso conflito com seus contemporâneos. Ele disse sobre um desses conflitos:

Então esses mestres disseram que o corpo exterior era o corpo da morte – e d
o pecado. Eu procurei mostrar seu erro; pois Adão e Eva tinham um corpo exterior antes do corpo da morte e do pecado vir sobre eles; o homem e a mulher terão corpos quando o corpo do pecado e da morte for retirado; quando forem renovados na imagem de Deus, por meio de Jesus Cristo, àquilo que eram antes da queda.

Fox viu claramente que o "corpo do pecado da carne" (C1 2.11) e "o velho homem" (Ef 4.22) dos quais, conforme ordem que nos é dada, devemos nos despir, não poderiam ser o mero corpo natural de nossa exis­tência carnal, desde que não podemos nos despojar dele – exceto pelo suicídio.

Até onde sabemos, os primeiros seres humanos tinham corpos carnais antes de pecarem; daí, vemos que a carne não é a mesma coisa que natureza humana decaída. Assim, o equivalente bíblico da natureza humana decaí­da é o mundo, conforme descrito em I João 2.16: "Tudo o que há no mundo – a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a ostentação dos bens ­não provém do Pai, mas do mundo." A natureza humana decaída é a ma­neira como os poderes bons depositados em nossa carne
humana na cria­ção são distorcidos e ordenados contra Deus. Isso se opera mediante pro­cessos sociais e históricos, além de individuais.

O verdadeiro efeito da Queda foi nos levar a confiar somente na carne, "desprezando o conhecimento de Deus" (Rm 1.28). Supomos agora (como nossa mãe Eva) que, desde que não há um Deus para ser levado em conta na condução de nossas vidas, temos de assumir o controle em nossas pró­prias mãos. É isso que significa ter uma mente carnal. É essa mente carnal – não o corpo – que está em inimizade contra Deus e é incapaz de se sujeitar às leis dele.

Por contraste, a promessa antiga era que o Espírito iria ser derramado sobre a carne (Jl.2.28; At 2.17). A carne também anseia por Deus (Sl. 63.1), vai a Deus (Sl. 65.2), clama por Deus (Sl. 84.2), bendiz seu santo nome (Sl. 145.21), "não vê a corrupção" (At 2.31). Evidentemente, nada assim é dito a respeito do "mundo".

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Quem já não ouviu alguém ensinar: "a carne não converte"?

Bem, se o enfoque de Dallas Willard não for singular nesta matéria, pelo menos o professor é um dos poucos, com certeza, que apresentam o corpo e carne desta maneira. Agora, posso saber que todo o meu ser pode ser servo e aliado de Deus. :)

E, apesar deste blog ainda não ter "moral" com as editoras, de modo a receber livros para distribuição aos leitores, informo que o livro Celebração da Disciplina está com um super desconto! ;) Shallom!